Saúde
Arabo (divindade)
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Arabo (frequentemente documentado no dativo plural indígena como Arabo, inserido na fórmula tripla Arabo Corobelicobo Talusicobo) é uma divindade ou conjunto de divindades indígenas pertencentes ao panteão galaico-lusitano e hispano-celta pré-romano[1]. Cultuado no coração do território dos Lusitanos e dos Vetões, o teónimo é classificado pelos filólogos como uma divindade orográfica ou hidronímica associada a fluxos de água, vales cultivados e à proteção coletiva da comunidade camponesa[2].
Evidência Epigráfica e Achado Arqueológico
A comprovação material da existência histórica do culto a Arabo assenta numa importante ara romana de granito descoberta na Província de Cáceres (Extremadura, Espanha)[3]. O monumento foi localizado no município de Arroyomolinos de la Vera, uma região montanhosa e fértica de transição celtibérica e lusitana[3].
A Inscrição de Arroyomolinos (AE 1977, 423)
O bloco epigráfico, indexado internacionalmente sob o registo arqueológico AE 1977, 423 (e revisto na base Hispania Epigraphica como HEp 13, 215), exibe caracteres latinos do século II d.C. que documentam uma das raras fórmulas teonímicas da Península Ibérica escritas integralmente com desinências no plural nativo paleohispânico:[3][4]
ARABO COROBE LICOBO TALVSICO BO M(ARCVS) T(ITIVS) B(ASSVS) D(EVM) M(ATERIA) L(IBENS) A(NIMO)
- Tradução Reconstituída: "Aos deuses Arabos, Corobélicos e Talúsicos, Marco Tício Basso cumpriu o voto de bom grado e com a alma".
Análise Linguística e Atribuições
O Mistério do Dativo Plural em -bo
A inscrição de Arroyomolinos gerou intensos debates na comunidade filológica europeia (liderada por Francisco Villar, Jürgen Untermann e Francisco Beltrán Lloris)[5]. A terminação em -bo (equivalente ao dativo plural latino -bus) constitui um traço linguístico de matriz estritamente indo-europeia e celta peninsular, partilhado com os famosos Lugoves (Lugubo) e com as deusas domésticas conhecidas como Deibabo[4].
Os investigadores debatem se o texto invoca três divindades distintas em regime de tríade ou se, alternativamente, descreve uma única divindade coletiva (Arabo) acompanhada pelos seus epítetos de origem geográfica ou clânica (Corobelicobo e Talusicobo)[2].
Natureza Hidronímica e Coesão do Povoado
No âmbito do estudo das religiões paleohispânicas, o radical Arab- ou Ar- é associado pela linguística comparada a noções hidronímicas (relacionadas com cursos de água, ribeiras ou correntes) ou orográficas.
A aplicação desta fórmula tripla rústica por um devoto de filiação romana (Marcus Titius Bassus) prova que o culto ultrapassava as franjas marginalizadas, atuando como um elemento central na organização social local. As divindades operavam como os Lares ou génios tutelares do vale, encarregues de regular a salubridade das águas que abasteciam os campos, garantir a fertilidade da agropecuária e manter a coesão identitária e militar do castro contra ameaças territoriais sob o Império Romano.
Ver também
Referências
- ↑ "Arabo Corobelicobo Talusicobo. No entanto, o recente exemplo originário da área tradicionalmente integrada no âmbito lusitano...". In: Repositório da Universidade de Lisboa (2014). p. 110-112.
- 1 2 "Alguns teónimos aparecem com suas desinencias do dativo plural indigena -bo-, es el caso de Arabo Corobelicobo Talusicobo...". In: Internet Archive / Celtas y Vettones (2001). p. 287.
- 1 2 3 "Arroyomolinos de la Vera (Cáceres), AE 1977, 423... Arabo Corobelicobo Talusicobo". In: Una Éditions: Writing to the Gods in Roman Hispania (2019).
- 1 2 "Terminazione epicoria -bo attestata anche nelle formule teonimiche lusitano-latine come Lugobo, deibabo... e Arabo Corobelicobo Talusicobo". In: Repositorio Zaguán / Università degli Studi di Trieste / Zaragoza (2021). p. 234-236.
- ↑ "Arabo Corobelicobo Talusicobo fue en general bastante bien leído por M. Beltrán Llorís, pero segmentado... dativos de plural en -bo". In: Os Celtas da Europa Atlântica / Por Chantada (2004). p. 114.


