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Hudailitas
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Os hudailitas ou Banu Hudail (em árabe: بنو هذيل; romaniz.: Banū Hudhayl), foram uma importante tribo árabe dos modaritas, pertencente ao ramo hindifita dos descendentes de Modar. Estabelecidos desde tempos antigos na região montanhosa entre Meca e Taife, controlavam um território considerado o "coração do Hejaz" e mantiveram estreitos vínculos de parentesco e aliança com os coraixitas. Destacaram-se na Arábia pré-islâmica por sua tradição guerreira, pela produção de alguns dos mais célebres poetas árabes e pela preservação de um dialeto tido pelos gramáticos como um dos mais puros modelos do árabe clássico.[1]
Origens
Segundo a tradição genealógica árabe, os hudailitas descendiam de Hudail ibne Mudrica ibne Ilias ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane. Integravam o ramo hindifita dos modaritas, assim denominado em referência a Hinde, mãe de Ilias ibne Modar. O ancestral epônimo, Hudail, teve dois filhos, Sade e Liiane, dos quais se originaram os dois principais ramos da tribo, os saditas e os liianitas. Os hudailitas eram aparentados de perto aos coraixitas. Enquanto Hudail descendia de Mudrica, os coraixitas provinham de Quinana, filho de Cuzaima, irmão de Hudail. Essa proximidade genealógica, reforçada pela vizinhança territorial, favoreceu uma estreita cooperação entre ambas as tribos desde o período pré-islâmico, embora os hudailitas permanecessem, em grande medida, sob a influência política dos coraixitas até a Conquista de Meca de 630.[2] Na Jailia, os hudailitas ocupavam uma extensa região montanhosa situada a leste e a oeste de Meca, estendendo-se desde o oeste de Taife até as proximidades de Gidá e alcançando, ao norte, o vale de Batne Mar, atualmente conhecido como Uádi Fátima. Seus dois principais núcleos populacionais localizavam-se em Naquelate Axâmia e Naquelate Iamânia, cujos habitantes eram conhecidos, respectivamente, como Hudail Axame e Hudail Iamane.[3] Grande parte de seu território era formada pelos vales e encostas da serra de Sarate, conhecida nas fontes como Sarate de Hudail. Em razão de sua posição estratégica e fertilidade, a região era chamada de "Coração do Hejaz". As fronteiras hudailitas confinavam com os territórios dos coraixitas, soleimitas, quinanaítas, famitas e aduanitas. Próximo de Meca, no vale de Uacique, dentro dos limites de Arafate, realizavam o célebre mercado de Dulmegaz, um dos principais centros comerciais da Arábia pré-islâmica, aberto anualmente durante os primeiros dias de Dulrija até a véspera do início da peregrinação.[3]
Período pré-islâmico
As fontes clássicas preservam relativamente poucas informações sobre os hudailitas, situação que também se verifica para o início do período islâmico. Apesar da proximidade geográfica com Meca, os cronistas mequenses raramente lhes dedicaram atenção. Segundo Alasraqui, quando os coraixitas assumiram o controle da Caaba e da administração de Meca, os hudailitas passaram a invejá-los e procuraram convencer o rei himiarita Tuba Caribe Açade a marchar contra a cidade e destruir o santuário. Outra tradição, transmitida por Ibne Hixame a partir de Ibne Isaque, afirma, porém, que os chefes hudailitas agiram com a intenção de conduzir o soberano à ruína, pois sabiam que qualquer tentativa de profanar a Caaba acarretaria sua destruição. Advertido por sábios judeus de que se tratava de uma armadilha, o rei abandonou o plano, executou os responsáveis pela intriga e dirigiu-se a Meca para prestar homenagem à Caaba, cobrindo-a, segundo a tradição, com um valioso manto pela primeira vez na história. A tradição considera essa segunda versão mais plausível, uma vez que os árabes pagãos atribuíam grande caráter sagrado à Caaba. Durante o Ano do Elefante, os hudailitas também se uniram às demais tribos que procuraram defender Meca da expedição de Abramo. Enquanto se buscava persuadir o invasor a desistir do ataque por meios diplomáticos, um dos dois chefes tribais que acompanharam Abede Almotalibe em sua audiência com Abramo pertencia aos hudailitas.[4]
