Saúde
Pacha Mama
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Pacha Mama ou Pachamama (do quíchua Pacha, “universo”, “mundo”, “tempo”, “lugar”, e Mama, “mãe” “Mãe Terra””) é a deidade máxima dos povos indígenas dos Andes Centrais, que representa na mitologia e religião Inca, uma divindade de “deusa mãe”, ligada ao espaço, ao tempo, ao universo, à vida, a fertilidade, a uma mãe, o feminino e a natureza[1].Considerada uma deusa onipresente com o poder de sustentar a vida nos cosmos. Os quatro princípios da cosmologia quénchas (Água, Terra, Sol e Lua)[2], utilizam Pachamama como primordial origem. Descrita em diversos mitos com esposa do deus criador de todo o universo Pacha Kamaq e mãe da deusa da lua Mama Quilla e do deus do sol Inti. Atribuindo o papel de mãe do mundo, provedora do sustento material e espiritual dos seres humanos[3]
Pacha Mama é uma deusa, que segundo a tradição, tem sua morada no Cerro Blanco (Nevado de Cachi), cujo cume há um lago que rodeia uma ilha habitada por um touro de chifres dourados e salivantes que, ao mugir, expele nuvens de tormenta pela boca.[4]
Segundo o historiador boliviano Rigoberto Paredes (1870–1950), a princípio, o mito de Pacha Mama devia referir-se ao tempo, "talvez vinculado de alguma forma à terra; ao tempo que cura as maiores dores, tal como extingue as alegrias mais intensas; ao tempo que distribui as estações, fecunda a terra, sua companheira; dá e absorve a vida dos seres no universo. Pacha significa originariamente "tempo", na língua kolla; só com o transcurso dos anos - as adulterações da língua e o predomínio de outras raças - pôde confundir-se com a terra e fazer com que a esta e não àquele se rendesse preferente culto [...] Pacha Mama, segundo o conceito que tem entre os povos originários do Peru, poderia ser traduzido no sentido de terra grande, diretora e sustentadora da vida".[5] A terra, como geradora da vida, será então assumida como um símbolo de fecundidade. [4][1]
Deusa adorada em sua manifestação ou forma terrena chamada Allpamama ou Mama Allpa (deusa da terra), [6] seus santuários feitos de rochas sagradas ou troncos de árvores lendárias.[2] Os sacerdotes usavam lhamas, porquinhos-da-indía e vestimas elaboradas como oferendas em sacrifício a ela.[7]Na cosmogonia andina, Pachamama transcende o mundo material e está conectada a uma unidade espaço-temporal ou a estados da consciência conhecidos como Pachakuna.
Após a colonização espanhola das Américas, as populações nativas da região foram convertidas ao catolicismo romano. Através do sincretismo religioso, a figura da Virgem Maria foi associada à Pachamama para muitos povos indígenas.[8]
A medida que as culturas andinas formavam nações modernas, a figura de Pachamama ainda era considerada benevolente, generosa com seus dons[9] e um nome local para Mãe Natureza. No século 21, muitos povos indígenas da América do Sul baseiam suas preocupações ambientais nessas crenças ancestrais, dizendo que os problemas surgem da exploração excessiva da natureza, o que equivale a explorar Pachamama.[10]
Celebração
1º de agosto é o dia da Pacha Mama. Nesse dia, enterra-se, em um lugar próximo da casa, uma panela de barro com comida cozida. Também se põe coca, yicta, álcool, vinho, cigarros e chicha para alimentar Pacha Mama. Nesse mesmo dia deve-se por cordões de fio branco e preto, confeccionados com lã de lhama, enrolando-os à esquerda. Esses cordões se atam nos tornozelos, nos pulsos e no pescoço.[11]
Adoração da Nova Era
Desde o final do século XX, desenvolveu-se uma prática da Nova Era de culto à Pachamama. Os fiéis realizam um ritual culto que ocorre todos os domingos e orações à Pachamama em quíchua, embora possa haver palavras em espanhol. Possuem templos, que contém uma grande pedra com medalhão, simbolizando o grupo Nova Era e suas crenças, há uma tigela de terra a direita da pedra representando Pachamama, devido sua nomeação como Mãe Terra.[12]
Algumas Agências de viagens aproveitam o movimento da Nova Era nas comunidades andinas, para incentivar os turistas a visitar sítios incas. Turistas que visitam Machu Picchu e Cusco também têm a oportunidade de participar de rituais a deusa.[10]
Etimologia
A Palavra Pachamama vem da língua quícha e é composto por dois termos:[13]
• Pacha: significa 'mundo, universo, espaço-tempo, totalidade, era e cosmos'[14]. É um conceito amplo que abrange o reino físico quando o reino cósmico e temporal. Não se limita à Terra em um sentido literal, mas evoca o cosmos ou a ordem universal.
