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Taglibitas
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Os taglibitas (em latim: taglibitae), também conhecidos como Banu Taglibe (em árabe: بنو تغلب; romaniz.: Banu Taghlib) e Taglibe ibne Uail (تغلب بن وائل, Taghlib b. Wāʾil), foram uma importante tribo árabe rebiaíta, tradicionalmente incluída entre os nizaritas adenanitas. Descendiam de Taglibe ibne Uail, irmão de Becre, ancestral dos bacritas, com os quais mantiveram estreita relação genealógica e uma longa rivalidade. Originalmente beduínos estabelecidos no Négede e em outras regiões da Arábia, expandiram-se gradualmente para o norte, alcançando o Iraque, a Síria e sobretudo a Jazira, onde se concentraram em Diar Rebia, nas regiões de Moçul, Sinjar e Nísibis. Entre as maiores e mais poderosas tribos árabes da época pré-islâmica, estiveram sucessivamente envolvidos nas esferas de influência sassânida, quindaíta e lácmida e adotaram amplamente o cristianismo.
Os taglibitas desempenharam papel destacado nos conflitos tribais da Arábia pré-islâmica. Seu chefe Culaibe ibne Rebia alcançou supremacia entre grupos rebiaítas e modaritas, mas seu assassinato por Jassas ibne Murra desencadeou a prolongada Guerra de Albaçus contra os bacritas. Posteriormente participaram das disputas sucessórias do Reino de Quinda e combateram ao lado dos sassânidas contra os bacritas na Batalha de Di Car. Com o surgimento do islão, uma delegação taglibita visitou Maomé em 630, mas grande parte da tribo permaneceu cristã. Segmentos taglibitas resistiram inicialmente à expansão muçulmana e combateram nas fileiras sassânidas e bizantinas, enquanto outros aderiram aos conquistadores. Sob o califa Omar (r. 634–644), os taglibitas cristãos receberam um regime tributário especial que lhes permitiu conservar sua religião sem pagar a jizia na forma aplicada normalmente aos demais cristãos.
Durante os períodos omíada e abássida, os taglibitas conservaram importância política e militar, especialmente na Jazira. Em geral favoráveis aos omíadas, participaram da Segunda Guerra Civil Muçulmana e travaram prolongados conflitos com os caicitas, enquanto diversos membros da tribo posteriormente exerceram governos e comandos militares sob os abássidas. A islamização da tribo ocorreu gradualmente e tornou-se mais ampla no século IX. Seu ramo politicamente mais destacado na fase posterior foram os hamadânidas, que no século X estabeleceram dinastias em Moçul e na Jazira sob Nácer Adaulá e no norte da Síria sob Ceife Adaulá, fazendo dos descendentes dos taglibitas uma das principais potências regionais do período.
Origens
Os taglibitas foram originalmente uma tribo beduína (árabe nômade) que habitava o Négede.[1] Seu nome derivava de seu ancestral epônimo, Taglibe ibne Uail, cujo nome original teria sido Ditar; segundo a tradição genealógica, seu pai lhe teria dado o nome Taglibe como expressão do desejo de que triunfasse sobre seus inimigos.[2] Pertenciam ao grande agrupamento dos rebiaítas e, por meio de Rebia, eram incluídos pelos genealogistas no ramo nizarita dos adenanitas. Segundo a genealogia registrada por Lecker, sua linhagem remontava por Uail ibne Cacite ibne Himbe ibne Afexa ibne Dumi ibne Jadila ibne Açade ibne Rebia ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Becre, irmão de Taglibe e ancestral epônimo dos bacritas, era igualmente filho de Uail, razão pela qual as duas tribos eram tradicionalmente consideradas irmãs.[3] Kindermann também situa bacritas e taglibitas entre os principais agrupamentos da descendência de Uail no ramo rebiaíta.[4] Apesar dessa proximidade genealógica, as duas tribos mantiveram uma longa rivalidade entre si.[3]
