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Catanitas
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Os catanitas (em árabe: قحطانيون; romaniz.: Qaḥṭāniyyūn), também chamados Banu Catã (em árabe: بنو قحطان; romaniz.: Banū Qaḥṭān), constituem, na tradição genealógica árabe, o grande conjunto de povos da Arábia meridional cuja ascendência era atribuída a Catã. Formavam um dos dois grandes agrupamentos nos quais os genealogistas muçulmanos frequentemente dividiam os árabes, em oposição aos adenanitas, descendentes de Adenane e associados à Arábia setentrional. Na genealogia que se tornou predominante, a descendência de Catã prosseguia por Iarube, Iasjube e Sabá, a partir do qual grande parte dos catanitas era organizada em dois ramos principais, os descendentes de Himiar e de Calane. Os primeiros eram associados sobretudo às populações sedentárias e aos antigos reinos da Arábia meridional, enquanto numerosas tribos atribuídas a Calane, tradicionalmente caracterizadas como nômades, migraram para outras regiões da península, a Síria e o Iraque.
A divisão dos árabes entre catanitas meridionais e adenanitas setentrionais, contudo, não corresponde diretamente às identidades tribais documentadas para o período pré-islâmico. Na poesia atribuída à Jailia, Catã e Adenane raramente funcionam como designações dos blocos rivais, que aparecem antes sob nomes como Iêmem, Azede e Calbe, entre os meridionais, e Modar, Maade, Nizar, Caice e Tamime, entre os setentrionais. Fischer e Irvine admitem que as rivalidades entre povos posteriormente reunidos nesses agrupamentos possam possuir antecedentes pré-islâmicos, mas a polarização adquiriu maior importância política após o surgimento do islã e se intensificou particularmente durante o Califado Omíada. A Batalha de Marje Raite, em 684, e os conflitos subsequentes entre coalizões como calbitas e caicitas contribuíram para a consolidação de identidades mais abrangentes de árabes meridionais e setentrionais, posteriormente sistematizadas em torno das genealogias de Catã e Adenane. Essa oposição persistiu sob os abássidas e repercutiu em conflitos políticos e tribais em diferentes regiões do mundo islâmico.
A rivalidade também influenciou profundamente a construção das tradições genealógicas e literárias relativas aos catanitas. Diante do prestígio que a missão de Maomé e a primazia dos coraixitas conferiam às linhagens setentrionais, autores ligados aos iamanitas exaltaram a antiguidade e o esplendor dos reinos da Arábia meridional e desenvolveram genealogias que vinculavam Catã ao profeta Hude ou procuravam integrar seus descendentes à linhagem de Ismael. A competição manifestou-se ainda na mufacara, disputa literária pela precedência e pela honra, e deixou extensa marca na poesia e nas obras genealógicas dos períodos omíada e abássida. Nesse contexto também se difundiram classificações que apresentavam os catanitas como "árabes puros" (al-ʿArab al-ʿāriba), em contraste com os adenanitas, embora outras sistematizações empregassem categorias diferentes. Assim, a identidade catanita tal como preservada pela literatura islâmica resultou não apenas da organização genealógica das tribos atribuídas à Arábia meridional, mas também da longa competição política, social e literária entre os grandes agrupamentos árabes do sul e do norte.
Origem e genealogia
Os catanitas constituem, na tradição genealógica árabe, o grande conjunto de povos da Arábia meridional cuja ascendência era atribuída a Catã. Os genealogistas muçulmanos dividiram com frequência os árabes em dois grandes agrupamentos: os catanitas, associados ao sul, e os adenanitas, associados ao norte e considerados descendentes de Adenane. Catã era, por isso, apresentado como o equivalente meridional de Adenane, embora algumas classificações o contrapusessem antes a Maade ou a Nizar. Seus descendentes podiam ser designados coletivamente como Banu Catã ("filhos de Catã"), tribos de Catã ou simplesmente Catã. Na terminologia tradicional, eram também classificados como "árabes puros" (al-ʿArab al-ʿāriba), em oposição aos adenanitas, considerados "árabes arabizados" (al-ʿArab al-mustaʿriba). Outras classificações, contudo, reservavam a condição de árabes puros aos chamados árabes desaparecidos e incluíam os catanitas entre os árabes arabizados, distinguindo-os, por sua vez, dos adenanitas.[1][2]
Na genealogia que se tornou predominante, a linhagem de Catã prosseguia por seu filho Iarube, seguido por Iasjube e, depois, por Sabá, também chamado Abede Xemece. A partir deste último, grande parte dos catanitas era organizada em dois ramos principais, atribuídos a seus filhos Himiar e Calane. Os himiaritas, associados aos grandes reinos pré-islâmicos da Arábia meridional, eram caracterizados como predominantemente sedentários, enquanto os descendentes de Calane eram considerados sobretudo nômades. A maioria das tribos meridionais que, antes do advento do islã, havia migrado e se estabelecido na Arábia setentrional, na Síria e no Iraque reivindicava descendência de Calane.[3] Tradições mais extensas atribuíam a Sabá outros filhos, entre os quais Lame, Judame, Amil, Gassane, Himiar, Azede, Madije, Quinana, Axar e Anemar. Segundo a tradição reproduzida por Mustafa Fayda, Lame, Judame, Amil e Gassane migraram para a Síria, enquanto os demais permaneceram no Iêmem. Essas afiliações, porém, não eram uniformes em todas as tradições, e alguns desses nomes aparecem sob filiações diferentes em outras genealogias. Ainda assim, a divisão baseada em Himiar e Calane tornou-se uma das principais formas de organizar os povos atribuídos à descendência de Catã.[2]
