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Lenda do boto
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A lenda do boto narra que um boto-cor-de-rosa sai dos rios da Amazônia nas noites de festa para se transformar em um homem elegante, seduzir moças e retornar às águas antes do amanhecer.
Essa lenda do folclore brasileiro tem origem indígena com influência portuguesa na região Norte do Brasil e é geralmente contada para justificar a gravidez inexplicável de uma mulher solteira ou adúltera.
Origem
Os uiaras (do tupi ‘yîara, de ‘y, “água”, + îara, “dono(a), senhor(a)”, “donos ou senhores das águas”) são parte de um grupo maior de gênios protetores de elementos da natureza e da sociedade tupi-guarani, como água, plantas, minerais, animais, sentimentos, etc., chamados îaras. Dessas criaturas originaram-se, em meados do século XIX, as lendas do boto sedutor (que os indígenas amazônicos já identificavam como um ser capaz de alternar entre forma humana e cetácea, como no mito aruaque do herói cultural Poronominare [ajudando-o a curar seu escroto picado por formigas e a encurtar seu longuíssimo pênis], e chamavam-no, em tupi, de “uiara”, entre outros nomes) e da iara com características da sereia européia, inexistentes nos registros coloniais e desconhecidos pelos indígenas. O caráter sedutor de ambos e a forma sirênica da última são, segundo Câmara Cascudo, contribuições portuguesas.[1]
Diz-se que o boto tem o poder de se metamorfosear tanto em homens como em mulheres, brancos (às vezes também negros), para seduzir as pessoas à beira dos rios em noites de luar. Cascudo crê que o caráter sedutor do boto amazônico seja herança trazida pelo europeu e seu golfinho mediterrâneo, que, nas antigas lendas greco-romanas, contudo, tem predileção por rapazes em vez de moças, e é associado a Afrodite e a Vênus, as deusas grega e romana do amor e da sedução.[1]
A lenda
Os botos ou uiaras são animais carnívoros cetáceos que vivem nos rios amazônidos e que, segundo a lenda, durante as festas juninas ou em noites de luar, aparece transformado em um belo rapaz, elegantemente vestido de branco e sempre com um chapéu a cobrir a grande narina que não desaparece do alto de sua cabeça com a transformação, seduzindo as jovens moças, solteiras ou não.[carece de fontes]
Esse rapaz seduz as moças desacompanhadas, levando-as para o fundo do rio e, em alguns casos, engravidando-as. Por essa razão, quando um rapaz desconhecido aparece em uma festa usando chapéu pede-se que ele o tire para garantir que não seja um boto. Daí vem o costume de dizer, quando uma mulher tem um filho de um pai desconhecido, que ele é "filho do boto".[carece de fontes]
O boto seduz as moças ribeiri-nhas aos principais afluentes do rio Amazonas e é o pai de todos os filhos de responsabilidade desconhecida. Nas primeiras horas da noite transforma-se num bonito rapaz, alto, geralmente branco, forte, grande dançador e bebedor, e aparece nos bailes, namora, conversa, frequenta reuniões e comparece fielmente aos encontros femininos. Antes da madrugada pula para água e volta a ser o boto.[1]
José Carvalho (1930) conta dois casos tradicionais do Pará: Em um baile no igarapé dos Currais apareceram dois moços, alvos, bonitos e desconhecidos. Dançaram e beberam muito. Antes, porém, de amanhecer, eles desapareceram eles. A casa em que dançavam ficava distante do rio; mas no meio do caminho havia um poço com pouca água. Com o dia, viram que nesse poço estavam dois botos. Os moradores e convidados arpoaram-nos, puxaram-nos para terra e os mataram. Partiram as cabeças dos mesmos, donde exalou o cheiro de pura cachaça.[2]
Carvalho conta em seguida o outro caso: No Cachoeiri moravam duas moças órfãs, visitadas durante a noite por dois desconhecidos vestidos de branco. Desconfiaram que os namorados eram botos, e outros dois homens armaram-se de arpões de inajá (porque os de aço são inapropriados para isso) e esperaram a noite. Apareceu apenas um dos rapazes misteriosos. Atiraram-no com três arpões e o moço conseguiu alcançar o rio e jogar-se para dentro d'água, mergulhando. No outro dia apareceu boiando, morto, um grande boto, com três arpões de inajá fincados no dorso.[3]
Um dos observadores iniciais da lenda foi o naturalista e explorador inglês Henry Walter Bates, que ficou onze anos (1848-59) na região amazônica estudando fauna e flora. Bates, descrevendo o boto, alude à superstição amatória: "Muitas histórias misteriosas são referidas acerca do boto, como é chamado o golfinho maior do Amazonas. Uma delas era de que o boto tinha o hábito de assumir a forma de uma bela mulher, com os cabelos pendentes até os joelhos, e saindo à noite, a passear nas ruas de Ega, encaminhar os moços até ao rio. Se algum era bastante afoito a segui-la até a praia, ela segurava a vítima pela cintura e a mergulhava nas ondas com um grito de triunfo. Nenhum animal do Amazonas é sujeito a tantas fábulas quanto o boto; é provável que isso não se originasse dos índios, mas dos colonos lusitanos."[4] (Tradução de Câmara Cascudo.[1])
