Saúde
Manate (deusa)
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Manate (em árabe: مناة; romaniz.: Manāt; também transliterada como em árabe: مناة; romaniz.: Manāh) foi uma deusa da Arábia pré-islâmica, venerada na Península Arábica antes do surgimento do islão. Considerada a deusa do destino, da fortuna e da sorte, integrava, ao lado de Alate e Aluzá, a principal tríade feminina do panteão árabe, sendo identificada pela tradição islâmica como uma das chamadas Filhas de Alá. Segundo Ibne Alcalbi, era a mais antiga das grandes divindades cultuadas pelos árabes, enquanto alguns estudiosos modernos a relacionam a uma das mais antigas divindades do panteão semítico, cujo nome já se encontra atestado no período pré-sargônico sob a forma Menutum. Seu principal santuário situava-se em Almuxalal, próximo de Cudaide, entre Meca e Medina, onde era especialmente venerada pelos aucitas e cazerajitas, embora seu culto também fosse praticado por diversas outras tribos árabes. Durante as peregrinações pré-islâmicas, muitos fiéis consideravam que a peregrinação a Meca somente se completava após a visita ao seu santuário, onde raspavam a cabeça em sinal de devoção. Sua veneração também é documentada por inscrições nabateias e em outros centros do Oriente Próximo, como Palmira, onde foi identificada com divindades greco-romanas do destino. Após a Conquista de Meca, seu santuário foi destruído por ordem de Maomé, marcando o desaparecimento oficial de seu culto durante a islamização da Arábia. Nas tradições islâmicas, Manate também figura entre as três deusas mencionadas na sura an-Najm e no episódio dos chamados versos satânicos.
Etimologia
Manate é considerada uma das mais antigas divindades do panteão semítico. Seu nome já aparece atestado no período pré-sargônico, sob a forma Menutum, como uma das designações da deusa Istar. No Alcorão, seu nome é grafado tanto na forma habitual quanto na variante منوة, preservando uma consoante semítica arcaica igualmente documentada nas formas liianita manat e nabateia manawatu.[1][2] O nome de Manate é relacionado a uma raiz comum às línguas semíticas com o sentido de "contar", "distribuir" ou "repartir". Essa interpretação é reforçada pelo árabe maniya, que significa "sorte" ou "destino", especialmente a morte entendida como destino último, e por paralelos semânticos em outras línguas semíticas, nos quais a mesma raiz também expressa as ideias de contar os dias da vida, morte, porção, destino e fortuna.[3] Na Bíblia, essa raiz aparece na forma Meni (Isaías 65:11), divindade geralmente identificada pelos estudiosos como correspondente semítica de Manate. A mesma identificação foi associada ao papiro Sallier IV, no qual Meni figura como uma divindade semítica integrante da Enéade da casa de Ptá.[1][2] O nome da deusa ocorre como elemento teofórico em diferentes tradições semíticas. Entre os nabateus, está documentado nos antropônimos Whbmnwtw, Zydmnwtw, ʿbdmnwtw, ʿbdmnwty e Tymmnwty,[4] enquanto as fontes árabes preservam nomes como Abede Manate e Zaíde Manate, cuja antiguidade, segundo Ibne Alcalbi, antecederia os nomes formados com Alate e Aluzá.[5] Alguns lexicógrafos muçulmanos também explicaram o nome de Manate a partir do verbo árabe "cortar", sustentando que a divindade teria recebido essa designação por ser representada por uma pedra talhada. Trata-se, contudo, de uma etimologia tradicional distinta da derivação semítica geralmente aceita pelos estudiosos modernos.[2]
Culto
Manate era considerada a deusa do destino, da fortuna e da sorte.[6] Ao lado de Alate e Aluzá, integrava o grupo das chamadas Filhas de Alá.[7][8] Segundo Konstantin M. Klein, entretanto, essa designação parece constituir uma elaboração relativamente tardia do paganismo árabe, podendo inclusive refletir apenas a formulação preservada pelo Alcorão.[9] Ibne Alcalbi considerava Manate a mais antiga das principais divindades cultuadas pelos árabes,[10] enquanto alguns estudiosos modernos sustentam que ela talvez figurasse entre as divindades mais antigas do panteão semítico, sendo seu nome atestado desde o período pré-sargônico sob a forma Menutum, uma das designações da deusa Istar.