Identidade e rivalidade tribal
As fontes genealógicas e historiográficas muçulmanas apresentam frequentemente os catanitas e os adenanitas como dois grandes agrupamentos rivais cuja oposição remontaria ao período pré-islâmico. A antiguidade dessa divisão, contudo, é incerta. Na poesia atribuída à Jailia, as rivalidades tribais não aparecem normalmente formuladas em nome de Catã e Adenane. Os árabes setentrionais são designados sobretudo por nomes como Modar, Maade, Nizar, Caice e Tamime, enquanto entre os meridionais aparecem designações como Iêmem, iamanitas, Azede e Calbe. Os poemas preservam inclusive hostilidades entre grupos que a genealogia posterior reuniria sob uma mesma ascendência, como Auce e Cazeraje, sem recorrer aos nomes dos ancestrais Catã e Adenane para definir essas divisões.[2] Fischer e Irvine consideram possível que a hostilidade entre os povos posteriormente classificados como catanitas e os descendentes de Maade possuísse antecedentes pré-islâmicos, talvez relacionados à oposição entre populações do deserto e comunidades sedentárias. Segundo os autores, essa rivalidade teria sido intensificada pelas incursões dos iamanitas nos territórios dos grupos considerados ismaelitas e, posteriormente, pelo antagonismo entre os ançares de Medina e os coraixitas, que adquiriu particular importância após a morte de Maomé. Esses conflitos podem ter contribuído para aproximar tribos até então distintas em unidades genealógicas mais abrangentes, colocando de um lado os iamanitas e, de outro, os povos associados à descendência de Ismael. Uma manifestação menos violenta dessa competição foi a mufacara, disputa literária e social pela precedência, honra e prestígio entre os grupos rivais.[4]
Após o advento do islã, essas rivalidades continuaram a manifestar-se em diferentes contextos. Os aucitas e cazerajitas, de ascendência catanita na genealogia tradicional, entraram em desacordo em algumas ocasiões com os coraixitas adenanitas, inclusive nas disputas relativas à sucessão política após a morte de Maomé. A polarização adquiriu dimensão muito maior durante o Califado Omíada. O califa Moáuia I havia se casado com Maiçune binte Badal, pertencente aos calbitas, e dessa união nasceu Iázide I. Na Batalha de Marje Raite, em 684, os calbitas e seus aliados apoiaram o omíada Maruane I, enquanto os caicitas, liderados por Adaaque ibne Caice Alfiri, apoiaram Abedalá ibne Azobair. A hostilidade entre os dois blocos prosseguiu e se intensificou durante o reinado de Abedal Maleque ibne Maruane, contribuindo para a consolidação de identidades mais abrangentes de árabes meridionais e setentrionais, posteriormente sistematizadas em torno das genealogias de Catã e Adenane.[5]
A terminologia empregada nessa polarização permaneceu variável. Durante os conflitos do período omíada, o nome Adenane era relativamente raro, enquanto Nizar podia funcionar como contraponto a Iêmem, Azede ou Catã; da mesma maneira, Caice, Maade e Modar podiam representar diferentes segmentos ou designações dos árabes setentrionais. A oposição política, portanto, não correspondia invariavelmente a uma divisão denominada literalmente "catanitas contra adenanitas", mas contribuiu para que genealogistas e autores posteriores sistematizassem numerosas tribos em dois grandes conjuntos de ascendência comum. A rivalidade persistiu durante os períodos omíada e abássida, adquirindo repercussões políticas em diferentes regiões do mundo islâmico. Segundo Fayda, as disputas entre os dois agrupamentos estiveram associadas a revoltas e conflitos políticos e religiosos e fizeram sentir seus efeitos numa área que se estendia do Alandalus à Ásia Central. A competição também estimulou a elaboração de tradições destinadas a exaltar a antiguidade e o prestígio de cada grupo. A primazia adquirida pelos coraixitas em consequência da missão de Maomé favorecia os árabes setentrionais nas disputas de precedência, enquanto os meridionais podiam recorrer à memória dos antigos reinos da Arábia meridional para sustentar seu próprio prestígio.[4][5]
Tradições genealógicas e literárias
