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Guaraci
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| Quaraci | |
|---|---|
Quaraci começando o dia sobre o Rio de Janeiro, região antes habitada por povos tupis (tamoios/tupinambás e temiminós) | |
| Outro(s) nome(s) | Cuaraci • Coaraci • Coraci • Gorazi • Guaraci • Guaracy • Kuarahy • Koarahý • Kwarahy • Kuará • Kuadï • Kwat[1] • Mairaíra[2][3] • Nhande Ryke'y[4][5] • Nhamandu[6][7] • Nhamandu Mirim[7] |
| Nome nativo | Kûarasy • Kuaray |
| Morada | Zênite[5] (Ibaque) |
| Clã | Maíras; Nhanderus |
| Arma(s) | Arco e Flecha |
| Genealogia | |
| Pais | Mairatã[4] Nhanderu/Nhanderuvuçu/Nhamandu[8][5] e Nhandeci[9] |
| Irmão(s) | Jaci Nhamandu Caraí Jacairá Tupã |
Quaraci[10] (do tupi Kûarasy[11]) ou Quaraí[12] (do guarani Kuaray[13]) é o deus Sol na religião e mitologia tupi-guarani, o principal regulador da vida na Terra.[6] Ele é o irmão gêmeo mais velho de Jaci, o deus Lua.
Etimologia
“Kuarasy” é possivelmente herdado do proto-tupi-guarani *kʷarat͡ʃɨ (derivando *kʷaT, donde Kwat, e *kʷar-atsy, donde Kûarasy), formado pela junção dos termos *kʷar (“sol”) e *t͡ʃɨ (“mãe”), “mãe/origem do sol”.[14] Sy, de fato, tanto pode significar “mãe” como também “origem, início” (Kó pytuna ri sy-ari. — “Nesta noite tomou início.”),[15] indicando que a sua ocorrência num nome ou palavra não necessariamente signifique se tratar de um ente feminino.
O nome do Sol tupi-guarani comporta uma grande variação de grafias, de acordo com a língua de cada povo do tronco tupi.[1]
O militar, etnólogo e folclorista brasileiro Couto de Magalhães foi o primeiro a propor uma etimologia do nome Guaracy dos tupis do norte ou Cuaracy dos tupis do sul (guaranis), como ele diz em sua obra O Selvagem (1876), dizendo ser "mãe (cy) dos viventes (guara)" em tupi.[16] É possível que ele preferisse a forma “Guaracy”, e ele foi o primeiro a grafar o nome do deus com a inicial “G”, porque se encaixava melhor na etimologia por ele proposta, embora a forma “Cuaracy”, que ele também reconhece, fosse mais próxima do nome tupi original, Kûarasy.
O pesquisador paraguaio León Cadogan (1959) sugere que o nome Kuarahy ou Kuaray (“Sol” em guarani) significaria “a manifestação da sabedoria e do poder criativo (do Ser Supremo)”, de kuaá = “saber”, ra = “criar”, 'y = “coluna, mastro, manifestação”.[17]
Luís da Câmara Cascudo registra em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1988) o nome “Coaraci”, embora mencione também as variações Coraci no Pará e Guaraci no baixo Amazonas, mas apresenta uma etimologia diferente da proposta por Magalhães: viria de coá (“este”) ara (“dia”) ci (“mãe”), “mãe deste dia”, “mãe do dia”, a explicação da origem da luz diurna.[18] Eduardo Navarro repete a etimologia dada por Cascudo em seu Dicionário de tupi antigo (2013), mas evita usar a palavra “mãe”, preferindo o sentido de “origem” para a palavra sy, “origem deste dia”.[11]
O pesquisador argentino Héctor A. Keller (2013) sugere que Kuara'y (“Sol” em mbyá-guarani moderno) viria de kuaa ra'y, "filho sábio" ou "filho da sabedoria".[19]
Descrição
A provável menção mais antiga registrada de Quaraci é do frade franciscano e cosmógrafo francês André Thevet, que viajou ao Brasil em 1550 e 1554. Caroubsoux (pronúncia aproximada: Karru[b]sú) é o termo usado por ele para se referir ao Sol segundo a mitologia dos tupinambás, em sua transcrição fonética do francês.[20][21]
Na publicação de 1557 de Duas Viagens ao Brasil, o mercenário alemão Hans Staden registrou, tentando adaptar a fala tupi à escrita alemã, o nome Quora Oss (pronúncia aproximada: [K]vorra-óss) para o Sol, mas sem se referir a seu caráter divino.[22]
Outra das mais antigas menções a Quaraci e Jaci é nos poemas líricos religiosos do padre jesuíta espanhol José de Anchieta, chegado ao Brasil em 1553, como o “Da Conceição de Nossa Senhora” (década de 1560), onde ele usa os nomes kûarasy e îasy para o sol e a lua, mas sem apresentar os astros celestes como deuses (no mesmo poema ele usa “Tupan” como nome do deus cristão e “Anhanga” como o diabo, ignorando a mitologia nativa).[23]
Ainda no mesmo século, em Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dite Amérique (História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, Também Chamada América) publicado em 1578, o pastor, missionário e escritor francês Jean de Léry registra os nomes Couarassi para o Sol e Jasce ou Iasce para a Lua, mas, igual a seus predecessores, também não lhes atribui personalidade.[24]
No livro Histoire de la mission des pères Capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisins (História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circunvizinhanças, 1614), o religioso e entomólogo francês Claude d'Abbeville grafou Koarassuh e Yasseuh/Yaseuh para o Sol e a Lua dos tupinambás, respectivamente. Contudo, d'Abbeville considerava que os mesmos não tinham religião por não ter encontrado templos ou ídolos de seus deuses.[25] Para ele, os tupinambás não consideravam o Sol e a Lua como divindades e, portanto, à mesma maneira dos cronistas cristãos antecessores, ele não lhes atribuiu agência.
