Saúde
História dos judeus no Brasil
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| População total | |||||||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 0,2% da população do Brasil em 1999 (segundo Schwartzman);[1] 107.329 em 2010 (de religião judaica, segundo o censo)[2] | |||||||||||||||||
| Regiões com população significativa | |||||||||||||||||
| 71.050[3] | |||||||||||||||||
| 31.465[3] | |||||||||||||||||
| 9.860[3] | |||||||||||||||||
| 5.031[3] | |||||||||||||||||
| 3.809[3] | |||||||||||||||||
| 2.477[3] | |||||||||||||||||
| 2.419[3] | |||||||||||||||||
| 1.989[3] | |||||||||||||||||
| 1.746[3] | |||||||||||||||||
| 1.260[3] | |||||||||||||||||
| 779[3] | |||||||||||||||||
| Línguas | |||||||||||||||||
| Principalmente o português. Minorias de descendentes falam hebraico, iídiche, alemão, polonês, russo e haquitia. | |||||||||||||||||
| Religiões | |||||||||||||||||
| Judaísmo | |||||||||||||||||
| Grupos étnicos relacionados | |||||||||||||||||
| ashkenazim, sefaradim, mizrahim e outras divisões étnicas judaicas | |||||||||||||||||
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) compilados no Censo de 2010, havia nesse ano 107.329 pessoas de religião judaica no Brasil.[2] O Censo de 2022 divulgou os resultados preliminares de religião por grandes grupos, sem detalhar subgrupos ou denominações específicas, como o judaísmo; nessa divulgação, a categoria "outras religiosidades" reunia 7.079.101 pessoas de 10 anos ou mais, ou 4,01% desse universo, mas não permite estimar isoladamente a população judaica.[4][5] A comunidade judaica brasileira é frequentemente descrita como uma das maiores da América Latina, atrás da Argentina.
A imigração judaica no Brasil foi um movimento migratório que teve início com a colonização do Brasil, quando judeus sefarditas e cristãos-novos se estabeleceram na colônia. Nos séculos XIX e XX, a imigração de judeus para o Brasil aumentou, e era composta sobretudo por judeus asquenazes do Leste Europeu.
Mais de 100 mil pessoas são de religião judaica no Brasil, mas o número de descendentes que não praticam mais o judaísmo é incerto. Segundo pesquisa de 1999, do sociólogo Simon Schwartzman, 0,2% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter ancestralidade judaica, percentual que, numa população de cerca de 200 milhões de brasileiros, representaria cerca de 400 mil pessoas.[1]
História
Brasil colônia
O Brasil foi palco para a primeira comunidade judaica estabelecida na América. Com a expulsão dos judeus de Portugal, logo após a sua descoberta, judeus convertidos ao catolicismo, chamados de cristãos-novos, estabeleceram-se na nova colônia. Ao menos dois pisaram na terra quando Pedro Álvares Cabral chegou em 1500, fazendo parte de sua tripulação: Mestre João, médico particular da Coroa Portuguesa e astrônomo; e Gaspar da Gama, intérprete (ajudara Vasco da Gama nas Índias, onde vivia) e comandante da nau que trazia mantimentos.[6]
Uma população numerosa de portugueses descendentes de judeus se estabeleceu no Brasil colonial. Durante vários séculos, judeus, cristãos e muçulmanos conviveram de forma pacífica na Península Ibérica. A Ibéria era um lugar único na Europa onde o hibridismo criou uma sociedade culturalmente rica.[7] Os judeus chegaram à Península Ibérica antes do nascimento de Jesus Cristo e os islâmicos a invadiram no ano de 711, deflagrando uma maciça imigração proveniente do Norte da África, de mouros. Mesmo após os avanços da Reconquista Cristã no século XIII, a Espanha ainda tinha mais afinidade com a sociedade muçulmana do que com o resto da Europa.