Saúde
Albaçus binte Munquide
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Albaçus binte Munquide (em árabe: البسوس بنت منقذ; romaniz.: al-Basūs bint Munqidh), também referida em algumas tradições como Albaçus binte Mincar Alfucaimia (em árabe: البسوس بنت منقر الفقيمية; romaniz.: al-Basūs bint Minqar al-Fuqaymiyya), foi uma mulher tamimita da Arábia pré-islâmica associada pela tradição árabe às origens da Guerra de Albaçus, longo conflito entre bacritas e taglibitas. Filha de Munquide ibne Salmã, é apresentada no Kitab al-Aghani como irmã de Haila binte Munquide, esposa de Murra ibne Dul e mãe de Jassas, sendo, portanto, tia materna deste. As fontes preservam versões divergentes sobre sua identidade e sobre os acontecimentos que lhe deram notoriedade, e Fück caracteriza-a como uma personagem lendária cuja história foi transmitida de maneiras diferentes pelas autoridades árabes.
Albaçus figura sobretudo nas narrativas relativas à morte do chefe taglibita Culaibe ibne Rebia. Segundo uma das tradições, vivia sob a proteção de Jassas e acolhera o jarmita Sade ibne Xumais Aljurmi, proprietário da camela Sarabi, que teria sido ferida por Culaibe depois de entrar numa área reservada por ele; outras versões atribuem o animal à própria Albaçus ou relatam a morte da camela ou de sua cria. Albaçus teria lamentado a afronta em versos posteriormente interpretados como uma incitação a Jassas, que matou Culaibe, desencadeando a sucessão de vinganças conhecida como Guerra de Albaçus. Os versos atribuídos à personagem foram transmitidos em diferentes versões e chegaram a ser citados nas Epístolas dos Irmãos da Pureza como exemplo de poesia destinada a incitar à ação.
A associação de Albaçus às origens do conflito tornou-a uma figura proverbial na tradição árabe, expressa na fórmula ashʾamu min al-Basūs ("mais funesta que Albaçus"), e Aljaiz incluiu-a entre personagens de olhos azuis consideradas de mau agouro. A historicidade das narrativas que a cercam é incerta: embora versos atribuídos a Anabiga Adubiani já mencionem a morte de Culaibe e o conflito subsequente, Albaçus não figura nominalmente nessa alusão, e Fück considera-a uma personagem lendária. Um estudo de Ali Ahmad Hussein baseado em cerca de 27 mil poemas árabes concluiu que a Guerra de Albaçus parece ter tido importância limitada entre seus contemporâneos e sustentou que parcela significativa da tradição posteriormente desenvolvida em torno do conflito pertence ao folclore árabe, e não à história.
Vida
Albaçus pertencia aos tamimitas e era filha de Munquide ibne Salmã.[1] Segundo a tradição preservada no Kitab al-Aghani de Abu Alfaraje Alisfaani, era irmã de Haila binte Munquide, também tamimita, esposa de Murra ibne Dul e mãe de Jassas, sendo, portanto, tia materna de Jassas. O Kitab al-Aghani relata que Albaçus foi viver entre os murraítas sob a proteção do sobrinho e que chegou acompanhada de pelo menos um filho, cujo nome não é indicado na narrativa.[2] Outra tradição associa à sua comitiva Sade ibne Xumais Aljurmi, um jarmita acolhido por Albaçus e igualmente colocado sob a proteção de Jassas.[3] As tradições que associam Albaçus aos acontecimentos que precederam a morte do chefe taglibita Culaibe ibne Rebia apresentam o episódio da camela como parte das circunstâncias que conduziram ao conflito posteriormente conhecido como Guerra de Albaçus.[4] A Encyclopaedia of Islam, que apresenta Culaibe como cunhado de Albaçus, situa esses acontecimentos num contexto de crescente tensão provocado pela conduta atribuída ao chefe taglibita, que teria desrespeitado costumes tradicionais dos beduínos ao reivindicar para si direitos exclusivos sobre áreas de pastagem e caça.[1]
