Saúde
Xaibanitas
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Os xaibanitas, Banu Xaibane ou Banu Xaibã (em árabe: بنو شيبان; romaniz.: Banū Shaybān) foram uma importante tribo árabe pertencente aos bacritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, segundo a genealogia tradicional, integrante do ramo nizarita dos adenanitas. Descendiam de Xaibane ibne Talaba ibne Uqueba ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail, cuja linhagem era conduzida por Rebia e Nizar até Adenane. Dividiam-se em numerosos ramos, entre os quais se destacavam os hamamitas, jassacitas, mualimitas, alharititas, aburrebiaítas e murraítas. Durante a Jailia, eram predominantemente nômades ou seminômades e ocupavam uma extensa zona entre o Négede, Iamama, Barém, o Eufrates e o golfo Pérsico, deslocando-se sazonalmente até a Jazira. Às vésperas do Islã, constituíam, segundo Fred Donner, o mais poderoso e proeminente dos principais grupos bacritas e eram conhecidos por sua reputação guerreira, por seus poetas e pelo emprego de uma forma particularmente pura da língua árabe.
Nas décadas anteriores ao surgimento do Islã, a liderança xaibanita concentrou-se sobretudo nos hamamitas, embora outros ramos aristocráticos disputassem a chefia tribal. Os xaibanitas participaram de numerosos confrontos dos Dias Árabes e mantiveram relações estreitas, mas variáveis, com os lácmidas de Hira e o Império Sassânida. No início do século VII, tiveram participação central na Batalha de Di Car, na qual uma coalizão de grupos bacritas derrotou um exército sassânida; apesar da importância posteriormente atribuída ao episódio, Donner considera inadequado interpretá-lo como expressão de uma hostilidade xaibanita permanente contra os persas. O advento do Islã também dividiu politicamente a tribo. Enquanto os hamamitas resistiram à expansão muçulmana, um ramo até então secundário, os saditas, aliou-se aos conquistadores sob Almutana ibne Harita e desempenhou papel destacado na conquista muçulmana do Iraque.
Após as conquistas, os xaibanitas permaneceram particularmente numerosos e influentes no Iraque e na Jazira, estendendo sua presença à Síria, Armênia, Azerbaijão e Xirvão. Durante os períodos omíada e abássida, diferentes segmentos da tribo participaram tanto de movimentos de oposição, sobretudo revoltas carijitas, quanto da administração e dos exércitos califais. Linhagens xaibanitas produziram importantes governadores e comandantes e chegaram a estabelecer poderes regionais, destacando-se os descendentes de Iázide ibne Maziade, que governaram Xirvão, e a família de Issa ibne Axeique Axaibani, dominante em partes da Jazira no século IX. A tribo também produziu numerosos poetas, gramáticos, filólogos e eruditos. A partir do século XI, os xaibanitas como conjunto tornam-se menos visíveis nas fontes, enquanto suas numerosas linhagens e grupos descendentes aparecem separadamente, resultado da progressiva dispersão, sedentarização e integração da tribo nas sociedades das regiões conquistadas.