[7] Mesmo os cristãos-velhos (ibéricos sem ascendência judaica ou muçulmana) pareciam "exóticos" aos olhos dos europeus do Norte, pois absorveram diversos aspectos tanto da cultura judaica quanto da islâmica. Os séculos de convivência entre esses povos foram quebrados no século XV e no século XVI, quando a Inquisição foi estabelecida na Espanha (1478) e em Portugal (1536). Os Reis Católicos (Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão) tiveram um reinado conturbado. A Reconquista criou uma natureza militarizada da sociedade espanhola e a violência na Espanha foi exacerbada com a vitória das classes guerreiras durante esse período. Depois que os cristãos conquistaram os territórios dos mouros, várias guerras civis eclodiram na região da Espanha, ameaçando a estabilidade da monarquia. Era necessário desviar toda essa agressividade a um inimigo externo, criando um bode expiatório.[7] Dessa forma, toda a Espanha seria unida para combater um "inimigo" único, criando uma unidade nacional tão desejada pelos Reis Católicos. Em momentos conturbados, as sociedades humanas costumam se voltar contra grupos ambíguos, tendo-os como perigosos e fazendo deles alvos de ataques. No caso espanhol, o grupo escolhido para ser atacado foi o dos judeus.[7]
Os convertidos ou cristãos-novos eram descendentes de judeus que haviam se estabelecido na Península Ibérica há vários séculos. Muitos deles eram descendentes de judeus que haviam se convertido ao catolicismo por livre e espontânea vontade. Muitos eram cristãos devotos e irrepreensíveis.[7] Alguns deles, porém, apesar de serem cristãos, mantinham alguns aspectos culturais judaicos no seu dia-a-dia. Formavam, portanto, um grupo ambíguo que não era visto pelos cristãos-velhos como iguais a eles, tampouco eram aceitos pelos judeus. Portanto, não foi difícil desmoralizá-los e transformá-los em alvo de agressividade. Os cristãos-novos foram os primeiros a ser perseguidos pela Inquisição. Depois de terem sido proibidos de assumir certos cargos, muitos foram julgados pela Inquisição, foram presos, torturados, tiveram seus bens confiscados e foram queimados vivos. Finalmente, em 1492, os judeus foram expulsos da Espanha e a violência da Inquisição se voltou contra os mouros, mais tarde contra os protestantes, franco-maçons, bruxas, iluministas, jansenistas, homossexuais, bígamos e qualquer grupo que desviasse dos padrões impostos pela Igreja. Os próprios católicos passaram a ser vítimas da Inquisição, pois criou-se na Península Ibérica uma sociedade "paranoica e neurótica", onde as pessoas eram vigiadas por seus vizinhos e qualquer comportamento suspeito já ensejava uma denúncia. A Inquisição foi mais uma entidade política do que religiosa, e era frequentemente usada pelas pessoas para se conseguir poder e eliminar inimigos indesejáveis.[7]

Nesse ambiente perigoso, judeus e convertidos migraram em massa da Espanha para Portugal entre 1480 e 1496. Porém, o rei Manuel I de Portugal pretendia se casar com a filha dos Reis Católicos e, como condição para aceitar o matrimônio, o monarca espanhol pediu ao português que também expulsasse os judeus. Portanto, em 5 de dezembro de 1496, Portugal também decretou a expulsão dos judeus, dando-lhes até outubro do ano seguinte como prazo para sair. Todavia, estima-se que 10% da população portuguesa fosse judia naquela altura, e o rei não podia se dar ao luxo de perder toda aquela população e os benefícios econômicos que ela dava a Portugal.[7] Assim, o rei impediu a saída dos judeus de Portugal e decidiu que eles deveriam ser convertidos à força ao cristianismo. Portugal, ao contrário da Espanha, nunca teve o "problema mouro" para resolver. Após a Reconquista, os islâmicos de Portugal já estavam bastante "iberizados" e foram facilmente assimilados dentro da sociedade portuguesa. Na Espanha, por sua vez, ainda havia uma grande população muçulmana não assimilada, e ela foi a próxima vítima da Inquisição espanhola.[7] Portanto, a fúria da Inquisição portuguesa se voltou exclusivamente contra os judeus e os convertidos. Durante os séculos seguintes, muitas pessoas foram acusadas de cometer criptojudaísmo, ou seja, de praticar o judaísmo em segredo. De fato, muitos cristãos-novos, ao serem perseguidos como "judeus", apesar de muitos não praticarem mais o judaísmo e de serem católicos devotos, acabaram reacendendo o sentimento de ser judeu, dividindo membros da mesma família. Assim, houve casos de irmãos cristãos que denunciavam irmãos judeus para a Inquisição, e até mesmo de um filho cristão que denunciou a mãe judia.