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Manifesto Comunista
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| Das Kommunistische Manifest | |
|---|---|
| Manifesto Comunista | |
Primeira edição em alemão | |
| Autor(es) | Karl Marx e Friedrich Engels |
| Idioma | Alemão |
| País | Reino Unido |
| Gênero | História, sociologia, filosofia |
| Lançamento | 21 de fevereiro de 1848 |
| Edição brasileira | |
| Tradução | Álvaro Pina |
| Lançamento | 1998 |
| ISBN | 85-85934-23-9 |
| Transcrição (grafia original) | Manifesto do Partido Comunista |
| Parte de uma série sobre o |
| Marxismo |
|---|
O Manifesto Comunista,[a] originalmente denominado Manifesto do Partido Comunista,[b] é um panfleto político escrito por Karl Marx e Friedrich Engels. Foi encomendado pela Liga dos Comunistas e publicado em Londres em 1848. O texto representa a primeira e mais sistemática tentativa dos dois fundadores do socialismo científico de codificar para ampla divulgação a concepção materialista da história, segundo a qual "a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes", nas quais as classes sociais são definidas pela relação das pessoas com os meios de produção. Publicado em meio às Revoluções de 1848 na Europa, o manifesto tornou-se um dos documentos políticos mais influentes do mundo. "Um espectro ronda a Europa — o espectro do comunismo." e "Proletários de todos os países, uni-vos!" são duas frases emblemáticas que emolduram o texto, marcando, respectivamente, sua abertura e seu encerramento; a última foi reformulada e popularizada como um célebre lema de solidariedade da classe trabalhadora.
No Manifesto, Marx e Engels combinam o materialismo filosófico com o método da dialética hegeliana para analisar o desenvolvimento da sociedade europeia por meio de seus modos de produção, entre eles o comunismo primitivo, a Antiguidade, o feudalismo e o capitalismo, observando o surgimento de uma nova classe dominante em cada etapa. O texto expõe a relação entre os meios de produção, as relações de produção, as forças produtivas e o modo de produção, e sustenta que as mudanças na "base" econômica da sociedade provocam mudanças em sua "superestrutura". Os autores afirmam que o capitalismo é caracterizado pela exploração do proletariado — a classe trabalhadora composta por trabalhadores assalariados — pela burguesia dominante, que "revoluciona constantemente os instrumentos [e] as relações de produção e, com elas, todas as relações sociais".[1] Eles argumentam que a necessidade do capital de uma força de trabalho flexível dissolve as antigas relações e que sua expansão global em busca de novos mercados cria "um mundo à sua própria imagem".[2]
O Manifesto conclui que o capitalismo não oferece à humanidade a possibilidade de autorrealização, mas assegura que os seres humanos permaneçam perpetuamente atrofiados e alienados. Teoriza que o capitalismo provocará sua própria destruição ao polarizar e unificar o proletariado e prevê que uma revolução levará ao surgimento do comunismo, uma sociedade sem classes na qual "o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos".[3] Marx e Engels propõem as seguintes políticas de transição: abolição da propriedade privada da terra e da herança; introdução de um imposto de renda progressivo; confisco dos bens de emigrados e rebeldes; nacionalização do crédito, das comunicações e dos transportes; expansão e integração da indústria e da agricultura; imposição da obrigação universal do trabalho; oferta de educação universal; e eliminação do trabalho infantil.[4]
Sinopse
O Manifesto Comunista divide-se em um preâmbulo e quatro seções. O preâmbulo começa: "Um espectro ronda a Europa — o espectro do comunismo".[5][6] Ao observar que era comum os políticos — tanto os governistas quanto os oposicionistas — classificarem seus adversários como comunistas, os autores concluem que os detentores do poder reconheciam o comunismo como uma força em si. Em seguida, o preâmbulo exorta os comunistas a publicarem abertamente suas concepções e objetivos, que é precisamente a função do Manifesto.[5]
A primeira seção do documento, "Burgueses e proletários",[7] apresenta o materialismo histórico e afirma que "a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes".[8] Segundo os autores, todas as sociedades anteriores assumiram a forma de uma maioria oprimida explorada por uma minoria opressora. Marx e Engels sustentam que, sob o capitalismo de sua época, a classe trabalhadora industrial, ou "proletariado", travava uma luta de classes contra os proprietários dos meios de produção, a "burguesia".[9] Esta última, por meio da "revolução constante da produção [e da] perturbação ininterrupta de todas as condições sociais", havia emergido, em 1848, como a classe suprema da sociedade, substituindo os antigos poderes do feudalismo.[10] A burguesia explora continuamente o proletariado por sua força de trabalho, obtendo lucro e acumulando capital. Ao fazê-lo, contudo, Marx e Engels argumentam que a classe burguesa atua como "sua própria coveira", pois, segundo os autores, os proletários inevitavelmente tomarão consciência de seu potencial e ascenderão ao poder por meio da revolução, derrubando a burguesia.