Origem e genealogia
Os xaibanitas (Banu Xaibane) eram uma tribo árabe pertencente aos bacritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, pela genealogia tradicional, integrante do ramo nizarita dos adenanitas. A linhagem de seu ancestral epônimo era apresentada como Xaibane ibne Talaba ibne Uqueba ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail ibne Cacite ibne Himbe ibne Afexa ibne Dumi ibne Jadila ibne Açade ibne Rebia ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane.[1] Os xaibanitas constituíam um dos cinco principais ramos atribuídos aos bacritas no esquema genealógico apresentado por Fred Donner, juntamente com os dulitas, caicitas, ijelitas e hanifaítas.[2] Bianquis observa, contudo, que as fontes genealógicas registram outras linhagens associadas ao nome Xaibane. Entre elas figurava outro Xaibane, apresentado como sobrinho do primeiro e cuja linhagem era Xaibane ibne Dul ibne Talaba ibne Uqueba, além de outras genealogias correspondentes a diferentes ramos da tribo.[1] A genealogia tradicional atribuía aos xaibanitas numerosas subdivisões. Segundo Demircan, a descendência de Xaibane prosseguia por seus filhos Dul, Taime, Talaba e Aufe, enquanto a tribo se ramificou posteriormente por meio dos dez filhos de Murra ibne Dul, chefe xaibanita do período pré-islâmico. Entre seus ramos mais conhecidos estavam os hamamitas, jassacitas, mualimitas, alharititas, aburrebiaítas e murraítas.[3] No esquema simplificado reproduzido por Donner, Dul aparece como descendente de Xaibane e ancestral de Abu Rebia, Murra e Mualime, além de outros ramos; de Murra descendiam Hamame e Sade. O ramo de Hamame, em particular, ocupava posição de destaque dentro dos xaibanitas às vésperas do Islã, embora a importância política relativa dessas linhagens tenha variado ao longo do tempo.[4]
História
Período pré-islâmico
Às vésperas do advento do Islã, os xaibanitas constituíam, segundo Fred Donner, o mais poderoso e proeminente dos principais grupos bacritas. Seu território estendia-se pelas regiões a oeste do Eufrates, aproximadamente entre Alubula e Hite, concentrando-se sobretudo na parte central dessa faixa, a oeste de Hira. Ao sul, a zona de influência xaibanita encontrava a dos ijelitas, enquanto, ao norte, a região de Hite era dominada principalmente pelos anamiritas, grupo não bacrita. Durante a posterior conquista muçulmana do Iraque, a distribuição das operações nas quais os xaibanitas aparecem sugere que sua área se prolongava de algum ponto entre Hira e Alubula, ao sul, até aproximadamente Aine Atanre, ao norte.[5] Bianquis descreve uma mobilidade sazonal mais ampla: durante a Jailia, os xaibanitas invernavam em Jadia, no Négede, numa região que compartilhavam com os Banu Juxame, e no verão deslocavam-se para o alto Eufrates e a Jazira ou, mais a leste, para o médio e baixo Eufrates, entre Hira e Alubula, alcançando também o sudoeste do Iraque e as regiões próximas ao golfo Pérsico, onde compartilhavam pastagens com os quindaítas.[1] Demircan situa-os na Iamama e no Barém durante a Jailia e afirma que, à época do surgimento do Islã, estavam distribuídos por uma vasta área que se estendia da Iamama até Baçorá, a Jazira e Diar Baquir.[3] Embora alguns indivíduos e provavelmente segmentos inteiros da tribo mantivessem relações especiais com o Império Sassânida e levassem vida sedentária, a maioria dos xaibanitas era nômade ou parcialmente nômade. Segundo Donner, era sobretudo sobre a aristocracia guerreira constituída por esses poderosos grupos nômades que se apoiavam as pretensões dos xaibanitas à liderança e ao estatuto de nobreza entre os bacritas.[5] A posição predominante dos xaibanitas entre os bacritas é refletida tanto pela literatura genealógica quanto pelos relatos dos Dias Árabes e, posteriormente, pelas narrativas da conquista do Iraque. Donner considera que, no tempo de Maomé, sua reputação de poder militar se tornara praticamente proverbial entre os árabes do norte. Um relato atribuído a Aluaquidi afirma que, após a Conquista de Meca, quando Maomé saiu da cidade à frente de um exército de 12 mil homens, um de seus seguidores teria expressado confiança no tamanho da força observando que nem mesmo um encontro com os Banu Xaibane seria motivo de preocupação. Para Donner, o episódio, independentemente de seu valor literal, ilustra como os xaibanitas haviam se tornado uma referência de poderio militar entre os árabes do norte no início do século VII.[6] Bianquis observa que essa reputação guerreira já acompanhava a tribo durante a Jailia e persistiu nos primeiros séculos islâmicos, juntamente com a fama pela qualidade de seus poetas e pelo emprego de uma forma particularmente pura da língua árabe.[1]