[7] Os inquisidores se debruçavam sobre a árvore genealógica das pessoas para averiguar se certo indivíduo tinha algum antepassado judeu. Surgiu aí o conceito de "limpeza de sangue" que atormentou a sociedade ibérica. Muitos historiadores afirmam que o racismo moderno nasceu na Península Ibérica a partir de então, com conceitos de "sangue puro" e "sangue impuro". Houve casos de pessoas que foram queimadas por possuírem um trisavô judeu, apesar de desconhecerem tal origem. Isso deixou a sociedade em estado de paranoia, pois muitas pessoas passaram a temer que houvesse algum judeu em sua árvore genealógica.[7]
A América Latina se tornou um destino visado por esses judeus e cristãos-novos perseguidos. Se na Península Ibérica eles foram transformados em "bodes expiatórios", no Novo Mundo havia outras vítimas a ser perseguidas: os indígenas e os negros. Portanto, no continente Americano, onde a perseguição já começava a assumir um viés racial, esses judeus e convertidos, incluídos na categoria de "brancos", encontraram um ambiente onde eles eram menos notados e onde a agressividade estava se voltando contra outras vítimas.[7] Assim, no México, em 1550, em torno de 20% da população europeia era formada por convertidos. No Peru, a proporção era de dois convertidos para um cristão-velho. Em Porto Rico, havia reclamações de que comerciantes judeus estavam "ocupando a ilha". Em Cuba, oficiais reclamavam que costumes judaicos estavam sendo ensinados aos índios. No Brasil, o número de cristãos-novos era tão grande que, devido à ausência de outros portugueses alfabetizados, muitos deles ocupavam cargos oficiais, apesar de haver uma proibição real. Para o século XVI, estima-se que cristãos-novos compunham 14% da população "branca" em Pernambuco.[8] Entre 1579 e 1620, 32% dos donos de engenhos de cana-de-açúcar em Pernambuco eram de origem judaica.[8]
Pesquisadores encontraram certas peculiaridades da cultura judaica ainda sendo praticadas na Espanha, em Portugal e no Brasil em momentos recentes. São aspectos culturais praticados por pessoas que se dizem cristãs e que desconhecem qualquer vínculo com o judaísmo, o que mostra como foi grande a influência judaica, mesmo após séculos de expulsões e conversões forçadas.[7]
Entre o fim do século XVI e meados do século XVII, vários cristãos-novos prosperaram a ponto de se tornar senhores de engenho, fazendo casamentos com cristãos-velhos e integrando a aristocracia açucareira do Nordeste. Outros, porém, permaneceram nas classes mais baixas como artesãos, agricultores e pequenos comerciantes. A Coroa Portuguesa havia proibido sua participação na governança colonial, mas a proibição não foi aplicada com rigor, havendo registro de muitos cristãos-novos com cargos políticos nas vilas e posições de alto escalão na burocracia e no clero. Com a chegada da Inquisição ao Brasil em 1591 a situação dos cristãos-novos se tornou complicada. Postos sob desconfiança de manterem práticas judaicas, ocorreram denúncias de heresias, prisões e perseguições.[9]
Séculos XIX e XX
Em 1810 o tratado comercial entre Portugal e a Inglaterra incluiu em suas cláusulas a liberdade de culto religioso, e com a promulgação da Constituição do Império a liberdade foi confirmada. Isso incentivou uma nova onda de imigração judaica.[9] Somente a partir desta época que os judeus no Brasil passam a assumir abertamente sua identidade religiosa, cultural e histórica.[10] Na Europa, os judeus enfrentavam constantemente os denominados pogroms, que consistiam em perseguições em massa realizadas contra judeus, incluindo saques e destruições de casas, realizados em vários países da Europa Ocidental e Oriental, e tal situação fez com que se iniciasse, no final do século XIX, uma emigração para fora do Continente, sobretudo para os Estados Unidos.[10]