Apesar de não reconhecer uma religião para os indígenas, d’Abbeville também registrou a importância do Sol para o calendário tupi: "Marcam ainda, e muito bem, o giro do Sol e o seu caminho entre os dois trópicos como limites, que não deve ultrapassar. Dizem que traz ventos e brisas quando vem do nosso polo Ártico, e chuvas quando volta-se do outro lado, em sua ascensão para nós. Contam muito bem os seus anos por doze meses pelo giro do Sol indo e vindo de um trópico a outro. Também conhecem esses meses pela estação das chuvas, das brisas e dos ventos, e da época dos cajus."[26]
Em O Selvagem (1876), Couto de Magalhães denomina Guaracy e Jácy (como ele grafa seus nomes) como "mãe dos seres viventes" e "mãe dos vegetais", respectivamente, como etimologias propostas de seus nomes, então geralmente se referindo a ambos os deuses como "mães",[16] embora em uma passagem ele se refira a Guaracy como “Deus” (com “D” maiúsculo),[27] mas não chama Jácy nem de deus e nem de deusa.
Para Magalhães, os chamados deuses superiores dos tupis são três: Guaracy, Jácy e Rudá ou Perudá, o deus do amor e da reprodução, tendo cada um deles outros deuses menores que lhe são subordinados. Os deuses submetidos a Guaracy, associados à vida animal, seriam: Uirapuru, protetor das aves; Anhanga, que cuida do destino da caça no campo; Caapora, a quem foi confiado o destino da caça no mato; e Uauiará, o boto, guardião dos peixes.[28]
Câmara Cascudo (1988), referenciando Couto de Magalhães, informa no verbete “Coaraci” que, na teogonia indígena, Coaraci é irmão e casado com a Lua, Jaci (para ele uma deusa em vez de deus [mas, em outra obra, ele se contradiz e afirma que “Goaraci, o Sol, e Jaci, a Lua, deuses superiores, são ambos femininos“[29]]), e é o criador de todos os viventes, encarregado de dirigir o reino animal, e repete os quatro deuses submetidos à deidade. Contudo, discordando de Magalhães, Cascudo diz que não há vestígios que fundamentem a existência de um culto astrolátrico entre os indígenas do Brasil, não tendo os mesmos nenhuma devoção para os astros celestes. Sobre a menção de Jaci ser esposa de Coaraci, algo que Magalhães não menciona, Cascudo não apresenta qualquer fonte[18] (o dicionário Michaelis usa as palavras de Cascudo na definição do verbete "Quaraci"[10]).
A título de curiosidade, apesar de os deuses tupis-guaranis comumente não serem representados por imagens religiosas, certa vez foi registrado, na casa de dança dos apapocuvas na aldeia Araribá em Avaí (São Paulo), um par de estátuas em tamanho natural dos heróis gêmeos Ñanderyqueý e Tyvýry (identificados como Quaraí e Jaci pelos guaranis), provavelmente inspiradas no culto cristão de imagens de santos. Durante a cerimônia do culto guarani, entretanto, as estátuas não são objetos de devoção, agitando os pajés seus maracás em direção ao zênite, local de assento de Ñanderyqueý/Quaraí.[30]
Quaraci e os pontos cardeais
Para os tupis-guaranis o Sol é o principal regulador da vida na Terra e tem grande significado religioso. Todo o cotidiano deles está voltado para a busca da força espiritual do Sol. Os guaranis, por exemplo, nomeiam o Sol de Kuaray, na linguagem do cotidiano e de Nhamandu, na espiritual.[6]
Os tupis-guaranis determinam o meio-dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando o relógio solar vertical, ou gnômon, que na língua tupi antiga chamava-se cuaracyraangaba ou cuaracy ra’angaba (quaraciraangaba, “representação do sol”).[31] Ele é constituído de uma haste cravada verticalmente em um terreno horizontal, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol. Essa haste vertical aponta para o ponto mais alto do céu, chamado zênite. O relógio solar vertical foi utilizado também no Egito, China, Grécia e em diversas outras partes do mundo.[6]
Na cosmogênese guarani, Nhanderu (Nosso Pai) criou quatro deuses principais que o ajudaram na criação da Terra e de seus habitantes. O zênite representa Nhanderu (de quem Quaraí herda o assento[5]) e os quatro pontos cardeais representam esses deuses: Jacairá no Norte, Caraí no Leste, Nhamandu no Sul e Tupã no Oeste. Enquanto os tupis baseiam seu calendário no nascer helíaco das Plêiades, por eles chamadas Seîxu, o calendário guarani está ligado à trajetória aparente anual do Sol e é dividido em “tempo novo” (ara pyau, primavera e verão) e “tempo velho” (ara ymã, outono e inverno).[6]
