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Ascensão de Hitler ao poder
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A ascensão ao poder de Adolf Hitler, ditador da Alemanha durante a era nazista, de 1933 até seu suicídio em 1945, começou na recém-criada República de Weimar, em setembro de 1919, quando Hitler ingressou no Deutsche Arbeiterpartei (DAP; Partido dos Trabalhadores Alemães). Ele rapidamente ascendeu a uma posição de destaque e tornou-se um de seus oradores mais populares. Numa tentativa de atrair segmentos maiores da população e conquistar os trabalhadores alemães, o nome do partido foi alterado para Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP; Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães), comumente conhecido como Partido Nazista, e uma nova plataforma foi adotada. Hitler tornou-se líder do partido em 1921, após ameaçar renunciar. Em 1922, seu controle sobre o partido era incontestável. Os nazistas eram um partido de direita, mas nos primeiros anos também contavam com elementos antiburgueses. Posteriormente, Hitler iniciou uma purga desses elementos e reafirmou o apoio do Partido Nazista à colaboração com as empresas alemãs. Isso incluiu o assassinato de críticos de Hitler dentro do partido durante a Noite das Facas Longas, que também serviu como instrumento para consolidar o poder.
Em 1923, Hitler tentou um golpe de estado na Baviera, conhecido como Putsch da Cervejaria. Ele foi preso e levado a julgamento, o que lhe rendeu fama nacional. Foi condenado a 5 anos de prisão em uma fortaleza, mas cumpriu apenas 9 meses.[1] Durante esse período, escreveu Mein Kampf, que se tornou o manual de sua ideologia nazista. Uma vez libertado, Hitler mudou de tática, optando por tomar o poder por meios legais e democráticos. Durante a década de 1920, ele e os nazistas se apresentaram com uma plataforma de anticomunismo, antissemitismo e ultranacionalismo. Os líderes do partido criticavam veementemente o governo democrático vigente e o Tratado de Versalhes, enquanto prometiam transformar a Alemanha em uma potência mundial. A maioria dos alemães se mostrou indiferente à retórica de Hitler, à medida que a economia alemã começava a se recuperar, em grande parte devido a empréstimos dos Estados Unidos sob o Plano Dawes.[2] O cenário político alemão foi drasticamente afetado pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. A Grande Depressão enfraqueceu severamente a economia alemã e polarizou ainda mais a política do país. Durante esse período turbulento, o Partido Comunista Alemão também iniciou sua campanha e conclamou a uma revolução. Alguns líderes empresariais, temendo uma tomada de poder pelos comunistas, passaram a apoiar o Partido Nazista.
Hitler candidatou-se à presidência em 1932 e foi derrotado pelo então presidente Paul von Hindenburg, mas obteve um expressivo segundo lugar em ambos os turnos. Em julho de 1932, os nazistas tornaram-se o maior partido no Reichstag, embora não alcançassem a maioria absoluta. Tradicionalmente, o líder do partido com o maior número de cadeiras no Reichstag era nomeado chanceler. Contudo, o presidente von Hindenburg hesitou em nomear Hitler. Após diversas negociações nos bastidores, que incluíram industriais, o filho de Hindenburg, Oskar, o ex-chanceler Franz von Papen e o próprio Hitler, Hindenburg cedeu e, em 30 de janeiro de 1933, nomeou formalmente Hitler como o novo chanceler da Alemanha.
As bases para a ditadura de Hitler foram lançadas quando o Reichstag foi incendiado em fevereiro de 1933. Os comunistas foram culpados pelo incêndio criminoso e Hitler convenceu von Hindenburg a aprovar o Decreto do Incêndio do Reichstag, que restringiu severamente as liberdades e os direitos dos cidadãos alemães. Posteriormente, ele começou a defender medidas mais drásticas para conter a oposição política e propôs a Lei de Plenos Poderes de 1933. Essa lei concedeu ao governo alemão o poder de sobrepor-se aos direitos individuais previstos na Constituição e conferiu ao chanceler poderes de emergência para aprovar e impor leis sem supervisão parlamentar. A lei entrou em vigor em março e, em abril, Hitler detinha poderes ditatoriais de fato e ordenou a construção do primeiro campo de concentração na Alemanha, em Dachau, para comunistas e outros opositores políticos. A ascensão de Hitler ao poder foi consolidada em agosto de 1934, quando, após a morte de von Hindenburg, Hitler fundiu a chancelaria com a presidência, sob o título de Führer ("líder").
A ascensão de Hitler ao poder foi facilitada por sua disposição em usar a violência para alcançar seus objetivos políticos e recrutar membros do partido dispostos a fazer o mesmo. Além das batalhas eleitorais nas quais Hitler participou como orador e organizador, ocorreram violentos confrontos de rua entre a Frente de Combate Vermelha (Rotfrontkämpferbund) dos comunistas e a Sturmabteilung (SA) dos nazistas. Uma vez que a ditadura estava firmemente estabelecida, os próprios nazistas criaram uma mitologia em torno de sua ascensão ao poder. A propaganda alemã descrevia esse período como Kampfzeit (o tempo da luta) ou Kampfjahre (os anos da luta).