Entre 1872 e 1972, entraram no Brasil mais de 90 mil imigrantes de religião judaica. O período mais importante foi entre 1920 e 1939, quando 50 mil judeus entraram no Brasil. A maioria desses imigrantes era de asquenazes provenientes do Império Russo, dos Bálcãs e da Europa Central, mas principalmente da Polônia. Desde finais do século XIX, os Estados Unidos foram o destino de centenas de milhares de imigrantes judeus, e a Argentina ocupava uma posição secundária. Todavia, na segunda metade da década de 1920, esses dois países introduziram restrições à entrada de determinados grupos de imigrantes, fato que culminou no aumento da imigração judaica para o Brasil.[10]
Alguns imigrantes judeus sefarditas começaram a chegar ao Brasil no século XIX, vindos principalmente do Marrocos, estabelecendo-se na Amazônia, principalmente em Belém, onde fundaram em 1824 a mais antiga sinagoga ainda em funcionamento no Brasil. O isolamento imposto aos sefarditas na Amazônia chamou a atenção de rabinos no Marrocos. No início do século XX, decidiram enviar um rabino à Amazônia para angariar fundos para uma yeshivá no Marrocos (ou em Jerusalém, não se sabe ao certo) e fiscalizar o cumprimento das normas religiosas pela comunidade estabelecida na floresta. O rabino Shalom Emanuel Muyal chegou à região em 1908 ou 1910, mas, dois anos depois de chegar a Manaus, morreu, provavelmente depois de contrair febre amarela. Curiosamente, o rabino acabou por ganhar fama de santo milagreiro entre os católicos locais. Foi enterrado no cemitério cristão, pois não havia, então, cemitério judeu na cidade, e sua sepultura tornou-se local de peregrinações. Zeloso, o rabino da sinagoga de Manaus mandou construir um muro ao redor do túmulo, mas foi pior: os devotos católicos passaram a usar o muro como suporte para placas e quadros em que fazem seus pedidos ao rabi Muyal e também proclamam as graças alcançadas. "Ele se tornou o santo judeu dos católicos da Amazônia", admite Isaac Dahan, da sinagoga de Manaus. Nos anos 1960, quando seu sobrinho, então ministro de governo do já criado Estado de Israel, tentou trasladar os restos mortais do santinho, houve protestos populares, e o governo do Amazonas pediu-lhe que não o fizesse. Enfim a sepultura do rabi Muyal foi para o cemitério judaico, anexo ao católico, e o santo rabi continuou a ser venerado no Amazonas.[11][12]
No Recife, entre o fim do século XIX e o início do século XX, instalou-se uma comunidade constituída em sua maior parte por judeus de origem asquenaze provenientes de países como Polônia, Ucrânia, Rússia, Áustria e Alemanha. Alguns membros da comunidade asquenaze de Pernambuco tornaram-se notórios, como Mário Schenberg, Leopoldo Nachbin, Paulo Ribenboim, Aron Simis, Israel Vainsencher, Clarice Lispector, Leôncio Basbaum, Noel Nutels, dentre outros.[13]
Com a Proclamação da República do Brasil, uma nova Constituição foi promulgada, garantindo liberdade religiosa no Brasil, o que facilitou a vinda de imigrantes judeus, desta vez um grande número de asquenazes: a maior parte era proveniente do Leste Europeu, regiões da atual Polônia, Rússia e Ucrânia. A maioria desembarcava no porto de Santos e rumava para a cidade de São Paulo onde rapidamente constituiu-se uma próspera comunidade de comerciantes judeus. Além de São Paulo (principalmente no Bom Retiro), os judeus marcaram presença no Rio de Janeiro, no Sul do Brasil e em outras partes do país. No Rio Grande do Sul a fazenda Philipson, fundada no ano de 1904, é considerada como a formadora da primeira escola judaica no Brasil e está localizada no município de Itaara. Posteriormente os imigrantes e descendentes migraram do Bom Retiro para regiões nobres da cidade de São Paulo, como Higienópolis e Jardins.[14] Na mesma época membros da comunidade judaica começaram a se instalar no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, que permanece como símbolo da colonização judaica na cidade.[15] Uma das sinagogas do bairro, a União Israelita de Porto Alegre, completou o seu centenário em 2010 e é uma das mais antigas do Brasil e a quarta das Américas com atividades ininterruptas.[16]