O dia do início de cada estação do ano guarani é obtido através da observação do nascer ou do pôr-do-sol, sempre de um mesmo lugar, por exemplo, da haste vertical do quaraciraangaba. O Sol sempre nasce do lado leste e se põe do lado oeste; no entanto, somente nos dias do início da primavera e do outono, o Sol nasce exatamente no ponto cardeal Leste e se põe exatamente no ponto cardeal Oeste. Para um observador no Hemisfério Sul, em relação à linha leste-oeste, o nascer e o pôr-do-sol ocorrem um pouco mais para o norte no inverno e um pouco mais para o sul no verão. Utilizando rochas, por exemplo, para marcar essas direções, os tupis-guaranis materializavam os quatro pontos cardeais e as direções do nascer e do pôr-do-sol no início das estações do ano.[6]
Mitologia
Ao contrário das fontes informadas mais acima, que se tratam mais de interpretações dos mitos indígenas filtradas por vieses do homem branco do que de narrações colhidas diretamente de nativos e apresentadas com o mínimo de alterações possível, em tempos mais recentes tem-se havido um maior cuidado em contar as histórias dos povos indígenas com mais fidelidade. No que se refere a Quaraci e Jaci, elas revelam que o Sol e a Lua para os povos tupis-guaranis são sempre do sexo masculino, irmãos gêmeos ou Lua é irmão mais novo de Sol, a depender da versão.[6] O mito dos gêmeos divinos é um dos mais contados e difundidos pela América do Sul.[32]
Aliás, para além dos povos do tronco tupi, para os povos indígenas do Brasil, em geral, a Lua é quase sempre um homem, muitas vezes irmão do Sol, também este quase sempre um homem (cuicuros, waujas/uaurás), às vezes seu gêmeo (tupis, guaranis, camaiurás), e às vezes até amantes numa relação homossexual incestuosa (apapocuvas/nhandevas, waujas/uaurás); outras vezes vivem juntos, mas não são considerados irmãos e sim rivais (caiapós); e há também os que têm o Sol e a Lua totalmente desvinculados em seus mitos (jurunas).[33]
A variedade de mitos do chamado “Ciclo dos Gêmeos” muito semelhantes aos mitos tupis-guaranis evidencia a influência destes nas mitologias de outros povos indígenas espalhados pelo Brasil e outros países da América do Sul.[34]
Origem
De um modo geral, na mitologia tupi-guarani os irmãos gêmeos Sol e Lua são considerados filhos da mesma mãe, mas fecundada por pais distintos.
Os antigos tupinambás, segundo a versão tupi do mito, diziam que os gêmeos míticos são filhos do herói Mairatã ou Mair-Atã (“Mair-Forte”) e do Mucura ("Sariguê" ou "Gambá"), nascidos de uma mãe sem nome.[4] Para os suruís-aiqueuaras (Pará), Korahi e Sahi (Sol e Lua) são filhos gêmeos de Mahyra que completam o trabalho de separação da natureza e da cultura, iniciados pelo pai,[35] enquanto, para os caapores (Maranhão), e os antigos tupis,[36] os gêmeos Mair-aíra (ou Maíra-ira, Mair-a'yra/Mair Ra'yr, "filho de Mair") e Mucur-aíra (ou Mucura-ira, Mykur-a'yra/Mykur Ra'yr, "filho do Mucura ou Micura"),[3] cuja mãe fora morta pelos jaguares e foram criados por uma velha jaguar, desempenham papéis fundamentais nas histórias de criação e organização do mundo, transformando-se no Sol (Kwarahy ou Warahy em caapor) e na Lua (Jahy em caapor), respectivamente.[37][38]

A mãe do filho de Maíra, que ficou para trás devido à gravidez por não conseguir acompanhar o marido em suas andanças, sai à sua procura guiada pela criança, que lhe indica o caminho a seguir. Recusando-se, porém, a colher legumes para o filho, provoca sua cólera. O menino, por isso, se cala e a mãe se perde. A mãe, deixando de ser guiada pelo filho, chega à casa de um homem chamado Mucura ("Sariguê"), que lhe oferece hospitalidade e, durante a noite, dorme com ela, tornando-a grávida de outra criança. A mulher, prosseguindo o seu caminho, chega a uma aldeia, cujo chefe tem o nome de Jaguar. Vítima da crueldade dos selvagens, é cortada em pedaços e, depois, devorada. Os filhos são lançados ao lixo, onde os recolhe uma mulher que os cria.[4]
Já de acordo com a mitologia guarani, Quaraí (Kuaray ou Pa’i Rete Kuaray, “o Senhor com o Corpo como o Sol”) é filho de Nhamandu ("Origem, Princípio"), deus da luz e a primeira das quatro emanações do criador do Universo Nhanderu Eté Tenondé ("Nosso Verdadeiro Pai Primordial"; às vezes um é identificado com o outro, como se fossem o mesmo ser). Já a mãe de Quaraí é uma garota púbere de nome ignorado, mas conhecida pela alcunha "Nhandeci" ("Nossa Mãe"), engravidada por Nhanderu/Nhamandu sob a forma de uma coruja (urukure'a, dona da escuridão) quando esta acariciou o rosto dela com a asa durante o seu sono. Revelando sua verdadeira identidade, Nhamandu a convidou a ir com ele para o Céu (Yvaga na mitologia guarani), mas ela se recusou, temendo a ira da esposa de Nhamandu (Jaxucá/Jaçucá, "Diadema Feminino", deusa da luz), mas prometeu que ele poderia conhecer o filho quando este nascesse.[39]
Na versão nhandeva (um grupo guarani), Nhandeci convivia com Nhanderu Eté e com seu auxiliar Nhanderu Mbaecuaá (“Nosso Pai Conhecedor de Todas as Coisas”), de quem também engravida, gerando Jaci.