A segunda seção, "Proletários e comunistas", começa explicando a relação dos "comunistas conscientes" — isto é, daqueles que se identificam como comunistas — com o restante da classe trabalhadora. O partido dos comunistas não se oporia aos demais partidos operários, mas, diferentemente deles, expressaria a vontade geral e defenderia os interesses comuns do proletariado mundial como um todo, independentemente de qualquer nacionalidade. Os autores passam então a defender o comunismo de diversas objeções, entre elas as alegações de que ele promoveria a prostituição comunitária ou desestimularia as pessoas a trabalhar. Algumas páginas depois, na seção II, os autores mudam inesperadamente a voz narrativa e dirigem-se diretamente ao leitor:[11] "Horrorizais-vos por querermos abolir a propriedade privada. Mas, em vossa sociedade existente, a propriedade privada já está abolida para nove décimos da população; sua existência para uns poucos deve-se unicamente à sua inexistência nas mãos desses nove décimos".[12] A seção termina delineando um conjunto de reivindicações de curto prazo — entre elas, um imposto de renda progressivo; a abolição das heranças e da propriedade privada; a abolição do trabalho infantil; a educação pública gratuita; a nacionalização dos meios de transporte e comunicação; a centralização do crédito por meio de um banco nacional; e a ampliação das terras de propriedade pública — cuja implementação, argumenta-se, produziria a etapa precursora de uma sociedade sem classes.[13]
A terceira seção, "Literatura socialista e comunista", distingue o comunismo de outras doutrinas socialistas predominantes na época, classificadas como "socialismo reacionário"; socialismo conservador ou "socialismo burguês"; e socialismo e comunismo crítico-utópicos. A primeira categoria é subdividida em "socialismo feudal", "socialismo pequeno-burguês" e "socialismo alemão ou 'verdadeiro'". Embora o grau de censura varie entre essas perspectivas socialistas rivais, Marx e Engels rejeitam todas por defenderem o reformismo e por não reconhecerem o papel revolucionário preeminente do proletariado. Os autores mostram-se menos hostis aos socialistas utópicos, cujos ataques à sociedade existente "estão repletos dos materiais mais valiosos para o esclarecimento da classe trabalhadora".[14][15]
A quarta e última seção, "Posição dos comunistas diante dos diversos partidos de oposição", discute brevemente a posição comunista nas lutas de determinados países em meados do século XIX, como França, Suíça, Polônia e, por fim, Alemanha, que estaria "às vésperas de uma revolução burguesa" que seria apenas "o prelúdio de uma revolução proletária imediatamente subsequente" — previsão posteriormente criticada como um erro fundamental do Manifesto.[16] A seção termina declarando uma aliança com os socialistas democráticos da Montanha, apoiando enfaticamente outras revoluções comunistas e conclamando a uma ação proletária internacional unificada: "Proletários de todos os países, uni-vos!"
Redação
Esboços preliminares
Na primavera de 1847, Marx e Engels ingressaram na Liga dos Justos, que logo foi convencida pelas ideias de "comunismo crítico" da dupla.[17] Em seu Primeiro Congresso, realizado de 2 a 9 de junho, a Liga incumbiu Engels de redigir um documento de "Credo" que delineasse o programa da organização e fosse submetido a exame no fim do Congresso.[18] Engels rapidamente produziu o "Esboço de uma confissão de fé comunista", em formato de perguntas e respostas, semelhante a um catecismo, por exemplo:
Pergunta 1: Você é comunista?
Resposta: Sim.
Pergunta 2: Qual é o objetivo dos comunistas?