Influências da antiga Alemanha
Historiadores comentaram sobre a influência do processo de "integração negativa" do chanceler alemão Otto von Bismarck, que estabeleceu um tom de exclusão na Alemanha colonial e teve um impacto duradouro no nacionalismo alemão posterior.[3] Bismarck procurou superar as divisões religiosas e políticas na Alemanha colonial, mobilizando a população contra um inimigo comum. Inicialmente, Bismarck conduziu uma campanha contra a Igreja Católica de 1873 até o final da década de 1870, conhecida como Kulturkampf, questionando se os católicos eram leais a Berlim ou a outros estados católicos.[3][4] Em vez de unir o povo alemão, essa campanha resultou em um fortalecimento do apoio à Igreja Católica, alienando uma importante minoria religiosa.[3] Em 1878, Bismarck introduziu uma série de leis antissocialistas que vigorariam de 1878 a 1890, numa tentativa de alienar o Partido Social-Democrata (PSD).[3] Embora alguns setores da sociedade alemã tenham se unido a essa medida, muitos trabalhadores industriais aderiram ao PSD. Os historiadores expressaram que, como o estado alemão ainda era muito novo na época, era, portanto, impressionável; a estratégia de Bismarck de confronto em vez de consenso estabeleceu um tom de lealdade ao governo ou de inimigo do estado, o que influenciou diretamente o sentimento nacionalista alemão e o posterior movimento nazista.[3]
Primeiros passos (1918–1924)
Adolf Hitler envolveu-se com o recém-formado Partido dos Trabalhadores Alemães após a Primeira Guerra Mundial. Ele não gostava do nome da organização e propôs chamá-la de "Partido Social Revolucionário".[5] Mais tarde, transformou-a no Partido Nazista e estabeleceu o tom violento do movimento desde cedo, formando a Sturmabteilung (SA), um grupo paramilitar.[6] A Baviera católica ressentia-se do domínio da Berlim protestante, e Hitler inicialmente viu a revolução na Baviera como um meio de chegar ao poder. Uma tentativa inicial de golpe de estado, o Putsch da Cervejaria de Munique em novembro de 1923, fracassou, e Hitler foi preso por liderar o golpe. Ele usou esse tempo para escrever Mein Kampf, no qual argumentou que a ética judaico-cristã efeminada estava enfraquecendo a Europa e que a República de Weimar precisava de um líder forte e intransigente para se restaurar e construir um império.[7] Aprendendo com o golpe fracassado, ele decidiu adotar a tática de buscar o poder por meios legais, em vez de tomar o controle do governo pela força.[8][9]
Do armistício (novembro de 1918) à filiação ao partido (setembro de 1919)

Em 1914, após receber permissão do rei Luís III da Baviera, Adolf Hitler, então com 25 anos e nascido na Áustria-Hungria, alistou-se em um regimento bávaro do Exército Imperial Alemão, embora ainda não fosse cidadão alemão. Por mais de 4 anos (agosto de 1914 a novembro de 1918), o Império Alemão foi uma participante importante na Primeira Guerra Mundial.[a] Após o fim dos combates na Frente Ocidental em novembro de 1918,[b] Hitler recebeu alta do hospital Pasewalk em 19 de novembro[c] e retornou a Munique, que na época vivia um período de agitação socialista.[10] Chegando em 21 de novembro, foi designado para a 7.ª Companhia do 1.º Batalhão de Substituição do 2.º Regimento de Infantaria. Em dezembro, foi transferido para um campo de prisioneiros de guerra em Traunstein como guarda.[11] Ele permaneceu lá até que o campo foi dissolvido em janeiro de 1919, após o que retornou a Munique e passou algumas semanas de serviço de guarda na principal estação ferroviária da cidade (Hauptbahnhof), por onde os soldados haviam viajado.[12][d]
Durante esse período, vários alemães notáveis foram assassinados, incluindo o socialista Kurt Eisner,[e] que foi morto a tiros por um nacionalista alemão em 21 de fevereiro de 1919. Seu rival Erhard Auer também foi ferido em um ataque. Outros atos de violência foram os assassinatos do major Paul Ritter von Jahreiß e do deputado conservador Heinrich Osel. Nesse caos político, Berlim enviou os militares, chamados de "Guarda Branca do Capitalismo" pelos comunistas. Em 3 de abril de 1919, Hitler foi eleito oficial de ligação de seu batalhão militar e novamente em 15 de abril. Durante esse período, ele insistiu para que sua unidade se mantivesse fora dos combates e não se juntasse a nenhum dos lados.[13]
A República Soviética da Baviera foi oficialmente esmagada em 6 de maio, quando o tenente-general Burghard von Oven e suas forças declararam Munique segura. Após prisões e execuções, Hitler denunciou um colega de ligação, Georg Dufter, como um "agitador radical" soviético.[14] Outros depoimentos que ele deu ao conselho militar de inquérito permitiram que eles identificassem outros membros das forças armadas que "haviam sido infectados pelo fervor revolucionário".[15] Por suas opiniões anticomunistas, ele foi autorizado a evitar a expulsão quando sua unidade foi dissolvida em maio de 1919.[16][f]
Em junho de 1919, Hitler foi transferido para o escritório de desmobilização do 2.º Regimento de Infantaria. Nessa época, o comando militar alemão divulgou um decreto que determinava que a principal prioridade do exército era "realizar, em conjunto com a polícia, uma vigilância mais rigorosa da população... para que o início de qualquer novo distúrbio pudesse ser descoberto e extinto".[14] Em maio de 1919, Karl Mayr tornou-se comandante do 6.º Batalhão do regimento da guarda em Munique e, a partir de 30 de maio, chefe do "Departamento de Educação e Propaganda" do Comando Geral von Oven e do Comando do Grupo N.º 4 (Departamento Ib). Nessa função de chefe do departamento de inteligência, Mayr recrutou Hitler como agente infiltrado no início de junho de 1919. Sob o comando do capitão Mayr, cursos de "pensamento nacional" foram organizados no Reichswehrlager Lechfeld, perto de Augsburg,[17] com Hitler participando de 10 a 19 de julho. Durante esse tempo, Hitler impressionou tanto Mayr que o designou para um "comando educacional" antibolchevique como 1 de 26 instrutores no verão de 1919.[18][19][g][h]
Em julho de 1919, Hitler foi nomeado Verbindungsmann (agente de inteligência) de um Aufklärungskommando (comando de reconhecimento) da Reichswehr, tanto para influenciar outros soldados quanto para se infiltrar no Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP). O DAP havia sido formado por Anton Drexler, Karl Harrer e outros, através da fusão de outros grupos, em 5 de janeiro de 1919, em uma pequena reunião no restaurante Fuerstenfelder Hof, em Munique. Enquanto estudava as atividades do DAP, Hitler ficou impressionado com as ideias antissemitas, nacionalistas, anticapitalistas e antimarxistas de Drexler.[20]

Durante a reunião de 12 de setembro de 1919,[i] Hitler se ofendeu com comentários feitos por um membro da plateia dirigidos a Gottfried Feder, o palestrante, um economista que Hitler conhecia devido a uma palestra que Feder ministrou em um curso de "educação" do exército.[19][j] O membro da plateia (em Mein Kampf, Hitler se referiu a ele depreciativamente como "professor") afirmou que a Baviera deveria ser totalmente independente da Alemanha e deveria se separar da Alemanha e se unir à Áustria para formar uma nova nação da Alemanha do Sul.[k] O volátil Hitler se levantou e repreendeu o homem, fazendo com que ele deixasse a reunião antes do seu encerramento.[21][22]
Impressionado com a oratória de Hitler, Drexler o encorajou a se juntar ao DAP. Por ordem de seus superiores no exército, Hitler solicitou a entrada no partido.[23] Em uma semana, Hitler recebeu um cartão postal informando que havia sido oficialmente aceito como membro e que deveria comparecer a uma reunião do "comitê" para discutir o assunto. Hitler compareceu à reunião do "comitê" realizada na decadente cervejaria Alte Rosenbad.[24] Mais tarde, Hitler escreveu que ingressar no partido recém-formado "...foi a decisão mais decisiva da minha vida. A partir dali, não havia e não poderia haver volta. ... Registrei-me como membro do Partido dos Trabalhadores Alemães e recebi um cartão de membro provisório com o número 7".[25] Normalmente, os militares alistados não tinham permissão para se filiar a partidos políticos. No entanto, neste caso, Hitler tinha a permissão do capitão Mayr para se juntar ao DAP. Além disso, Hitler foi autorizado a permanecer no exército e receber seu pagamento semanal de 20 marcos de ouro.[26]
Da filiação inicial ao partido à Hofbräuhaus Melée (novembro de 1921)
Otto Strasser: Qual é o programa do NSDAP?