Na Jailia, os hudailitas envolveram-se em diversos conflitos tribais. As fontes mencionam especialmente a Batalha de Aljurufe, na qual o ramo dos Banu Moáuia sofreu um ataque dos soleimitas, e a Batalha de Abaubá, ou Mulei, quando Maleque ibne Aufe, dos hauazinitas, capturou membros do ramo dos liianitas. Os hudailitas perseguiram os invasores e conseguiram libertar os prisioneiros em Mulei. Segundo Ibne Alcalbi, os hudailitas teriam sido os primeiros descendentes de Abraão a abandonar a religião de seu antepassado e a adotar a idolatria. Seu principal santuário era dedicado ao ídolo Suá, situado em Ruate, local cuja identificação varia entre as fontes, sendo associado ora à região de Iambo, nas proximidades de Medina, ora a Batne Nacla. Considerando a área tradicionalmente ocupada pelos hudailitas, a segunda localização é tida como a mais provável. A guarda de Suá cabia ao ramo dos liianitas, e o culto à divindade era compartilhado também pelos quinanaítas, muzainaítas e alguns ramos dos caicitas. Alguns historiadores afirmam ainda que os hudailitas compartilhavam com os cuzaaítas o culto ao ídolo Manate. Segundo Ibne Alcalbi, os guardiões dessa divindade, considerada por ele o mais antigo ídolo venerado pelos árabes, pertenciam aos hudailitas. Alasraqui, contudo, atribui essa função às tribos azeditas e gassanitas. Além dessas divindades, sabe-se que os hudailitas também prestavam culto a outros importantes ídolos da Arábia pré-islâmica.[4]
Relações com Maomé
Durante o conflito entre os coraixitas e Maomé, os hudailitas mantiveram-se ao lado de seus parentes pagãos. Após a Batalha de Uude, Calide ibne Sufiane, chefe do ramo dos liianitas, iniciou preparativos para atacar os muçulmanos, reunindo combatentes entre as tribos vizinhas. Informado desses preparativos, Maomé encarregou Abedalá ibne Unais de eliminar o líder hudailita. Abedalá emboscou Calide e o matou, frustrando a ofensiva antes que ela fosse lançada.[4] Segundo a tradição, esse episódio intensificou ainda mais a hostilidade dos Banu Liiane contra os muçulmanos. Cerca de um mês depois, uma delegação de seis companheiros enviada por Maomé para ensinar os princípios do islão às tribos dos adalitas e caraítas foi atraída para uma emboscada nas proximidades da fonte de Raji, em território hudailita. Os atacantes declararam que pretendiam capturar os muçulmanos para vendê-los aos coraixitas cujos parentes haviam morrido nas batalhas de Badre e Uude. Diante da recusa em se renderem, quatro membros da expedição foram mortos, enquanto os dois sobreviventes foram levados a Meca e vendidos às famílias que buscavam vingança, sendo executados pouco tempo depois. Em resposta ao episódio, Maomé organizou a Expedição aos liianitas, realizada em 627. Avisados previamente da aproximação de cerca de duzentos muçulmanos, os hudailitas refugiaram-se nas montanhas, e a expedição terminou sem combate após dois dias de permanência na região.[5] A oposição dos hudailitas aos muçulmanos perdurou até a Conquista de Meca. Durante a entrada do exército islâmico na cidade, jovens da tribo participaram do ataque lançado contra o contingente comandado por Calide ibne Alualide nas encostas do monte Handama. Quatro hudailitas figuraram entre os mortos nesse confronto. Após a conquista de Meca, os hudailitas converteram-se ao islão em pouco tempo. Seus principais santuários pagãos foram destruídos, cabendo a Anre ibne Alas demolir o ídolo Suá em Ruate e a Sade ibne Zaíde Alaxali destruir Manate em Almuxalal. Embora a conversão coletiva tenha ocorrido apenas nessa época, alguns membros da tribo já haviam aderido ao islão nos primeiros anos da pregação de Maomé, destacando-se Abedalá ibne Maçude, do ramo dos saditas, e seu irmão Oteba. Entre seus descendentes figuraram diversos estudiosos e tradicionalistas, como Ubaide Alá ibne Abedalá, um dos mais destacados sábios de Medina na geração dos tabis, além do historiador Almaçudi.[6]
História posterior
