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Judamitas
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Os judamitas ou Banu Judame (em árabe: بنو جذام; romaniz.: Banū Judhām) foram uma grande tribo árabe que habitou o sul do Levante e o noroeste da Arábia durante a Antiguidade Tardia e os primeiros séculos do período islâmico (séculos V–VIII). Sob o Império Bizantino, a tribo era nominalmente cristã e combateu os exércitos muçulmanos entre 629 e 636, até que os bizantinos e seus aliados árabes foram derrotados na Batalha de Jarmuque. Posteriormente, os judamitas converteram-se ao islão e tornaram-se a maior facção tribal do Junde da Palestina (distrito militar da Palestina). As origens dos judamitas permanecem incertas. Embora a própria tribo reivindicasse ascendência iamanita (árabe meridional), é possível que descendesse originalmente dos maaditas (árabes setentrionais), adotando posteriormente uma genealogia iamanita para reforçar seus vínculos políticos com seus aliados da Síria.
Origens
Antes do advento do islão, no início do século VII, os judamitas nômades percorriam as zonas desérticas fronteiriças da Palestina e da Síria bizantinas, controlando localidades como Midiã, Amã, Maã, Udru, Tabuque e regiões situadas até Uádi Alcura.[1] Às vésperas das conquistas muçulmanas, dominavam o território compreendido entre os arredores de Tabuque e as áreas situadas a leste do vale de Arava e do mar Morto, incluindo a região de Balca em torno da atual Amã.[2] Segundo a tradição genealógica árabe, os judamitas deixaram o Iêmen após o Sayl al-'Arim, migrando para o norte da Península Arábica, onde se estabeleceram entre o Hejaz, a Síria e o Egito. Além de ocuparem os principais centros da região, controlavam uma vasta área de Hisma, ao sul de Ácaba, e uma importante fonte de água denominada Salacil. Também exerciam funções de guias e protetores de caravanas nas rotas comerciais que ligavam a Arábia, a Síria e o Egito.[3] As origens dos judamitas são obscuras.[4] Eram uma tribo aparentada aos lacmitas e aos amilaítas, com os quais conviviam e mantinham estreita aliança.[a] Segundo o historiador Werner Caskel, porém, as três tribos não eram realmente aparentadas. A relação genealógica entre elas teria sido construída para consolidar sua aliança política, seja após sua instalação na Palestina em meados do século VII, seja anteriormente, quando seus territórios se concentravam a leste do mar Morto e do Uádi Araba. Os lacmitas aparecem nas fontes históricas pelo menos desde o século III, enquanto pouco se sabe sobre os amilaítas além de constituírem uma tribo antiga. Os judamitas surgiram mais tarde nas fontes, mas tornaram-se consideravelmente mais numerosos que seus dois grupos aparentados. Ainda assim, segundo Caskel, provavelmente incorporaram elementos de populações muito mais antigas do sul da Síria.[5] A tradição genealógica preservada pelos próprios judamitas, por sua vez, fazia-os descendentes de Calane, em oposição a outras genealogias defendidas sobretudo por grupos mudaritas, que buscavam vinculá-los a Mudar. O fortalecimento posterior das rivalidades tribais e das disputas políticas contribuiu para consolidar sua identificação como uma tribo de origem iamanita.[3] Embora não existam provas conclusivas, um dito atribuído ao profeta Maomé identifica os judamitas como o povo de Xuaibe, enquanto o genealogista do século VIII Maomé ibne Açaíbe Alcalbi sustentava que a tribo descendia diretamente dos midianitas bíblicos.[5]
História
Os judamitas serviram como federados (foederati) do Império Bizantino e, por meio de seu contato com os bizantinos, converteram-se nominalmente ao cristianismo, embora de forma superficial.[1] Essa cristianização foi contestada pelo historiador do século IX Hixame ibne Alcalbi, que afirmava que, durante o período bizantino, os judamitas cultuavam o ídolo pagão Alucaicir. Alguns de seus ramos também demonstravam inclinação ao judaísmo, embora poucos tenham efetivamente adotado essa religião.[6] A tribo judaica dos nadiritas, estabelecida em Iatrebe (Medina), descendia dos judamitas.[1] Durante a vida do profeta islâmico Maomé, os judamitas rejeitaram o islão e permaneceram leais ao Império Bizantino.[7] Pouco antes da Batalha de Badre, um judamita teria informado Abu Sufiane ibne Harbe sobre os movimentos das forças muçulmanas, permitindo que a caravana coraixita evitasse o encontro com Maomé. Após o Tratado de Hudaibia, em 628, Rifa ibne Zaíde, membro da tribo, dirigiu-se a Medina, converteu-se ao islão e regressou levando uma carta de Maomé destinada aos judamitas. Segundo a tradição, conseguiu converter o seu próprio ramo tribal, embora a maior parte da tribo permanecesse fiel aos bizantinos. Pouco depois, o emissário de Maomé Dia Alcalbi foi assaltado ao atravessar território judamita. Os membros já islamizados da tribo enfrentaram os responsáveis pelo ataque, mas estes acabaram sendo punidos por uma expedição enviada sob o comando de Zaíde ibne Harita. Em 629, os judamitas combateram ao lado dos bizantinos na Batalha de Muta, impedindo a expansão de Maomé em direção à Síria. Posteriormente, um de seus clãs, os dubaibitas, converteu-se ao islão, mas a tribo como um todo continuou a resistir aos muçulmanos, que organizaram expedições punitivas contra ela sob o comando de Zaíde ibne Harita e Anre ibne Alas.[1] A campanha conduzida por Anre, conhecida como Expedição de Date Assalacil, terminou com a derrota dos judamitas nas proximidades da fonte de Salacil.