A informação sobre os ramos taglibitas foi em grande parte baseada nos registros do genealogista taglibita pré-islâmico Alaquezar ibne Suaima.[5] Taglibe ibne Uail teve três filhos, Ganme, Inrane e Auce, embora sua descendência tenha se perpetuado sobretudo através de Ganme. Na literatura genealógica árabe, apenas os descendentes de Ganme são discutidos extensivamente. De Ganme vieram os alaracimitas (Alaracime), descendentes dos seis filhos de Becre ibne Hubaibe ibne Anre ibne Ganme — Juxame, Maleque, Anre, Talaba, Alharite e Moáuia —, que constituíram os principais ramos da tribo.[6][2] Segundo a tradição, todos possuíam olhos semelhantes aos de araqim (cobras salpicadas, sing. al-Arqam), de onde teria derivado a denominação coletiva.[7] Os alaraquimitas foram o grupo mais importante dos taglibitas, e grande parte da história genealógica da tribo concentra-se neles. Suas seis divisões eram os juxamitas, a maior, os malequitas, a segunda maior, os anritas (Anre), talabaítas (Talaba), alharititas (Alharite) e moauiaítas (Moáuia). Devido a seu tamanho e força, os juxamitas e malequitas eram coletivamente denominados arraucanitas (al-Rawkān), "os dois cornos" ou "as duas companhias mais numerosas e fortes", enquanto os anritas, a menor divisão dos alaracimitas, eram conhecidos como anacabicaítas (an-Nakhābiqa).[6]
Da divisão juxamita veio o ramo zuairita (Zuair), do qual descendia grande parte das subtribos taglibitas, incluindo as linhagens atabita (Atabe), otebaíta (Oteba), itebanita (Itebane), aufita (Aufe) e cabita (Cabe), fundadas pelos filhos epônimos de Sade ibne Zuair ibne Juxame. Os atabitas, otebaítas e itebanitas formavam os alutabitas (Alutabe), enquanto os aufitas e cabitas constituíam os alauaditas (Banu Alauade). Outro importante ramo zuairita eram os alharititas, cujo ancestral epônimo era um filho de Murra ibne Zuair.[6] Entre outras subdivisões importantes dos taglibitas, Avcı menciona os xubaítas (Banu Xuba) e os hamedanitas (Banu Hamedane).[2] A divisão malequita também compreendia numerosos grupos tribais, entre eles os alazimitas (descendentes de Aufe ibne Maleque), alabenaítas (descendentes de Rebia, Aide e Inru Alcaice, filhos de Time ibne Uçama ibne Maleque), alcuritas (descendentes de Maleque e Alharite, filhos de Maleque) e Rixe Alubara (descendentes de Cuaine ibne Maleque).[6] A dinastia hamadânida remontava sua ascendência à divisão malequita através de seu ancestral Adi ibne Uçama ibne Maleque.[8][9]
História
Período pré-islâmico
Na era pré-islâmica, os taglibitas estiveram entre as maiores e mais poderosas tribos beduínas da Arábia, sendo particularmente conhecidos por sua capacidade guerreira. Seu elevado grau de solidariedade tribal refletia-se nas grandes formações que organizavam durante as batalhas.[6] Originalmente estabelecidos em Tiama, espalharam-se posteriormente pelo Hejaz, Négede e Barém e, num processo que prosseguiu depois do advento do islã, migraram para o norte, alcançando o Iraque, a Síria e a Jazira, sobretudo Diar Rebia, nas regiões de Moçul, Sinjar e Nísibis. Essa expansão colocou-os em contato com os impérios Bizantino e Sassânida e com seus respectivos aliados árabes, os gassânidas e lácmidas. Já no século IV, os taglibitas encontravam-se na esfera de influência sassânida. Durante o reinado do xá Sapor II (r. 309–379), territórios da tribo foram atacados durante uma campanha do soberano na região da Síria, e numerosos taglibitas foram capturados e transferidos para Darim, Barém e regiões próximas.[5] Nos séculos V e VI, os taglibitas estiveram submetidos ao Reino de Quinda, que dominava partes da Arábia Central e Setentrional, e auxiliaram o rei quindaíta Alharite ibne Anre Alquindi (r. 498–528) a estabelecer seu domínio sobre Hira em 525.[2]