Grávida, Nhandeci foi em busca de Nhamandu guiada pelo filho em seu ventre, que conversava com ela, indo parar na morada dos Seres Primitivos (Mba'e Ypy, também chamados de Anhang, “Espíritos”, em uma versão considerados jaguares, em outra, como no Ayvú Rapyta, eles ainda serão transformados em jaguares por Quaraí), pelos quais foi morta e devorada, embora o filho, sendo de origem divina, não podia ser morto, e a avó dos Seres Primitivos decidiu então criá-lo, e o menino cresceu ignorando o ocorrido com sua mãe.[40] Ainda criança, inventou o arco e com ele flechava mariposas e, mais crescido (ele crescia muito rápido), pássaros para alimentar a avó adotiva, e foi então que, numa de suas andanças e sentindo-se solitário por não haver outros como ele, o rapaz criou, de sua própria divindade, Jaci, a futura Lua, a partir de uma folha de kurupika'y, segundo a versão mbiá[41] (em outra versão, criado a partir de alguns ossos de sua mãe[42]). Assim, Jaci, criado por Quaraí para ser seu companheiro, ficou também conhecido como Tyvyra'i ("Irmão Mais Novo" [de um homem] em guarani), enquanto Quaraí seria chamado Nhande Ryke'y, "Nosso Irmão Mais Velho" [de um homem]).[43][4]
Como filho de Nhamandu/Nhanderu, os guaranis também chamam Quaraí de Nhamandu Mirim, isto é, “Pequeno Nhamandu”, ou simplesmente Nhamandu, como o pai.[7]
Aventuras
De volta à versão tupi, a origem sobrenatural de Mair-aíra e Mucur-aíra revela-se pela rapidez de seu crescimento e pela sua habilidade em caçar. Indo, certa vez, à procura das iuaias (talvez inajás), souberam os gêmeos pela fala de um jacu do ocorrido com a mãe, e se decidem a vingá-la. Com tal objetivo, arrastam os habitantes da aldeia a uma ilha, onde abundam os referidos frutos. No mesmo instante em que os matadores da mãe atravessam a água, os gêmeos promovem uma tempestade, que os submerge e os transforma em animais felinos. Satisfeito o desejo de vingança, os gêmeos põem-se em busca do pai, que encontram numa aldeia próxima de Cabo Frio, onde o mesmo adquirira vasto renome de mago e de adivinho. Os dois irmãos entram ousadamente na oca paterna, apesar da interdição de penetrar nela, declarando, de pronto, a sua qualidade de filhos de Mair-atã. O velho rejubila-se com o encontro, mas recusa-se a reconhecer os filhos antes de submetê-los a diversas provas.[4]
A primeira prova que Mair-atã exige dos filhos consiste em atirar com o arco; as flechas dos dois gêmeos ficam suspensas no ar. A segunda prova consiste em passar, por três vezes, através da pedra Itha-Irápi, cujas duas metades se entrechocam rapidamente (como as Simplégades da mitologia grega); o filho de Mucura é esmagado pelas pedras, o irmão lhe restitui a vida e ele se sai das duas outras provas tão bem como o seu irmão. Na terceira prova, os dois heróis devem ir ao Agnen-pinaiticane ("o lugar onde Agnen pesca") e furtar a Agnen os apetrechos por meio dos quais ele pesca o peixe Alain, alimento dos mortos; Mucur-aíra tenta, em primeiro lugar, a sorte, mas é dilacerado por Agnen, torna à vida graças a seu irmão, e, juntos, conseguem finalmente tomar a isca do anzol de Agnen. Levam, então, a Mair-atã, o qual os recebe como seus filhos.[4]
Já na versão guarani, indo para a casa dos Seres Primitivos com Quaraí, Jaci, de espírito impetuoso, desobedeceu uma ordem da Avó adotiva. que lhes proibiu de ir até o Cerro Azul, convencendo Quaraí de irem juntos lá caçar, e lá ficaram sabendo pela fala de um papagaio (paɾakaw) do trágico fim de sua mãe. Os irmãos mataram quase todos os Mba'e Ypy/Anhang em uma armadilha feita para afogá-los na água e/ou serem devorados por animais aquáticos, mas por imprudência de Jaci uma fêmea grávida se salvou, e Quaraí a transformou e a seu filho no ventre em jaguares, vaticinando a inimizade que para sempre existiria entre eles e os homens. Depois, Quaraí tentou ressuscitar sua mãe, Nhandeci, a partir dos ossos dela, mas em todas as tentativas a afoiteza de Jaci em abraçá-la interrompia o processo, e então Quaraí desistiu, instituindo a morte definitiva no mundo, e transformou os restos da mãe numa paca.[44] Em algumas versões do mito Nhandeci é revivida por Nhanderu e levada para o Yvaga (o Céu) ou para a Terra Sem Mal, Yvy Marãe’ỹ, paraíso terreno no Leste, no além-mar do Pará-Guaçú (Oceano Atlântico). Na versão em que os dois irmãos são gêmeos de nascimento, como para os guaranis caiouás, Jaci participa da história desde o ventre da mãe junto de Quará; seus pais, aqui, são conhecidos como Nhande Ru Paven (“Nosso Pai de Todos”), filho de Nhane Ramõi (“Nosso Avô”), e Nhande Sy (“Nossa Mãe”).[45]