A Expedição de Tabuque, realizada por Maomé em 630, foi parcialmente motivada por notícias de que os judamitas e os lacmitas se mobilizavam ao lado do exército bizantino na região de Balca.[2] Durante essa campanha, alguns chefes judamitas encontraram-se com Maomé e aceitaram o islão.[3] Um dos chefes judamitas da região de Amã ou Maã, Farua ibne Anre Aljudami, converteu-se ao islão e, por esse motivo, foi crucificado pelas autoridades bizantinas, embora o historiador Fred Donner considere que esse episódio "possa não passar de uma lenda piedosa".[2] Após a morte de Maomé, em 632, os dubaibitas abandonaram o recém-formado Estado muçulmano sediado em Medina e tornaram-se alvo de uma campanha conduzida pelo general Uçama ibne Zaíde no início do reinado do califa Abu Becre (r. 632–634).[8] Os judamitas integraram os contingentes árabes do exército do imperador bizantino Heráclio na Batalha de Jarmuque, em 636, mas foram derrotados. Diversos clãs da tribo combateram, contudo, nas fileiras muçulmanas durante a mesma batalha, indicando que divisões políticas internas influenciaram a escolha de cada grupo entre o apoio aos bizantinos ou aos muçulmanos.[9] À medida que prosseguia a conquista muçulmana da Síria, os judamitas e os lacmitas converteram-se ao islão.[1] Muitos acompanharam Anre ibne Alas na conquista muçulmana do Egito, figurando entre os primeiros contingentes árabes que se estabeleceram permanentemente naquele território.[3] Ainda assim, seu antigo serviço aos bizantinos provavelmente levou o califa Omar (r. 634–644) a excluir ambas as tribos da distribuição dos despojos de guerra durante a assembleia dos exércitos muçulmanos realizada em Gabita em 637 ou 638.[10]
Sob a administração militar islâmica da Síria, os judamitas tornaram-se a maior tribo do Junde da Palestina.[1] Durante a Primeira Fitna, combateram no exército do governador da Síria, Moáuia I, contra as forças iraquianas do califa Ali (r. 656–661). Na Batalha de Sifim, em 657, organizaram-se em três contingentes: os judamitas da Palestina, comandados por Rau ibne Zimba; os judamitas e lacmitas sob Natil ibne Caice; e a infantaria judamita liderada por Maslama ibne Mucalade.[11] Natil pertencia ao prestigiado clã Sade ibne Maleque e é referido nas fontes como sayyid Judhām bi-l-Shām ("chefe dos judamitas da Síria").[12] Rau era mais jovem que Natil e provinha do clã irmão Uail ibne Maleque.[12] Tradicionalmente, os saditas forneciam os chefes de pelo menos uma parte significativa dos judamitas, e as fontes não registram rivalidade entre os clãs sadita e uailita durante o período pré-islâmico.[13] As disputas pela liderança tribal entre Natil e Rau desenvolveram-se durante o califado de Moáuia I (r. 661–680).[14] Durante os reinados de Moáuia I e Iázide I (r. 680–683), a confederação tribal dos cudaaítas, liderada pelos calbitas, alcançou posição privilegiada na corte califal. As demais tribos sírias procuraram integrar-se à confederação ou desalojá-la dessa posição dominante.[15] Desde o período pré-islâmico até o fim do ramo sufiânida em 684, os cudaaítas reivindicavam descendência de Maade, uma antiga linhagem árabe setentrional mencionada na inscrição de Namara.[16] Durante o período sufiânida, a maior parte das fontes considerava os judamitas, juntamente com os lacmitas e amilaítas, de origem iamanita, embora outras tradições os fizessem descendentes do ramo canacita (Canas) dos maaditas ou ainda dos assaditas.[17] Buscando estreitar os vínculos dos judamitas com os calbitas, Rau solicitou a Iázide que reconhecesse a tribo como descendente de Maade e, portanto, aparentada aos cudaaítas. Natil opôs-se à iniciativa e insistiu na filiação da tribo a Catane, ancestral dos iamanitas.[17]