Na década de 1920 o afluxo de judeus se intensificou com a chegada de dezenas de milhares de pessoas. Quando a imigração judaica cresceu o Brasil iniciava sua transição para uma sociedade crescentemente urbana e industrializada. Nesse contexto, os judeus concentravam-se nas áreas do comércio e dos pequenos empreendimentos domésticos. Desde a Antiguidade, os judeus apresentam características predominantemente urbanas e os imigrantes que vieram para o Brasil repetiram esse paradigma. Quase todos os judeus brasileiros estabeleceram-se em centros urbanos, e em 1940, 74,3% dos judeus do Brasil estavam concentrados em apenas três cidades: São Paulo, no Rio de Janeiro e Porto Alegre. Em 1980 quase 83% de todos os judeus brasileiros ainda lá se concentravam.[10]
Com a ascensão do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália na década de 1930, uma grande população judia fugiu, mas como muitos países mantinham restrições de imigração, boa parte dos refugiados teve dificuldade de encontrar um novo lar no exterior. No Brasil entraram muitos imigrantes, até que em 1935 o governo de Getúlio Vargas começou a negar os vistos de imigração mesmo para turistas. Vargas estava envolvido num projeto de abrasileiramento forçado das minorias étnicas, e neste contexto a chegada de novos grupos se tornava um problema adicional.[17] A partir de 1937, o Ministério das Relações Exteriores emitiu pelo menos 26 circulares secretas impondo barreiras à entrada de judeus, embora publicamente o governo apresentasse o país como amigável aos estrangeiros.[18] A despeito das restrições, a imigração continuou de forma clandestina. Neste período houve mesmo ameaças de deportação em massa de judeus, e embora elas nunca tenham sido concretizadas, vários indivíduos que haviam se envolvido em movimentações políticas foram exilados.[17] Depois de Vargas se alinhar aos países do Eixo, a chamada "questão judaica" passou para o segundo plano, surgindo defensores da presença de judeus no país.[10] No pós-guerra os judeus imigrantes e seus descendentes já estavam bem integrados ao contexto brasileiro, e atuavam em todas as esferas da vida nacional, mas as restrições à imigração só foram abolidas definitivamente em 1950. Até esta data, sabe-se que cerca de 16 mil judeus tiveram seu visto de entrada recusado, mas esse número provavelmente é muito maior.[18]
À medida que se integravam, fundaram jornais, bibliotecas, escolas, associações comunitárias de ajuda mútua e apoio a recém-chegados; entraram na atividade político-partidária; participaram da articulação do movimento sionista, e fundaram sociedades para a preservação da cultura judaica e de apoio das comunidades que cresciam. Na década de 1960 muitos judeus entraram na oposição à ditadura militar, mas com a publicação do AI-5 e o endurecimento da repressão política, uma expressiva quantidade de judeus brasileiros se transferiu para Israel.[19]
Uma característica marcante da população judaica no Brasil é a uma taxa de natalidade reduzida precocemente. Em 1940, havia 55.563 judeus no Brasil, número que cresceu para 96.199 em 1960. Em algum momento da década de 1960, a taxa de natalidade da comunidade judaica tornou-se negativa e ela passou a encolher: em 1991, os judeus estavam reduzidos a 86.417 pessoas.[10] Parte desse fenômeno se deve ao expressivo declínio da imigração que se verificou a partir da década de 1960, e também à crescente taxa de assimilação por casamentos mistos e secularização.[10] Em anos recentes em algumas comunidades a taxa de casamentos mistos ultrapassa os 50%.[20] O censo brasileiro de 2010 registrou 107.329 judeus no país.[3]
