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Dante Alighieri
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| Dante Alighieri | |
|---|---|
Dante Alighieri, por Sandro Botticelli | |
| Nome completo | Dante Alighiero degli Alighieri |
| Nascimento | Entre 22 de maio e 13 de junho de 1265 |
| Morte | 14 de setembro de 1321 (56 anos) |
| Nacionalidade | florentino |
| Ocupação | Estadista, poeta, teoria da linguagem |
| Movimento literário | Dolce Stil Novo |
| Magnum opus | Divina Comédia Vita Nuova |
| Religião | Católico |

Dante Alighieri (Florença, entre 21 de maio e 20 de junho de 1265[1] – Ravena, 14 de setembro de 1321)[2][3] foi um poeta, escritor e político florentino nascido na atual Itália. Alcunhado il sommo poeta, é considerado um dos maiores e mais influentes poetas de todos os tempos devido à sua epopeia A Divina Comédia, tida como uma das maiores obras do Renascimento. A sua obra, em conjunto com a de Petrarca, revolucionou a poesia ocidental ao fazer uso da língua italiana, explorando, assim, uma língua viva e nacional em detrimento do latim, e ao introduzir e popularizar novos meios de expressão poética, como o decassílabo, o soneto e a terza rima.[4]
Dante nasceu em Florença, onde viveu a primeira parte da sua vida até ser exilado. No exílio, escreveu a sua obra principal, originalmente intitulada Commedia e mais tarde rebatizada com o adjetivo Divina por Boccaccio, tomando assim o título que se consagrou a partir de 1555.[5]
O seu nome (Dante), segundo o testemunho do seu filho, Jacopo Alighieri, era um hipocorístico de "Durante".[6] Nos documentos, era seguido do patronímico "Alagherii" ou do gentílico "de Alagheriis", enquanto que a variante "Alighieri" se afirmou com o advento de Boccaccio.[7]
Vida
Primeiros anos de vida e família
A data de nascimento de Dante não é conhecida com exatidão, embora se indique habitualmente como sendo por volta de 1265. Esta datação é deduzida com base em algumas alusões autobiográficas relatadas na Vita Nova e no cântico do Inferno, que começa com o bastante celebrado verso Nel mezzo del cammin di nostra vita. Partindo da hipótese de que a metade da vida do homem seja, para Dante, o trigésimo quinto ano de vida[N 1][N 2] e que a viagem imaginária tivesse ocorrido em 1300, chegar-se-ia, por conseguinte, ao ano de 1265. Além das especulações dos críticos, esta hipótese é também sustentada por um contemporâneo de Dante, o histórico florentino Giovanni Villani que, na sua Nova Cronica, relata que «questo Dante morì in esilio del comune di Firenze in età di circa 56 anni» («este Dante morreu no exílio da comuna de Florença com a idade de cerca de 56 anos»)[8]: uma prova que confirmaria essa tese. Outro testemunho é relatado por Giovanni Boccaccio que, nas suas investigações sobre a vida do amado Dante, conheceu em Ravenna ser Piero di messer Giardino da Ravenna, amigo de Dante durante o exílio deste último na cidade romagnola: o poeta terá contado a Piero, pouco antes de expirar, que tinha completado 56 anos no mês de maio.[9] Alguns versos do Paradiso sugerem também que terá nascido sob o signo de Gémeos, ou seja, num período compreendido entre 14 de maio e 13 de junho.[10]
Contudo, se o dia do seu nascimento é desconhecido, certo é, por outro lado, o do seu batismo: 27 de março de 1266, num Sábado Santo.[11][12] Nesse dia, foram levados à fonte sacra todos os nascidos daquele ano para uma cerimónia solene coletiva. Dante foi batizado com o nome de Durante, mais tarde sincopado para Dante,[N 3] em memória de um parente gibelino.[13] Repleta de referências clássicas é a lenda narrada por Giovanni Boccaccio em Il Trattatello in laude di Dante a respeito do nascimento do poeta: segundo Boccaccio, a mãe de Dante, pouco antes de dar à luz, teve uma visão e sonhou que se encontrava sob um loureiro altíssimo, no meio de um vasto prado com uma fonte jorrante, com o pequeno Dante recém-nascido, e que via o menino estender a mão em direção às ramagens, comer bagas e transformar-se num magnífico pavão.[14][15]
Família paterna e materna
Dante pertencia aos Alighieri (cujo apelido era, na realidade, Alaghieri), uma família de importância secundária dentro da elite social florentina e que, nos últimos dois séculos, tinha alcançado uma certa abastança económica. A família estava comprometida politicamente com o partido dos guelfos, uma aliança política envolvida em lutas com outra facção de florentinos: os gibelinos. Os guelfos estavam ainda divididos em "guelfos brancos" e "guelfos negros". Embora Dante afirme que a sua família descendia dos antigos romanos,[16] o parente mais distante que ele mesmo menciona pelo nome é o seu trisavô Cacciaguida do Eliseu,[17] um florentino que viveu por volta de 1100 e cavaleiro na Segunda Cruzada sob o comando do imperador Conrado III.[18]