Adolf Hitler: O programa não é a questão. A única questão é o poder.
Strasser: O poder é apenas o meio para realizar o programa.
Hitler: Essas são as opiniões dos intelectuais. Precisamos de poder![27]
No início de 1920, o Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP) já contava com mais de 101 membros, e Adolf Hitler recebeu seu cartão de membro com o número 555 (os números começavam em 501).[l] As consideráveis habilidades de oratória e propaganda de Hitler eram apreciadas pela liderança do partido. Com o apoio de Anton Drexler, Hitler tornou-se chefe de propaganda do partido no início de 1920 e suas ações começaram a transformar o partido. Ele organizou a maior reunião do partido até então, com 2.000 pessoas, em 24 de fevereiro de 1920, na Staatliches Hofbräuhaus in München.[28] Lá, Hitler anunciou o programa de 25 pontos do partido (ver Programa Nacional Socialista).[29] Ele também arquitetou a mudança de nome do DAP para Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei – NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães), mais tarde conhecido no resto do mundo como Partido Nazista.[m][30] Hitler desenhou a bandeira do partido, uma suástica em um círculo branco sobre um fundo vermelho. Ele foi dispensado do exército em março de 1920 e começou a trabalhar em tempo integral para o Partido Nazista.[31] Embora o NSDAP afirmasse que Hitler não recebia renda deles e vivia dos honorários que recebia por palestras em eventos não-partidários, ele era, na verdade, sustentado financeiramente por vários patronos ricos e simpatizantes do partido.[32]

Em 1920, um pequeno esquadrão de "proteção de salões" foi organizado em torno de Emil Maurice.[33] O grupo foi inicialmente chamado de "Tropas da Ordem" (Ordnertruppen). Mais tarde, em agosto de 1921, Hitler redefiniu o grupo, que passou a ser conhecido como "Divisão de Ginástica e Esportes" do partido (Turn- und Sportabteilung).[34] No outono de 1921, o grupo passou a ser chamado de Sturmabteilung ("Destacamento de Assalto") ou SA, e em novembro de 1921 o grupo foi oficialmente conhecido por esse nome.[35] Também em 1920, Hitler começou a dar palestras em cervejarias de Munique, particularmente na Hofbräuhaus, Sterneckerbräu e Bürgerbräukeller. Somente Hitler era capaz de atrair multidões para os discursos e reuniões do partido. A esta altura, a polícia já monitorava os discursos e os seus próprios registos sobreviventes revelam que Hitler proferiu palestras com títulos como Fenómeno Político, Judeus e o Tratado de Versalhes. No final do ano, o número de membros do partido era de 2.000.[36]
Em junho de 1921, enquanto Hitler e Dietrich Eckart estavam em uma viagem de arrecadação de fundos a Berlim, uma revolta eclodiu dentro do Partido Nazista em Munique, sua sede organizacional. Membros de seu comitê executivo queriam se fundir com o rival Partido Socialista Alemão (DSP).[37] Hitler retornou a Munique em 11 de julho e, furioso, apresentou sua renúncia. Os membros do comitê perceberam que a renúncia de sua principal figura pública e orador significaria o fim do partido.[38] Hitler anunciou que voltaria a se filiar sob a condição de substituir Drexler como presidente do partido e que a sede do partido permanecesse em Munique.[39] O comitê concordou, e ele retornou ao partido em 26 de julho como membro número 3.680.[39] Nos dias seguintes, Hitler discursou para várias plateias lotadas e se defendeu, sob aplausos estrondosos. Sua estratégia provou ser bem-sucedida: em uma assembleia geral, ele recebeu poderes absolutos como presidente do partido, com apenas um voto contrário.[40]
Em 14 de setembro de 1921, Hitler e um número considerável de membros da SA e outros partidários do Partido Nazista interromperam uma reunião da Liga Bávara no Löwenbräukeller. Essa organização federalista opunha-se ao centralismo da Constituição de Weimar, mas aceitava seu programa social. A Liga era liderada por Otto Ballerstedt, um engenheiro que Hitler considerava "meu oponente mais perigoso". Um nazista, Hermann Esser, subiu em uma cadeira e gritou que os judeus eram os culpados pelas desgraças da Baviera, e os nazistas exigiram que Ballerstedt cedesse a palavra a Hitler.[41] Os nazistas espancaram Ballerstedt e o empurraram do palco para a plateia. Hitler e Esser foram presos, e Hitler comentou notoriamente ao comissário de polícia: "Está tudo bem. Conseguimos o que queríamos. Ballerstedt não falou."[42]
Menos de 2 meses depois, em 4 de novembro de 1921, o Partido Nazista realizou uma grande reunião pública na Hofbräuhaus de Munique. Depois que Hitler discursou por algum tempo, a reunião se transformou em uma confusão generalizada na qual uma pequena companhia da SA derrotou a oposição.[33] Por sua participação nesses eventos, Hitler foi finalmente condenado em janeiro de 1922 a 3 meses de prisão por "perturbação da paz", mas passou pouco mais de um mês na prisão de Stadelheim em Munique.[43]
Da confusão na cervejaria ao golpe de estado na cervejaria
Em 1922 e no início de 1923, Adolf Hitler e o Partido Nazista formaram duas organizações que cresceriam e teriam enorme importância. A primeira começou como Jungsturm Adolf Hitler e Jugendbund der NSDAP; mais tarde, elas se tornariam a Juventude Hitlerista.[44][45] A outra era a Stabswache (Guarda de Estado-Maior), que em maio de 1923 foi renomeada para Stoßtrupp-Hitler (Tropa de Choque-Hitler).[46] Essa primeira encarnação de uma unidade de escolta para Hitler mais tarde se tornaria a Schutzstaffel (SS).[47] Inspirado pela Marcha sobre Roma de Benito Mussolini em 1922, Hitler decidiu que um golpe de estado era a estratégia adequada para tomar o controle do governo alemão. Em maio de 1923, pequenos elementos leais a Hitler dentro da Reichswehr ajudaram a Sturmabteilung (SA) a obter ilegalmente um quartel e seu armamento, mas a ordem para marchar nunca chegou, possivelmente porque Hitler havia sido avisado pelo general do exército Otto von Lossow de que "ele seria alvejado" pelas tropas da Reichswehr se tentassem um golpe.[48]

Um momento crucial ocorreu quando Hitler liderou o Putsch da Cervejaria, uma tentativa de golpe de estado em 8 a 9 de novembro de 1923. No Bürgerbräukeller, em Munique, Hitler e seus deputados anunciaram seu plano: os funcionários do governo bávaro seriam depostos e Hitler seria instalado como chefe do governo, com Munique sendo usada como base para marchar sobre Berlim. Quase 2.000 membros do Partido Nazista dirigiram-se à Marienplatz, no centro de Munique, onde foram recebidos por um cordão policial convocado para impedi-los. 16 membros do Partido Nazista e 4 policiais foram mortos na violência que se seguiu. Hitler escapou brevemente da cidade, mas foi preso em 11 de novembro de 1923[49] e levado a julgamento por alta traição, o que lhe rendeu ampla atenção pública.[50]

O julgamento começou em fevereiro de 1924. Hitler tentou inverter a situação e colocar a democracia e a República de Weimar em julgamento como traidoras do povo alemão. Hitler foi condenado e, em 1 de abril, sentenciado a 5 anos de Festungshaft (prisão em fortaleza) na prisão de Landsberg.[51] Ele recebeu tratamento amigável dos guardas; tinha um quarto com vista para o rio, usava gravata, recebia visitas regulares em seus aposentos, podia receber correspondência de apoiadores e tinha permissão para usar um secretário particular.