Segundo pesquisas de Monica Grin e Michel Gherman, no Brasil a definição de judaísmo é flexível. Para alguns ela é baseada na prática da religião, mas para outros ela se baseia principalmente em aspectos de natureza social, cultural, étnica e histórica. De modo geral os que se auto-identificam como judeus brasileiros na atualidade possuem alta escolaridade, nível de vida acima da média e uma fraca adesão à religião tradicional. Entre os que praticam assiduamente a religião, há uma predominância dos grupos ortodoxos, numa tendência que vem crescendo desde os anos 1980 sob influência do fortalecimento da religiosidade de índole conservadora em curso tanto nos Estados Unidos como em Israel.[20]
Em anos recentes tem havido uma crescente apropriação de símbolos judaicos por grupos não judeus, geralmente cristãos e conservadores, em um processo de aproximação com as ideologias e políticas conservadoras e direitistas e criação de uma imagem mitificada de Israel, que, segundo Gherman, "reorganiza identidades políticas, ideológicas e religiosas entre judeus e não judeus no Brasil" e provoca uma cisão entre judeus de esquerda e judeus de direita.[21]
Comunidades regionais
A formação das comunidades judaicas brasileiras foi desigual no território nacional e dependeu de fatores como portos de entrada, redes de parentesco, atividades comerciais, políticas migratórias, acesso a instituições religiosas e oportunidades urbanas. Embora São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre tenham concentrado grande parte da população judaica no século XX, outras regiões, como Pernambuco, Pará, Amazonas e Minas Gerais, tiveram trajetórias próprias, ligadas tanto à memória colonial quanto à imigração moderna.[10]
Pernambuco e Recife
O Recife ocupa lugar singular na história judaica brasileira por ter abrigado, durante o domínio neerlandês, uma comunidade judaica organizada, com sinagogas, cemitério e instituições religiosas. Entre 1630 e 1654, a tolerância religiosa da administração holandesa permitiu a presença pública de judeus sefaraditas e cristãos-novos vindos de Amsterdã, do Brasil e da Península Ibérica.[22] A Sinagoga Kahal Zur Israel, em funcionamento naquele contexto, tornou-se um dos principais marcos da presença judaica no Brasil colonial e das Américas.[23]
No fim do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, formou-se no Recife uma nova comunidade, em grande parte composta por judeus asquenazes vindos do Leste Europeu. Estudos sobre o bairro da Boa Vista mostram que os imigrantes se organizaram por meio de sinagogas, escolas, sociedades de auxílio mútuo, associações culturais e redes de trabalho, muitas delas ligadas ao comércio e à vida urbana recifense.[22][24] A presença judaica pernambucana também se destacou pelo papel do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, instalado no espaço da antiga Kahal Zur Israel, na preservação de documentação sobre a imigração judaica nos séculos XVII e XX.[24]
Pará, Amazonas e Amazônia
Na Amazônia, especialmente em Belém, Manaus, Santarém e outras cidades ribeirinhas, a imigração judaica moderna teve forte componente sefaradita e marroquino. A partir do século XIX, famílias vindas do norte da África, sobretudo de Tânger, Tetuão, Rabat, Fez e outras localidades do Marrocos, estabeleceram-se em circuitos comerciais ligados aos portos amazônicos, ao sistema de aviamento, à navegação fluvial e ao ciclo da borracha.[25][26]
Esses grupos mantiveram práticas religiosas, redes de parentesco e instituições comunitárias em ambiente de grande dispersão geográfica. A Shaar Hashamaim, em Belém, tornou-se um dos símbolos dessa presença, ao lado de cemitérios, jornais comunitários e associações de auxílio mútuo que documentam a permanência judaica na região amazônica.[27][25]
Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro foi um dos principais polos de imigração e organização judaica no Brasil entre o fim do século XIX e o início do século XX. Nesse período, a cidade recebeu judeus de origens diversas e iniciou a formação de uma vida comunitária que se consolidaria nas décadas de 1920 e 1930 como uma das maiores do país.[28] A Praça Onze e suas imediações tiveram papel central nessa fase, com cortiços, sobrados, pequenos comércios, açougues kosher, escolas, bibliotecas, associações e tipografias ligadas à população imigrante.[29]
A estrutura comunitária judaica carioca foi marcada pela criação de associações religiosas, culturais e assistenciais, voltadas à manutenção de ritos, línguas de origem, práticas alimentares, educação e apoio aos recém-chegados.[28] O Grande Templo Israelita da Praça Onze, inaugurado em 1932, expressou arquitetonicamente essa consolidação institucional e permaneceu como referência religiosa e patrimonial da comunidade judaica do Rio de Janeiro.[29]
São Paulo
Em São Paulo, a chegada de imigrantes judeus coincidiu com a transformação urbana e industrial da cidade no início do século XX. O bairro do Bom Retiro tornou-se um dos principais núcleos de residência, trabalho e sociabilidade judaica, associado ao comércio, às oficinas, às pequenas indústrias e às instituições comunitárias. Ao longo do século XX, parte da comunidade deslocou-se para outros bairros, como Higienópolis, Jardins e Morumbi, acompanhando processos de mobilidade social e redistribuição espacial.[30]
A cidade concentrou importantes instituições religiosas, educacionais e culturais. A Sinagoga Beth-El, fundada em 1926 e instalada em edifício inaugurado em 1929, foi uma das primeiras grandes construções sinagogais paulistanas; posteriormente, o edifício histórico passou a abrigar o Museu Judaico de São Paulo.[31] Em 1936, refugiados judeus da Alemanha nazista fundaram a Congregação Israelita Paulista, que desempenhou papel religioso, assistencial, educacional e cultural na integração de judeus alemães e, depois, de outros grupos de refugiados.[32]
Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, a imigração judaica do início do século XX incluiu experiências de colonização agrícola organizadas com apoio da Jewish Colonization Association (JCA), como as colônias de Philippson e Quatro Irmãos. Essas iniciativas foram articuladas a projetos de povoamento, ferrovias, exploração madeireira e produção agrícola, com o objetivo de reassentar judeus que viviam em áreas de risco na Europa.[33]
Com o tempo, muitos imigrantes e descendentes se deslocaram para Porto Alegre, onde o bairro Bom Fim se tornou um importante espaço de sociabilidade judaica. A União Israelita Porto-Alegrense, fundada em 1910, e o Centro Israelita Porto-Alegrense, fundado em 1917, figuram entre as instituições mais antigas da comunidade judaica gaúcha.[34][35] Em 1936, judeus alemães refugiados do nazismo criaram a Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência (SIBRA), voltada à manutenção de uma sinagoga, à beneficência e à inserção dos recém-chegados na sociedade brasileira.[36]
Minas Gerais
A presença judaica em Minas Gerais combinou a memória colonial dos cristão-novos com a formação de comunidades modernas de imigrantes judeus nos séculos XIX e XX. O geógrafo Carlos Alberto Póvoa relaciona a presença judaica no estado tanto às antigas rotas do interior quanto à imigração moderna para cidades como Belo Horizonte, Juiz de Fora, Uberlândia e Uberaba.[37] Em Belo Horizonte, a União Israelita de Belo Horizonte foi fundada em 1922, e a Escola Israelita iniciou suas atividades em 1929, reunindo culto, sociabilidade, biblioteca, educação e assistência comunitária.[38][39]
Estudos sobre a comunidade belo-horizontina destacam que a sinagoga funcionou como espaço de demarcação religiosa e cultural, ao lado de clubes, escolas, bibliotecas e associações comunitárias.[40] Em Juiz de Fora, conhecida como "Manchester Mineira", a presença judaica foi estudada por Marília Librandi da Rocha a partir de fontes locais e memórias de imigração.[41] No Triângulo Mineiro, Póvoa registra a circulação de judeus por rotas comerciais e ferroviárias, especialmente como comerciantes, mascates e caixeiros-viajantes, conectando o interior de Minas a circuitos econômicos de São Paulo e de outras regiões.[37]