Como sublinha Arnaldo D'Addario na Enciclopedia dantesca, a família dos Alighieri (que tomou este nome a partir da família da esposa de Cacciaguida)[18] e que se sabe ter habitado no ‘’sesto’’ de Porta San Piero, uma das seis divisões administrativas da Florença medieval,[19] passou de um estatuto nobiliárquico meritocrático[N 4] para um estatuto burguês abastado, mas menos prestigiado a nível social.[20][N 5] O avô paterno de Dante, Bellincione era um plebeu e a irmã de Dante também se casou com um plebeu.[15] O filho de Bellincione (e pai de Dante), Aleghiero ou Alighiero di Bellincione, exercia a profissão de campsor (cambista), com a qual conseguiu assegurar o devido decoro à sua numerosa família.[21][22] Graças à descoberta de dois pergaminhos conservados no Arquivo Diocesano de Lucca sabe-se também que o pai de Dante terá exercido a usura (dando origem à Tenzone (disputa poética) entre Alighieri e o seu amigo Forese Donati),[23] enriquecendo através da sua posição de procurador judicial no tribunal de Florença.[24] Era também um guelfo branco, mas sem ambições políticas. Por essa razão, os gibelinos não o exilaram após a Batalha de Montaperti, como fizeram com outros guelfos, julgando-o um adversário não perigoso e não por qualquer posição prestigiosa da família, como durante muito tempo se acreditou.[15]
A mãe de Dante chamava-se Bella degli Abati,[25] filha de Durante Scolaro[26] (é provável que os pais de Dante tenham dado ao filho o nome do avô[27]) e pertencia a uma importante família gibelina local.[15] O seu nome, traduzido literalmente, significa "a bela dos abades". Bella, contudo, é uma contracção de Gabriella. O filho, Dante, nunca a mencionará nos seus escritos, resultando daí que possuímos pouquíssimas informações biográficas a seu respeito. Bella morreu quando Dante tinha cinco ou seis anos e Alighiero, que provavelmente já tinha quarenta anos quando Dante nasceu[28] e que terá falecido em 1282-1283,[29] voltou a casar-se, possivelmente entre 1275 e 1278,[30] com Lapa di Chiarissimo Cialuffi. Há autores que sustentam que se tenham unido sem contrair matrimónio, graças a dificuldades levantadas, na época, ao casamento de viúvos. Deste casamento nasceram Francesco e Tana Alighieri (Gaetana)[N 6] e talvez também — embora possa ter sido filha de Bella degli Abati — uma outra filha, recordada por Boccaccio como esposa do pregoeiro florentino Leone Poggi e mãe de Andrea Poggi[30] o qual, segundo o testemunho do próprio Boccaccio, se assemelhava de forma impressionante ao seu tio Dante.[31] Presume-se que Dante aluda a esta irmã de nome desconhecido na Vita nuova (Vita nova) XXIII, 11-12, chamando-lhe «donna giovane e gentile [...] di propinquissima sanguinitade congiunta».[30]
O casamento com Gemma Donati
Com a idade de doze anos, em 1277, foi acordado o seu casamento com Gemma, filha de Messer Manetto Donati, com quem viria a casar aos vinte anos de idade, em 1285.[32][33] Celebrar casamentos em idade tão precoce era bastante comum naquela época. Fazia-se mediante uma cerimónia importante, que exigia atos formais assinados perante um notário. A família a que Gemma pertencia – os Donati – era uma das mais importantes da Florença tardo-medieval (ao contrário dos Alighieri, pertenciam à alta aristocracia[34]) e viria posteriormente a tornar-se o principal ponto de referência da fação política oposta à do poeta, ou seja, os guelfos negros.[35]
Segundo a tradição recolhida por Boccaccio e posteriormente retomada no século XIX por Vittorio Imbriani, o casamento não terá sido muito feliz.[36] Com efeito, Dante não escreveu um único verso dedicado à esposa, ao passo que também não chegaram até nós notícias que comprovem a presença efetiva de Gemma ao lado do marido durante o exílio. Seja como for, da união nasceram quatro filhos: Giovanni, o primogénito,[33] depois Jacopo, Pietro e Antonia. Pietro foi juiz em Verona e o único que deu continuidade à linhagem dos Alighieri, uma vez que Jacopo optou por seguir a carreira eclesiástica, enquanto Antonia se tornou freira com o nome de Irmã Beatriz, ao que parece no convento das Olivetanas, em Ravenna.[33] Giovanni, cuja existência sempre foi posta em dúvida, é atestado por um documento de um notário florentino datado de 20 de maio de 1314, cuja descoberta foi feita em 1940 por Renato Piattoli, mas nunca publicada; foi redescoberto em 2016 com a publicação da nova edição do Corpo Diplomatico Dantesco.[37][38]
Formação intelectual
Primeiros estudos e Brunetto Latini

Apresentado frequentemente como um autodidata, na verdade sabe-se muito pouco sobre a formação de Dante,[39] que terá seguido, provavelmente, o percurso educativo típico da época, centrado na instrução por parte de um gramático (doctor puerorum), com quem terá aprendido os rudimentos da língua antes de passar para o estudo das artes liberais, que constituíam o pilar da educação medieval[32][40]: aritmética, geometria, música, astronomia, por um lado (quadrívio); dialética, gramática e retórica, por outro (trívio). Como se pode deduzir de Convívio [II, 12, 2-4], o latim, enquanto veículo do saber, era visto como fundamental para a formação do estudante, já que a ratio studiorum assentava essencialmente na leitura de Cícero e de Virgílio, por um lado, e do latim medieval, por outro (nomeadamente Henrique de Settimello).[41]