No mesmo período, os taglibitas desempenharam papel destacado nos conflitos entre as tribos do norte da Arábia. Sob a liderança de Culaibe ibne Rebia, chefe taglibita, os rebiaítas e modaritas derrotaram forças associadas ao domínio iemenita no Dia de Cuzaz, vitória após a qual Culaibe foi reconhecido como líder dessas tribos. Segundo a tradição, seu comportamento posterior provocou crescente oposição, e Culaibe acabou assassinado por seu cunhado Jassas ibne Murra, destacado membro dos bacritas, depois que Culaibe feriu uma camela pertencente a Albaçus binte Munquide, tia de Jassas, por esta ter entrado em suas pastagens.[2] O assassinato desencadeou a Guerra de Albaçus, um dos mais célebres conflitos dos Dias Árabes, travado entre taglibitas e bacritas durante várias décadas. O irmão de Culaibe, Almualhil, poeta e guerreiro, assumiu a liderança taglibita e procurou vingar sua morte. O conflito terminou com uma derrota decisiva dos taglibitas no Dia de Taaluque Alimame, após a qual grande parte da tribo deixou o Négede em direção ao baixo Eufrates, embora alguns taglibitas já estivessem estabelecidos nessa região.[5] Segundo Avcı, a paz foi finalmente estabelecida por intervenção do rei lácmida Almondir III (r. 503–554), mediante um acordo celebrado entre as duas tribos em Dulmajaz.[2]
A disputa entre taglibitas e bacritas também se entrelaçou às lutas pela sucessão no Reino de Quinda. Quando Alharite ibne Anre perdeu o controle de Hira e dividiu seus domínios entre seus filhos, Xurabil recebeu autoridade sobre os bacritas, enquanto Salama foi designado rei dos taglibitas. Após a morte de Alharite, a rivalidade entre os dois irmãos levou as respectivas tribos a combaterem em lados opostos. No Primeiro Dia de Culabe, travado em 530 numa localidade entre Cufa e Baçorá, Xurabil foi morto pelo taglibita Abu Hanixe Uçaime ibne Anumane. Os taglibitas posteriormente voltaram a apoiar os lácmidas quando estes recuperaram o controle de Hira.[2] Em período posterior, os taglibitas migraram mais ao norte ao longo do Eufrates em direção à Alta Mesopotâmia depois que seu chefe Anre ibne Cultume, da divisão juxamita, matou o rei lácmida Anre ibne Hinde em 568.[5] Já no século VIII, chefes tribais taglibitas celebravam Anre ibne Cultume como um dos mais proeminentes árabes da era pré-islâmica, destacando suas habilidades poéticas, seus confrontos com os reis de Hira e seus feitos nas guerras contra os bacritas.[10] Pouco antes do surgimento do islã, taglibitas e bacritas voltaram a combater em campos opostos na Batalha de Di Car, na qual os taglibitas se alinharam aos sassânidas contra os bacritas.[6][2] Segundo Fred Donner, os taglibitas figuravam, juntamente com os iaditas e os anamiritas, entre os contingentes tribais iraquianos que integravam o exército sassânida enviado de Hira.[11]
Período muçulmano inicial
A influência política taglibita recuou consideravelmente durante o advento do islão no século VII. Embora sua distância de Meca e Medina tenha limitado sua participação nos primeiros acontecimentos relacionados à expansão da nova religião, os taglibitas estabeleceram contato direto com Maomé ainda durante sua vida. No nono ano da Hégira (630), uma delegação de dezesseis membros da tribo dirigiu-se a Medina e reuniu-se com Maomé. Parte de seus integrantes converteu-se ao islão, enquanto os que desejavam permanecer cristãos solicitaram autorização para conservar sua religião; segundo a tradição citada por Avcı, Maomé consentiu sob a condição de que seus filhos