O comerciante José Luiz de Queiroz, associado por registro biográfico ao comércio de tecidos e a redes de mascates e caixeiros-viajantes no interior mineiro, é apresentado como uma trajetória individual vinculada a esse padrão de inserção econômica judaica no início do século XX.[42] A caracterização geral dessa presença no estado, porém, apoia-se sobretudo na literatura acadêmica sobre imigração, comércio, instituições comunitárias e redes urbanas judaicas em Minas Gerais.[37][40][41]
Sinagogas históricas e instituições religiosas
As sinagogas e instituições religiosas judaicas no Brasil refletem diferentes momentos da presença judaica no país: a experiência sefaradita colonial no Recife, a imigração marroquina na Amazônia, a organização asquenaze urbana do século XX e a chegada de refugiados europeus antes e depois da Segunda Guerra Mundial. Entre os principais marcos históricos, destacam-se:
- Sinagoga Kahal Zur Israel, no Recife, em funcionamento durante o domínio neerlandês, entre 1636 e 1654, considerada a primeira sinagoga oficial das Américas.[23]
- Shaar Hashamaim, em Belém, fundada pela comunidade sefaradita de origem marroquina no século XIX e ainda em uso, símbolo da presença judaica amazônica.[27]
- União Israelita Porto-Alegrense, em Porto Alegre, fundada em 1910 e reconhecida como uma das mais antigas sinagogas em funcionamento contínuo no Brasil.[34]
- Sinagoga Beth-El, em São Paulo, fundada em 1926, com edifício inaugurado em 1929 e primeira oração em 1932; seu antigo templo abriga o Museu Judaico de São Paulo.[31]
- Grande Templo Israelita, no Rio de Janeiro, inaugurado em 1932 na região da Praça Onze, então importante núcleo da vida judaica carioca.[29]
- Congregação Israelita Paulista, fundada em 1936 por refugiados judeus da Alemanha nazista, com papel relevante na assistência, educação e vida religiosa da comunidade paulistana.[32]
- Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência (SIBRA), em Porto Alegre, fundada em 1936 por judeus alemães refugiados do nazismo, com fins religiosos, culturais e beneficentes.[36]
- União Israelita de Belo Horizonte, fundada em 1922, que articulou culto, biblioteca, escola, sociabilidade e assistência comunitária na capital mineira.[39]
Ancestralidade
Perguntados sobre sua origem étnica, os judeus brasileiros responderam:[43]
Ver também
Referências
- 1 2 Simon Schwartzman (1999). «Fora de foco: diversidade e identidades étnicas no Brasil». Consultado em 7 de janeiro de 2016
- 1 2 IBGE. «Censo Demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoas com deficiência» (PDF). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 5 de julho de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (ed.). «Censo Demográfico 2010: Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência». Consultado em 19 de julho de 2016
- ↑ «Censo Demográfico 2022: Tabela 6417 - Pessoas de 10 anos ou mais de idade, por cor ou raça, segundo o sexo e a religião». IBGE/SIDRA. Consultado em 5 de julho de 2026
- ↑ «Religiões: resultados preliminares da amostra» (PDF). Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2025. Consultado em 5 de julho de 2026
- ↑ Arantes, José Tadeu. "Livro resgata história da imigração judaica no Brasil". EBC, 23/04/15
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Toby Green (2011). Inquisição- O Reinado do Medo. [S.l.]: Objetiva. pp. 463–463
- 1 2 Keila Grinberg. Os judeus no Brasil - Inquisição, imigração e identidade. [S.l.: s.n.] pp. –
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Ligações externas
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- «Os judeus no Rio de Janeiro», por Henrique Veltman, 1998
- «Os judeus em São Paulo», por Henrique Veltman, 1997