A educação formal era ainda complementada por contactos "informais" com os estímulos culturais provenientes ora dos meios urbanos mais influentes, ora do contacto direto com viajantes e mercadores estrangeiros que introduziam na Toscana as novidades filosóficas e literárias dos respetivos países de origem.[41] Dante teve a sorte de conhecer, na década de 1280, o político e erudito florentino Ser Brunetto Latini, regressado de uma longa permanência em França, tanto na qualidade de embaixador da República como de exilado político.[42] A influência efetiva de Ser Brunetto sobre o jovem Dante foi objeto de estudo, primeiro por Francesco Mazzoni[43] e, posteriormente, por Giorgio Inglese.[44] Ambos os filólogos procuraram, nos seus estudos, enquadrar o legado do autor do Tresor na formação intelectual do jovem conterrâneo. O próprio Dante recordou com emoção a figura de Latini na Comédia, destacando a sua humanidade e o afeto que dele recebeu:
[...] e or m'accora,
la cara e buona imagine paterna
di voi quando nel mondo ad ora ad ora
m'insegnavate come l'uom s'etterna [...]
(Inferno, Canto XV, vv. 82–85)

A partir destes versos, Dante exprimiu claramente a valorização de uma literatura entendida no seu sentido «cívico»,[32][N 7] na aceção da sua utilidade para a vida cívica. Com efeito, a comunidade em que o poeta vive conservará a sua memória mesmo após a sua morte. Umberto Bosco e Giovanni Reggio salientam, além disso, a analogia entre a mensagem de Dante e a expressa por Brunetto no Tresor, como se depreende da tradução toscana da obra realizada por Bono Giamboni.[45]
O estudo da filosofia
’’E foi a partir desse imaginar que comecei a ir onde ela [a Dama Gentil] verdadeiramente se manifestava, isto é, às escolas dos religiosos e às disputas dos filósofos. Assim, em pouco tempo, talvez cerca de trinta meses, comecei a sentir tanto a sua doçura que o seu amor expulsava e destruía qualquer outro pensamento.’’
Convívio, 12, 7
Dante, na sequência da morte da sua amada Beatriz (num período compreendido entre 1291 e 1294/1295),[46] começou a aprofundar a sua cultura filosófica frequentando as escolas organizadas pelos dominicanos de Santa Maria Novella e pelos franciscanos da Santa Croce.[47] Se estes últimos eram herdeiros do pensamento de Boaventura de Bagnoregio, os primeiros eram herdeiros da tradição aristotélico-tomista de Tomás de Aquino, permitindo a Dante aprofundar (talvez graças à audição direta das lições do célebre estudioso frei Remígio de' Girolami)[48] o pensamento do Filósofo por excelência da cultura medieval.[49] Enrico Malato salienta, contudo, que, junto da igreja de Santa Maria Novella, mais do que filosofia, se ensinava a teologia tomista, razão pela qual se deve considerar que, nesses anos, Dante não adquiriu apenas formação em filosofia, mas também em teologia.[50] Além disso, a leitura dos comentários de intelectuais que se opunham à interpretação tomista (como o filósofo árabe Averróis) permitiu a Dante adotar uma sensibilidade «polifónica do aristotelismo».[51]
As alegadas ligações a Bolonha e Paris

Alguns críticos defendem que Dante tenha permanecido em Bolonha.[52] Também Giulio Ferroni considera certa a presença de Dante na cidade emiliana: «um memorial bolonhês do notário Enrichetto delle Querce atesta (numa forma linguística local) o soneto Non mi poriano già mai fare ammenda; esta circunstância é considerada um indício quase certo da presença de Dante em Bolonha antes dessa data».[53] Ambos consideram que Dante estudou na Universidade de Bolonha, embora não existam provas que o confirmem.[54]
É, contudo, muito provável que Dante tenha permanecido em Bolonha entre o verão de 1286 e o de 1287,[55] onde conheceu Bartolomeo da Bologna,[56] cuja interpretação teológica do Empíreo foi adotada em parte por Dante. Quanto à alegada permanência em Paris, subsistem numerosas dúvidas: numa passagem do Paraíso (Che, leggendo nel Vico de li Strami, silogizzò invidïosi veri),[57] Dante parece aludir à Rue du Fouarre, onde decorriam as lições da Sorbonne. Esta referência levou alguns comentadores a supor, de forma puramente conjetural, que Dante se tenha efetivamente deslocado a Paris entre 1309 e 1310.[58][59] Como resume Alessandro Barbero, a formação intelectual de Dante terá seguido, em termos gerais, o seguinte percurso:
O percurso provável da formação de Dante apresenta-se, portanto, mais ou menos da seguinte forma. Um primeiro mestre, um doctor puerorum, contratado pela família, ensinou-lhe primeiro a ler e depois a escrever, introduzindo-o simultaneamente nos rudimentos da língua latina [...] Posteriormente, outro mestre, um doctor gramatice, ministrou-lhe um ensino mais avançado do latim e os fundamentos das restantes artes liberais. Durante a adolescência, Brunetto Latini ensinou-lhe a arte da epistolografia, a ars dictaminis [...] Depois, por volta dos vinte anos, Dante — órfão de pai, recorde-se, e, por isso, senhor da sua própria vida — foi para Bolonha aperfeiçoar a sua formação, frequentando a faculdade de artes e aprofundando os seus conhecimentos de retórica. Tornou-se assim, como escreveria Giovanni Villani, «rettorico perfetto tanto in dittare, versificare, come in aringa parlare»: isto é, senhor de todos os meios de expressão, da poesia ao discurso político.