As tradições divergem quanto à propriedade da camela chamada Sarabi. Algumas a atribuem à própria Albaçus ou, de maneira menos específica, a um de seus protegidos,[5] enquanto a versão preservada por Ibne Alatir e reproduzida por Nicholson identifica como seu proprietário Sade. Segundo essa última tradição, Sarabi pastava juntamente com as camelas de Jassas quando Culaibe encontrou o animal numa área que havia reservado para seu uso. Ao perguntar a quem pertencia e ser informado de que era de um protegido jarmita de Jassas, ordenou que não voltasse às suas pastagens. Jassas respondeu que Sarabi acompanharia seus próprios animais onde quer que estes fossem, ao que Culaibe ameaçou atravessar-lhe o úbere com uma flecha caso tornasse a encontrá-la. Jassas replicou que, se isso acontecesse, atravessaria com sua lança o peito do próprio Culaibe. Posteriormente, Culaibe encontrou novamente Sarabi e cumpriu sua ameaça, ferindo-lhe o úbere.[3][4] O Kitab al-Aghani preserva uma versão distinta, na qual Albaçus chegara aos Banu Murra acompanhada de um filho, uma camela e a cria desta. Nessa narrativa, Culaibe matou primeiro a cria e, posteriormente, ao encontrar a mãe entre os animais de Jassas, feriu-lhe o úbere; o filho de Albaçus também figura no relato, sendo interpelado por Culaibe acerca da cria morta.[2] Fück registra ainda versões nas quais Culaibe matou a própria camela ou matou sua cria e feriu a mãe.[1]
Na tradição em que Sarabi pertencia a Sade, a camela ferida retornou ao acampamento, onde seu proprietário lamentou publicamente a afronta. Albaçus ouviu seus gritos, saiu para encontrá-lo e, ao ver o estado do animal, lamentou igualmente a humilhação sofrida. Segundo Nicholson, dirigiu então versos a Sade nos quais contrastava a situação com a segurança de que anteriormente desfrutara entre seus próprios parentes e apresentava o ocorrido como demonstração de que aqueles acolhidos pelo grupo já não recebiam proteção adequada. A afronta assumia particular gravidade na lógica da narrativa porque permitir impunemente uma agressão contra alguém colocado sob sua proteção constituía motivo de vergonha segundo os valores de hospitalidade e proteção atribuídos aos árabes daquele período.[6] Os versos atribuídos a Albaçus foram tradicionalmente interpretados como uma incitação a Jassas para que reagisse à afronta.[5] Jassas declarou a Albaçus e Sade que mataria em compensação um camelo maior que Sarabi, chamado Galal (Ghallāl), garanhão de Culaibe reputado como sem igual em seu tempo; segundo a narrativa preservada por Ibne Alatir, a declaração constituía uma ameaça velada contra o próprio Culaibe.[4]
Segundo a versão reproduzida por Nicholson, alguns dias depois Jassas soube que Culaibe havia saído desarmado, seguiu-o e o matou.[7] O Kitab al-Aghani preserva diferentes relatos sobre o assassinato. Em um deles, o confronto ocorre depois que Culaibe impôs restrições aos bacritas quanto ao acesso a áreas de pastagem e pontos de água, e Jassas confrontou-o acerca dessas restrições e da afronta sofrida por sua tia antes de atacá-lo com uma lança. A obra registra ainda versões que atribuem a diferentes participantes golpes desferidos contra o chefe taglibita.[8] A morte de Culaibe desencadeou a sucessão de vinganças entre bacritas e taglibitas que ficou conhecida como Guerra de Albaçus.[1]
Poesia
O al-Fākhir, de Almufadal ibne Salama, preserva quatro versos atribuídos a Albaçus e dirigidos a Sade.[1] Na versão reproduzida por Nicholson, depois de ver Sarabi ferida, Albaçus dirigiu versos a Sade nos quais lamentava que ele tivesse sido ultrajado enquanto se encontrava sob sua proteção e contrastava a situação com a segurança de que teria desfrutado entre seus próprios parentes.[6] Durmuş registra a tradição segundo a qual os versos de Albaçus constituíram uma incitação a Jassas, que posteriormente matou Culaibe.[5] No al-Fākhir, o primeiro dos versos atribuídos a Albaçus menciona a "casa de Mincar" (dār Minqar), e a personagem é identificada na mesma obra como Albaçus binte Mincar Alfucaimia.[9] Bashir Yamūt, por sua vez, registra o primeiro verso com Munquide em lugar de Mincar e atribui a Albaçus uma composição de sete versos, enquanto o al-Fākhir reproduz quatro.[10] As Epístolas dos Irmãos da Pureza (Rasāʾil Ikhwān al-Ṣafāʾ) citam versos atribuídos a Albaçus numa discussão sobre os efeitos da música e da poesia, apresentando-os como versos destinados a incitar à ação.[1]