Após a morte de Moáuia II em 684, os judamitas liderados por Natil aliaram-se a Abedalá ibne Azobair, pretendente ao califado sediado em Meca, enquanto Rau apoiou o omíada Maruane I.[1][18] Depois da vitória de Maruane na Batalha de Marje Raite, os cudaaítas e os calbitas passaram a reivindicar ascendência de Catane e organizaram a confederação dos iamanitas em oposição às tribos caicitas favoráveis a Ibne Azobair no norte da Síria.[19] Os judamitas permaneceram aliados dos calbitas e, juntamente com eles, constituíram um dos principais pilares da confederação iamanita durante a rivalidade caicita-iamanita.[1] Natil fugiu da Palestina ou morreu pouco depois, e, já durante o reinado do califa Abedal Maleque ibne Maruane (r. 685–705), Rau consolidou-se como líder incontestado da tribo.[20] Os judamitas permaneceram estreitamente ligados aos omíadas até a queda da dinastia, em 750.[1] Um ramo dos judamitas conhecido como baiadita (Baiade) ou baiadinita (Albaiadine) foi registrado pelo geógrafo do século X Alhandani como habitante do norte da Península do Sinai e, posteriormente, estabelecido no oásis de Cátia, no deserto da Síria, durante o século XIII.[21] Pelo menos uma parte dos judamitas acabou por fundir-se com os amilaítas na região da Galileia e, no início do século XI, migrou para o sul do atual Líbano.[22] Durante o período do Sultanato Mameluco do Cairo, entre os séculos XIII e XV, os historiadores Alumari e Alcalcaxandi afirmaram que a tribo dos sacritas, estabelecida na província de Caraque, na atual Jordânia, pertencia aos judamitas; nas tradições orais modernas dos sacritas, contudo, a tribo reivindica descendência de um grupo originário do Hejaz no século XVIII, que teria migrado para a atual Jordânia durante o século XIX.[23] O mesmo Alcalcaxandi identificaria em seu tempo o clã dos murraítas, que estava estabelecido na Palestina.[24] Além da Síria e da Palestina, grupos judamitas dispersaram-se por diferentes províncias do califado, alcançando inclusive Alandalus. Ainda no início do século XV, comunidades da tribo eram registradas na região de Alexandria, no delta oriental do rio Nilo.[3]
Notas
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Bosworth 1965, p. 573.
- 1 2 3 Donner 1981, p. 105.
- 1 2 3 4 5 Önkal 1993, p. 149.
- ↑ Caskel 1966, p. 53.
- 1 2 Caskel 1966, p. 54.
- ↑ Gil 1997, p. 18.
- ↑ Gil 1997, p. 24.
- ↑ Donner 1981, p. 106.
- ↑ Donner 1981, pp. 147–148.
- ↑ Donner 1981, p. 320, note 267.
- ↑ Hasson 1993, p. 97.
- 1 2 Hasson 1993, p. 98.
- ↑ Hasson 1993, p. 99.
- ↑ Hasson 1993, p. 109.
- ↑ Crone 1994, p. 44.
- ↑ Crone 1994, p. 46.
- 1 2 Crone 1994, p. 44, note 235.
- ↑ Gil 1997, p. 76–77.
- ↑ Crone 1994, p. 47.
- ↑ Hasson 1993, p. 117.
- ↑ Bailey 1985, pp. 20–21.
- ↑ Prawer 1985, p. 91.
- ↑ Al-Bakhit 1995, p. 882.
- ↑ Landau-Tasseron 1993, p. 629.
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