A lírica em língua vulgar. Dante e o encontro com Cavalcanti

Dante teve também oportunidade de participar na dinâmica cultura literária que gravitava em torno da lírica em língua vulgar. Na década de 1260, chegaram à Toscana as primeiras influências da Escola siciliana, movimento poético surgido em torno da corte de Frederico II e que reelaborou os temas amorosos da lírica provençal. Sob a influência das composições de Giacomo da Lentini e de Guido delle Colonne, os literatos toscanos desenvolveram uma poesia orientada não só para o amor cortês, mas também para a política e o compromisso cívico.[60] Guittone d'Arezzo e Bonagiunta Orbicciani, os principais representantes da chamada escola siciliano-toscana, encontraram um seguidor na figura do florentino Chiaro Davanzati,[61] que introduziu o novo código poético dentro dos muros da sua cidade. Foi precisamente em Florença, porém, que um grupo de jovens poetas (liderados pelo nobre Guido Cavalcanti) manifestou o seu desacordo com a complexidade estilística e linguística dos poetas siciliano-toscanos, defendendo, em contrapartida, uma poesia mais suave e harmoniosa: o dolce stil novo.[62]
Dante encontrou-se no centro deste debate literário: nas suas primeiras obras é evidente a ligação, ainda que ténue,[63] tanto à poesia toscana de Guittone e Bonagiunta[N 8] como à tradição poética propriamente occitana.[N 9] Pouco depois, porém, o jovem aderiu aos princípios da poética ‘’stilnovista'’, mudança favorecida pela amizade que o ligava ao mais velho Cavalcanti.[64]
Interesses e influências
Retratado num fresco de Luca Signorelli de 1499-1502. Pormenor retirado das Storie degli ultimi giorni, Capela de São Brício, Catedral de Orvieto
A partir da década de 1290, os interesses intelectuais de Dante alargaram-se progressivamente para além da poesia, abrangendo a filosofia, a teologia, a política, a história, a ciência[65] e as artes.[66] A sua obra caracteriza-se pela síntese de um vasto conjunto de tradições culturais, nas quais convergem a herança clássica, o pensamento cristão e o saber medieval [67] Entre os autores da Antiguidade, Virgílio constituiu a sua principal referência literária e moral. A admiração que lhe dedicava manifesta-se de forma paradigmática na Divina Comédia, onde o poeta latino surge como guia de Dante através do Inferno e do Purgatório.[68] Revelava igualmente um profundo conhecimento de Ovídio,[69] Horácio,[70] Lucano,[71] Estácio,[72] Cícero,[73] Séneca,[74] Tito Lívio,[75] Plínio, o Velho e outros autores clássicos, cujas obras são frequentemente evocadas ao longo da sua produção.[76] A influência de Homero é indireta, por via essencialmente de Virgílio, já que Dante não dominava a língua grega.[77]
O contacto com a filosofia clássica e com a escolástica medieval moldou profundamente a sua visão do mundo. No Convívio, Dante refere expressamente a influência de De consolatione philosophiae, de Boécio,[78] e de Laelius de amicitia, de Cícero.[73] O pensamento de Aristóteles, sobretudo através da interpretação de Tomás de Aquino, tornou-se um dos pilares da sua filosofia moral e política.[79][80] Estudiosos identificam igualmente a influência de Avicena, em especial na metafísica da alma e na descrição da visão beatífica nos versos finais do Paraíso.[81] Enquanto isso, a tradição neoplatónica cristã e autores como Pseudo-Dionísio, o Areopagita[82] e Santo Agostinho influenciaram a sua conceção da ordem do universo e da ascensão da alma para Deus.[83]
Embora conhecesse Platão sobretudo de forma indireta, através de autores cristãos e da tradição filosófica medieval, diversos estudiosos identificam também elementos de matriz platónica na sua obra. O mesmo se aplica, por consequência, à influência de Sócrates[84][85]
Os seus interesses estendiam-se igualmente às ciências naturais e à cosmologia. A descrição do universo na Divina Comédia assenta na cosmologia aristotélico-ptolomaica, então dominante, integrando conhecimentos de astronomia, física e geografia numa visão coerente da criação.[86] Dante demonstrou ainda sensibilidade pelas artes visuais e pela música, recorrendo frequentemente a imagens e metáforas inspiradas nessas disciplinas para construir a linguagem poética da sua obra.[87]
Atividade política e militar em Florença