Seguindo sozinhos pelo mundo, Quaraí ensinou Jaci sobre as frutas que encontravam no caminho e as variadas formas de prepará-las e comê-las[46] (como se sabe, Jaci é a divindade que tem domínio sobre as frutas e vegetais em geral), também alimentou-o com mel de abelhas e, acompanhando Quaraí, Jaci o testemunhou roubar o fogo dos urubus com a ajuda do sapo[47] (kururu em tupi; em outra versão guarani isso coube a Papá-Mirim [Ixapi, “Orvalho”], auxiliar de Jacairá[48]), até que se depararam com Xariã (ou Chariã, Sariã, também chamado Xivi ["Onça" em guarani]), outro dos Seres Primitivos — que mais tarde seria identificado na lenda como o Jaguar Azul ou Jaguar Celeste que tenta devorar Sol e Lua durante os eclipses e ameaça mergulhar o mundo nas trevas eternas.[49] Pregando peças em Xariã, que estava pescando, este acaba matando Jaci e o leva para ser cozido por sua esposa como um peixe. Quaraí foi convidado a comer também, mas este recusou, pedindo apenas que lhe desse os ossos do "peixe", e ele reviveu Jaci. Por esse motivo é que a Lua vai diminuindo a cada noite, devorada por Xariã (da lua cheia à lua nova), até voltar à sua forma plena, revivida por Quaraí (da lua nova à lua cheia), e sua morte e renascimento representam as fases da Lua; e também é por isso que, no eclipse lunar, a Lua fica vermelha, manchada em seu próprio sangue enquanto é devorada por Xariã.[50] Os mitos guaranis às vezes identificam Xariã como um dos añá/anhã/anham/anhang (“espíritos”),[42] e podem mesmo apresentar “Anhã” como nome próprio, a versão guarani do tupi “Anhanga”.[51]
Incesto
Antes de ascenderem ao céu e cumprir a missão de sua falecida mãe de reencontrar o pai de Quaraí, Jaci comete um último ato de transgressão aqui na Terra: o incesto (em outra versão, o adultério com uma mulher casada). As versões variam (veja Jaci para saber mais), mas somente uma é diretamente relacionada ao irmão Sol: na versão do povo guarani apapokuva (Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná), também conhecido como nhandeva e chiripá, segundo o etnólogo alemão-brasileiro Curt Nimuendajú (nascido Curt Unckel), que viveu parte de sua vida com eles, Jacý se deitou com o irmão Cuaraý (como ele grafa seus nomes) levado por impulsos homossexuais.[52] (Em registros mais recentes, os nomes de Sol e Lua para os nhandevas e caiouás são grafados como Pa'i Kuara e Jasy.[45][32])
O misterioso amante noturno é, então, descoberto quando, numa das noites de amor, Cuaraý tem a ideia de lambuzar o rosto de Jacý com tinta de jenipapo, que é muito difícil de sair mesmo depois de lavar várias vezes, e Jacý é descoberto na manhã seguinte.[52] É por isso que, quando chove na Lua nova é porque Jacý tenta lavar as manchas de seu rosto, que ficam mais visíveis à medida que a Lua se torna cheia.[53]
Morte de Xariã
Logo após o evento do jenipapo, o mito guarani continua com Quaraí instando Jaci a disparar flechas para o céu com ele, a ponta de uma fincando no fundo da outra, até que se formasse uma "corda de flechas" que chegou até o chão, por meio da qual Jaci escalou até chegar ao Yvaga, a morada dos deuses.[53] O companheiro de Quaraí se tornou "Nhanderu Jaci", "Nosso Pai Lua".[54] É desse modo que os dois filhos do Tamoï ("Avô") dos guaraios, povo guarani da Bolívia, chegam a ganhar o céu, onde são transmutados na Lua e no Sol.[55][2]
Quaraí ainda ficou algum tempo por aqui (em outra versão ele ascendeu junto de Jaci ao Céu), e chegou a ter um filho, que ainda pequeno fora morto por Xariã. Encolerizado, Quaraí lutou com Xariã, e as mordidas da besta representam o eclipse solar. Depois Quaraí criou uma filha de um cesto e a deu a Xariã, que fornicou com ela até destroçar o pênis; ele a castigou por isso, e ela voltou a ser cesto. Então Quaraí lhe deu um cocar de plumas de fogo que lhe queimou a cabeça e não se apagava nem mesmo mergulhando na água e, por fim, Quaraí lhe arrebentou o intestino, finalmente matando-o. A alma de Xariã foi convertida por Quaraí no pai dos Tupã Rekoé, agentes de destruição a serviço de Tupã, divindades menores destruidoras da vida. Uma outra filha de Quaraí olhou esse acontecimento, contrariando o pai, e ela morreu; Quaraí a enterrou em vez de ressuscitá-la, e dessa forma quem quer que morresse não voltaria mais à vida.[56]