não fossem batizados. Após a morte de Maomé, segmentos dos taglibitas apoiaram durante as Guerras da Apostasia (632–633) a profetisa Sajá, que reivindicou a condição de profeta na Jazira e que, segundo uma tradição, possuía ascendência materna taglibita. Durante as primeiras conquistas muçulmanas, taglibitas cristãos combateram nas fileiras dos exércitos sassânida e bizantino. Depois da conquista de Ambar, em 12 A.H. (633–634), Calide ibne Alualide infligiu uma pesada derrota aos numairitas, taglibitas e iaditas que apoiavam as forças sassânidas. Em sua marcha posterior em direção à Síria, Calide também combateu um contingente de taglibitas apóstatas reunido sob o comando de Rebia ibne Bujair, enviando os despojos e prisioneiros capturados ao califa Abu Becre (r. 632–634).[2] Entre os grupos taglibitas que combateram os muçulmanos no Iraque e na Alta Mesopotâmia encontrava-se particularmente a linhagem otebaíta do ramo zuairita. Uma filha de Rebia ibne Bujair, chamada Ume Habibe, foi levada cativa e enviada a Medina, onde foi adquirida por Ali, de quem teve os gêmeos Omar Alquibir e Rucaia.[6]
Em algum momento durante as conquistas, segmentos dos taglibitas passaram para o lado muçulmano, embora grande parte da tribo conservasse sua fé cristã. Entre os taglibitas que aderiram aos conquistadores destacou-se Oteba ibne Aluagle, da linhagem sadita da divisão juxamita, que posteriormente atuou em Cufa, onde também se estabeleceram numerosos combatentes taglibitas.[6] Após a conquista da Jazira durante o califado de Omar (r. 634–644), os taglibitas que ali viviam aceitaram submeter-se ao domínio muçulmano desde que pudessem permanecer cristãos, mas recusaram-se a pagar a jizia, que consideravam humilhante. Diante da possibilidade de que migrassem para território bizantino, Omar concedeu-lhes um regime fiscal excepcional, determinando que pagassem, em lugar da jizia, um tributo correspondente ao dobro da taxa do zacate cobrada dos muçulmanos. O acordo também estabelecia que não batizassem seus filhos e não impedissem aqueles que desejassem converter-se ao islão.[2] Essa acomodação assegurou aos taglibitas cristãos uma situação tributária distinta daquela aplicada normalmente aos demais súditos cristãos do califado.[12] Durante a Primeira Guerra Civil Muçulmana (656–661), os taglibitas apresentaram novamente lealdades divergentes. Membros da tribo combateram ao lado de Ali na Batalha do Camelo, em 656, e na Batalha de Sifim, em 657, mas uma força taglibita considerável também lutou em Sifim ao lado de Moáuia I, circunstância que provocou a ira de Ali contra a tribo.[13] Avcı confirma a presença de taglibitas entre os partidários de Moáuia em Sifim e menciona entre eles o poeta Cabe ibne Juail, que se tornou poeta de Moáuia.[2]
Período califal
A permanência de grande parte dos taglibitas no cristianismo e sua proximidade geográfica com o Império Bizantino são apontadas por Lecker como prováveis razões para que membros da tribo não recebessem cargos de grande importância durante boa parte do período omíada.[13] Politicamente, contudo, os taglibitas foram em geral favoráveis aos omíadas. Durante a Segunda Guerra Civil Muçulmana (680–692), combateram no exército de Iázide I (r. 680–683) na Batalha de Harra, em 63 A.H. (683), e no de Maruane I na Batalha de Marje Raite, em 64 A.H. (684). No conflito entre as tribos iemenitas e caicitas que acompanhou a guerra civil, os taglibitas apoiaram inicialmente os caicitas contra os calbitas, mas romperam posteriormente com seus antigos aliados, depois que os soleimitas atacaram seus assentamentos no vale do Cabur com a sanção de Abedalá ibne Azobair. O conflito