Organizar a sociedade de tal modo que cada um de seus membros possa desenvolver e utilizar plenamente, em total liberdade, todas as suas capacidades e forças, sem pôr em risco os fundamentos dessa sociedade.[19]
Ao todo, havia 22 perguntas, e as respostas eram relativamente sucintas. Em outubro, Engels chegou à seção parisiense da Liga e descobriu que Moses Hess havia redigido seu próprio documento de "Credo" para a organização, então denominada Liga dos Comunistas. Engels criticou severamente o texto — na ausência de Hess — e convenceu os demais integrantes da Liga a encarregá-lo de preparar um novo.[18] No fim de outubro, escreveu os Princípios do Comunismo, novamente no estilo de um catecismo, mas agora com 25 perguntas e respostas mais detalhadas e concretas que as anteriores.[20][21]
Em 23 de novembro, antes do Segundo Congresso da Liga dos Comunistas — realizado de 29 de novembro a 8 de dezembro de 1847 —, Engels enviou uma carta a Marx na qual manifestou o desejo de abandonar o formato de catecismo em favor de um manifesto, pois considerava necessário que o texto contivesse "uma certa quantidade de história".[22][23] Em 28 de novembro, Marx e Engels encontraram-se em Oostende, na Bélgica, e, poucos dias depois, reuniram-se na sede londrina da Associação Educacional dos Trabalhadores Alemães, no Soho, para participar do Congresso. Durante os dez dias seguintes, ocorreram intensos debates entre os dirigentes da Liga; Marx acabou por prevalecer sobre os demais e, superando uma "oposição rígida e prolongada",[24] nas palavras de Harold Laski, obteve maioria para seu programa. A Liga adotou, assim, por unanimidade, uma resolução muito mais combativa que a do Primeiro Congresso, em junho. Marx — sobretudo — e Engels foram encarregados de redigir um manifesto para a organização.
Manuscrito

Ao retornar a Bruxelas, Marx entregou-se a uma "procrastinação incessante", segundo seu biógrafo Francis Wheen.[25] Trabalhando apenas de maneira intermitente no Manifesto, Marx passou grande parte do tempo ministrando palestras sobre economia política na Associação Educacional dos Trabalhadores Alemães, escrevendo artigos para o Deutsche-Brüsseler-Zeitung e proferindo um longo discurso sobre livre-comércio. Depois disso, chegou a passar uma semana — de 17 a 26 de janeiro de 1848 — em Gante, para estabelecer uma seção da Associação Democrática.[26] Sem receber notícias de Marx durante quase dois meses, o Comitê Central da Liga dos Comunistas enviou-lhe um ultimato em 24 ou 26 de janeiro, exigindo a entrega do manuscrito concluído até 1.º de fevereiro. A imposição estimulou Marx, que tinha dificuldade de trabalhar sem a pressão de um prazo, e ele parece ter se apressado para terminar a tarefa a tempo. Como prova dessa pressa, o historiador Eric Hobsbawm aponta a inexistência de esboços preliminares preservados: apenas uma página de rascunho do Manifesto foi localizada.[27]
Versão final
Ao todo, o Manifesto foi escrito ao longo de seis a sete semanas. Embora Engels seja creditado como coautor, a versão final foi redigida exclusivamente por Marx. Laski infere da carta de ultimato de janeiro que a Liga dos Comunistas considerava Marx o redator principal e Engels apenas seu agente, passível de substituição imediata. O próprio Engels escreveu no prefácio da edição alemã de 1883: "O pensamento fundamental que percorre o Manifesto [...] pertence única e exclusivamente a Marx".[28] Embora Laski não discorde, sugere que Engels minimiza sua própria contribuição com sua modéstia característica e observa a "estreita semelhança entre o conteúdo do texto e o dos [Princípios do Comunismo]". Laski acrescenta que, ao escrever o Manifesto, Marx recorria ao "estoque comum de ideias" que desenvolvera com Engels, "uma espécie de conta bancária intelectual da qual qualquer um dos dois podia sacar livremente".[29] Anthony Arnove também considera que "o núcleo do Manifesto" pode ser encontrado nos Princípios do Comunismo e que a verdadeira tarefa de Marx "foi traduzir esse catecismo para a forma de um manifesto, com maior conteúdo histórico e mais força retórica".[30]
Influências