Nesse ínterim, diz-se que um jaguar encontrou o arco de Quaraí numa trilha. Ele o manuseou e o arco o atingiu no rosto. Do arco brotou a Nandyta (Genipa americana, o pé de jenipapo), árvore da qual o jaguar recua ao se aproximar dela.[57]
Ascenção
Infelizmente não se conhecem registros da antiga versão tupinambá sobre o que aconteceu com os gêmeos após concluírem os desafios de Mair-atã e serem reconhecidos como filhos por eles.[58] Mas os tembés (Pará e Maranhão), que compartilham o mesmo mito dos tupinambás, contam que Mair-aíra teria desafiado o pai a distender o arco numa nova prova de destreza com a arma. As flechas do filho desaparecem rochedo a dentro, ao passo que as do pai se partem contra as pedras, finalmente superando-o num resultado oposto ao da primeira prova.[2]
Mas mesmo os tembés não contam como Mair-aíra e Mucur-aíra se tornaram Quaraci/Sol (que eles chamam Kwarahy) e Jaci/Lua (Zahy), dizendo apenas que, após a realização das ordens paternas, os mesmos se dirigiram para o oriente (justamente o local em que "nascem" o Sol e a Lua), dando nascimento aos rios que correm nessa direção. A conclusão da saga dos gêmeos só é conhecida nas versões guaranis do mito.[59]

Na versão guarani, Quaraí enfim decidiu ir para os céus ao encontro de seu pai. Sua preparação para isto consistiu em jejuar, dançar e rezar até sentir-se suficientemente leve de modo a poder subir. Então ascendeu ao Yvaga — o paraíso celeste que se alcança através do Tapi'i Rape ou Mborevi Rape (“Caminho da Anta”) ou Tape Kue (“Caminho Velho”/”Caminho Eterno”), nomes guaranis para o caminho leitoso da Via Láctea —, a morada dos Nhande Ariguá (Nossos Altíssimos) nos céus, e assumiu a sua função de Sol, ele mesmo se tornando um dos Nhanderus, "Nhanderu Quaraí", "Nosso Pai Sol"[54] (a luz no mundo, até então, emanava de seu pai Nhamandu, que, por si mesmo, como já dito, foi a primeira emanação de Nhanderu, cuja luz irradia de seu grandioso coração no centro do Universo). Quaraí tornou-se, então, o regente do dia, enquanto o seu companheiro Jaci ocupou-se da noite. Envergonhado pela transgressão do incesto, grave tabu na cultura guarani, Jaci evita encontrar Quaraí no céu para que ele não veja o seu rosto manchado de jenipapo,[52] preferindo aparecer no período da noite, mas às vezes aparece também durante o dia quando a Lua não está cheia, e, quando os dois irmãos se encontram na Lua nova, em que o rosto de Jaci não está visível, ocorrem os eclipses solares, quando eles são mais vulneráveis aos ataques de Xariã, agora ascendido como Jaguarový (ou Jaguá Ový), o "Jaguar Azul" ou Jaguar Celeste (ou Onça Azul/Onça Celeste)[60][49] — os tupinambás o chamavam de Jaguara (Iaouare ou Îaûara/Îagûara, “Jaguar”[61]) —, seu grande inimigo e eterna ameaça à ordem do mundo. Quando isso acontece, os tupis-guaranis se encarregam de fazer muito barulho aqui na Terra para alertar o Sol e a Lua antes que eles sejam devorados e o mundo seja mergulhado no caos e na destruição.[62]
Como parte da corte dos deuses, Sol, como já dito, é conhecido, em guarani, como Nhanderu Quaraí (“Nosso Pai Sol”), enquanto Lua é conhecido como Nhanderu Jaci (“Nosso Pai Lua”), e ambos receberam de Nhanderu Tenondé as insígnias rituais, o mbaraka (chocalho) e o petynguá (cachimbo). Na visão de mundo tupi-guarani, o Sol e o Lua passam sobre a Terra cuidando de nós, seus filhos, beneficiando nossas colheitas, dando fervor aos nossos corações e proporcionando serenidade e riqueza espiritual.[54]
Quaraí atualmente tem seu assento no zênite, o centro do céu. Quando seu pai tiver decidido o fim do mundo, será ele quem retirará o suporte da terra (yvý-ytá), provocando assim o seu desmoronamento.[63]
Outros mitos