com os caicitas parece ter favorecido uma reconciliação entre taglibitas e bacritas. O chefe taglibita Amame ibne Mutarrife assegurou a paz e a aliança entre as duas tribos mediante compensação pelas perdas sofridas pelos bacritas em Di Car, enquanto outro chefe, Abede Iaçu, atuou como emissário conjunto de taglibitas e bacritas junto ao califa Abedal Maleque ibne Maruane (r. 685–705). Os confrontos entre taglibitas e caicitas prosseguiram na Jazira, com vitórias alternadas, até que contingentes nômades e sedentários dos taglibitas se reuniram sob o comando de Ibne Haubar junto ao rio Haxaque. O combate ali travado em 70 A.H. (689), conhecido como Dia de Alhaxaque, Dia de Aráquime ou Dia de Sinjar, terminou com uma grande vitória taglibita e a morte do chefe soleimita Omeir ibne Hubabe.[2] Os taglibitas enviaram a cabeça de Omeir a Abedal Maleque, que recebeu favoravelmente a notícia da morte do líder rebelde.[13] A vitória, contudo, não encerrou o conflito: num confronto posterior em Cuail, a oeste do Tigre, nas terras de Moçul, os taglibitas sofreram uma pesada derrota diante dos caicitas.[2] O antagonismo entre os dois grupos também encontrou expressão na poesia: o taglibita Alactal, poeta oficial da corte de Abedal Maleque e defensor dos omíadas, travou uma célebre rivalidade poética com o caicita Jarir ibne Atia.[14] Já no final do período omíada, o califa Maruane II (r. 744–750) nomeou o taglibita Hixame ibne Anre ibne Bistame, descendente de Açafá, governador de Moçul e da Jazira.[13][15]
Membros dos taglibitas continuaram a exercer funções administrativas e militares sob os abássidas. O califa Almançor (r. 754–775) nomeou Hixame ibne Anre governador de Sinde em 151 A.H. (768), enquanto, no reinado de Almadi (r. 775–785), seu irmão Bistame ibne Anre exerceu sucessivamente os governos de Sinde e do Azerbaijão. Ambos eram muçulmanos. Em 177 A.H. (793), outro taglibita muçulmano, Abede Arrazaque ibne Abede Alhamide, comandou uma expedição abássida contra o território bizantino. No início do século IX, a linhagem de Adi ibne Uçama, da divisão malequita e conhecida como Adi Taglibe ou Aladáuia, adquiriu particular projeção política na Jazira. Um de seus membros, Haçane ibne Omar ibne Alcatabe, foi nomeado governador de Moçul pelo califa Alamim (r. 809–813) em 197 A.H. (812–813) e, segundo Avcı, fundou algum tempo depois a cidade de Jazira ibne Omar. Durante o reinado de Almamune (r. 813–833), Tauque ibne Maleque, descendente do poeta Anre ibne Cultume e ligado por casamento a Haçane, recebeu o governo de Diar Rebia.[13] Seu filho Maleque ibne Tauque exerceu os governos do Junde de Damasco e do Junde de Alurdune durante os califados de Aluatique (r. 842–847) e Almotauaquil (r. 847–861) e fundou a cidade fortificada de Arraba, no Eufrates.[16] Mais tarde, em 261 A.H. (875), Quidre ibne Amade Ataglibi foi nomeado governador de Moçul pelo califa Almutâmide (r. 870–892).[15]
A conversão dos taglibitas ao islamismo ocorreu de maneira gradual. Durante o período omíada e o início do período abássida, apenas pequenos grupos da tribo abraçaram a nova religião, entre eles uma pequena comunidade taglibita estabelecida em Cufa, alguns indivíduos de Quinacerim e figuras de destaque, como os poetas cortesãos omíadas Cabe ibne Juail e Omeir ibne Xiaime. A grande maioria dos taglibitas permaneceu cristã durante esse período. No século IX, contudo, as conversões tornaram-se mais numerosas, coincidindo com a ascensão de diversos taglibitas muçulmanos a altos cargos no Estado abássida.[13] A conversão em larga escala da tribo parece ter ocorrido em meados do século IX, durante ou aproximadamente na época do califado de Almotácime (r. 833–842). Nesse mesmo período, Maleque ibne Tauque teria persuadido Sal ibne Bixer, bisneto de Alactal, a abraçar o islão juntamente com todos os demais descendentes do poeta.[8]