A maior preocupação de Hitler durante o julgamento era o risco de ser deportado de volta para seu país natal, a Áustria, pelo governo bávaro.[52] No entanto, o juiz do julgamento, Georg Neithardt, simpatizava com Hitler e sustentou que as leis relevantes da República de Weimar não poderiam ser aplicadas a Hitler nos termos da Proteção da República:
Hitler era um germano-austríaco. Ele se considerava alemão. Na opinião do tribunal, o significado e os termos do artigo 9, parágrafo II, da Lei de Proteção da República não podem ser aplicados a um homem que pensa e se sente tão alemão quanto Hitler, que serviu voluntariamente por 4 anos e meio no Exército Alemão em guerra, que alcançou altas honras militares por bravura excepcional diante do inimigo, foi ferido, sofreu outros danos à sua saúde e foi dispensado do serviço militar sob o controle do Comando Distrital de Munique I.[53]
Perdoado pelo Supremo Tribunal da Baviera, ele foi libertado da prisão em 20 de dezembro de 1924, após cumprir apenas 9 meses, contra as objeções do promotor estadual.[54] Hitler usou o tempo na prisão de Landsberg para reconsiderar sua estratégia política e ditar o primeiro volume de Mein Kampf (Minha Luta; originalmente intitulado Quatro Anos e Meio de Luta contra Mentiras, Estupidez e Covardia), principalmente para seu vice Rudolf Hess.[n]
Após o Putsch da Cervejaria, o Partido Nazista foi banido na Baviera, mas participou das duas eleições de 1924 por procuração como Movimento Nacional-Socialista da Liberdade (NSFP) (combinação do Deutschvölkische Freiheitspartei (DVFP) e do Partido Nazista (NSDAP)). Nas eleições federais alemãs de maio de 1924, o partido conquistou cadeiras no Reichstag, com 6,6% (1.918.329) dos votos. Nas eleições federais de dezembro de 1924, o NSFP perdeu 18 cadeiras, mantendo apenas 14, com 3% (907.242) do eleitorado votando no partido de Hitler. O Escândalo Barmat foi frequentemente usado posteriormente na propaganda nazista, tanto como estratégia eleitoral quanto como apelo ao antissemitismo.[55]
Após alguma reflexão, Hitler determinou que o poder seria alcançado não através de uma revolução fora do governo, mas sim através do que ele chamou de "o caminho da legalidade" dentro dos limites do sistema democrático estabelecido em Weimar.[56]
Movimento em direção ao poder (1925–1930)
Nas eleições federais de maio de 1928, o Partido Nazista conquistou apenas 12 cadeiras no Reichstag.[57] O maior ganho provincial foi novamente na Baviera (5,1%), embora em 3 áreas os nazistas não tenham conseguido sequer 1% dos votos. No geral, o partido obteve 2,6% dos votos (810.100 votos).[57] Em parte devido aos resultados ruins, Adolf Hitler decidiu que os alemães precisavam saber mais sobre seus objetivos. Apesar de ter sido desencorajado por seu editor, ele escreveu um segundo livro que foi descoberto e publicado postumamente como o Zweites Buch (Segundo Livro). Nessa época, a Sturmabteilung (SA) iniciou um período de antagonismo deliberado à Roter Frontkämpferbund (Frente Vermelha), marchando para redutos comunistas e iniciando confrontos violentos.
No final de 1928, o número de membros do partido era de 130.000. Em março de 1925, Erich Ludendorff representou o Partido Nazista nas eleições presidenciais. Ele obteve 280.000 votos (1,1%) e foi o único candidato a receber menos de um milhão de votos. Os confrontos nas ruas tornaram-se cada vez mais violentos. Depois que a Frente Vermelha interrompeu um discurso de Hitler, a SA marchou pelas ruas de Nuremberg e matou 2 transeuntes. Buscando vingança, a SA também invadiu uma reunião da Frente Vermelha em 25 de agosto e, dias depois, a própria sede do Partido Comunista da Alemanha (KPD) em Berlim. Em setembro, Joseph Goebbels liderou seus homens até Neukölln, um reduto do KPD, e os 2 lados em guerra trocaram tiros de pistola e revólver. O referendo alemão de 1929 foi importante, pois deu ao Partido Nazista o reconhecimento e a credibilidade que nunca havia tido antes.[58] No final da década de 1920, vendo a falta de penetração do partido no cenário político dominante, Goebbels propôs que, em vez de concentrar toda a sua propaganda nas principais cidades, onde havia competição de outros movimentos políticos, eles deveriam começar a realizar comícios em áreas rurais, onde seriam mais eficazes.[56]
Na noite de 14 de janeiro de 1930, por volta das 10h, Horst Wessel foi fatalmente baleado no rosto à queima-roupa por dois membros do KPD em Friedrichshain.[59] O ataque ocorreu após uma discussão com sua senhoria, que era membro do KPD e contatou um de seus amigos da Frente Vermelha, Albert Hochter, que atirou em Wessel.[60] Wessel havia composto uma canção meses antes, que se tornaria um hino nazista, conhecida como Horst-Wessel-Lied. Goebbels aproveitou o ataque (e as semanas que Wessel passou em seu leito de morte) para divulgar a canção, e o funeral foi usado como uma oportunidade de propaganda anticomunista para os nazistas.[61] Em maio, Goebbels foi condenado por "difamar" o presidente Paul von Hindenburg e multado em 800 marcos. A condenação decorreu de um artigo de 1929 de Goebbels em seu jornal Der Angriff. Em junho, Goebbels foi acusado de alta traição pelo promotor de Leipzig com base em declarações que Goebbels havia feito em 1927, mas após uma investigação de 4 meses, não chegou a lugar nenhum.[62]

Neste contexto, o partido de Hitler obteve uma vitória significativa no Reichstag, conquistando 107 assentos (18,3%, 6.409.600 votos) nas eleições federais de setembro de 1930.[57] Os nazistas tornaram-se assim o segundo maior partido da República de Weimar e, como observa o historiador Joseph Bendersky, tornaram-se essencialmente a "força política dominante na direita".[63]
Uma quantia de dinheiro sem precedentes foi investida na campanha e o sucesso político aumentou o ímpeto do partido, uma vez que registou mais de 100.000 novos membros nos meses seguintes às eleições.[64] Bem mais de um milhão de panfletos foram produzidos e distribuídos; 70 caminhões foram requisitados para uso somente em Berlim. Nas áreas onde a campanha foi menos rigorosa, a percentagem total de votos foi tão baixa quanto 9%. A Grande Depressão também foi um fator do sucesso eleitoral de Hitler. Neste contexto legal, a SA iniciou sua primeira grande ação antissemita em 13 de outubro de 1930, quando grupos de camisas pardas quebraram as janelas de lojas de propriedade judaica na Potsdamer Platz.[65]
