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Religião cananeia
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A religião e as crenças míticas dos povos da terra de Canaã, no Levante meridional, durante aproximadamente os três primeiros milênios a.C., eram politeístas e, em alguns casos, monolátricas. Elas foram influenciadas por culturas vizinhas, particularmente pelas práticas religiosas do antigo Egito e da Mesopotâmia. O panteão era liderado pelo deus El e sua consorte Aserá, contando com outras divindades significativas, como Baal, Anate, Astarte, Dagom e Resefe.[1]
As práticas religiosas cananeias incluíam o sacrifício de animais, a veneração dos mortos e a adoração de divindades por meio de santuários e bosques sagrados. A religião também apresentava uma mitologia complexa, que incluía histórias de batalhas divinas e ciclos de morte e renascimento. Evidências arqueológicas — particularmente de sítios como Ugarite — e fontes literárias, incluindo os textos ugaríticos e a Bíblia hebraica, forneceram a maior parte do conhecimento atual sobre a religião cananeia.[2]
Histórico

O conhecimento sobre as religiões cananeias é fragmentário e insuficiente para elaborar um relato completo e contínuo. Antes do surgimento da arqueologia levantina, no final do século XIX e início do século XX, o conhecimento sobre a religião cananeia provinha principalmente dos relatos da Bíblia hebraica. Isso era complementado por algumas fontes gregas secundárias e terciárias (Sobre a Deusa Síria, de Luciano; fragmentos da História Fenícia de Fílon de Biblos; e os escritos de Damáscio). O conhecimento atual sobre a religião cananeia provém principalmente de descobertas arqueológicas de fontes literárias e vestígios materiais associados a essa religião.[3][4]
Terceiro e segundo milênios a.C.

As fontes literárias apresentam-se na forma de textos antigos, descobertos em escavações arqueológicas. Os vestígios mais remotos das religiões cananeias provêm das tabuletas de Ebla — uma série de textos inscritos em argila, encontrados em Tel Mardikh, na Síria, e datados da segunda metade do terceiro milênio a.C. Elas incluem listas de oferendas às principais divindades do panteão cananeu (El, Baal e Dagom). Entre o final do terceiro milênio e o início do segundo milênio a.C., as mesmas divindades cananeias aparecem em nomes teofóricos pessoais de povos amorreus, cuja terra de origem se situava nas regiões do médio Eufrates e do baixo Cabur, no noroeste da Síria. Informações adicionais são fornecidas pelas inscrições de Idrimi — rei de Alalaque no século XV a.C. — e pelas tabuletas de Emar, datadas dos séculos XIV e XIII a.C. De longe, a fonte de informações mais substancial são os textos ugaríticos, encontrados perto de Ras Shamra, na Síria (a antiga Ugarite), datados de cerca de 1275 a.C. Mais de trezentos desses textos atestam importantes mitos e lendas cananeus, bem como encantamentos, orações, hinos, textos votivos, listas de divindades, catálogos de festivais, listas de sacrifícios, prescrições ou descrições rituais, liturgias e textos sobre presságios.[5]
Primeiro milênio a.C.