Historicidade e tradição
Albaçus tornou-se uma personagem proverbial na tradição árabe em razão das consequências atribuídas ao episódio que desencadeou a Guerra de Albaçus. A expressão ashʾamu min al-Basūs ("mais funesta que Albaçus") passou a ser empregada proverbialmente, associando seu nome ao mau agouro.[1] Ibne Alatir registra também as expressões "mais funesta que Sarabi", referente à camela, e "mais funesta que Albaçus".[4] Aljaiz incluiu Albaçus entre os árabes de olhos azuis considerados de mau agouro e afirmou que ela tinha olhos azuis.[11] Uma tradição apresenta Albaçus como uma mulher judia que teria provocado deliberadamente a guerra para punir os árabes por sua ingratidão para com Deus. Fück considera artificial essa explicação da origem do conflito.[1] Hussein examinou as referências à Guerra de Albaçus num corpus de cerca de 27 mil poemas árabes, datados do período pré-islâmico ao século XV, e concluiu que a importância do conflito na poesia árabe clássica diferiu daquela que adquiriu posteriormente. Segundo o autor, nesse período a guerra parece ter constituído pouco mais que um incidente local, cuja importância se restringia aos diretamente envolvidos e cuja influência sobre a comunidade árabe mais ampla era mínima. O estudo sustenta ainda a hipótese de que uma parcela significativa da tradição relativa à guerra pertence ao folclore árabe, e não à história.[12] Fück caracteriza Albaçus como uma personagem lendária e observa que o relato completo de sua história foi preservado por diferentes autoridades em versões divergentes. O assassinato de Culaibe e o conflito subsequente já são mencionados em versos atribuídos a Anabiga Adubiani, mas Albaçus não é nominalmente mencionada nessa alusão.[1]
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Fück 1960, p. 1089.
- 1 2 Alisfaani 1932, p. 27.
- 1 2 Nicholson 1995, pp. 55–56.
- 1 2 3 4 Ibne Alatir 1965, p. 524.
- 1 2 3 Durmuş 2019, p. 334.
- 1 2 Nicholson 1995, pp. 56–57.
- ↑ Nicholson 1995, p. 57.
- ↑ Alisfaani 1932, pp. 29–30.
- ↑ Almufadal ibne Salama 1960, p. 93.
- ↑ Yamūt 1934, p. 36.
- ↑ Aljaiz 1965, p. 178.
- ↑ Hussein 2025, pp. 262–263.
Bibliografia
- Alisfaani, Abu Alfaraje (1932). كتاب الأغاني Kitāb al-Aghānī. 5. Cairo: Dar al-Kutub al-Misriyya
- Aljaiz (1965). Hārūn, ʿAbd al-Salām Muḥammad, ed. Kitāb al-Ḥayawān. V. Cairo: Muṣṭafā al-Bābī al-Ḥalabī
- Almufadal ibne Salama (1960). Al-Ṭaḥāwī, ʿAbd al-ʿAlīm; Al-Najjār, Muḥammad ʿAlī, eds. Al-Fākhir 1 ed. Cairo: Ministério da Cultura e Orientação Nacional; Dār Iḥyāʾ al-Kutub al-ʿArabiyya
- Durmuş, İsmail (2019). «Mühelhil b. Rebîa». Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. EK–2. Ancara: TDV İslâm Araştırmaları Merkezi. pp. 333–335. Cópia arquivada em 20 de agosto de 2026
- Fück, J. W. (1960). «al-Basūs». In: Gibb, H. A. R.; Kramers, J. H.; Lévi-Provençal, E.; Schacht, J.; Lewis, B.; Pellat, Ch. The Encyclopaedia of Islam, New Edition. I: A–B. Leida: E. J. Brill. p. 1089. OCLC 495469456
- Hussein, Ali Ahmad (2025). «An Ancient Arabian War (ḥarb al-Basūs) as Reflected in Classical Arabic Poetry». Journal of Islamic Studies. 36 (2): 219–265. doi:10.1093/jis/etae061
- Ibne Alatir, Izadim Ali (1965). Tornberg, C. J., ed. Al-Kāmil fī al-taʾrīkh. I. Beirute: Dar Sadir
- Nicholson, Reynold Alleyne (1995). A Literary History of the Arabs. Richmond, Surrey: Curzon Press. ISBN 978-0-7007-0336-4
- Yamūt, Bashir (1934). Shāʿirāt al-ʿArab fī al-jāhiliyya wa-l-Islām 1 ed. Beirute: Al-Maktaba al-Ahliyya