Partidos de Weimar não conseguem deter os nazistas
A quebra de Wall Street em 1929 anunciou o desastre económico mundial. O povo da República de Weimar, cansado dos velhos sistemas económicos, votou nos nazistas e nos comunistas, que obtiveram grandes ganhos nas eleições federais de 1930.[66] Os nazistas e os comunistas garantiram entre si quase 40% dos assentos no Reichstag, o que exigiu que os partidos moderados considerassem negociações com os anti-democratas.[67] "Os comunistas", escreveu o historiador Alan Bullock, "anunciaram abertamente que prefeririam ver os nazistas no poder a levantar um dedo para salvar a república".[68]
Leon Trótski foi especialmente crítico da mudança de posição política da Comintern sob Joseph Stalin, que orientava os comunistas alemães a tratar os social-democratas como "social-fascistas". O historiador Bertrand Patenaude acreditava que a política da Comintern após a "Grande Ruptura" facilitou a ascensão do partido de Adolf Hitler.[69]
Os partidos políticos de Weimar não conseguiram impedir a ascensão dos nazistas. O sistema político alemão de Weimar dificultava que os chanceleres governassem com uma maioria parlamentar estável, e os sucessivos chanceleres, em vez disso, dependiam dos poderes de emergência do presidente para governar.[70] Em 1931, o Partido Nazista alterou sua estratégia para realizar campanhas perpétuas em todo o país, mesmo fora do período eleitoral.[56] De 1931 a 1933, os nazistas combinaram táticas de terror com campanhas convencionais, Hitler cruzava o país de avião, enquanto tropas da Sturmabteilung (SA) desfilavam pelas ruas, espancavam oponentes e interrompiam suas reuniões.[9]
Não existia um partido liberal de classe média suficientemente forte para bloquear os nazistas, o Partido Popular Alemão e o Partido Democrático Alemão sofreram pesadas derrotas para os nazistas nas urnas. O Partido Social-Democrata da Alemanha eram essencialmente um partido sindical conservador, com uma liderança ineficaz. O Partido do Centro Alemão manteve seu bloco eleitoral, mas estava preocupado em defender seus próprios interesses particulares e, como escreveu Bullock: "durante 1932 a 1933... estava tão longe de reconhecer o perigo de uma ditadura nazista que continuou a negociar com os nazistas". Os comunistas, por sua vez, estavam envolvidos em confrontos violentos com os nazistas nas ruas, mas Moscou havia instruído o Partido Comunista da Alemanha a priorizar a destruição do Partido Social-Democrata, considerando-os mais perigosos como rivais pela lealdade da classe trabalhadora. No entanto, escreveu Bullock, a maior responsabilidade recaía sobre a direita alemã, que "abandonou um verdadeiro conservadorismo" e fez de Hitler seu parceiro em um governo de coalizão.[71]
Uma análise estatística sistemática de 2008 constatou que o comportamento eleitoral em Weimar era consistente com eleições democráticas em diferentes épocas e lugares, contrariando outros estudiosos que tratavam as eleições de Weimar como um caso único. De acordo com a análise, os grupos mais afetados pela depressão econômica tinham interesses divergentes e, portanto, comportavam-se de maneira diferente. Aqueles que estavam desempregados ou em risco de desemprego apoiavam desproporcionalmente os comunistas e, às vezes, os social-democratas; os trabalhadores pobres que foram afetados pela economia, mas não corriam o risco de desemprego (comerciantes autônomos e profissionais liberais, empregados domésticos, ajudantes familiares), especialmente em regiões protestantes, apoiavam desproporcionalmente os nazistas; alguns trabalhadores pobres, particularmente domésticos e camponeses, mantiveram-se leais ao Partido do Centro devido à política agrícola nazista não ter atraído os agricultores do sul de Weimar, bem como aos incentivos econômicos da Igreja Católica.[72]

Heinrich Brüning, do Partido do Centro, foi chanceler de 1930 a 1932. Brüning e Hitler não conseguiram chegar a um acordo de cooperação, mas o próprio Brüning governou cada vez mais com o apoio do presidente e do exército em detrimento do parlamento.[73] O presidente Paul von Hindenburg, de 84 anos, um monarquista conservador, relutava em tomar medidas para suprimir os nazistas, enquanto o ambicioso major-general Kurt von Schleicher, como ministro responsável pelos assuntos do exército e da marinha, esperava obter o apoio deles.[74] Com o apoio de Schleicher e a aprovação declarada de Hitler, von Hindenburg nomeou o monarquista católico Franz von Papen para substituir Brüning como chanceler em junho de 1932.[75][76] von Papen havia participado ativamente do ressurgimento da Frente Harzburg.[77] Ele havia rompido com o Partido do Centro.[78] Ele esperava, em última análise, superar Hitler em manobras políticas.[79]
Nas eleições federais de julho de 1932, os nazistas se tornaram o maior partido no Reichstag, embora sem maioria. Hitler retirou o apoio a von Papen e exigiu a chancelaria. von Hindenburg recusou.[80] von Papen dissolveu o Parlamento e a votação nazista diminuiu nas eleições de novembro.[81] Após as eleições, von Papen propôs governar por decreto enquanto elaborava um novo sistema eleitoral, com uma câmara alta. von Schleicher convenceu von Hindenburg a demitir von Papen e o próprio von Schleicher tornou-se chanceler, prometendo formar uma coalizão viável.[82]
O ressentido von Papen iniciou negociações com Hitler, propondo uma coligação Nazi-DNVP. Tendo quase conseguido enganar Hitler, apenas para ser derrotado por von Schleicher, von Papen voltou suas atenções para derrotar von Schleicher e concluiu um acordo com Hitler.[83]
Tomada do controle (1931–1933)
Em 10 de março de 1931, com o aumento da violência nas ruas entre a Frente de Libertação e a Sturmabteilung (SA), rompendo todas as barreiras e expectativas anteriores, a República de Weimar restabeleceu sua proibição contra a SA. Dias após a proibição, membros da SA mataram a tiros 2 comunistas em uma briga de rua, o que levou à proibição de Joseph Goebbels discursar em público. Ele contornou a proibição gravando discursos e reproduzindo-os para uma plateia em sua ausência.
