Saúde
Hanifaítas
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Os hanifaítas ou Banu Hanifa (em árabe: بنو حنيفة) foram uma tribo árabe pertencente aos bacritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, segundo a genealogia tradicional, integrante dos nizaritas adenanitas. Descendiam de Hanifa ibne Lujaime ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail e dividiam-se em diversos clãs, entre os quais os dulitas, aditas, amiritas e suaimitas. Estabelecidos sobretudo na Iamama, onde controlavam Hajer (atual Riade), Jau e numerosos povoados e áreas agrícolas, combinavam grupos nômades com uma importante população sedentária dedicada ao cultivo de tamareiras e cereais. Às vésperas do Islã, constituíam uma das tribos mais poderosas da Península Arábica e dominavam os oásis cerealíferos da Iamama, um dos principais centros agrícolas da região.
Durante o período pré-islâmico, os hanifaítas participaram dos conflitos tribais celebrados nos Dias Árabes e mantiveram relações políticas e econômicas com os lácmidas de Hira e o Império Sassânida. Depois de romperem com outros grupos bacritas nos últimos anos da Guerra de Albaçus, aproximaram-se dos taglibitas e reconheceram a suserania lácmida, não participando posteriormente da Batalha de Di Car. Sua posição entre Iamama e o Iraque favoreceu sua participação no comércio transarábico e na escolta das caravanas que circulavam entre o Iêmem e o Iraque, ao mesmo tempo que sua expansão provocou frequentes confrontos com os tamimitas. Entre seus principais chefes no início do século VII esteve Hauda ibne Ali, provavelmente cristão e ligado à corte sassânida.
Os primeiros contatos dos hanifaítas com Maomé não resultaram numa adesão imediata da tribo ao islão, embora chefes como Tumama ibne Utal tenham se convertido e uma delegação tribal tenha professado a nova religião em Medina em 631. Durante os últimos meses da vida de Maomé, contudo, a maior parte dos hanifaítas apoiou Muçailima, que reivindicava a condição de profeta, e, após a morte de Maomé, resistiu ao governo de Abu Becre durante as Guerras da Apostasia. A rebelião terminou com a derrota e morte de Muçailima na Batalha de Ácraba, também conhecida como Batalha de Iamama, após a qual os hanifaítas voltaram a reconhecer a autoridade do califado e readotaram o islão. A intensidade de sua resistência nessa campanha é considerada por Fred Donner uma demonstração da força que a tribo possuía às vésperas da expansão islâmica.
Genealogia
Os hanifaítas (Banu Hanifa) eram uma tribo árabe pertencente aos bacritas, um dos principais agrupamentos dos rebiaítas e, pela genealogia tradicional, integrante do ramo nizarita dos adenanitas. Sua linhagem era apresentada como Hanifa ibne Lujaime ibne Sabe ibne Ali ibne Becre ibne Uail.[1] Por meio de Uail ibne Cacite, sua ascendência prosseguia por Cacite ibne Himbe ibne Afexa ibne Dumi ibne Jadila ibne Açade ibne Rebia ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane.[2] Os hanifaítas constituíam um dos cinco principais ramos atribuídos aos bacritas no esquema genealógico apresentado por Fred Donner, juntamente com os xaibanitas, dulitas, caicitas e ijelitas.[3] A tribo dividia-se em diversos clãs, entre eles os dulitas (Dul), aditas (Adi), amiritas (Amir) e suaimitas (Suaime).[1] Embora sua estrutura interna seja pouco conhecida, Donner observa que as fontes genealógicas atribuem particular destaque aos dulitas entre as linhagens hanifaítas.[4]
História
Sua população combinava grupos nômades com comunidades sedentárias dedicadas principalmente ao cultivo de tamareiras e cereais. A principal cidade era Hajer (atual Riade), capital de Iamama, embora também controlassem Ajau, posteriormente conhecida como Alcadirama, além de numerosas aldeias, vales e povoados distribuídos pela região.[1] Fred Donner enfatiza particularmente o caráter sedentário dos hanifaítas e a importância de sua base agrícola, observando que dominavam os oásis cerealíferos da Iamama, que constituíam um dos centros agrícolas mais produtivos de toda a Península Arábica. Apesar da relativa escassez de informações sobre a tribo nas fontes genealógicas, Donner considera que, às vésperas do Islã, os hanifaítas estavam indiscutivelmente entre as tribos mais poderosas da península.[4] Segundo a tradição preservada pelas fontes árabes, os hanifaítas migraram do Hejaz para Iamama após o desaparecimento da antiga população de Tasme, estabelecendo-se definitivamente na região. Embora originalmente aliados ao restante dos bacritas, romperam essa associação nos últimos anos da Guerra de Albaçus e passaram a aliar-se aos taglibitas, reconhecendo a suserania do Reino Lácmida de Hira. Em consequência dessa mudança de alianças, não participaram da Batalha de Di Car, travada entre outros ramos dos bacritas e os persas.[5]