• Mama: significa mãe, mas também representa o princípio feminino que gera e nutre a vida. É o aspecto materno que fertiliza, sustenta e cuida de tudo que existe. 'Mama' complementa a visão de mundo andina, que reconhece na mãe não apenas um corpo físico, mas também princípio vital e espiritual que sustenta as todas formas de existência[15].
Está designação revela uma compreensão holística do universo onde Pachamama não é simplesmente " Mãe Terra", mas a "Mãe do Espaço-Tempo", a Matriz Cósmica que gera e contém toda a existência. Na perspectiva andina, ela e simultaneamente:[13]
• Pachamama Teqsimuyoj: A organizadora dos cosmos.
• Pachamama Kawsaynin: Fonte de toda vida.
• Pachamama Sonqo: O coração do universo.
Rituais Modernos
Os rituais em honra à Pachamama acontecem durante o ano inteiro, porém, são mais abundantes em agosto, antes da época de plantio[2]. Como mês mais frio do inverno nos Andes do Sul, as pessoas se sentem mais vulneráveis a doenças. Agosto é, portanto, considerado um "mês traiçoeiro". Os andinos acreditam que durante esse período, devem estar em completa harmonia com a natureza para manter a si mesmos,suas plantações e seus gados saudáveis e protegidos[2]. Para isso, as famílias realizam rituais de purificação para espantar espíritos malignos, através da queima de plantas, madeiras e outros itens. Para trazer boa sorte, bebem mate (bebida quente sul-americana).[2]
Na noite anterior a 1°de agosto, as famílias em honra a Pachamama, cozinham a noite todo. O anfitrião então faz um buraco no chão. Sendo que, se a terra estiver fértil e saudável, indica que o ano será próspero; caso contrário, a colheita não será abundante. Antes que qualquer um possa comer, o anfitrião deve oferecer um prato de comida à Pachamama. A comida que sobrou é derramada no chão e uma oração à Pachamama é recitada.[2]
Desfile de Domingo
Uma das principais atrações do festival Pachamama é o desfile de domingo o comitê organizador procura a mulher mais velha da comunidade e a elege como a "Rainha Pachamama do Ano". A eleição ocorreu pela primeira vez em 1949. As mulheres indígenas, principalmente as idosas, são vistas como encarnações da tradição e como símbolos vivos de sabedoria, vida, fertilidade e reprodução. A rainha Pachamama é escoltada pelos gaúchos, que circulam de cavalo e a saúdam durante o desfile. O desfile de domingo é considerado o ponto alto do festival.[2]
Pachamama e o Cristianismo
Diversos rituais relacionados à Pachamama são praticados em conjunto com os do cristianismo, sendo comum que famílias andinas conciliem ambas as tradições religiosas.[16]
Segundo o antropólogo Manuel Marzal, no Peru contemporâneo o culto à Pachamama, em alguns contextos, passou a incorporar características cristãs e foi reinterpretado dentro de uma estrutura religiosa católica. As oferendas dedicadas à divindade passaram a incluir símbolos e orações cristãs, além de serem objeto de reinterpretações, tanto implícitas quanto explícitas. Uma dessas interpretações identifica a Pachamama como a dádiva natural criada por Deus. Para alguns andinos, afirma Marzal, a Pachamama "perdeu sua identidade original e se transformou em um símbolo do Deus único" ou em "uma realidade que alimenta a humanidade em nome de Deus".[17]
De maneira semelhante, o Papa João Paulo II, em homilias proferidas no Peru e na Bolívia, relacionou a homenagem à Pachamama ao reconhecimento da criação divina. Em 3 de fevereiro de 1985, afirmou que "seus ancestrais, ao prestarem tributo a Pachamama, nada mais faziam do que reconhecer a bondade de Deus e sua presença, que lhes fornecia alimento por meio da terra que cultivam".[18] Posteriormente, em 11 de maio de 1988, declarou que Deus "sabe que precisamos do alimento que a terra produz, esta divindade variada e expressiva que seus ancestrais chamavam de 'Pachamama' e que reflete a obra divina ao oferecer seus dons para o bem do homem".[19]
Marzal também afirma que, para alguns andinos, a Pachamama desempenha um papel intermediário entre Deus e os seres humanos dentro de uma estrutura predominantemente católica, semelhante ao papel atribuído aos santos.[20] Alguns etnógrafos também registraram a identificação da Pachamama com a Virgem Maria.[21] Em algumas tradições locais, a divindade é ainda associada à Virgem da Candelária.[22]
Pachamama como sujeito de direito
O novo constitucionalismo latino-americano reconhece Pachamama como um novo sujeito de direito, com base no princípio do sumak kawsay ou Buen Vivir ou Vivir Bien, o qual se contrapõe aos ideais de desenvolvimento econômico.[23] Pachamama é referida no preâmbulo das constituições do Equador[24] e da Bolívia.[25] Nesta última, também são citados os conceitos de suma qamaña (viver bem), ñandereko (vida harmoniosa), teko kavi (vida boa), ivi maraei (terra sem mal) e qhapaj ñan (caminho ou vida nobre) como princípios ético-morais da sociedade. O buen vivir ou sumak kawsay também aparece na Constituição Equatoriana.[26][27]
Referências
- 1 2 «LA PACHAMAMA - Diccionario de Mitos y Leyendas». www.cuco.com.ar. Consultado em 12 de julho de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 Matthews-Salazar, Patricia. (2006) "Tornando-se totalmente indianos: gaúchos, rainhas da Pachamama e turistas na reformulação de um festival andino." Festivais, turismo e mudança social: reformulando mundos. Ed. David Picard e Mike Robinson. Np: Channel View Publications. 71–81.