A liderança interna da tribo parece ter se concentrado, nas décadas imediatamente anteriores ao Islã, nos hamamitas, do ramo dulita. A literatura genealógica destaca-os como o clã dominante dos xaibanitas, e os relatos dos Dias Árabes indicam que sua proeminência já estava estabelecida no período pré-islâmico; a tradição genealógica também incluía hamamitas, mualimitas, aburrebiaítas e murraítas entre os principais ramos da tribo.[3] Membros dos hamamitas são apresentados comandando xaibanitas ou contingentes bacritas em numerosos confrontos tribais, entre eles os Axaiaitane, Du Tulu, Aljadude, Zuairaine, Algabite, Du Baide, Zarude, Mucatate, Axaquica, Aluzala, Nafe Cuxaua, Alfiane, Açala e Zubala. Um membro do mesmo ramo, Caice ibne Xurabil ibne Murra ibne Hamame, teria negociado o fim da prolongada Guerra de Albaçus entre os bacritas e taglibitas, e relatos relativos ao período imediatamente posterior apresentam Alharite ou seu irmão Murra como chefe dos bacritas.[7] A posição dos hamamitas, contudo, não era incontestada. Seus principais concorrentes pela liderança dos xaibanitas eram os aburrebiaítas, cujos membros também aparecem comandando a tribo em diferentes episódios dos Dias Árabes, entre eles Zuairaine, Aluzala e Algabite. Os mualimitas constituíam outro ramo aristocrático e são explicitamente descritos numa fonte como integrantes da nobreza (axerafe) xaibanita no período pré-islâmico. As fontes chegam a divergir sobre se o comando dos xaibanitas no Dia de Almuxulã pertenceu a um membro dos aburrebiaítas ou dos mualimitas. Donner conclui que os hamamitas constituíam o principal grupo dirigente pouco antes do surgimento do Islã, mas que os aburrebiaítas e, provavelmente, os mualimitas conservavam prestígio suficiente para disputar a chefia tribal. É possível que estes dois últimos grupos tivessem liderado segmentos dos xaibanitas em período anterior e fossem posteriormente superados pelos hamamitas, embora Donner ressalte que essa reconstrução permanece hipotética; a rivalidade registrada entre os aburrebiaítas e os murraítas, ramo ao qual pertenciam os hamamitas, nos relatos do Dia de Mubaide pode refletir essa competição entre linhagens.[8]
No plano religioso, os xaibanitas não formavam um grupo homogêneo. Segundo Demircan, a grande maioria da tribo ainda praticava cultos árabes tradicionais à época do surgimento do Islã,[3] mas o cristianismo miafisita havia penetrado diferentes segmentos dos bacritas, e há indícios de sua presença em pelo menos dois dos principais ramos aristocráticos dos xaibanitas. Um cristão dos mualimitas permaneceu fiel à sua religião mesmo após o advento do Islã, enquanto o célebre chefe Bistame ibne Caice, dos hamamitas, também era cristão. Para Donner, esses exemplos demonstram que o cristianismo havia estabelecido pelo menos uma presença significativa entre esses dois importantes clãs xaibanitas.[9] Bistame, além de chefe tribal, destacou-se como guerreiro e poeta e figura entre as personalidades xaibanitas mais conhecidas da Jailia.[3] A posição política dos xaibanitas no final do período pré-islâmico foi profundamente condicionada por sua proximidade com o Império Sassânida e com os lácmidas de Hira, seus reis clientes árabes. Segundo Demircan, após a Guerra de Albaçus, por volta de 525, os xaibanitas, assim como outros ramos bacritas, ficaram submetidos à autoridade lácmida.