Quando a cidadania de Adolf Hitler se tornou assunto de discussão pública em 1924, ele mandou imprimir uma declaração pública em 16 de outubro de 1924:
A perda da minha cidadania austríaca não me causa dor, pois nunca me senti como cidadão austríaco, mas sempre como alemão. ... Foi essa mentalidade que me levou à conclusão final de prestar serviço militar no Exército Alemão.[84]
Sob a ameaça de deportação criminal para a Áustria, Hitler renunciou formalmente à sua cidadania austríaca em 7 de abril de 1925 e só adquiriu a cidadania alemã quase 7 anos depois; portanto, ele não pôde concorrer a cargos públicos.[85] Hitler obteve a cidadania alemã depois de ser nomeado funcionário do governo do Estado Livre de Brunswick por Dietrich Klagges, após uma tentativa anterior de Wilhelm Frick de transmitir a cidadania como policial da Turíngia ter falhado.[86][87]
Ernst Röhm, responsável pela SA, colocou Wolf-Heinrich Graf von Helldorff, um antissemita veemente, no comando da SA de Berlim. As mortes aumentaram, com muito mais gente do lado da Frente Vermelha, e no final de 1931 a SA havia sofrido 47 mortes e a Frente Vermelha registrou perdas de aproximadamente 80 mortos. Brigas de rua e confrontos em cervejarias, resultando em mortes, ocorreram ao longo de fevereiro a abril de 1932, tudo isso tendo como pano de fundo a disputa de Hitler na eleição presidencial em 1932, que o colocou contra o extremamente popular Paul von Hindenburg. No primeiro turno, em 13 de março, Hitler obteve mais de 11 milhões de votos, mas ainda estava atrás de von Hindenburg. O segundo e último turno ocorreu em 10 de abril: Hitler (36,8%, 13.418.547 votos) perdeu para von Hindenburg (53,0%, 19.359.983 votos), enquanto o candidato do Partido Comunista da Alemanha (KPD), Ernst Thälmann, obteve uma pequena porcentagem dos votos (10,2%, 3.706.759 votos). Naquela época, o Partido Nazista tinha pouco mais de 800.000 membros.
Em 13 de abril de 1932, após as eleições presidenciais, o governo alemão proibiu os paramilitares do Partido Nazista, a SA e a Schutzstaffel (SS), com base no Decreto de Emergência para a Preservação da Autoridade Estatal.[88] Essa ação foi motivada por detalhes descobertos pela polícia alemã que indicavam que a SA estava preparada para tomar o poder pela força após a eleição de Hitler. O levantamento da proibição e a realização de novas eleições foram o preço exigido por Hitler em troca de seu apoio a um novo gabinete. A lei foi revogada em 16 de junho por Franz von Papen, chanceler da Alemanha, como parte de seu acordo com Hitler.[89] Nas eleições federais de julho de 1932, os nazistas conquistaram 37,3% dos votos (13.745.000 votos), um aumento de 19%, tornando-se o maior partido no Reichstag, com 230 das 608 cadeiras.[57] Eclipsado pelos ganhos eleitorais de Hitler, o KPD abandonou os meios legais e recorreu cada vez mais à violência. Uma das batalhas resultantes na Silésia levou ao envio do exército. Nessa altura, ambos os lados marcharam para os redutos um do outro, na esperança de provocar uma reação. Os ataques continuaram e atingiram o auge quando o líder da SA, Axel Schaffeld, foi assassinado em 1 de agosto.
Como o Partido Nazista era agora o maior partido no Reichstag, tinha o direito de escolher o presidente do Reichstag e conseguiu eleger Hermann Göring para o cargo.[90] Encorajado por este sucesso, Hitler pediu para ser nomeado chanceler. Foi-lhe oferecido o cargo de vice-chanceler pelo chanceler von Papen a pedido do presidente von Hindenburg, mas ele recusou. Hitler viu esta oferta como uma forma de o colocar numa posição de "segunda linha" no governo.[91]
Na sua posição de presidente do Reichstag, Göring solicitou que o governo tomasse medidas decisivas em relação à onda de assassinatos de membros do Partido Nazista. Em 9 de agosto, foram feitas emendas ao Código Penal do Reich sobre "atos de violência política", aumentando a pena para "prisão perpétua, 20 anos de trabalhos forçados ou pena de morte". Tribunais especiais foram anunciados para julgar tais crimes. Menos de 6 meses depois, ao assumir o poder, Hitler usaria essa legislação contra seus oponentes com efeitos devastadores.
A lei foi aplicada quase imediatamente, mas não levou os perpetradores dos recentes massacres a julgamento, como era esperado. Em vez disso, 5 homens da SA, acusados de assassinar um membro do KPD em Potempa (Alta Silésia), foram julgados. Hitler compareceu ao julgamento como testemunha de defesa, mas em 22 de agosto os 5 foram condenados à morte. Em apelação, a sentença foi comutada para prisão perpétua no início de setembro. Eles cumpriram pouco mais de 4 meses antes de Hitler libertar todos os nazistas presos em uma anistia concedida em 1933.
O Partido Nazista perdeu 35 cadeiras nas eleições de novembro de 1932, mas manteve-se como o maior partido do Reichstag, com 196 cadeiras (33,1%). Os Social-Democratas (SPD) conquistaram 121 cadeiras (20,4%) e os Comunistas (KPD) 100 (16,9%).
A Internacional Comunista descreveu todos os partidos de esquerda moderados como "social-fascistas" e instou os comunistas a dedicarem as suas energias à destruição da esquerda moderada. Como resultado, o KPD, seguindo ordens de Moscou, rejeitou as propostas dos social-democratas para formar uma aliança política contra o Partido Nazista.[92][93]
| Posse de Hitler como Chanceler | |
|---|---|
Em 30 de janeiro de 1933, o presidente da República de Weimar, Paul von Hindenburg, nomeou Adolf Hitler como chanceler da Alemanha. Hitler (na foto) leu uma mensagem à nação alemã em 1 de fevereiro, transmitida por todas as estações de rádio alemãs | |
| Data | 30 de janeiro de 1933 |
| Localização | Berlim, República de Weimar |
| Participantes | Paul von Hindenburg Adolf Hitler Gabinete de Hitler |
| Resultado | Hitler tornou-se o chanceler da Alemanha |
Após deixar o cargo, o chanceler von Papen confidenciou a Hitler que ainda exercia considerável influência sobre o presidente von Hindenburg e que o nomearia chanceler, desde que von Papen permanecesse como vice-chanceler. Outro evento notável foi a publicação da 'Industrielleneingabe', uma carta assinada por 22 importantes representantes da indústria, finanças e agricultura, solicitando a von Hindenburg a nomeação de Hitler como chanceler. von Hindenburg concordou, ainda que a contragosto, em nomear Hitler, visto que as eleições parlamentares de julho e novembro de 1932 não resultaram na formação de um governo majoritário, apesar de Hitler ter sido adversário de von Hindenburg na eleição presidencial apenas 9 meses antes. Hitler liderou um governo de coalizão de curta duração, formado pelo Partido Nazista e pelo Partido Popular Nacional Alemão (DNVP).