Certa vez, conta um mito tupi, Quaraci ordenou às estrelas que trouxessem à Terra, perto da baía do Rio de Janeiro, uma pedra sagrada após a morte do herói cultural Mair-umuana, em recordação deste ilustre caraíba e de dois de seus companheiros também falecidos, todos estelificados (isto é, tornados em estrelas). A pedra era guardada por um animal de nome Moritolyf (provável grafia errônea do tupi myryqui-oryb ou mbyryki,[64] o muriqui, o maior macaco do continente americano) e, quando alguém se aproximava com o intento de apoderar-se da pedra, o animal, com o objetivo de atrair os vizinhos em socorro, soltava gritos, que eram ouvidos a grande distância. Esse animal desapareceu logo após o dilúvio provocado por Tamanduaré, sendo de tão má índole e desagradável às estrelas, que Jaci, o Lua, senhor dos demais astros noturnos, determinou ao irmão Sol e aos outros astros tirar ao Moritolyf o encargo de guardar a pedra, dando-o aos homens, a fim de evitar o seu desaparecimento e ruína. Os tupis acreditavam que, se lhes roubassem a pedra, ou a destruíssem, tal fato arrastaria a ruína e aniquilamento de todo o país.[20][21]
Para os guaranis, Quaraí e Jaci ensinaram aos homens a dança, as orações e os hinos sagrados. Certo dia, que Quaraí havia ordenado que fosse dedicado à dança e à oração, um homem desobediente adentrou a selva em busca de folhas de palmeira para cobrir uma cabana. Ao retornar, ele foi transformado em um tamanduá por Quaraí, que determinou sua carne como única lícita no período de resguardo da menina em sua primeira menstruação.[65]
Quaraí, ainda no mito guarani, criou a Jaci-Tatá-Guasu da tarde (ka'aru mbija, “estrela da tarde”) para ser o ajudante de Jaci. Após deitar-se com as mulheres e fazê-las menstruar, Jaci chama seu ajudante para ajudá-lo a se banhar, e é por isso que sempre parece querer chover quando Jaci toma seu banho.[42]
Quaraí tem papel ativo em outro episódio, o da origem dos guayakis. Em princípio, os mbyás e os guayakis viviam juntos sob o governo de Pa'i Rete Kuaray (Quaraí). Um dia, os guayakis apareceram na dança ritual completamente nus (isto é, sem os adornos rituais) e Quaraí, enfurecido, os recriminou, dispersando-os pela selva. É por essa razão que eles vivem errantes e selvagens até os dias de hoje.[65]

Numa variante do mito pelos caiouás (povo guarani), Koarahý e Djasý foram os únicos sobreviventes do dilúvio e foram levados ao céu pela seriema. Depois a Terra tornou a povoar-se por ordem de Nhanderuvuçu. Do céu vieram os primeiros casais de várias "nações", a cujos descendentes o Sol mandou dar todas as coisas de que precisassem. Em primeiro lugar menciona-se o fogo. "Então o Sol disse a Lua, irmão dele: 'Agora dê fogo a esses filhos do caiouá, do brasileiro e do paraguaio'. A todos os três deu fogo. Só depois disso é que receberam utensílios, roupa, sementes e mudas para plantar.” Os textos se referem à época em que não havia diferença entre os homens e os animais. A fauna atual é remanescente duma primitiva humanidade, e os atuais modos de vida, em forma de animais, lhe foram impostos pelos heróis Koarahý e Djasý. Na parte final do gênese caiouá, depois de confiado o governo do mundo ao Sol e ao Lua, este último insiste em aniquilar a Terra de qualquer maneira: ora quer virá-la de cabeça para baixo, ora propõe a sua destruição por um incêndio ou então por um segundo dilúvio. Entretanto, o Sol, que tem mais força e é amigo dos homens, não permite que estes sejam vítimas de simples capricho do irmão.[67]
Os paï (paï-tavyterã/caiouás [kaiowás]) se consideram descendentes diretos, como netos, de Pa’i Quará (Pa’i Kuara), o ser divino mais referido em seus mitos e a quem recorrem mais sistematicamente em momentos de penúria ou doença.[32] (“Pa’i” significa “Mestre”, “Senhor”, uma forma de tratamento que acompanha um nome próprio.[68]) Quaraí é figura central na espiritualidade guarani por ser o herói cultural, o primeiro Pa’i Guasu, “Grande Mestre/Xamã”, enquanto Jaci, o outro gêmeo, é o dono das plantas comestíveis.[69]