[3] Donner observa que, ao menos até o início do século VII, os principais clãs xaibanitas mantiveram estreitas relações com lácmidas e sassânidas, provavelmente cultivadas por ambos como meio de conservar uma tribo militarmente poderosa dentro de sua esfera de influência. Essas relações eram particularmente fortes entre os hamamitas. Anre ibne Xarrique, chefe desse ramo, teria comandado a força policial dos lácmidas, enquanto Xarrique ibne Matar gozava de grande influência junto ao rei lácmida Almondir III (r. 503–554). Os dulitas, ramo mais amplo ao qual pertenciam os hamamitas, também parecem ter estabelecido vínculos matrimoniais com a dinastia de Hira.[10] Outro exemplo dessas relações foi Caice ibne Maçude ibne Caice, dos hamamitas. Depois de anteriormente ter realizado incursões no Sauade iraquiano e sido derrotado pelos persas, recebeu do xá Cosroes II (r. 590–628) benefícios nas proximidades de Alubula, sob a condição de manter sua tribo sob controle em benefício do soberano sassânida. Caice parece ter conservado essa posição durante a primeira década do século VII, até a Batalha de Di Car, travada por volta de 611, após a qual foi aprisionado por Cosroes, talvez por não ter conseguido impedir que seus companheiros tribais participassem do confronto contra os sassânidas.[11]
A Batalha de Di Car representou uma aparente ruptura dos vínculos que uniam os principais clãs xaibanitas aos sassânidas e lácmidas. Segundo Demircan, pouco antes de ser morto por Cosroes II, o rei lácmida Anumane III (r. 580–602), em razão da fidelidade dos xaibanitas, confiou-lhes seu tesouro e suas armas. Depois que Cosroes nomeou Ias ibne Cabiça como governador de Hira, este exigiu que os xaibanitas restituíssem os bens de Anumane, episódio apresentado por Demircan como causa do confronto que culminou em Di Car.[3] Os xaibanitas, acompanhados por outros grupos bacritas, entre eles os ijelitas, dulitas, caicitas, taimalatitas e iascuritas, enfrentaram e derrotaram um exército sassânida enviado de Hira. Do lado persa combateram contingentes de tribos iraquianas tradicionalmente submetidas à influência sassânida, entre elas os iaditas, os anamiritas e os taglibitas, além de segmentos dos tamimitas, taiítas e outros grupos. Donner adverte, contudo, que o caráter romantizado dos relatos posteriores sobre a batalha impede determinar com segurança quais divergências provocaram o confronto entre os sassânidas e seus antigos aliados xaibanitas e, sobretudo, rejeita a interpretação de Di Car como uma ruptura política definitiva: segundo ele, o episódio parece ter representado apenas um desacordo temporário, pois as relações entre esses grupos continuaram posteriormente marcadas por aproximações e conflitos periódicos.[12]
Di Car tampouco representou, segundo Donner, uma conversão permanente dos xaibanitas a uma política antissassânida. As relações entre as tribos bacritas e o poder persa haviam oscilado anteriormente e continuaram a fazê-lo depois da batalha. O próprio Caice ibne Maçude havia sido derrotado pelos persas poucos anos antes de receber deles benefícios territoriais. Muxir ibne Iázide, dos hamamitas, aliou-se aos persas depois da batalha, enquanto Hani ibne Cabiça ibne Maçude, possivelmente xaibanita, encontrava-se em Hira quando as forças muçulmanas de Calide ibne Alualide chegaram à cidade e figurou entre os notáveis que a representaram na celebração do tratado com os conquistadores. Também é significativo que Bistame ibne Caice, filho de Caice ibne Maçude e destacado chefe dos hamamitas, tenha conduzido numerosas incursões nos anos posteriores a Di Car sem que, até onde permitem determinar as fontes, nenhuma delas fosse dirigida contra os sassânidas. Donner tampouco encontra indícios de uma agitação antissassânida mais ampla entre as tribos do nordeste da Arábia nesse período. Em sua interpretação, portanto, os principais clãs xaibanitas aliavam-se ou resistiam aos persas e a seus clientes lácmidas conforme as circunstâncias políticas do momento, não sendo adequado caracterizá-los como essencialmente antissassânidas depois de cerca de 610.[12] A política sassânida em relação aos xaibanitas parece ter procurado incorporar a tribo à esfera de influência imperial mediante vínculos particulares com os chefes de suas principais linhagens, sobretudo os hamamitas. Donner considera inclusive possível que a posição dominante adquirida pelos hamamitas dentro dos xaibanitas tenha sido parcialmente favorecida por essa "conexão persa", que lhes proporcionava prestígio e recursos materiais. Embora essa política de atração tenha fracassado completamente em Di Car, Donner ressalta que isso não significa que os sassânidas tenham deixado de tentar atrair os xaibanitas e outros grupos bacritas para sua esfera de influência, nem demonstra a existência de uma hostilidade profunda e duradoura dessas tribos contra o Império Sassânida.[13]