Durante as conquistas islâmicas dos períodos dos califas bem guiados e dos omíadas, diversos ramos dos hudailitas estabeleceram-se em regiões como a Síria, o Egito e o Norte da África, fixando-se especialmente em Salamia, Acmim e Béja. Ao mesmo tempo, sofreram perdas territoriais em decorrência de conflitos com tribos vizinhas. Segundo Alhandani, no final do século IX, os saditas, apoiados pelo governador abássida de Meca, Uje ibne Xá (ou Uje ibne Saje), expulsaram os hudailitas de parte de suas terras. A medida possivelmente decorreu dos frequentes ataques da tribo às caravanas de peregrinos que percorriam a rota do haje, tornando mais seguro o caminho oriental ao longo da serra de Sarate do que a estrada costeira. Posteriormente, os hudailitas também perderam Mar Azarane para os harbitas, disputa que continuou a provocar violentos confrontos entre as duas tribos ao longo do século X. Apesar dessas migrações e perdas territoriais, os hudailitas permaneceram estabelecidos em sua região tradicional desde a Jailia até os tempos modernos. As fontes medievais mencionam apenas esporadicamente os hudailitas remanescentes do Hejaz, geralmente em razão de sua reputação como guerreiros. Em 930, durante o saque de Meca pelos cármatas, o líder Abu Tair Aljanabi foi alvejado por arqueiros hudailitas posicionados no monte Abu Cubais quando tentava remover a calha de ouro da Caaba após haver saqueado o santuário. Viajantes europeus dos séculos XIX e XX registraram diversos aspectos da vida dos hudailitas. Johann Ludwig Burckhardt descreveu-os como os melhores atiradores da região e observou que sua fama de bravura se confirmou nas guerras contra os uaabitas, nas quais sofreram pesadas perdas antes de se renderem. Charles Montagu Doughty encontrou membros da tribo durante sua viagem entre Taife e Gidá e descreveu suas características físicas, enquanto Harry St John Bridger Philby ressaltou a dureza de suas condições de vida, mencionando o uso de grossas meias de lã em forma de botas, a criação de abelhas e ovinos, o cultivo em terraços irrigados e a criação de uma raça de camelos adaptada ao terreno montanhoso. Ainda hoje os hudailitas dividem-se, como na Antiguidade, entre os grupos conhecidos como Hudail Axame e Hudail Iamane, concentrando-se principalmente nas montanhas de Quera, a oeste de Taife, e no oásis de Zaima, além de bairros periféricos de Meca, onde muitos se dedicam ao comércio de tâmaras, cereais e animais.[6]
Cultura
Os hudailitas desfrutaram de grande prestígio entre as tribos árabes em razão de sua produção poética. Segundo Haçane ibne Tabite, os melhores poetas da Arábia pertenciam à tribo, enquanto Ibne Salame Aljumai considerava Abu Duaibe Alhudaili o maior de seus poetas. Ibne Hasme afirma que mais de setenta poetas eram oriundos da tribo, ao passo que Ibne Cutaiba destacou dez deles como especialmente notáveis, entre os quais Abu Duaibe, Almutanacal Alhudali, Abu Quiraxe Alhudaili, Maleque ibne Alharite, seu irmão Uçama, Omaia ibne Abu Aide, Sacre Algai e Abu Alial e Abu Cabir Alhudaili. Embora alguns desses poetas tenham vivido inteiramente na Jailia, a maioria pertenceu à geração dos mucadrames, que testemunhou tanto o período pré-islâmico quanto o advento do islão. A poesia hudailita ocupa lugar de destaque na tradição literária árabe. Desde os primeiros estudos filológicos, seus poemas foram amplamente transmitidos e utilizados como modelos da língua clássica. O principal repositório dessa produção é o Divã Hudailita (Dīwān al-Hudhaliyyīn), compilado e comentado por Abuçaíde Açucari, que reúne 380 composições atribuídas a 120 poetas da tribo. Os gramáticos árabes consideravam o dialeto dos hudailitas uma das variedades mais puras e confiáveis do árabe, empregando sua poesia como autoridade para questões gramaticais e lexicais. Segundo a tradição filológica, o árabe clássico formou-se principalmente a partir dos dialetos dos caicitas, tamimitas, hudailitas, taiítas e coraixitas, falados na região compreendida entre os arredores de Medina, o norte de Hira, o sul de Meca e o golfo Pérsico. Em razão desse prestígio linguístico, estudiosos costumavam deslocar-se ao território dos hudailitas para recolher exemplos de sua fala. Entre esses estudiosos destacou-se Axafii, de quem se dizia conhecer de memória dez mil versos dos poetas hudailitas, juntamente com suas particularidades gramaticais e vocabulares. Esses poemas também foram estudados por Alasmai e permaneceram como uma das principais fontes para o estabelecimento das normas da língua árabe clássica.[6]
Referências
- ↑ Karaarslan 1999, pp. 70–72.
- ↑ Karaarslan 1999, p. 70.
- 1 2 Karaarslan 1999, pp. 70–71.
- 1 2 3 Karaarslan 1999, p. 71.
- ↑ Karaarslan 1999, pp. 71–72.
- 1 2 3 Karaarslan 1999, p. 72.
Bibliografia
- Karaarslan, Nasuhi Ünal (1999). «Hüzeyl (Benî Hüzeyl)». TDV İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 19. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi. pp. 70–72. Consultado em 20 de julho de 2026