Durante o primeiro milênio a.C., vários ramos distintos da religião cananeia persistiram. Embora a Bíblia hebraica distinga o javismo, praticado nos reinos de Israel e Judá, da religião cananeia, muitos estudiosos o classificam como uma das religiões cananeias,[6] e os israelitas como sendo um povo cananeu.[7] Fontes limitadas de religião em outras partes do Levante Meridional, incluem a Estela Mesha (c. 850 a.C.) da terra de Moabe, e a inscrição de Deir Alla (c. 700 a.C.) com seu dialeto único. Na região mais ampla da Síria, a religião arameia é atestada por fontes como a inscrição bilíngue de Tel Fekherya (século IX a.C.), a Estela de Zacur (c. 775 a.C.), as estelas de Sefire (antes de c. 740 a.C.) e a estátua de Adade (meados do século VIII a.C.). A religião fenícia é atestada por textos descobertos dentro e ao redor do Líbano moderno, como a inscrição Yehimilk (século 10), a bilíngue Karatepe (c. 720 a.C.) e a Estela Yehawmilk (século V a IV a.C.).[8]
Ao longo do período helenístico, nas partes não judaicas de Canaã, a religião grega espalhou-se ao lado das tradições cananeias pré-existentes, em vez de substituí-las. Havia muitas semelhanças entre as duas religiões e, por meio de um processo de sincretismo, as divindades cananeias receberam os nomes das equivalentes gregas.[9]
Como os fenícios colonizaram o Mediterrâneo ocidental (povo púnico), também existem muitos textos que atestam a religião púnica, como a Tarifa de Cartago e a Tarifa de Marselha (c. 200 a.C.). Embora a religião púnica fosse uma continuação direta do ramo fenício, diferenças locais significativas desenvolveram-se ao longo dos séculos após a fundação de Cartago e de outras comunidades púnicas em outras partes do norte da África, sul da Espanha, Sardenha, oeste da Sicília e Malta a partir do século IX a.C. Após a conquista destas regiões pela República Romana nos séculos III e II a.C., as práticas religiosas púnicas continuaram, sobrevivendo até ao século IV d.C. em alguns casos.[10]
Referências
- ↑ Oden, Robert A. (março de 1976). «The Persistence of Canaanite Religion». The Biblical Archaeologist (em inglês). 39 (1): 31–36. doi:10.2307/3209414
- ↑ Gibson, John C. L.; Driver, Godfrey Rolles (2004). Canaanite myths and legends (em inglês) 2ª ed. Londres, Nova Iorque: T and T Clark International. ISBN 978-0-567-12690-0
- ↑ Olmo Lete, Gregorio del (1999), "Canaanite religion: According to the liturgical texts of Ugarit" (CDL)
- ↑ Hillers D.R. (1985)"Analyzing the Abominable: Our Understanding of Canaanite Religion" (The Jewish Quarterly Review, 1985)
- ↑ Wright 2013, pp. 130–131.
- ↑ Noll 2007, p. 66.
- ↑ Barmash, Pamela; Nelson, W. David (14 de maio de 2015). Exodus in the Jewish Experience: Echoes and Reverberations (em inglês). [S.l.]: Bloomsbury Academic. pp. 4–5. ISBN 978-1-4985-0292-4.
Na verdade, as evidências apontam para uma origem indígena cananeia para os israelitas, sem nenhuma sugestão de que um grupo de estrangeiros do Egito constituísse o antigo Israel. [...] A evidência de continuidade da cultura da Idade do Bronze Final implica que essas partes da população se originaram dentro de Canaã, não externamente.
- ↑ Wright 2013, pp. 131–132.
- ↑ Halpern-Zylberstein, Marie-Christine (1990). «The archeology of Hellenistic Palestine». In: Finkelstein, Louis; Davies, W. D. The Cambridge History of Judaism: Volume 2: The Hellenistic Age. Col: The Cambridge History of Judaism (em inglês). 2. Cambridge: Cambridge University Press. p. 28. ISBN 978-0-521-21929-7. Consultado em 19 de março de 2023
- ↑ «The Roman Absorption of Punic Religion». Alvid Scriptorium (em inglês). 6 de julho de 2026. Consultado em 20 de agosto de 2026
- Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em inglês cujo título é «Canaanite religion», especificamente desta versão.
Bibliografia
- Moscatti, Sabatino (1968). The World of the Phoenicians (em inglês). [S.l.]: Phoenix / Giant
- Ribichini, Sergio (1997). Sabatino, Maoscati, ed. The Phoenicians (em inglês). [S.l.]: Rissoli
- van der Toorn, Karel (1995). Dictionary of Deities and Demons in the Bible (em inglês). Nova Iorque, NY: E.J. Brill. ISBN 0-8028-2491-9
- Haanat, Lilinah (ed.). «Bibliography of Canaanite & Phoenician Studies» (em inglês). Cópia arquivada em 4 de março de 2016
- Dawson, Tess (2009). Whisper of Stone. Natib Qadish: Modern Canaanite Religion (em inglês). [S.l.]: O Books. ISBN 978-1-84694-190-0
- Wright, David P. (2013). «Syro-Canaanite Religions». In: Salzman, Michele Renee. The Cambridge History of Religions in the Ancient World (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. pp. 129–150. ISBN 9781139600507
- Noll, Kurt Lesher (2007). «Canaanite Religion». Religion Compass (em inglês). 1 (1): 61–92. doi:10.1111/j.1749-8171.2006.00010.x – via Academia.edu
Ligações externas
- K. L. Noll. «Canaanite Religion». Brandon University (em inglês). Cópia arquivada em 17 de agosto de 2026