As influências políticas de Marx e Engels eram amplas, reagindo à filosofia do idealismo alemão e inspirando-se nela, bem como no socialismo francês e na economia política inglesa e escocesa. Estudiosos sustentam que O Manifesto Comunista também deve algo a autores literários. Christopher N. Warren argumenta que os escritos de John Milton influenciaram Marx e Engels: "Ao olhar para a época de Milton, Marx viu uma dialética histórica baseada na inspiração, na qual a liberdade de imprensa, o republicanismo e a revolução estavam estreitamente unidos".[31] Em Espectros de Marx, Jacques Derrida relaciona o fantasma que assombra Hamlet, na peça Hamlet, de William Shakespeare, à metáfora do comunismo que assombra a Europa; Derrida cita ainda a frase do ato I de Hamlet, "O tempo está fora dos eixos", como indicativa da instabilidade e da injustiça europeias retratadas no Manifesto.[32] Historiadores dos hábitos de leitura do século XIX confirmaram que Marx e Engels leram esses autores, e sabe-se que Marx apreciava especialmente Shakespeare.[33][34][35]
O Manifesto também faz referência à crítica social antiburguesa "revolucionária" de Thomas Carlyle, que Engels já havia lido em maio de 1843.[36][37][38]
Publicação
Publicação inicial e obscuridade, 1848–1872

No fim de fevereiro de 1848, o Manifesto foi publicado anonimamente pela Associação Educacional dos Trabalhadores Comunistas (Kommunistischer Arbeiterbildungsverein), sediada no número 46 da Liverpool Street, na área de Bishopsgate Without, na Cidade de Londres.[39] Escrito em alemão, o panfleto de 23 páginas intitulava-se Manifest der kommunistischen Partei e tinha capa verde-escura. Foi reimpresso três vezes e publicado em série no Deutsche Londoner Zeitung, jornal destinado aos emigrados alemães. Em 4 de março, um dia depois do início da publicação seriada no Zeitung, Marx foi expulso pela polícia belga. Duas semanas depois, por volta de 20 de março, mil exemplares do Manifesto chegaram a Paris e, dali, à Alemanha no início de abril. Entre abril e maio, o texto foi corrigido quanto a erros de impressão e pontuação; Marx e Engels utilizariam essa versão de trinta páginas como base para edições futuras do Manifesto.
Embora o preâmbulo do Manifesto anunciasse que ele seria "publicado nas línguas inglesa, francesa, alemã, italiana, flamenga e dinamarquesa", as primeiras tiragens ocorreram apenas em alemão. Traduções polonesa e dinamarquesa logo se seguiram ao original alemão em Londres e, no fim de 1848, foi publicada uma tradução sueca com novo título — A voz do comunismo: declaração do Partido Comunista. Em novembro de 1850, o Manifesto do Partido Comunista teve sua primeira publicação em inglês, quando George Julian Harney publicou em série a tradução de Helen Macfarlane em seu jornal cartista, The Red Republican. A versão dela começa: "Um terrível duende percorre a Europa. Somos assombrados por um fantasma, o fantasma do comunismo".[40][41] Para realizar a tradução, Macfarlane, radicada em Lancashire, provavelmente consultou Engels, que havia abandonado pela metade sua própria tradução inglesa. A introdução de Harney revelou pela primeira vez a identidade dos autores do Manifesto, até então anônimos.

Uma tradução francesa do Manifesto foi publicada pouco antes de a insurreição de junho de 1848 ser esmagada. Sua influência nas Revoluções de 1848 em toda a Europa limitou-se à Alemanha, onde a Liga dos Comunistas, sediada em Colônia, e seu jornal, o Neue Rheinische Zeitung, editado por Marx, desempenharam papel importante. Menos de um ano após sua fundação, em maio de 1849, o Zeitung foi suprimido; Marx foi expulso da Alemanha e teve de refugiar-se em Londres. Em 1851, integrantes do comitê central da Liga dos Comunistas foram presos pela polícia secreta prussiana. No julgamento realizado em Colônia, dezoito meses depois, em novembro de 1852, foram condenados a penas de três a seis anos de prisão. Para Engels, a revolução foi "relegada a segundo plano pela reação que começou com a derrota dos trabalhadores parisienses em junho de 1848 e acabou sendo excomungada 'por lei' pela condenação dos comunistas de Colônia em novembro de 1852".[42]
Após a derrota das revoluções de 1848, o Manifesto caiu na obscuridade, na qual permaneceu durante as décadas de 1850 e 1860. Hobsbawm afirma que, em novembro de 1850, o Manifesto "tornara-se suficientemente raro para que Marx considerasse valer a pena reimprimir a seção III [...] no último número" de seu efêmero jornal londrino, o Neue Rheinische Zeitung.[43] Nas duas décadas seguintes, apenas algumas novas edições foram publicadas; entre elas, uma tradução russa não autorizada e por vezes imprecisa, feita por Mikhail Bakunin em Genebra em 1869, e uma edição de 1866 em Berlim — a primeira publicação do Manifesto na Alemanha. Segundo Hobsbawm, "em meados da década de 1860, praticamente nada do que Marx havia escrito anteriormente continuava disponível em circulação".[44] John Cowell-Stepney, contudo, publicou uma versão abreviada no Social Economist, em agosto e setembro de 1869,[45] a tempo do Congresso de Basileia.