A rivalidade entre os árabes meridionais e setentrionais refletiu-se na elaboração de tradições genealógicas destinadas a fundamentar a antiguidade e o prestígio de cada grupo. Os catanitas podiam recorrer à memória dos antigos reinos da Arábia meridional, cuja prosperidade e poder lhes forneciam um passado prestigioso. A ascensão do islã, contudo, alterou os termos dessa competição, pois a missão de Maomé e a primazia adquirida pelos coraixitas conferiam especial prestígio aos grupos classificados como descendentes de Adenane. Segundo Fischer e Irvine, autores ligados aos iamanitas procuraram compensar essa vantagem mediante a elaboração de narrativas que apresentavam em termos particularmente grandiosos o passado dos povos meridionais. Essas disputas influenciaram também as genealogias atribuídas aos catanitas. Entre as tradições desenvolvidas para conferir maior antiguidade e prestígio à sua ascendência estava aquela que fazia Catã filho do profeta Hude, por vezes identificado com Abir. Outra procurava integrar os catanitas à linhagem de Ismael, fazendo deste o ancestral de todos os árabes. Nesse contexto, os jurumitas, tradicionalmente apresentados como parentes de Ismael por casamento, foram incluídos entre os descendentes diretos de Catã. Fischer e Irvine relacionam ao mesmo ambiente de competição algumas das classificações que distinguiam catanitas, adenanitas e árabes desaparecidos segundo diferentes graus de antiguidade e arabidade.[4]
A competição entre os dois agrupamentos encontrou expressão particularmente importante na poesia e na literatura genealógica. A exaltação das virtudes e do passado de uma linhagem em oposição à rival constituía uma forma de mufacara, disputa pela precedência, honra e glória. Durante os períodos omíada e abássida, poetas ligados aos diferentes partidos produziram composições que exaltavam suas respectivas genealogias, e os conflitos deixaram marcas nas obras posteriores de história e genealogia. Mustafa Fayda relaciona a sistematização dessas tradições à intensificação da oposição entre os agrupamentos setentrionais e meridionais e observa que numerosas composições poéticas foram produzidas para celebrar um dos lados e depreciar o outro.[4] Um dos testemunhos mais extensos dessa tradição é o Aliclil, obra enciclopédica em dez volumes de Alhandani, dedicada à genealogia, história e tradições do Iêmem. Seu terceiro volume foi consagrado às virtudes dos catanitas. Alhandani incorporou à obra numerosos poemas de exaltação das tribos iamanitas, incluindo composições atribuídas a Haçane ibne Tabite que são consideradas espúrias pelas fontes utilizadas por Fayda. O próprio Alhandani participou da controvérsia literária entre os dois agrupamentos: em resposta à al-Qaṣīdat al-nūniyya, poema das al-Hāšimiyyāt em que Alcumaite Alaçadi exaltava os adenanitas e haxemitas e depreciava os catanitas, compôs o poema al-Dāmiġa, de 602 versos. Sua defesa dos catanitas na disputa genealógica chegou a provocar acusações de hostilidade contra Maomé e os membros da Casa do Profeta.[6]
Grupos posteriores chamados Catã
O nome Catã continuou a ser empregado por grupos tribais da Península Arábica em períodos posteriores, embora sua relação com a antiga coletividade pré-islâmica e com o conjunto muito mais amplo dos catanitas da tradição genealógica não seja estabelecida com segurança. Fischer e Irvine registram uma grande população tribal denominada Catã, predominantemente beduína, distribuída pelo território entre Bixa, em Assir, e Hauta, na Arábia Central. Os Catã encontrados por Charles Montagu Doughty em Hail afirmavam descender do profeta Hude e situavam sua terra ancestral nas regiões montanhosas em torno de Aljur, em Assir. Viviam principalmente da criação de camelos e eram descritos como sunitas de orientação hambalita. Os grupos de Assir, por sua vez, distinguiam-se de seus parentes nômades pelo modo de vida sedentário e pela importância da agricultura e do comércio. Formavam uma federação de seis tribos autônomas estabelecidas a leste de Abha, que permaneciam independentes umas das outras e se uniam sobretudo em períodos de crise.[4]
Referências medievais demonstram a persistência regional do nome Catã. Alhandani conhecia individualmente as tribos que posteriormente aparecem reunidas sob essa designação em Assir, mas aparentemente não as denominava coletivamente Catã. Cerca de meio século depois, Almocadaci mencionou um distrito chamado Catã situado entre Zabide e Saná, além de um clã denominado Al Catã a noroeste de Najrã, cujos integrantes descreveu como os mais antigos príncipes do Iêmem. Fischer e Irvine consideram possível, embora não demonstrado, que os Catã de Assir representassem sobreviventes da tribo homônima documentada na Arábia meridional antes do islã. Esses testemunhos evidenciam, portanto, a continuidade do uso regional do nome, mas não permitem estabelecer uma linha genealógica contínua entre esses diferentes grupos e o conjunto dos povos posteriormente classificados como catanitas.[4]
Referências
- ↑ Fischer & Irvine 1997, pp. 447–448.
- 1 2 3 Fayda 2001, p. 201.
- ↑ Fischer & Irvine 1997, p. 447.
- 1 2 3 4 5 6 Fischer & Irvine 1997, p. 448.
- 1 2 Fayda 2001, pp. 201–202.
- ↑ Fayda 2001, p. 202.
Bibliografia
- Fayda, Mustafa (2001). «Kahtân» [Catã]. Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV] (em turco). 24. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Araştırmaları Merkezi. pp. 201–202