[7][11][1][2] Andrae observa que seu culto remontava a grande antiguidade e sugere que, à luz de seu nome e de suas atribuições, Manate representava uma antiga deusa do destino. O autor também assinala que ela parece ter sido particularmente venerada pelos hudailitas, interpretação compatível com a tradição preservada por Ibne Alcalbi, que a identifica como deusa dos hudailitas e dos cuzaaítas.[6][5] Outras tradições, porém, atribuem a guarda de seu santuário a azeditas e gassanitas, evidenciando a existência de versões divergentes acerca da organização de seu culto.[12] Brown observa que o destaque conferido por Ibne Alcalbi a Manate, Alate e Aluzá decorre, em parte, do fato de essas deusas figurarem entre as principais divindades mencionadas no Alcorão, especialmente na sura an-Najm, o que explica a atenção dedicada a elas em sua descrição da religião árabe pré-islâmica.[13]
Seu principal santuário, hoje desaparecido, situava-se entre Meca e Medina, na costa do mar Vermelho,[8] provavelmente em Almuxalal, próximo de Cudaide, onde se erguia um ídolo em sua homenagem. Segundo a tradição preservada por Ibne Alcalbi, o culto teria se originado ali a partir de uma pedra sagrada pertencente aos hudailitas, posteriormente substituída por uma estátua que, segundo a tradição islâmica reproduzida pela Encyclopaedia of Islam, teria sido introduzida por Anre ibne Luai, da mesma forma que o ídolo de Hubal.[5][14] A TDV registra igualmente as tradições segundo as quais Manate era representada por uma grande pedra negra ou por uma estátua de pedra erguida junto ao litoral. O santuário possuía ainda uma construção destinada ao culto, uma sala onde eram depositadas as oferendas e um guardião (sadin).[15] Algumas tradições identificam o clã dos Algatarife como responsável pela guarda do santuário de Manate em Cudaide, embora outras fontes atribuam essa função a grupos tribais diferentes.[16][12] Os aucitas e os cazerajitas mantinham uma ligação particularmente estreita com Manate, sendo estes últimos tão associados ao seu culto que o local de seus sacrifícios era conhecido simplesmente como o "local de sacrifício dos homens dos Banu Cazeraje".[17] A Encyclopaedia of Islam acrescenta que, antes da chegada dos aucitas e cazerajitas oriundos do sul, o culto de Manate já era praticado pelos hudailitas na região de Iatrebe e pelos cuzaaítas nas proximidades de Meca, participando dele também outras tribos da região.[18] O profundo apego dessas tribos à deusa, assim como o dos taquifitas a Alate e o dos coraixitas a Aluzá, constituiu um dos principais obstáculos à implantação inicial do islã no Hejaz.[19] Essa relação é mencionada num poema provavelmente composto por Abede Aluzá ibne Uadia Almuzani:
Citação: Fiz um juramento verdadeiro e justo,
por Manate, no santuário dos cazerajitas.[5]
Andrae observa que esse tipo de culto anicônico era característico da religião árabe pré-islâmica, na qual muitas divindades eram identificadas com pedras naturais ou blocos de rocha especialmente consagrados, considerados a própria manifestação da divindade ou o local onde seu poder residia.[20] O culto de Manate difundiu-se muito além do Hejaz. Além de seu principal santuário entre Meca e Medina, sua veneração é atestada em Mileia, nos atuais Emirados Árabes Unidos, onde uma inscrição funerária a menciona ao lado do deus Caal,[21] e em Palmira, onde fontes greco-romanas a identificam com as Fortunas e um mosaico a representa sentada com um cetro, à maneira de Nêmesis.[22] A Encyclopaedia of Islam acrescenta que sua identificação com as Fortunas refletia a associação de Manate ao destino, enquanto inscrições tamúdicas lhe atribuem o epíteto st slm ("Senhora da Paz").[1] Em Hegra, inscrições nabateias mencionam ainda um afecal (afkal) associado a Duxara, Hubal e Manate. Segundo Hoyland, o termo designava um ofício religioso característico do Hejaz, embora as inscrições não permitam determinar com precisão as atribuições de seus ocupantes.[23] A documentação epigráfica nabateia evidencia que Manate desempenhava papel recorrente na proteção religiosa e jurídica de sepulturas. Diversas inscrições provenientes de Hegra invocam a deusa ao lado de Duxara, Caíxa e outras divindades para amaldiçoar quem vendesse, violasse ou alterasse túmulos e inscrições funerárias,[4] enquanto outra estabelece que os infratores deveriam pagar multa de mil moedas de prata a Duxara e Manate, além de igual quantia ao rei nabateu Rabel II (r. 70–106).[24]