Ascensão, 1872–1917
No início da década de 1870, o Manifesto e seus autores tiveram uma recuperação de prestígio. Hobsbawm identifica três razões para isso. A primeira foi o papel de liderança desempenhado por Marx na Associação Internacional dos Trabalhadores, também conhecida como Primeira Internacional. A segunda foi a grande projeção alcançada por Marx entre os socialistas — e a correspondente notoriedade diante das autoridades — em razão de seu apoio à Comuna de Paris de 1871, exposto em A Guerra Civil na França. A terceira, e talvez mais significativa, foi o julgamento por traição dos dirigentes do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha (SDAP).[44] Durante o processo, os promotores leram o texto do Manifesto nos autos judiciais, o que permitiu que o panfleto fosse legalmente publicado na Alemanha.[44] Assim, em 1872, Marx e Engels lançaram apressadamente uma nova edição em alemão. No prefácio, reconheceram que, embora alguns detalhes do documento tivessem se tornado ultrapassados no quarto de século transcorrido, "os princípios gerais estabelecidos no Manifesto continuam, em seu conjunto, tão corretos hoje quanto antes".[46] Foi nessa edição que o título apareceu pela primeira vez abreviado para Manifesto Comunista (Das Kommunistische Manifest), e ela se tornou a versão na qual os autores basearam as edições posteriores. Entre 1871 e 1873, o Manifesto foi publicado em mais de nove edições, em seis línguas. Em 30 de dezembro de 1871, o periódico Woodhull & Claflin's Weekly publicou-o pela primeira vez nos Estados Unidos, em inglês, utilizando a tradução de Helen Macfarlane.[47] Em meados da década de 1870, contudo, o Manifesto Comunista ainda era a única obra de Marx e Engels moderadamente conhecida.
Nas quatro décadas seguintes, à medida que partidos social-democratas se difundiam pela Europa e por outras partes do mundo, a publicação do Manifesto também cresceu, alcançando centenas de edições em trinta línguas. Marx e Engels escreveram um novo prefácio para a edição russa de 1882, traduzida por Gueorgui Plekhanov em Genebra. Nele, perguntavam-se se a Rússia poderia transformar-se diretamente em uma sociedade comunista ou se primeiro se tornaria capitalista, como outros países europeus. Após a morte de Marx, em março de 1883, Engels escreveu os prefácios de cinco edições publicadas entre 1888 e 1893. Entre elas estava a edição inglesa de 1888, traduzida por Samuel Moore e aprovada por Engels, que também acrescentou notas ao longo do texto. Desde então, essa se tornou a edição-padrão em língua inglesa.[48]
A principal esfera de influência do Manifesto, medida pelos locais onde suas edições foram publicadas, situava-se no "cinturão central da Europa", da Rússia, a leste, à França, a oeste.[49] Em comparação, o panfleto teve pouca influência política no sudoeste e no sudeste europeus e presença moderada no norte. Fora da Europa, foram publicadas traduções chinesas e japonesas, além de edições em espanhol na América Latina. A primeira edição em chinês foi traduzida por Zhu Zhixin após a Revolução Russa de 1905 e publicada em um jornal da Tongmenghui, juntamente com artigos sobre movimentos socialistas na Europa, na América do Norte e no Japão.[50]
Essa difusão desigual da popularidade do Manifesto refletia o desenvolvimento igualmente desigual dos movimentos socialistas e da adoção do socialismo marxista em diferentes regiões geográficas.[51] Tampouco havia sempre uma correlação forte entre a influência de um partido social-democrata em determinado país e a popularidade do Manifesto ali. O SPD alemão, por exemplo, imprimia apenas alguns milhares de exemplares do Manifesto por ano, mas algumas centenas de milhares do Programa de Erfurt. Os partidos social-democratas de massas da Segunda Internacional não exigiam que seus militantes de base dominassem a teoria; obras marxistas como o Manifesto ou O Capital eram lidas principalmente pelos teóricos dos partidos. Por outro lado, pequenos partidos militantes e seitas marxistas do Ocidente orgulhavam-se de conhecer o Manifesto de cor. Hobsbawm escreve: "Era esse o meio no qual 'a clareza de um camarada podia ser invariavelmente avaliada pela quantidade de orelhas em seu exemplar do Manifesto'".[52]