Surgimento do islão
As fontes também registram contatos entre segmentos dos xaibanitas e Maomé. Segundo Demircan, em data desconhecida, uma delegação da tribo dirigiu-se a Medina, prestou-lhe juramento de fidelidade e converteu-se ao Islã. Um de seus integrantes, Huraite ibne Haçane, solicitou a Maomé um documento que atribuísse aos xaibanitas as terras de Adana. A concessão, contudo, foi contestada por Caila binte Macrama, dos tamimitas, que acompanhara a delegação a Medina, e decidiu-se que a região permaneceria com sua tribo, decisão registrada por escrito.[3] O advento do Islã tampouco produziu uma orientação política uniforme entre os xaibanitas. Embora contingentes da tribo tenham posteriormente prestado importante auxílio aos exércitos muçulmanos na conquista do Iraque, Donner rejeita a interpretação segundo a qual esse apoio teria constituído uma continuação natural da resistência aos sassânidas manifestada em Di Car. Os xaibanitas que se associaram às forças de Calide ibne Alualide e dos comandantes muçulmanos posteriores estavam sob a liderança de Almutana ibne Harita, chefe até então desconhecido dos saditas, um ramo que igualmente não se destacara nas fontes anteriores. Em contraste, os hamamitas, que haviam constituído a linhagem dominante dos xaibanitas nas décadas anteriores ao Islã e desempenhado papel destacado tanto nos Dias Árabes quanto em Di Car, não são mencionados entre as forças muçulmanas durante as primeiras campanhas no Iraque. Há, pelo contrário, indícios de que tenham se oposto ativamente à expansão do poder muçulmano. Seu principal chefe nesse período, Bisre Açalil ibne Caice, liderou um contingente xaibanita em apoio a Sajá, a profetisa que se insurgiu contra o domínio de Medina durante as Guerras da Apostasia, e posteriormente aparece à frente de seguidores rebiaítas combatendo os muçulmanos em Canáfis, durante a conquista do Iraque. A possibilidade de resistência xaibanita também parece ter sido considerada pelo próprio Abu Becre, que instruiu seu comandante no Barém, Alalá ibne Alhadrami, a enviar tropas contra os xaibanitas caso soubesse que estavam provocando distúrbios.[14]
A participação xaibanita na expansão muçulmana deve, portanto, ser entendida no contexto das rivalidades internas da tribo. Enquanto os hamamitas, até então dominantes, resistiram aos muçulmanos, os saditas aliaram-se a eles sob Almutana e, anteriormente pouco proeminentes, adquiriram particular importância nas ofensivas contra os sassânidas. Segundo Demircan, durante o califado de Abu Becre, Almutana dirigiu-se a Medina e solicitou que lhe fosse confiado o combate às forças sassânidas nas regiões próximas de sua tribo. Aceito o pedido, passou a realizar incursões nos arredores de Hira, enquanto seu primo Suaide ibne Cutba atuava na região do golfo Pérsico, Alubula e seus arredores. As forças empregadas nessas operações eram constituídas sobretudo por xaibanitas e outros ramos bacritas e, segundo Demircan, contribuíram para desgastar as forças sassânidas e proporcionar aos muçulmanos conhecimento mais detalhado da região antes do avanço da conquista.[3] Donner considera, contudo, impossível determinar quando se estabeleceram os primeiros vínculos entre Almutana e o Estado islâmico, mas observa que a projeção de seu ramo ocorreu no contexto das conquistas, ao mesmo tempo que a antiga linhagem dominante se opunha à expansão islâmica. As fontes revelam, assim, uma cisão política interna, e não uma adesão coletiva dos xaibanitas ao Islã. A atuação de Almutana tampouco pode ser projetada retrospectivamente sobre toda a tribo como evidência de uma predisposição xaibanita a favorecer os muçulmanos em razão de sua participação anterior em Di Car: os grupos envolvidos eram distintos. A linhagem que ocupara a posição dominante e estivera entre os protagonistas do confronto com os sassânidas em Di Car encontrava-se posteriormente entre os adversários da expansão islâmica, enquanto os saditas emergiram como aliados dos conquistadores. A conquista muçulmana coincidiu, portanto, com uma transformação da estrutura política interna dos xaibanitas, marcada pela ascensão de um ramo anteriormente secundário em contraste com a resistência dos hamamitas.[15]