Pouco depois do casamento, Dante começou a participar, como cavaleiro, em algumas campanhas militares conduzidas por Florença contra os seus inimigos externos, entre os quais Arezzo (na batalha de Campaldino, em 11 de junho de 1289) e Pisa (tomada de Caprona, em 16 de agosto de 1289).[32] Posteriormente, em 1294, integrou a delegação de cavaleiros que escoltou Carlos Martel de Anjou (filho de Carlos II de Nápoles) durante a sua estadia em Florença.[N 11]
A partir do início da década de 1290, Dante passou a dedicar-se à atividade política, numa fase particularmente conturbada da República de Florença. Em 1293, entraram em vigor os Ordenamentos de Justiça de Giano della Bella, que excluíam a antiga nobreza da vida política e permitiam à burguesia aceder aos cargos da República, desde que os seus membros estivessem inscritos numa das Artes, as ‘’Corporazioni di Arti e Mestieri’’ - ou seja, corporações ou guildas de Artes e Ofícios da cidade. Dante permaneceu afastado da política municipal até 6 de julho de 1295, quando foram promulgados os Temperamentos, leis que devolveram aos nobres o direito de exercer cargos públicos, desde que se matriculassem numa Arte.[32] Assim, Dante inscreveu-se na Arte dos Médicos e Boticários.[88][89]
A sequência exata dos cargos políticos que exerceu é desconhecida, uma vez que as atas das assembleias se perderam. Contudo, outras fontes permitiram reconstruir grande parte da sua atividade: integrou o Conselho do Povo entre novembro de 1295 e abril de 1296;[90][91] fez parte do grupo dos «Sábios», que, em dezembro de 1296, reformulou as normas para a eleição dos priores, os mais altos representantes de cada Arte, que exerciam, durante um bimestre, o cargo institucional mais importante da República; e, entre maio e dezembro de 1296, integrou o Conselho dos Cem.[90] Foi também enviado ocasionalmente como embaixador, como sucedeu em maio de 1300, quando foi destacado para San Gimignano.[92] Segundo a interpretação de Barbero, baseada nas intervenções de Dante nos diversos órgãos do município florentino, o poeta manteve sempre uma posição moderada, favorável ao povo e contrária às ingerências e à violência dos magnatas.[93]
Entretanto, o partido guelfo florentino sofreu uma profunda divisão entre a fação liderada pelos Donati, defensora de uma política conservadora e aristocrática (os guelfos negros), e a liderada pela família Cerchi, favorável a uma política moderadamente popular (os guelfos brancos).[94] A cisão, motivada também por razões políticas e económicas — os Donati, representantes da antiga nobreza, tinham sido ultrapassados em influência pelos Cerchi, considerados pelos primeiros como parvenu, ou novo-rico,[94] desencadeou uma guerra civil à qual Dante não permaneceu alheio, alinhando-se, embora de forma moderada, com os guelfos brancos.[90][95]
O conflito com Bonifácio VIII (1300)

Em 1300, Dante foi eleito um dos sete priores para o bimestre de 15 de junho a 15 de agosto.[90][96] Apesar de pertencer ao partido guelfo, procurou sempre opor-se às ingerências do seu declarado adversário, o Papa Bonifácio VIII, que via como o símbolo máximo da decadência moral da Igreja. Com a chegada do cardeal Matteo d'Acquasparta, enviado pelo pontífice como mediador (embora, na realidade, tivesse sido incumbido de limitar o poder dos guelfos brancos, então em clara ascensão sobre os negros), Dante conseguiu dificultar a sua ação.[97][98]
Ainda durante o seu priorado, aprovou a severa medida que determinou o exílio de oito representantes dos guelfos negros e sete dos guelfos brancos, entre os quais Guido Cavalcanti,[99] que pouco depois morreria em Sarzana, numa tentativa de restaurar a paz interna da República. A decisão teve profundas repercussões nos acontecimentos posteriores: não só se revelou ineficaz (os guelfos negros adiaram a partida para a Úmbria, local para onde tinham sido desterrados),[100] como quase provocou um golpe de Estado organizado pelos próprios guelfos negros, com o apoio secreto do cardeal d'Acquasparta.[100]
Além disso, a medida atraiu sobre os seus promotores — incluindo o próprio Dante — tanto o ódio da fação negra como a desconfiança dos seus aliados brancos: os primeiros, naturalmente, pela afronta sofrida; os segundos, porque um membro do próprio partido contribuíra para enfraquecê-lo. Entretanto, as relações entre Bonifácio VIII e o governo dos brancos agravaram-se ainda mais a partir de setembro, quando os novos priores, sucessores do colégio de que Dante fizera parte, revogaram imediatamente o exílio dos brancos,[100] demonstrando a sua parcialidade e dando assim ao legado papal, o cardeal d'Acquasparta, pretexto para lançar o anátema sobre Florença.[100]