Ubiquidade, 1917–presente

Após a Revolução de Outubro de 1917, que levou os bolcheviques, liderados por Vladimir Lenin, ao poder na Rússia, foi fundado o primeiro Estado socialista do mundo, explicitamente segundo princípios marxistas. A União Soviética, da qual a Rússia bolchevique passaria a fazer parte, era um Estado de partido único governado pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Ao contrário de seus equivalentes de massas da Segunda Internacional, o PCUS e outros partidos leninistas de vanguarda da Terceira Internacional esperavam que seus membros conhecessem as obras clássicas de Marx, Engels e Lenin. Além disso, esperava-se que os dirigentes partidários fundamentassem suas decisões políticas na ideologia marxista-leninista. Por isso, a leitura do Manifesto era obrigatória.[53]
A ampla difusão das obras de Marx e Engels tornou-se um importante objetivo político. Apoiado por um Estado soberano, o PCUS dispunha de recursos relativamente inesgotáveis para esse fim. Obras de Marx, Engels e Lenin foram publicadas em escala muito ampla, e edições baratas estavam disponíveis em diversas línguas ao redor do mundo. Essas publicações podiam ser textos específicos ou compilações, como as várias edições das Obras escolhidas de Marx e Engels ou de suas Obras reunidas. Isso afetou o destino do Manifesto de várias maneiras. Em primeiro lugar, quanto à circulação: em 1932, o Partido Comunista dos Estados Unidos e o Partido Comunista da Grã-Bretanha imprimiram centenas de milhares de exemplares de uma edição barata, naquela que foi "provavelmente a maior edição de massas já publicada em inglês".[54] Em segundo lugar, o Manifesto passou a integrar programas universitários de ciência política. Em seu centenário, em 1948, a obra já ultrapassara o domínio exclusivo dos marxistas e acadêmicos; editoras de caráter geral também a imprimiam em grandes quantidades. "Em suma, já não era apenas um documento marxista clássico", observou Hobsbawm, "havia se tornado um clássico político tout court".[55]
Em 1920, o Manifesto Comunista foi impresso e distribuído em chinês, e sua publicação constituiu uma prioridade importante do Grupo Comunista de Xangai.[56](104–106) O representante da Internacional Comunista em Xangai, Grigori Voitinsky, financiou a tradução e a difusão do manifesto.[57] Chen Wangdao é reconhecido como o tradutor da primeira tiragem.[56](p106) A obra rapidamente se popularizou entre os intelectuais chineses.[56]:106 Foi apelidada de "o primeiro livro vermelho da China".[56]:106
Mesmo após o colapso do bloco soviético na década de 1990, o Manifesto Comunista permaneceu onipresente. Hobsbawm afirma que, "nos Estados sem censura, quase certamente qualquer pessoa ao alcance de uma boa livraria — e certamente qualquer pessoa ao alcance de uma boa biblioteca, sem falar da internet — pode ter acesso a ele".[55] O 150.º aniversário trouxe novamente uma enxurrada de atenção da imprensa e da academia, além de novas edições acompanhadas de introduções escritas por estudiosos. Uma delas, The Communist Manifesto: A Modern Edition, da Verso, foi descrita por um crítico da London Review of Books como "uma elegante edição da obra, atada com uma fita vermelha. Foi concebida como uma doce lembrança, um primoroso item de colecionador. Em Manhattan, uma importante loja da Quinta Avenida colocou exemplares dessa nova edição nas mãos de manequins de vitrine, exibidos em poses sedutoras e com decotes na moda".[58] As vendas totais do Manifesto foram estimadas em quinhentos milhões de exemplares, e ele é considerado um dos quatro livros mais vendidos de todos os tempos.[59]
Legado
"Com a clareza e o brilho do gênio, esta obra apresenta uma nova concepção de mundo: o materialismo consequente, que abrange também o domínio da vida social; a dialética, como a doutrina mais abrangente e profunda do desenvolvimento; a teoria da luta de classes e do papel revolucionário histórico-mundial do proletariado — criador de uma nova sociedade comunista."