Em 30 de janeiro de 1933, o novo gabinete tomou posse durante uma breve cerimônia no escritório de von Hindenburg. O Partido Nazista ganhou 3 cargos: Hitler foi nomeado chanceler, Wilhelm Frick Ministro do Interior e Hermann Göring, Ministro sem pasta (e Ministro do Interior da Prússia).[94][95] A SA e a SS lideraram desfiles com tochas por toda Berlim. Foi esse evento que ficou conhecido como Machtergreifung (tomada do poder) de Hitler. O termo foi originalmente usado por alguns nazistas para sugerir um processo revolucionário,[96] embora Hitler e outros usassem a palavra Machtübernahme (tomada do poder), refletindo que a transferência de poder ocorreu dentro da estrutura constitucional existente[96] e sugerindo que o processo era legal.[97][98]
von Papen deveria servir como vice-chanceler em um gabinete de maioria conservadora, ainda acreditando erroneamente que poderia "domar" Hitler.[99] Inicialmente, von Papen se manifestou contra alguns excessos nazistas. No entanto, depois de escapar por pouco da morte na Noite das Facas Longas em 1934, ele não ousou mais criticar o regime e foi enviado a Viena como embaixador alemão.[100]
Tanto na Alemanha como no estrangeiro, inicialmente havia poucos receios de que Hitler pudesse usar a sua posição para estabelecer o seu posterior regime ditatorial de partido único. Pelo contrário, os conservadores que o ajudaram a tornar-se chanceler estavam convencidos de que podiam controlar Hitler e "domar" o Partido Nazista, ao mesmo tempo que davam os impulsos necessários ao governo; os embaixadores estrangeiros minimizaram as preocupações, enfatizando que Hitler era uma cópia "medíocre", senão "má", de Benito Mussolini; até o político do SPD, Kurt Schumacher, trivializou Hitler como um "decoração" ("peça de cenário/decoração") do novo governo. Os jornais alemães escreveram que, sem dúvida, o governo liderado por Hitler tentaria combater os seus inimigos políticos (os partidos de esquerda), mas que seria impossível estabelecer uma ditadura na Alemanha porque existia "uma barreira que a violência não podia ultrapassar" e porque a nação alemã se orgulhava da "liberdade de expressão e de pensamento". Benno Reifenberg, do Frankfurter Zeitung, escreveu:[101]
É um erro de julgamento imperdoável pensar que se possa impor um regime ditatorial à nação [alemã]. [...] A diversidade do povo alemão exige democracia.
– Benno Reifenberg
Mesmo dentro da comunidade judaica alemã, apesar de Hitler não esconder seu antissemitismo fervoroso, as preocupações parecem ter sido limitadas. Em uma declaração de 30 de janeiro, o comitê diretivo da organização central judaica alemã (Centralverein deutscher Staatsbürger jüdischen Glaubens) escreveu que "naturalmente" a comunidade judaica encara o novo governo "com a maior desconfiança", mas ao mesmo tempo estavam convencidos de que "ninguém ousaria tocar em [seus] direitos constitucionais". O jornal judaico alemão Jüdische Rundschau escreveu em 31 de janeiro:[102]
... que também dentro da nação alemã ainda estão ativas forças que se opõem a uma política antissemita bárbara.
– Jüdische Rundschau, 31 January 1933
No entanto, um número crescente de observadores atentos, como Horace Rumbold, embaixador britânico em Berlim, começou a rever suas opiniões. Em 22 de fevereiro de 1933, ele escreveu: "Hitler pode não ser um estadista, mas é um demagogo incomumente inteligente e audacioso, e totalmente consciente de todos os instintos populares", e informou ao Ministério das Relações Exteriores que não tinha dúvidas de que os nazistas "vieram para ficar".[103] Ao receber o despacho, Robert Vansittart, Subsecretário de Estado Permanente para Assuntos Exteriores, concluiu que, se Hitler eventualmente ganhasse vantagem, "então outra guerra europeia [estaria] ao alcance".[104]
Como os alemães que se opunham ao nazismo não conseguiram se unir contra ele, Hitler logo passou a consolidar o poder absoluto:
Correndo o risco de parecer que estou falando bobagens, digo-lhes que o movimento nacional-socialista durará 1.000 anos! ... Não se esqueçam de como as pessoas riram de mim há 15 anos, quando declarei que um dia governaria a Alemanha. Elas riem agora, da mesma forma tola, quando declaro que permanecerei no poder!
– Hitler a um correspondente britânico em Berlim, junho de 1934.[105]
Chanceler a ditador


As bases para a ditadura de Adolf Hitler foram lançadas quando o Reichstag foi incendiado em fevereiro de 1933. Como o comunista neerlandês Marinus van der Lubbe foi encontrado no local do crime, os nazistas culparam os comunistas pelo incêndio criminoso e Hitler convenceu Paul von Hindenburg a aprovar o Decreto do Incêndio do Reichstag, que restringiu severamente as liberdades e os direitos dos cidadãos alemães.
Após o incêndio do Reichstag, os nazistas começaram a suspender as liberdades civis e a eliminar a oposição política. Os comunistas foram excluídos do Reichstag. Nas eleições de março de 1933, novamente nenhum partido conseguiu a maioria. Hitler precisava dos votos do Partido do Centro Alemão e dos Conservadores no Reichstag para obter os poderes que desejava. Ele convocou os membros do Reichstag a votarem a favor da Lei de Plenos Poderes de 1933 em 23 de março de 1933. Hitler recebeu plenos poderes "temporariamente" com a aprovação da lei.[106] A lei lhe dava a liberdade de agir sem o consentimento do parlamento e até mesmo sem limitações constitucionais.[107]
Empregando sua mistura característica de negociação e intimidação, Hitler ofereceu a possibilidade de cooperação amigável, prometendo não ameaçar o Reichstag, presidente, estados ou as Igrejas se lhe fossem concedidos os poderes de emergência. Com paramilitares nazistas cercando o prédio, ele disse: "Cabe a vocês, senhores do Reichstag, decidir entre a guerra e a paz".[106] O Partido do Centro, tendo obtido promessas de não interferência na religião, juntou-se aos conservadores na votação a favor da Lei (apenas os Social-Democratas votaram contra).[108]
A Lei permitiu que Hitler e seu Gabinete governassem por decreto de emergência por 4 anos, embora von Hindenburg permanecesse presidente.[109] Hitler imediatamente começou a abolir os poderes dos estados e a existência de outros partidos e organizações políticas. Todos os outros partidos foram formalmente proibidos em 14 de julho de 1933, e o Reichstag abdicou de suas responsabilidades democráticas.[110] von Hindenburg permaneceu comandante-em-chefe das forças armadas e manteve o poder de negociar tratados estrangeiros.