Os hanifaítas participaram de diversos conflitos lembrados pela tradição dos Dias Árabes, entre eles as batalhas de Zar, Malame e Falaje. A proximidade com os lácmidas favoreceu suas relações com o Império Sassânida, e Donner considera que a tribo parece ter mantido vínculos com a própria casa reinante sassânida e participado intensamente do comércio transarábico.[4] Os hanifaítas escoltavam caravanas comerciais entre o Iêmem e o Iraque, enquanto a expansão de sua influência sobre a região compreendida entre Iamama e o Iraque provocou frequentes confrontos com os tamimitas. Durante esse período, a tribo era composta por comunidades pagãs e cristãs. As fontes registram um episódio simbólico segundo o qual alguns de seus membros, em época de fome, destruíram e consumiram um ídolo que haviam moldado com farinha e tâmaras. O governante mais destacado da fase final do período pré-islâmico foi Hauda ibne Ali, provavelmente cristão, que gozava de prestígio na corte sassânida e chegou a receber uma coroa em reconhecimento aos serviços prestados na proteção das caravanas persas.[5][6]
Antes da Hégira, representantes dos hanifaítas estiveram em Meca, onde Maomé os convidou a aceitar o islão, mas a proposta foi recusada. Após o Tratado de Hudaibia, Maomé renovou esse convite enviando Sulaite ibne Anre Alamiri como emissário a Hauda ibne Ali, governante de Iamama. Embora o recebesse cordialmente, Hauda voltou a rejeitar a conversão e permaneceu cristão até sua morte, ocorrida em 630.[1] Um dos primeiros chefes da tribo a abraçar o islão foi Tumama ibne Utal, capturado por muçulmanos em 628 quando se dirigia a Meca para realizar a umra. Libertado após converter-se, regressou a Iamama e, segundo a tradição, interrompeu o envio de cereais para os coraixitas de Meca, que dependiam da produção agrícola da região.[7] No décimo ano da Hégira (631), uma delegação dos hanifaítas chefiada por Salama ibne Hanzala visitou Medina, onde declarou sua adesão ao islão. Seus integrantes permaneceram durante alguns dias hospedados na residência de Ramla binte Alharite Anajaria, frequentaram a companhia de Maomé e aprenderam o Alcorão com Ubai ibne Cabe. Ao despedirem-se, receberam presentes de Maomé, que lhes recomendou demolir a igreja existente em sua terra e construir uma mesquita em seu lugar. Na mesma ocasião, Mujaa ibne Murara recebeu a concessão de uma propriedade acompanhada de um documento formal de doação.[6]
Durante a enfermidade que precedeu a morte de Maomé, a maior parte dos hanifaítas reuniu-se em torno de Muçailima, membro da própria tribo que reivindicava a condição de profeta. A tradição diverge quanto à participação de Muçailima na delegação enviada a Medina em 631, mas registra que Raal ibne Unfua, outro integrante da missão, regressou a Iamama afirmando que Maomé havia associado Muçailima à sua missão profética. Tendo aprendido o Alcorão e memorizado diversas suras durante sua permanência em Medina, Raal exerceu papel decisivo na adesão de grande parte da tribo ao movimento de Muçailima. Após a morte de Maomé, Abu Becre (r. 632–634) enviou um exército comandado por Calide ibne Alualide para subjugar os rebeldes. O confronto decisivo ocorreu na Batalha de Ácraba, também conhecida como Batalha de Iamama, na qual Muçailima foi derrotado e morto. Embora uma parcela dos hanifaítas permanecesse fiel a Tumama ibne Utal e combatesse ao lado das forças de Medina durante as Guerras da Apostasia, a maior parte da tribo participou da rebelião.[7] Donner destaca a intensidade da resistência oferecida pelos hanifaítas durante essas guerras e considera que ela constitui uma demonstração particularmente clara do poder que a tribo possuía às vésperas do Islã.[4] Com a derrota de Muçailima, os hanifaítas voltaram a reconhecer a autoridade do califado e readotaram o islão. A tentativa de restabelecer o movimento fracassou por falta de apoio, e a tribo permaneceu integrada ao Estado muçulmano, continuando a desempenhar papel relevante na história da Arábia durante os períodos posteriores.[6]
Referências
Bibliografia
- Donner, Fred McGraw (1980). «The Bakr B. Wā'il Tribes and Politics in Northeastern Arabia on the Eve of Islam». Studia Islamica (51): 5–38. JSTOR 1595370. doi:10.2307/1595370
- Kapar, Mehmet Ali (1997). «Hanîfe (Benî Hanîfe)». TDV İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 16. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi. p. 42. Consultado em 22 de julho de 2026
- Lecker, M. (2000). «Taghlib b. Wāʾil». In: Bearman, P. J.; Bianquis, Th.; Bosworth, C. E.; van Donzel, E.; Heinrichs, W. P. The Encyclopaedia of Islam, New Edition. X: T–U. Leida: E. J. Brill. pp. 89–93. ISBN 90-04-11211-1
- Watt, W. Montgomery (1998). «Ḥanīfa b. Ludjaym». In: Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopaedia of Islam, Second Edition. III: H–Iram. Leida: E. J. Brill. ISBN 978-90-04-07026-4