Período califal

No Califado Omíada, os xaibanitas conservaram considerável força, sobretudo no Iraque e na Jazira, e muitos de seus membros aderiram ao carijismo. Embora a maior parte da tribo tivesse apoiado Ali (r. 656–661) em sua disputa com Moáuia, posteriormente os xaibanitas desempenharam papel destacado em diversas revoltas carijitas. Durante o califado de Abedal Maleque (r. 685–705), Xabibe ibne Iázide, à frente de contingentes árabes de Diar Baquir e Diar Rebia, conduziu uma grande revolta contra o governo omíada, derrotou repetidamente as forças de Alhajaje ibne Iúçufe e chegou a ocupar Cufa, antes de morrer afogado no rio Dujail, no Cuzistão, em 77 A.H. (697). Nas últimas décadas do califado, Adaaque liderou outra grande insurreição carijita, tomou Cufa e obteve amplo apoio de sua população, mas acabou derrotado e morto pelas forças omíadas em 128 A.H. (746).[3] Os xaibanitas estiveram particularmente associados a movimentos carijitas na Jazira durante esse período, embora membros da tribo também servissem ao governo: Mane ibne Zaida, antigo servidor dos omíadas, obteve posteriormente o perdão do califa abássida Almançor (r. 754–775) depois de combater os rebeldes rauanditas e acabou morto em combate contra os próprios carijitas.[1] Sob os primeiros abássidas, o progressivo estabelecimento de segmentos dos xaibanitas em núcleos sedentários favoreceu sua incorporação ao serviço do Estado, ao mesmo tempo que sua participação nos movimentos carijitas da Jazira começou a declinar.[3]
Entre os xaibanitas que alcançaram projeção nos primeiros tempos do Califado Abássida encontrava-se Abu Daúde Calide ibne Ibraim, dos dulitas, que figurou entre os colaboradores próximos de Abu Muslim. Outro personagem vinculado à tribo, Issa, um maula dos xaibanitas, rebelou-se contra o califa Almançor à frente de cinquenta seguidores. O califa enviou contra ele Ziade ibne Muxcane, maula dos Banu Mazim, que matou Issa e seus partidários.[1] Entre as famílias que alcançaram maior projeção estavam os descendentes de Mane ibne Zaida, especialmente seus sobrinhos Iázide e Amade ibne Maziade.[16] Iázide destacou-se como governador e comandante a serviço dos abássidas, sendo encarregado da repressão de diferentes revoltas e exercendo os governos do Azerbaijão, Xirvão, Babe Alabuabe e Moçul. Durante o reinado de Harune Arraxide (r. 786–809), combateu e matou em 179 A.H. (795) o carijita xaibanita Alualide ibne Tarife, além de combater incursões cazares na Armênia.[1] Após sua morte, em 185 A.H. (801), Harune Arraxide nomeou seu filho Assade para sucedê-lo, enquanto outro filho, Maomé, também se destacou como comandante.[3]
Na guerra civil entre Alamim e Almamune, membros da família apoiaram Alamim; entre eles, Amade ibne Maziade, chefe dos rebiaítas da Jazira, marchou em seu auxílio à frente de 20 mil árabes.[17] Outro filho de Iázide, Calide, exerceu por duas vezes o governo da Armênia e, durante o califado de Almotácime, recebeu também autoridade sobre Diar Rebia, região densamente povoada por xaibanitas. Após sua morte, em 230 A.H. (844), foi sucedido no governo da Jazira por seu filho Maomé, enquanto outro filho, Haitame, que governava Xirvão em seu nome, aproveitou as perturbações desencadeadas pelo assassinato do califa Almotauaquil para declarar sua independência com o título de Xá de Xirvão em 247 A.H. (861). Estabeleceu-se assim em Xirvão o domínio dos Banu Iázide, ramo xaibanita dos murraítas que remontava a Iázide ibne Maziade e que permaneceu no poder entre 861 e 1075.