A Lei não infringiu os poderes do presidente, e Hitler só alcançaria o pleno poder ditatorial após a morte de von Hindenburg em agosto de 1934.[111] Jornalistas e diplomatas questionavam se Hitler poderia se autoproclamar presidente, quem o sucederia como chanceler e o que o exército faria. Eles não sabiam que o exército apoiou Hitler após a Noite das Facas Longas, nem esperavam que ele combinasse os 2 cargos de presidente e chanceler em um só com a "Lei Relativa ao Chefe de Estado do Reich Alemão". Somente Hitler, como chefe de estado, poderia destituir Hitler do cargo de chefe de governo. Todos os soldados prestaram o Juramento de Hitler no dia da morte de von Hindenburg, jurando obediência incondicional a Hitler pessoalmente, não ao cargo ou à nação.[112] Uma grande maioria aprovou a combinação dos 2 cargos na pessoa de Hitler por meio do referendo alemão de 1934.[113]
Ver também
Referências
Notas informativas
- ↑ Apesar de ter recebido diversas medalhas e condecorações (incluindo duas vezes a prestigiosa Cruz de Ferro, tanto de Primeira quanto de Segunda Classe), Adolf Hitler foi promovido apenas uma vez, ao posto de cabo (Gefreiter). Toland 1976, pp. 84–88.
- ↑ O armistício, que pôs fim às hostilidades, foi assinado e entrou em vigor em 11 de novembro de 1918. Hitler, que estava hospitalizado na época, foi informado do iminente cessar-fogo e das demais consequências da derrota e rendição do Império Alemão em campo de batalha, incluindo a abdicação do kaiser Guilherme II da Alemanha e uma revolução que levaria à proclamação de uma República de Weimar em Berlim para substituir a monarquia Hohenzollern, que durava séculos, na manhã de domingo, 10 de novembro, por um pastor que atendia pacientes. Dias após assimilar essa notícia traumática, Hitler, segundo seu próprio relato, tomou sua decisão: "...meu destino se revelou... Eu... decidi entrar para a política." Hitler 1999, p. 206.
- ↑ Hitler, nascido na extinta Áustria-Hungria, filho de pais austríacos, não era cidadão alemão, mas conseguiu alistar-se em um regimento bávaro, onde serviu na linha de frente como mensageiro. Foi ferido duas vezes em combate; na época do Armistício, recuperava-se em um hospital alemão (na Pomerânia, a nordeste de Berlim) de uma cegueira temporária resultante de um ataque com gás britânico em meados de outubro, durante a última Batalha de Ypres. Shirer 1960, pp. 28–30; Toland 1976, p. 86.
- ↑ Serviço de guarda em um campo de prisioneiros de guerra a leste, perto da fronteira austríaca. Os prisioneiros eram russos, e Hitler se ofereceu para o posto. Toland 1976, p. xx.
- ↑ Como jornalista socialista, ele organizou a Revolução Socialista que derrubou a monarquia dos Wittelsbach na Baviera em novembro de 1918, o que levou a que fosse descrito como "o símbolo da revolução bávara".
- ↑ Toland sugere que a designação de Hitler para esse departamento foi em parte uma recompensa por seu serviço "exemplar" na linha de frente e em parte porque o oficial responsável sentiu pena de Hitler por ele não ter amigos, mas estar muito disposto a fazer tudo o que o exército exigisse. Toland 1976, p. xx.
- ↑ Aparentemente, alguém em uma "sessão educativa" do exército fez um comentário que Hitler considerou "pró-judaico", e Hitler reagiu com a ferocidade que lhe era característica. Shirer afirma que Hitler havia atraído a atenção de um professor universitário de direita, contratado para instruir os soldados rasos em crenças políticas "adequadas", e que a recomendação do professor a um oficial resultou na promoção de Hitler. Shirer 1960, p. 35.
- ↑ "Foi-me oferecida a oportunidade de falar perante um público maior; e... isso foi confirmado: eu conseguia 'falar'. Nenhuma tarefa me deixaria mais feliz do que esta;... pude prestar serviços úteis ao... exército. ... Em minhas palestras, conduzi centenas de camaradas de volta ao seu povo e à sua pátria." Hitler 1999, pp. 215–216.
- ↑ Realizada, como tantas outras reuniões da época, em uma adega de cerveja, desta vez a Sterneckerbrau. Hitler 1999, p. 218.
- ↑ Feder havia formado a Liga Alemã de Combate à Escravidão dos Juros. A ideia de "Quebrar a Escravidão dos Juros" era, segundo Hitler, um "slogan poderoso para esta luta vindoura". Hitler 1999, p. 213.
- ↑ Segundo Shirer, a ideia aparentemente absurda de uma "nação do sul da Alemanha" chegou a ter alguma popularidade em Munique, na atmosfera politicamente tumultuada da Baviera após a guerra. Shirer 1960, p. 36.
- ↑ A numeração dos membros foi artificialmente iniciada em 501 porque o Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP) queria parecer maior do que realmente era. Aparentemente, os números de filiação também foram emitidos em ordem alfabética, e não cronológica, portanto não se pode inferir que Hitler tenha sido, de fato, o 55.º membro do partido. Toland 1976, p. 131. Num discurso de Hitler apresentado em Triumph des Willens (O Triunfo da Vontade), ele faz referência explícita ao fato de ser o 7.º membro do partido, e menciona o mesmo em Mein Kampf (Minha Luta). Hitler 1999, p. 224.
- ↑ A palavra "Nazi" é uma abreviação de Nationalsozialistische, mas essa abreviação não era usada pelo próprio partido.
- ↑ Rudolf Hess participou do golpe, mas escapou da custódia policial após o seu fracasso. Inicialmente, fugiu para a Áustria, mas posteriormente entregou-se às autoridades. Nesbit & van Acker 2011, pp. 18–19.
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Leitura complementar
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- «'Why I became a Nazi': Essays from 1934 highlight women's role in the rise of Hitler». Scroll.in. 23 de abril de 2020. Cópia arquivada em 12 de novembro de 2025 – Digitized biograms available here