Perante o envio de Carlos de Valois para Florença, designado pelo papa como novo mediador (mas, na prática, como conquistador), em substituição do cardeal d'Acquasparta, a República enviou uma embaixada a Roma, na tentativa de demover o pontífice dos seus desígnios hegemónicos. Dela fazia parte Dante, acompanhado por Maso Minerbetti e Corazza da Signa.[97]
O início do exílio (1301–1304)
Carlos de Valois e a queda dos Brancos

Dante encontrava-se então em Roma,[102] aparentemente retido por mais tempo do que o previsto por Bonifácio VIII,[103] quando Carlos de Valois entrou em Florença no Dia de Todos os Santos de 1301.[104] Aproveitando os primeiros tumultos, mandou prender os chefes dos guelfos brancos. Entretanto, os guelfos negros, regressados à cidade, desencadearam uma violenta campanha de represálias contra os adversários políticos, marcada por assassínios e incêndios.[105]
Em 9 de novembro de 1301, os novos senhores de Florença impuseram Cante Gabrielli de Gubbio como podestà.[104] Este pertencia à facção dos guelfos negros da sua cidade natal. Gabrielli iniciou então uma política sistemática de perseguição aos dirigentes do partido branco hostis ao papa, que culminou na execução ou expulsão de muitos deles de Florença.[90]
Na sequência de um processo conduzido pelo juiz Paolo da Gubbio pelo crime de corrupção administrativa (baratteria), Dante, considerado culpado por revelia, foi condenado por Gabrielli, primeiro, em 27 de janeiro de 1302, à confiscação dos seus bens e, posteriormente, em 10 de março, à morte na fogueira.[106] A partir desse momento, Dante nunca mais regressou à sua cidade natal.
"Alighieri Dante é condenado por corrupção administrativa, fraude, falsidade, dolo, malícia, práticas extorsivas, lucros ilícitos, pederastia, sendo condenado ao pagamento de 5000 florins, à interdição perpétua de exercer cargos públicos, ao exílio perpétuo (à revelia) e, caso fosse capturado, à morte na fogueira."
Libro del Chiodo, Arquivo do Estado de Florença, 10 de março de 1302.[N 12]
As tentativas de regresso e a batalha de Lastra (1304)
Após a expulsão de Florença, Dante aliou-se aos restantes chefes do partido branco e aos gibelinos, com o objetivo de recuperar o controlo da cidade. Em 8 de junho de 1302, surge mencionado entre os principais representantes dos gibelinos e dos guelfos brancos na reunião realizada com a família Ubaldini, episódio que ficou conhecido como Conspiração de San Godenzo.[107]
Depois do fracasso das operações militares de 1302, Dante, na qualidade de capitão do exército dos exilados, organizou, com Scarpetta Ordelaffi, chefe do partido gibelino e senhor de Forlì (onde Dante se refugiara),[108][N 13] uma nova tentativa de regressar a Florença.
A expedição fracassou, porém, o podestà de Florença, Fulcieri da Calboli (também natural de Forlì e inimigo dos Ordelaffi), derrotou os exilados na batalha travada nas proximidades do castelo de Pulicciano, junto de Arezzo.[109]
Depois de fracassar também a missão diplomática conduzida, no verão de 1304, pelo cardeal Niccolò Albertini,[N 14] legado de papa Bento XI, em quem Dante depositara grandes esperanças,[110][111] os Brancos reuniram-se, em 20 de julho desse ano, em La Lastra, a poucos quilómetros de Florença, e decidiram lançar um novo ataque militar contra os Negros.[112]
Dante, convencido de que seria preferível aguardar um momento político mais favorável, opôs-se à nova ação armada, ficando em minoria e chegando mesmo a ser suspeito de traição pelos elementos mais radicais. Decidiu, por isso, afastar-se do grupo e não participar na batalha. Como previra, a batalha de Lastra terminou num completo desastre, com a morte de cerca de quatrocentos gibelinos e guelfos brancos.[112]
Dante atribui a Cacciaguida a interpretação profética deste episódio:
\n''Seu processo, de bestialidade''\n''fará prova; mas tu bem ficarás''\n''Em teu partido, de própria vontade.''\n</poem>"}},"i":0}}]}'/>Di sua bestialitate il suo processo
farà la prova; sì ch'a te fia bello
averti fatta parte per te stesso.