[3] Na mesma época em que o ramo de Iázide consolidava seu domínio independente em Xirvão, outra linhagem xaibanita alcançou considerável projeção na Jazira, Síria e Armênia. Issa ibne Axeique Axaibani exerceu, durante o reinado de Almotauaquil, sucessivamente o governo de Ramla, na Palestina, por volta de 251 A.H. (866), de Damasco e, posteriormente, da Armênia, onde provavelmente permaneceu até sua morte, em 269 A.H. (882–883). Seu filho Amade aproveitou a desordem política posterior à Anarquia de Samarra para estabelecer-se como o mais poderoso governante da Jazira, controlando Diar Baquir e os territórios fronteiriços armênios de Taraunitis e Anzitena, embora enfrentasse a oposição do taglibita Hamadane e de Isaque ibne Cundajique, governante de Moçul. Amade conseguiu ocupar Moçul após a morte de Isaque, mas foi repelido pelo poder abássida restaurado sob Almutadide (r. 892–902) em 893. Após sua morte, em 285 A.H. (898), foi sucedido por seu filho Maomé, de quem Almutadide tomou à força a última possessão da família, Amida, em 286 A.H. (899); Maomé recebeu inicialmente uma residência em Baguedade, mas acabou preso.[18] Bianquis observa ainda que os relatos sobre esses acontecimentos destacam a habilidade na composição poética tanto dos homens quanto das mulheres da família.[19]
Embora a progressiva sedentarização e integração de segmentos da tribo ao Estado tenham reduzido sua participação nos movimentos rebeldes, outros xaibanitas continuaram associados a movimentos de oposição. No início da propaganda cármata no Sauade de Cufa, os xaibanitas figuravam, ao lado de diferentes grupos rebiaítas e bacritas, entre os apoiadores do movimento.[3] Bianquis registra ainda indivíduos portadores da nisba Axaibani no norte da Síria e na Pérsia. Em Alepo, um xaibanita chamado Ibne Iázide matou com uma lança o comandante Ibne Raxique, enquanto, em período posterior, xaibanitas aparecem entre as forças reunidas pelo emir ucaílida de Moçul e Alepo, Muslim ibne Coraixe, juntamente com numairitas, ucailitas, curdos e outros grupos, para combater o sultão seljúcida Tutuxe I em Damasco.[19] No sul da Arábia, uma linhagem de origem xaibanita também alcançou posição política no século XI: depois de conquistar o Hadramaute em 455 A.H. (1063), o governante sulaída Ali ibne Maomé confiou a administração da região a uma família descendente de Mane ibne Zaida. Quando seus integrantes se recusaram posteriormente a pagar tributos mais elevados, foram substituídos pelos zuraídas em 473 A.H. (1080).[20] A partir do século XI, contudo, os xaibanitas como conjunto aparecem cada vez menos nas fontes, em contraste com as numerosas linhagens e grupos que deles descendiam, circunstância que Bianquis relaciona à intensa fragmentação da tribo. Um dos últimos registros reunidos pelo autor data de 501 A.H. (1107–1108), quando 85 guerreiros xaibanitas foram mortos no baixo Iraque combatendo ao lado de Sadaca ibne Maziade.[19] A dispersão e integração dos xaibanitas nas regiões conquistadas também se refletiram em atividades intelectuais. No sul do Iraque são mencionados membros ou maulas da tribo como poetas, gramáticos e filólogos, destacando-se Abu Anre Isaque ibne Mirar Axaibani (m. c. 210 A.H./825), um dos principais representantes da escola filológica de Cufa.[1] Demircan menciona igualmente numerosos poetas e eruditos vinculados aos xaibanitas, entre eles Daguefal ibne Hanzala, Quiraxe ibne Ismail, Majedim ibne Alatir, Izadim ibne Alatir, Diadim ibne Alatir e Ibne Alfuati, enquanto Amade ibne Hambal pertencia à tribo por ascendência materna.[20]
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Bianquis 1997, p. 391.
- ↑ Donner 1980, p. 16.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 Demircan 2010, p. 44.
- ↑ Donner 1980, p. 38.
- 1 2 Donner 1980, p. 22.
- ↑ Donner 1980, pp. 22–23.
- ↑ Donner 1980, pp. 23–24.
- ↑ Donner 1980, pp. 24–25.
- ↑ Donner 1980, pp. 25–26.
- ↑ Donner 1980, p. 27.
- ↑ Donner 1980, pp. 27–28.
- 1 2 Donner 1980, pp. 28–29.
- ↑ Donner 1980, p. 29.
- ↑ Donner 1980, p. 30.
- ↑ Donner 1980, pp. 30, 34–35.
- ↑ Crone 1980, p. 169.
- ↑ Bianquis 1997, pp. 391–392.
- ↑ Kennedy 2004, pp. 181–182.
- 1 2 3 Bianquis 1997, p. 392.
- 1 2 Demircan 2010, p. 45.
Bibliografia
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- Demircan, Adnan (2010). «Şeybân (Benî Şeybân)». Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 39. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı. pp. 44–45
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