Num encontro entre as lendas da iara e do boto, diz-se que ela pode transformar uma pessoa nesse animal após a morte, se ela foi, em vida, "abençoada" pelo boto: quando uma pessoa vai à margem do rio, ao sol da manhã ou da tarde, deixando a sombra refletir num perau (declive no leito de um rio), se um boto-vermelho, nessa ocasião, passar-lhe sob a sombra, isto é, cortá-la, ficará "botada"; mas para que a pessoa botada fique encantada, é preciso que, depois de morta, seja o seu corpo posto à mercê das águas, e que seja posto por qualquer parente ou amigo, pois Iara há de transformá-lo em boto-vermelho.[5]
Deus dos peixes
Couto de Magalhães registrou que entre os indígenas amazônicos há um deus de nome Uauiará (Uauyará), um dos quatro deuses menores guardiões dos animais sob o comando de Guaraci, o deus Sol, e os peixes estão sob a sua proteção. Uauiará se transforma no boto para melhor cuidar de seus protegidos, e, muito namorador, assume a forma humana para se divertir nas festas à beira dos rios em noites de lua cheia, seduzindo as moças, e muitas delas lhe atribuem o seu primeiro filho.[6]
Amuleto
O olho do boto, seco, é um amuleto de incrível eficácia amorosa. Não há homem ou mulher que resista sendo olhado(a) através de um olho de boto, preparado pelos processos da pajelança amazônica. José Carvalho escreveu: "Um caboclo, no porto de Alenquer, foi a bordo de um gaiola (barco a vapor) vender seu olho de boto, preparado com todas as regras do rito do pajé, e ofereceu-o ao comandante. — Para que serve? perguntou este. — Ora, 'seu' comandante, para amores! E explicou: — É só olhar para a pequena por esta 'cajila', e ela fica logo... entregue! O comandante pegou no olho de boto e, sem segunda intenção, ocasionalmente, olhou, por ele, para o caboclo. E este, se remexendo todo, sorrindo, revirando os olhos, voz afeminada, explanou: — Deixe disso, 'seu' comandante! Diante dessa evidência, dessa prova fulminante, o comandante comprou a 'cajila', e comprou-a cara!".[7]
Questão social
A lenda do boto é frequentemente associada à realidade social da região amazônica como uma forma de encobrir ou camuflar casos de violência e abuso sexual, especialmente contra crianças e adolescentes. A narrativa folclórica que descreve o boto transformando-se em um homem galanteador que seduz mulheres e as engravida é usada simbolicamente para justificar a paternidade desconhecida ou a violência sexual, transferindo a culpa do agressor (humano) para uma entidade sobrenatural.[8]
Nas mídias
Essa lenda foi contada no cinema no filme Ele, o Boto (1987), com Carlos Alberto Riccelli no papel principal.
Na telenovela A Força do Querer (2017), a protagonista Ritinha (Isis Valverde) era, segundo sua mãe Edinalva (Zezé Polessa), filha do Boto (João Sabiá).[9]
Em 2021, Victor Sparapane fez o papel de Manaus da Silva, um encantado que podia mudar entre as formas de boto e de homem, na primeira temporada da série de televisão Cidade Invisível da Netflix.[10]
Ver também
Referências
- 1 2 3 4 CASCUDO, 1988, pp. 140-142.
- ↑ CARVALHO, 1930, p. 26.
- ↑ CARVALHO, 1930, p. 27.
- ↑ BATES, Henry Walter. The naturalist on the River Amazons. London: J. Murray, 1892. p. 309.
- ↑ CASCUDO, 1988, p. 139
- ↑ Magalhães, Couto de (1876). O Selvagem. Rio de Janeiro: Typographia da Reforma. p. 137.
- ↑ CARVALHO, 1930, p. 61.
- ↑ «Lenda do boto esconde histórias de violência sexual, relata juíza». Agência Brasil. 8 de março de 2018. Consultado em 3 de dezembro de 2025. Cópia arquivada em 17 de fevereiro de 2026
- ↑ «Edinalva revela quem é o pai de Rita em 'A Força do Querer'». Rio de Janeiro: Gshow. 28 de setembro de 2020. Consultado em 3 de outubro de 2020. Cópia arquivada em 21 de janeiro de 2025
- ↑ Pedro Permuy (25 de fevereiro de 2021). «Cidade Invisível: Victor Sparapane espera fazer o boto na 2ª temporada». A Gazeta. Consultado em 2 de abril de 2023. Cópia arquivada em 2 de abril de 2023
Bibliografia
- CARVALHO, José. O matuto cearense e o caboclo do Pará: contribuição ao folk-lore nacional. Belém: Officinas Graphicas Jornal de Belém, 1930.
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6. ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1988. xxiv, 812 p. (Coleção Reconquista do Brasil, 2. série, v. 151).