Na região do rio Xingu, nordeste de Mato Grosso, os netos do deus ou herói divino Mavutsinin, Sol e Lua, são chamados de Kwat/Kuát e Yaì/Ya’i/Iaê/Jaí (gêmeos, com Kwat tendo nascido primeiro, e ambos do sexo masculino, como em todas as tradições xinguanas) na língua camaiurá da família tupi-guarani (compartilhando as mesmas raízes etimológicas de Kûarasy e Îasy, sendo as versões xinguanas destes), onde eles também foram criados por uma Avó Onça e descobriram pela fala de um pássaro que sua família adotiva havia matado a sua verdadeira mãe. Os rapazes, em seguida, se vingaram, matando as onças. Eles mais tarde tomaram a luz dos urubus e se tornaram seus guardiões como Sol e Lua. Kwat e Yaì também se envolvem numa relação homossexual, mas com a participação de um terceiro homem não nomeado conhecido por ter o pênis sempre em ereção; os irmãos experimentaram a ereção pela primeira vez com esse homem, que lhes ajudou a baixar o pênis, e dessa forma Kwat, junto ao irmão e ao outro homem, “começou” as relações sexuais.[34][70]
Influência em outras mitologias
Como já afirmado mais acima, a variedade de mitos do “Ciclo dos Gêmeos” muito semelhantes aos mitos tupis-guaranis evidencia a influência destes nas mitologias de outros povos indígenas espalhados pelo Brasil e outros países da América do Sul.[34]
Sobre o incesto homossexual entre Sol e Lua, para os waujas (uaurás), povo do Mato Grosso de língua do tronco aruaque, distinto do tupi-guarani, mas vivendo próximos dos camaiurás (povo tupi-guarani), que influenciaram sua mitologia, no Xingu, o Sol (Kamo) tem relações homossexuais com seu irmão Lua (Kejo),[71] que sangra com o ato, visto nos eclipses lunares quando a Lua fica vermelha (para os cuicuros, na mesma região) e nos solares quando o Sol fica vermelho com o sangue do irmão (para os waujas), e recriminam o Sol quando acontece o eclipse solar, quando Sol e Lua se encontram, por temer a repetição do violento ato.[72] A história de origem de Kamo e Kejo é praticamente idêntica à de Quaraci e Jaci, nascendo de uma mãe que foi morta pela Avó Onça e descobrindo a verdade por um pássaro muito tempo depois.[73] Para os waujas, o momento do eclipse é considerado tenso e exige a participação de toda a comunidade. Para enfrentar o fenômeno, eles realizam rituais com máscaras, flautas e o uso da laptauna — um instrumento musical sagrado de sopro (aerofone do tipo trompete) que ecoa durante o evento e tem esse nome do músico Laptauna ou Laptauana, que sempre tocava o instrumento de sopro quando tinha eclipses, até que um dia, respingado com o sangue do Lua/Kejo, machucado ao fazer sexo com o irmão, enlouqueceu e sumiu voando para o céu enquanto tocava sua música.[74][75]
O povo canamari (não relacionado ao tupis-guarani), do Amazonas, também tem um mito de incesto entre Sol e Lua muito similar, mas heterossexual: o jovem Ipa se deita à noite com a irmã gêmea Pari sem ela saber sua identidade, sendo também desmascarado com o artifício da mancha de jenipapo no rosto. Envergonhados, os irmãos se separam e Ipa se torna o Lua, enquanto Pari se torna a Sol.[76] Além dos gêmeos de gêneros opostos, a Lua e o Sol são também representados na mitologia canamari pelos heróis gêmeos do sexo masculino Tamakori/Lua (mais poderoso e sábio) e Kirak/Sol (menos habilidoso e capaz), que não são envolvidos em incesto.[77]
Morada de Tupã
Numa versão ficcional do mito guarani da criação do mundo contada em Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra) do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) publicada em 1922 — que não é reconhecida por nenhum povo tupi-guarani como parte de sua mitologia —, Kuarasy, o Sol (ele usa a versão tupi do nome em vez das variantes guaranis Kuarahy, Kuaray ou Kuara), é a luminosa morada de Tupã, aqui considerado o deus criador que observa o universo inteiro de sua casa, enquanto Jasy, a Lua, é a morada de sua esposa Arasy (Araci, “Mãe do Dia”, deusa da aurora), a Mãe do Céu.[78]
Contudo, deve-se ter sempre em conta que essa narrativa é uma ficção escrita por Colmán reunindo diversos personagens míticos do Paraguai no que foi chamado de “a primeira cosmogonia ficcional guarani”, não constando, do jeito que ele apresentou, nos autênticos mitos indígenas.[79] Esta obra inteiramente ficcional adquiriu uma fama que substituiu os mitos guaranis reais no imaginário social e, com a mesma força, sepultou muitos signos, motivos e procedimentos criativos que até então não haviam sido analisados criticamente.[80]
Ver também
Referências
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