Paraíso XVII, vv. 67–69
Seu processo, de bestialidade
fará prova; mas tu bem ficarás
Em teu partido, de própria vontade.
* Tradução livre (Wikipédia)
A primeira fase do exílio (1304–1310)
Entre Forlì e a Lunigiana dos Malaspina
Após a batalha de Lastra, Dante foi acolhido em diversas cortes e famílias da Romanha, entre elas a dos Ordelaffi. A permanência em Forlì foi breve: o exilado seguiu primeiro para Bolonha (1305), depois para Pádua, em 1306, e, por fim, para a Marca Trevigiana,[58] onde foi hóspede de Gherardo III da Camino.[113]
Daí, Moroello Malaspina (o de Giovagallo, uma vez que vários membros da família tinham esse nome) chamou-o para a Lunigiana,[114] com quem poderá ter entrado em contacto graças ao poeta Cino da Pistoia.[115]
Na Lunigiana, onde chegou na primavera de 1306, Dante foi incumbido de uma missão diplomática destinada a alcançar um acordo entre os Malaspina, «poderosos numa vasta zona de passagem entre a Riviera di Levante, os Apeninos e a Planície Padana, desde Bocca di Magra, pela Lunigiana e pelo Passo da Cisa, até à região de Piacenza»,[116] e o bispo-conde de Luni, Antonio Nuvolone da Camilla (1297-1307).[117]
Na qualidade de procurador plenipotenciário dos Malaspina, Dante conseguiu que ambas as partes assinassem a Paz de Castelnuovo de 6 de outubro de 1306,[118][117] um êxito que lhe valeu a estima e a gratidão dos seus protetores. A hospitalidade dos Malaspina é celebrada no Canto VIII do Purgatório, onde Dante dirige a Corrado Malaspina um elogio à sua linhagem.[119]
\nE eu vos juro...\n... que vossa gente honrada...\nsó, no caminho certo; e afasta o mau.''\n</poem>"}},"i":0}}]}'/>"[...] e io vi giuro...
... che vostra gente onrata...
sola và dritta e 'l mal cammin dispregia."
Purgatório VIII, vv. 127–132
E eu vos juro...
... que vossa gente honrada...
só, no caminho certo; e afasta o mau.
Tradução livre (Wikipédia)
Em 1307,[120] depois de deixar a Lunigiana, Dante estabeleceu-se no Casentino, onde foi acolhido, segundo Boccaccio,[121] por Guido Salvatico, dos condes Guidi, senhores de Poppi. Terá sido aí que começou a redigir a primeira cántica da Divina Comédia, o Inferno.[118]
Campanha de de Henrique VII a Itália (1310–1313)

O «gibelino fugitivo»
Dante permaneceu pouco tempo no Casentino. Entre 1308 e 1310 admite-se que tenha residido primeiro em Lucca e depois em Paris, embora esta última estadia permaneça incerta. Barbero, analisando os testemunhos dos primeiros comentadores de Dante e dos estudiosos posteriores, considera que o poeta poderá, no máximo, ter chegado à corte papal de Avinhão, sublinhando, contudo, tratar-se apenas de uma hipótese pouco fundamentada.[122]
É mais provável que Dante estivesse em Forlì em 1310,[120] onde recebeu, em outubro,[118] a notícia da chegada a Itália do novo imperador Henrique VII, sucessor de Alberto I da Germânia, assassinado a 1 de maio de 1308.[123]
Dante viu na expedição imperial não apenas uma possibilidade de pôr termo à anarquia política italiana,[N 15] mas também uma oportunidade concreta de regressar a Florença.[118]
O imperador foi saudado pelos gibelinos italianos e pelos exilados guelfos, o que levou Dante a aproximar-se da fação imperial liderada pelos Escalígeros de Verona.[124]
Dante, que, segundo uma das hipóteses,[125] escrevia o De Monarchia entre 1308 e 1311, manifestou publicamente as suas simpatias imperiais, dirigindo, em 31 de março de 1311, uma severa carta aos florentinos,[118] cuja comuna foi a única, entre as italianas, a não enviar representantes a Lausana para homenagear o imperador.[126] Segundo a tradição baseada nas Epístolas, chegou mesmo a encontrar-se privadamente com Henrique VII.[127]
Não surpreende, por isso, que Ugo Foscolo tenha vindo mais tarde a definir Dante como um gibelino:
\nE tu, Florença: a primeira que ouviu o canto\nque alegrou a ira do gibelino exilado.\n</poem>"}},"i":0}}]}'/>E tu prima, Firenze, udivi il carme
Che allegrò l'ira al Ghibellin fuggiasco.
Ugo Foscolo, Dei sepolcri, vv. 173–174.
E tu, Florença: a primeira que ouviu o canto
que alegrou a ira do gibelino exilado.