- ↑ Mesa Manosalva, Edgar Guillermo (2018). "Cosmovisiones y prácticas ancestrais de los pastos para construir a paz regional" . Tendências . 19 (1): 215–240 . doi : 10.22267/rtend.181901.95 . ISSN0124-8693 .
- 1 2 Pueblos originarios - Dioses y personajes míticos. "Pacha Mama"
- ↑ PAREDES, Manuel Rigoberto Mitos, supersticiones y supervivencias populares de Bolivia. Prólogo do Dr. Belisario Díaz Romero. La Paz: Arno Hermanos — Libreros Editores, 1920, pp 38 a 42.
- ↑ Éder (22 de janeiro de 2019). "Las Madritierras e Los Padrinautas: Mama Allpa: La Diosa Inca de La Tierra" . Las Madritierras e Los Padrinautas . Recuperado em 16/06/2026 .
- ↑ Murra, John V. (1962). "O tecido e suas funções no Estado Inca" . American Anthropologist . 64 (4): 714. doi : 10.1525/aa.1962.64.4.02a00020 .
- ↑ Merlino, Rodolfo e Mario Rabey (1992). "Resistência e hegemonia: Cultos locais e religião centralizados nos Andes do Sul" . Allpanchis (em espanhol) (40): 173–200 . doi : 10.36901/allpanchis.v24i40.799
- ↑ Molinie, Antoinette (2004). "A Ressurreição do Inca: O Papel das Representações Indígenas na Invenção da Nação Peruana". História e Antropologia . 15 (3): 233– 250. doi : 10.1080/0275720042000257467 . S2CID 162202435 .
- 1 2 Hill, Michael (2008). "Inca do Sangue, Inca da Alma". Journal of the American Academy of Religion . 76 (2): 251– 279. doi : 10.1093/jaarel/lfn007 . PMID 20681090 . S2CID 20198583
- ↑ https://www.monografias.com/trabajos82/culto-pachamama/culto-pachamama#ixzz2HXBOAwoi
- ↑ Hill, Michael D. (2010). "Mito, globalização e mestiçagem na religião andina da Nova Era". Ethnohistory . 57 (2): 263– 289. doi : 10.1215/00141801-2009-063
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- ↑ João Paulo II (03/02/1985). "Homilia em Cuzco, Peru" . www.vatican.va
- ↑ João Paulo II (11/05/1988). "Homilia em Cochabamba, Bolívia" . www.vatican.va
- ↑ Marzal, pp. 411–412
- ↑ Marzal, p. 414
- ↑ Marzal, p. 414. Manuel Paredes Izaguirre. "Cosmovisão e Religiosidade na Festividad" (em espanhol). Arquivado do original em 28/08/2010 .
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- ↑ (em castelhano) Constitución de la República del Ecuador Arquivado em 19 de janeiro de 2013, no Wayback Machine.
- ↑ (em castelhano) Constitución Política del Estado Plurinacional de Bolivia
- ↑ (em castelhano) Discursos “pachamamistas” versus políticas desarrollistas: el debate sobre el sumak kawsay en los Andes. Por Andreu Viola Recasens. Íconos. Revista de Ciencias Sociales. Nº 48, Quito, janeiro de 2014, pp. 55-72. Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales - Sede Académica de Ecuador. ISSN: 1390-1249
- ↑ O Sumak Kawsay (Buen Vivir) e o novo constitucionalismo latino-americano: uma proposta para concretização dos direitos socioambientais?. Anais do Universitas e Direito 2012. PUCPR.