Durante as peregrinações pré-islâmicas, os devotos percorriam normalmente todos os ritos da peregrinação, mas somente ao chegarem ao santuário de Manate raspavam a cabeça e ali permaneciam por algum tempo, pois consideravam que a peregrinação não estava completa antes da visita à deusa.[5][18] É provável que um ídolo de Manate também figurasse entre os 360 ídolos da Caaba. Segundo Ibne Alcalbi, quando os devotos circundavam a Caaba, invocavam Manate juntamente com suas irmãs, Alate e Aluzá, pedindo-lhes bênçãos e intercessão.[25] Nas tradições islâmicas em que Manate é mencionada ao lado de Alate e Aluzá, ela costuma aparecer como a terceira integrante da tríade, em posição aparentemente subordinada às demais deusas.[26] Manate também é mencionada, ao lado de Alate e Aluzá, nas tradições relativas ao episódio dos chamados versos satânicos, em que as três deusas aparecem associadas à sura an-Najm, passagem na qual o Alcorão rejeita a atribuição de filhas a Deus.[27][28] Brown observa que essa tradição foi preservada por Atabari, mas não figura na biografia de Ibne Isaque, refletindo divergências entre as primeiras tradições islâmicas acerca do episódio.[29] Segundo os hádices, alguns ançares que anteriormente veneravam Manate em Almuxalal hesitaram, após sua conversão ao islã, em realizar o percurso ritual entre Safá e Marua, por associarem esse rito ao antigo culto da deusa. Segundo a tradição islâmica, essa dúvida motivou a revelação do versículo [Alcorão 2:158], que confirmou a legitimidade do rito no contexto da peregrinação islâmica.[15]
Declínio
O culto de Manate persistiu até os primeiros anos da expansão do islã. As tradições islâmicas preservam relatos divergentes acerca da destruição de seu santuário. Segundo Ibne Alcalbi, quando Maomé regressava da conquista de Meca, no oitavo ano da Hégira (630), encontrando-se a quatro ou cinco jornadas de Medina, ordenou que Ali ibne Abi Talibe destruísse o santuário da deusa. Ali demoliu o ídolo, recolheu os tesouros ali depositados e os levou de volta a Maomé.[30] A Encyclopaedia of Islam e a TDV İslâm Ansiklopedisi, por sua vez, registram outra tradição segundo a qual a missão foi confiada a Sade ibne Zaíde Alaxali, que destruiu o santuário em 25 de ramadã de 8 A.H. (16 de janeiro de 630), após anunciar sua intenção ao guardião do templo. Segundo esse relato, antes da destruição surgiu diante dele uma mulher negra, nua e de cabelos desgrenhados, que amaldiçoava os presentes e golpeava o próprio peito, sendo interpretada como a manifestação da própria deusa.[31] A TDV menciona ainda uma terceira tradição, segundo a qual Abu Sufiane ibne Harbe teria sido encarregado da destruição do santuário.[15]
Entre os objetos recuperados encontravam-se as espadas Miquedame (Mikhdham) e Raçube (Rasub), oferecidas anteriormente pelo rei gassânida Alharite ibne Abi Xamir. Ibne Alcalbi identifica essas armas como as mesmas mencionadas por Alcama ibne Abada em um de seus poemas.[32] A EI² observa que há igualmente divergências quanto à procedência dessas espadas, atribuindo a Iacute a tradição segundo a qual elas foram encontradas no tesouro de Manate por Ali, enquanto Ibne Sade afirma que provinham do tesouro de Alfalce.[33] Ibne Alcalbi registra ainda a tradição segundo a qual Maomé entregou ambas as espadas a Ali, razão pela qual alguns afirmavam que Dulfacar, a célebre espada de Ali, seria uma delas. O autor, contudo, menciona também uma versão alternativa, segundo a qual essas espadas teriam sido encontradas por Ali no templo de Alfalce, pertencente aos taiítas, quando este foi igualmente destruído por ordem de Maomé.[34]
Referências
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- 1 2 3 4 Fehd 2004, p. 121.
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