Dinastia hamadânida
No século IX, os hamadânidas, um ramo dos taglibitas estabelecido em Moçul, adquiriram crescente importância política e militar a serviço dos abássidas, destacando-se particularmente nas campanhas contra carijitas e cármatas.[15] Na década de 880, Hamadane ibne Hamadune, membro da linhagem Adi Taglibe e ancestral epônimo da dinastia, aderiu à Rebelião Carijita contra o poder abássida. Hamadane controlava então diversas fortalezas na Jazira, entre elas Mardim e Ardumuste. Em 895, porém, as forças do califa Almutadide (r. 892–902) tomaram Mardim, enquanto seu filho Huceine entregou Ardumuste e passou para o lado do califa. Hamadane acabou rendendo-se nas proximidades de Moçul e foi preso, mas os serviços prestados por Huceine a Almutadide asseguraram-lhe posteriormente o perdão. Huceine comandou ou participou de campanhas abássidas contra os duláfidas, cármatas e tulúnidas durante o reinado de Almoctafi (r. 902–908), mas caiu em desgraça depois de participar da tentativa de colocar Abedalá ibne Almutaz no trono em 908. Seus irmãos Abu Alhaija Abedalá, Ibraim, Daúde e Saíde permaneceram leais aos abássidas e receberam sucessivamente importantes governos na Jazira: Abu Alhaija governou Moçul em 905–913 e 914–916, Ibraim foi governador de Diar Rebia em 919 e Daúde ocupou o mesmo cargo em 920. Huceine foi posteriormente perdoado e nomeado governador de Diar Rebia em 910, mas voltou a rebelar-se, sendo capturado e executado em 916. Abu Alhaija, por sua vez, reassumiu o governo de Moçul em 920 e permaneceu no cargo até sua morte, em 929.[17]
Após a morte de Abu Alhaija, seu filho Nácer Adaulá, que já governara Moçul como representante do pai, disputou o controle da cidade com seus tios Saíde e Nácer, com os habibitas, um clã taglibita rival, e com o califa Almoctadir (r. 908–932). Por volta de 935, conseguiu prevalecer sobre seus adversários e foi reconhecido pelo califa Arradi (r. 934–940) como governador de Moçul e das três grandes províncias da Jazira — Diar Rebia, Diar Modar e Diar Baquir. Em 942, tornou-se o governante efetivo do Califado Abássida, mas foi derrubado no ano seguinte pelo comandante turco Tuzum. Nácer Adaulá conservou Moçul e a Jazira até ser deposto por seus próprios filhos em 967, e o domínio hamadânida sobre a região perdurou até 1002.[18] Paralelamente, seu irmão Ceife Adaulá estabeleceu em 945 o Emirado de Alepo, que abrangia Alepo e grande parte do norte da Síria.[19] Seus descendentes conservaram o emirado até 1002, quando foram depostos pelo gulam Lulu, o Velho.[20] Dessa forma, os hamadânidas, originários dos taglibitas, estabeleceram durante o século X dinastias governantes tanto em Moçul e seus arredores quanto no norte da Síria.[15]
Referências
- ↑ Lecker 2000, pp. 89–90.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Avcı 2010, p. 374.
- 1 2 Lecker 2000, p. 89.
- ↑ Kindermann 1995, p. 352.
- 1 2 3 4 Lecker 2000, p. 90.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Lecker 2000, p. 91.
- ↑ Ibne Abede Rabi 2011, pp. 265–266.
- 1 2 Lecker 2000, p. 93.
- ↑ Ibne Calicane 1842, p. 404.
- ↑ Blachère 1960, p. 452.
- ↑ Donner 1980, p. 28.
- ↑ Lecker 2000, pp. 91–92.
- 1 2 3 4 5 6 Lecker 2000, p. 92.
- ↑ Blachère 1960, p. 331.
- 1 2 3 4 Avcı 2010, p. 375.
- ↑ Lecker 2000, pp. 92–93.
- ↑ Canard 1971, p. 126.
- ↑ Canard 1971, p. 127.
- ↑ Canard 1971, p. 129.
- ↑ Canard 1971, p. 130.
Bibliografia
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