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Tau (mitologia)
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Taû entre os guaranis e Taúba ("visão, fantasma, espectro"[1]) ou Taubymana/Taubimama[2] ("o antigo Taúba") entre os tupis é um espírito dito maligno, uma assombração, na mitologia tupi-guarani.
É provável que essa entidade tenha sido inicialmente registrada como Taguaîba ou Taguaigba (aparecendo primeiro como Tagoaîba em obra de 1618 do padre jesuíta português Antônio de Araújo[3]), e também Taguain. Segundo o linguista brasileiro Batista Caetano (1826–1882) numa nota em obra de 1623 do jesuíta português Fernão Cardim, esses nomes podem vir do tupi taguayb e do guarani taúbaib ou taúb-aib, "visão má", "fantasma ruim".[4][5]
Os nomes Taúba e Taguaîba foram citados junto a outras entidades nativas (como Anhanga, Curupira, Jurupari, Aguaçaîg, Macachera, Guaiupia, etc.) como sendo o Diabo pelos jesuítas.[6][4]
Ñande Ypykuéra
No poema Ñande Ypykuéra (“Nuestros Antepasados”, 1922) do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) — uma teogonia guarani ficcional que se tornou tão popular que, para a maioria do público sul-americano não-indígena, incluindo o brasileiro, as narrativas nele contadas são consideradas como a autêntica mitologia dos povos guaranis[7] — Taû, chamado de Espírito do Mal, é a personificação do próprio mal. Nesse poema, Taû é o nêmesis de Angatupyry, personificação do bem, ambos encarregados por Tupã de serem os guias da humanidade na Terra.[8][9]

Ainda segundo essa ficção, Taû se viu apaixonado por uma mulher chamada Kerana ("Dorminhoca"), filha de Marangatu e neta de Rupavê e Sypavê (o casal original criado por Tupã). Ele se disfarçou de um belo jovem e a cortejou por sete dias antes de decidir sequestrá-la, mas sua trama foi frustrada por Angatupyry, o espírito do bem. Taû e Angatupyry lutaram entre si por sete dias e sete noites até que Angatupyry foi finalmente derrotado por Pytajovái, avô de Taû, corajoso deus que trazia em suas entranhas o fogo da destruição.[8][10]
Taû, então, pôde ter para si a bela Kerana, e juntos tiveram sete filhos que foram amaldiçoados pela deusa Arasy, esposa de Tupã, nascendo como monstros (na autêntica mitologia guarani, porém, essas sete criaturas não têm relações diretas entre si). Os sete filhos eram reverenciados e temidos, cada um possuindo habilidades e características diferentes, essenciais para a tradição guarani.[8][11]
Os sete filhos (que Rosicrán não nomeia "sete monstros lendários", e nem os chama de "deuses", e sim de "espíritos", "protetores", "senhores" ou "fados") são, por ordem de nascimento[8][12]:
- Teju Jagua ("Lagarto Fera"), também chamado Jaguaru ("Fera Grande" ou "Pai das Feras"), com corpo de lagarto e sete cabeças de um animal semelhante a um cão, é considerado senhor das cavernas, grutas e lagos e protetor das frutas;
- Mboi Tu'i ("Serpente Papagaio"), uma cobra gigante com cabeça de papagaio, deus e protetor dos cursos de água, das áreas úmidas, das criaturas aquáticas e das flores;
- Moñai ("Perseguidor", "O que faz correr"), uma cobra gigante com chifres que se diz ser o senhor e protetor dos campos, do ar e dos pássaros, do roubo e das travessuras;
- Jasy Jatere, Jasy Tere ou Jasy Atere ("Fragmento da Lua"), homenzinho de cabelos dourados, senhor da sesta, possuidor de uma varinha dourada que o torna invisível, protetor das florestas, da lendária erva feiticeira e das abelhas;
- Kurupi ("Casca/Pele Rugosa"), deus da sexualidade, governante das selvas e dos animais silvestres, seu membro viril tem um comprimento descomunal;
- Ao-Ao, ou Ao Ao, deus antropófago das colinas e montanhas, da fertilidade e da reprodução, parece-se com uma monstruosa ovelha, queixada ou caititu;
- Luison, Huicho, Juicho, Luvisón ou Lobisón ("Lobisomem"), deus e senhor da noite e da morte, com domínio sobre os cemitérios, um ser que se assemelha a um lobo ou a um homem com características caninas.
Referências
- ↑ JOSÉ GREGÓRIO, Irmão. Contribuição indígena ao Brasil: lendas e tradições, usos e costumes, fauna e flora, língua, raízes, toponímia, vocabulário. Belo Horizonte: União Brasileira de Educação e Ensino, 1980. v. 3, p. 1160
- ↑ MARCGRAVE, George; PISO, Willem. Historia Naturalis Brasiliae. Organizado por Joannes de Laet. Lugduni Batavorum: Apud Franciscus Hackium; Amsterdã: Apud Lud. Elsevier, 1648.
- ↑ ARAÚJO, Antônio de. Catecismo na lingoa brasilica. Lisboa: Pedro Crasbeeck, 1618. Livro VI, cap. VI, p. 102v.
- 1 2 CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Introduções e notas de Baptista Caetano, Capistrano de Abreu e Rodolpho Garcia. Rio de Janeiro: J. Leite & Cia., 1925, pp. 162 e 265.
- ↑ CASCUDO, L. C. Geografia dos mitos brasileiros. 3ª edição. São Paulo. Global. 2002. p. 150.
- ↑ NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013. 624 p.
- ↑ ROJAS, Rodrigo Nicolás Villalba (2022). Rosicrán y Su Poema Ñande Ĭpĭ Cuéra (1929). Boca de Sapo 33. Tierra.
- 1 2 3 4 COLMÁN, Narciso R. Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra): El Arte", 1922.
- ↑ SALES, Caio (2019). O Imaginário do Mundo:. E-Book: [s.n.] p. 31
- ↑ «Tau, Kerana e os Sete Monstros Lendários». mitologia.hi7.co. Consultado em 17 de junho de 2021. Cópia arquivada em 11 de janeiro de 2026
- ↑ AMORIM FILHO, Carlos Alberto. A lenda dos filhos de Tau e Kerana. 2018. 50 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Artes Visuais) – Instituto de Artes, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2018.
- ↑ Academic Dictionary Of Mythology by Ramesh Chopra