—Vladimir Lenin, sobre o Manifesto, 1914[60]
Diversos autores do fim do século XX e do século XXI comentaram a relevância contínua do Manifesto Comunista. Em uma edição especial do Socialist Register comemorativa do 150.º aniversário da obra, Peter Osborne afirmou que ela era "o texto individual mais influente escrito no século XIX".[61] O acadêmico John Raines observou, em 2002: "Em nossos dias, essa Revolução Capitalista alcançou os pontos mais distantes da Terra. O instrumento do dinheiro produziu o milagre do novo mercado global e do onipresente centro comercial. Leia o Manifesto Comunista, escrito há mais de cento e cinquenta anos, e descobrirá que Marx previu tudo isso".[62] Em 2003, o marxista inglês Chris Harman declarou: "Ainda existe uma qualidade irresistível em sua prosa, pois ela oferece percepção após percepção sobre a sociedade em que vivemos, de onde ela veio e para onde está indo. Ela ainda é capaz de explicar, como os economistas e sociólogos convencionais não conseguem, o mundo atual de guerras recorrentes e crises econômicas repetidas, de fome para centenas de milhões, por um lado, e de 'superprodução', por outro. Há passagens que poderiam ter sido extraídas dos escritos mais recentes sobre globalização".[63] Alex Callinicos, editor de International Socialism, afirmou em 2010: "Este é, de fato, um manifesto para o século XXI".[64] Escrevendo no The London Evening Standard, Andrew Neather citou a reedição de 2012 do Manifesto Comunista pela Verso, com introdução de Eric Hobsbawm, como parte de um ressurgimento de ideias de esquerda que incluiu a publicação do livro de Owen Jones, Chavs: The Demonization of the Working Class, e do documentário Marx Reloaded, de Jason Barker.[65]

Em contraste, críticos como o marxista revisionista e socialista reformista Eduard Bernstein distinguiram entre um marxismo inicial "imaturo" — exemplificado pelo Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels na juventude e rejeitado por Bernstein por suas tendências blanquistas violentas — e um marxismo posterior, "maduro", que ele apoiava.[66] Essa última forma refere-se à aparente afirmação de Marx, em seus últimos anos, de que o socialismo, em determinadas circunstâncias, poderia ser alcançado por meios pacíficos, mediante reformas legislativas em sociedades capitalistas com sistemas parlamentares.[67]
Bernstein declarou que a classe trabalhadora maciça e homogênea postulada no Manifesto Comunista não existia e que, ao contrário da previsão de surgimento de uma maioria proletária, a classe média crescia sob o capitalismo, em vez de desaparecer como Marx previra. O próprio Marx reconheceu posteriormente que a pequena burguesia não estava desaparecendo, por exemplo em sua obra de 1863, Teorias sobre a Mais-Valia. A obscuridade dessa obra posterior fez com que o reconhecimento do erro por Marx não se tornasse amplamente conhecido.[68] George Boyer descreveu o Manifesto como "essencialmente um documento de sua época, um produto daquilo que se chamava a década 'faminta' de 1840".[69] Hal Draper rejeitou os argumentos de Bernstein sobre a classe média, afirmando que o Manifesto na realidade observa que, embora integrantes individuais dessa classe sejam constantemente proletarizados, a classe "segue claudicando, em estado cada vez mais arruinado".[70]
Entre as previsões mais criticadas do Manifesto está a de que a revolução mundial seria iminente. Seymour Martin Lipset escreveu em 1981 que "a premissa fundamental de Marx foi totalmente refutada pela história", isto é, que os conflitos de classe nos países altamente industrializados logo levariam os trabalhadores a derrubar o capitalismo.[71] Depois de afirmar em uma resenha que o Manifesto mantém relevância duradoura, Cory Doctorow acrescentou: "Isso apesar de sua falha mais evidente, pois, é claro, a principal previsão do Manifesto — a queda iminente do capitalismo — estava completamente errada".[72]
Outra objeção contemporânea relevante observa que quatro conceitos distintos — e, em certos aspectos, divergentes — de "mudança" (Veränderung) aparecem no Manifesto: (a) ruptura, (b) desenvolvimento segundo leis históricas, (c) continuidade e (d) reforma. Andreas Dorschel argumentou que, sob análise rigorosa, eles se revelam parcialmente incompatíveis, tanto em termos lógicos quanto factuais.[73]
Outros chamaram atenção para a passagem do Manifesto que parece zombar da suposta estupidez da população rural: "A burguesia [...] arrasta todas as nações [...] para a civilização[.] [...] Criou cidades enormes [...] e, desse modo, resgatou uma parte considerável da população da idiotia [sic] da vida rural".[74] Eric Hobsbawm, contudo, observou:
{{Harvnb|Hobsbawm|2011|p=108}}.</ref>"}},"i":0}}]}' id="mwAoI"/>Embora não haja dúvida de que Marx compartilhava, naquela época, o desprezo habitual dos citadinos pelo meio camponês, bem como seu desconhecimento dele, a expressão alemã original — e analiticamente mais interessante — (dem Idiotismus des Landlebens entrissen) referia-se não à "estupidez", mas aos "horizontes estreitos" ou ao "isolamento em relação à sociedade mais ampla" em que viviam as pessoas do campo. Ela retomava o sentido original do termo grego idiotes, do qual deriva o significado atual de "idiota" ou "idiotia": "uma pessoa preocupada apenas com seus assuntos particulares, e não com os da comunidade mais ampla". Ao longo das décadas posteriores à de 1840, e em movimentos cujos integrantes, diferentemente de Marx, não possuíam formação clássica, o sentido original perdeu-se e foi interpretado incorretamente.[75]
Em 2013, uma página manuscrita do Manifesto Comunista foi acrescentada ao Registo da Memória do Mundo da UNESCO, juntamente com o exemplar anotado por Marx de O Capital, Livro I. Esses documentos encontram-se, com outros papéis de Marx, no Instituto Internacional de História Social, em Amsterdã.[76]
Edições
- Marx, Karl; Engels, Friedrich (1977). Manifesto of the Communist Party 2nd revised ed. Moscow: Progress
- Marx, Karl; Engels, Friedrich (2004). Manifesto of the Communist Party (PDF). [S.l.]: Marxists Internet Archive. Consultado em 14 de março de 2015. Cópia arquivada (PDF) em 28 de julho de 2026
Notas e referências
Notas
Referências
- ↑ Marx & Engels 1977, pp. 38–9.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 40.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 60.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 59.
- 1 2 Marx & Engels 1977, p. 34.
- ↑ «Letters». London Review of Books. 45 (14). 13 de julho de 2023. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2025 Pesquisas posteriores revelaram que a expressão "das Gespenst des Kommunismus" ("o espectro do comunismo") não foi cunhada por Marx. Ela havia sido empregada várias vezes na década de 1840, por exemplo, por Moses Hess em um artigo de novembro de 1847 que Marx provavelmente conhecia.
- ↑ Marx & Engels 1977, pp. 35–48.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 35.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 36.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 39: Na passagem seguinte, frequentemente citada, os autores afirmam que, em razão das perturbações sociais provocadas pelo capitalismo orientado pelo mercado, "a incerteza e a agitação permanentes distinguem a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações fixas e cristalizadas, com seu séquito de crenças e opiniões antigas e veneráveis, são dissolvidas; todas as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem consolidar-se. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é finalmente compelido a encarar com sobriedade suas condições reais de vida e suas relações com os demais. A necessidade de mercados sempre crescentes para seus produtos impele a burguesia por toda a superfície do globo. Ela precisa estabelecer-se em toda parte, instalar-se em toda parte, criar vínculos em toda parte".
- ↑ Miéville 2022, p. 50.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 52.
- ↑ Marx & Engels 1977, pp. 59–60: "Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, é compelido, pela força das circunstâncias, a organizar-se como classe; se, mediante uma revolução, torna-se a classe dominante e, como tal, suprime pela força as antigas condições de produção, então terá suprimido, juntamente com essas condições, as condições de existência dos antagonismos de classe e das classes em geral e, com isso, terá abolido sua própria supremacia como classe".
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 71.
- ↑ Miéville 2022, p. 63.
- ↑ Marx & Engels 1977, p. 74.
- ↑ Hobsbawm 2011, p. 101.
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- ↑ Struik 1971, p. 163.
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- ↑ Miéville 2022, p. 30.
- ↑ Miéville 2022, p. 30: Trecho da carta de Engels a Marx: "Acredito que o melhor seja abandonar a forma de catecismo e dar à obra o título de Manifesto Comunista. Temos de introduzir uma certa quantidade de história, e a forma atual não se presta muito bem a isso".
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- Hunt, Tristram (2009). Marx's General: The Revolutionary Life of Friedrich Engels. Metropolitan Books.
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Leitura adicional
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- Draper, Hal (2020). The Adventures of the Communist Manifesto. Chicago: Haymarket Books. ISBN 978-1642590388
- Gasper, Phil, ed. (2005). The Communist Manifesto: A Road Map to History's Most Important Political Document. Chicago: Haymarket Books. ISBN 978-1931859257
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