Tradução livre (Wikipédia)
Entretanto, Henrique VII, depois de resolver vários problemas no norte de Itália, dirigiu-se a Génova e, dali, a Pisa,[N 16] uma das cidades que mais firmemente o apoiavam. É possível que Dante o acompanhasse.[128]
Em 1312, depois de ter sido coroado imperador na Basílica de São João de Latrão pelo legado papal Niccolò da Prato, em 1 de agosto de 1312, Henrique VII cercou Florença entre 19 de setembro e 1 de novembro, sem conseguir submeter a cidade.[129]
O sonho dantesco de uma Renovatio Imperii desmoronou-se definitivamente em 24 de agosto de 1313, quando o imperador morreu inesperadamente em Buonconvento.[130]
Se a morte violenta de Corso Donati, ocorrida em 6 de outubro de 1308 às mãos de Rossellino Della Tosa, um dos mais radicais dirigentes dos Guelfos Negros,[120] já abalara profundamente as esperanças de Dante,[N 17] a morte de Henrique VII destruiu qualquer perspetiva realista de regressar a Florença.[120]

Dante ainda esperou, mais tarde, que fosse possível ser convidado por Florença a um regresso honrado. O exílio era como que uma segunda morte, privando-o de muito do que formava a sua identidade. No Canto XVII, 55-60, do Paraíso, Dante refere o quanto era dolorosa para si a vida de exilado, quando o seu trisavô, Cacciaguida, lhe "profetiza" aquilo que o espera:
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* Tradução retirada de J. P Xavier Pinheiro (Série Ouro)
Quanto à esperança de um dia voltar a Florença, Dante descreve o seu sentimento melancólico, como se já estivesse resignado a essa impossibilidade, no Canto XXV, 1-9 do Paraíso:
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* Tradução livre (Wikipédia)
O exílio de Dante continuou a ser recordado como um dos episódios mais marcantes da sua vida. Em julho de 2008, o município de Florença aprovou simbolicamente a revogação da sentença de exílio e concedeu aos seus descendentes o Fiorino d'Oro, a mais alta distinção da cidade. A decisão foi aprovada por margem mínima, após um debate político em torno da iniciativa.[131]
Os últimos anos

A permanência em Verona (1313–1318)
Após a morte inesperada de Henrique VII, Dante aceitou o convite de Cangrande della Scala para residir na sua corte de Verona.[118]
O poeta já conhecia bem a cidade, onde vivera anteriormente. Segundo Petrocchi, primeiro em Itinerari danteschi e depois em Vita di Dante,[132] Dante fora hóspede, durante alguns meses entre 1303 e 1304, de Bartolomeo Della Scala, irmão mais velho de Cangrande.
Quando Bartolomeo morreu, em março de 1304, Dante viu-se obrigado a abandonar Verona, pois o sucessor, Alboino, não mantinha boas relações com ele.[N 18]
Após a morte de Alboino, em 29 de novembro de 1311,[133] Cangrande assumiu o governo de Verona.[134] Líder destacado da causa gibelina e protetor, além de amigo, de Dante,[134] chamou para junto de si o poeta e os seus filhos, Pietro e Jacopo, proporcionando-lhes proteção e estabilidade.
A amizade entre ambos foi tal que Dante celebrou Cangrande no Paraíso, fazendo Cacciaguida anunciar profeticamente o acolhimento que receberia na corte veronesa:
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Em 2018, Paolo Pellegrini, professor da Universidade de Verona, identificou uma nova carta, provavelmente redigida pelo próprio Dante em agosto de 1312 e enviada por Cangrande ao imperador Henrique VII. A descoberta poderá alterar significativamente a cronologia da permanência de Dante em Verona, antecipando-a para 1312 e enfraquecendo as hipóteses que situavam o poeta em Pisa ou na Lunigiana entre 1312 e 1316.[135]
A permanência em Ravena (1318–1321)


Por razões ainda hoje desconhecidas, Dante deixou Verona e estabeleceu-se, em 1318, em Ravena, na corte de Guido Novello da Polenta, homem «pouco mais novo do que Dante [...] pertencente à grande aristocracia dos Apeninos, que há muito impunha o seu domínio sobre os municípios da Romanha».[136]
Os investigadores procuraram explicar as causas deste afastamento, sobretudo tendo em conta as excelentes relações entre Dante e Cangrande. Augusto Torre sugeriu que Dante teria sido enviado para Ravena em missão política pelo próprio Cangrande.[137] Outros autores defendem que existiu uma crise temporária entre ambos, enquanto outros ainda apontam para a atratividade da corte de Guido Novello, conhecido pelo seu interesse pelas letras.[138] Há igualmente quem considere que Dante, homem orgulhoso e independente, preferiu abandonar Verona ao sentir que se tornara um simples cortesão.[139]
Apesar da mudança, os laços com Verona não cessaram totalmente. Em 20 de janeiro de 1320, Dante regressou à cidade para apresentar a Quaestio de aqua et terra, a sua última obra em latim.[140]
Os três últimos anos da sua vida decorreram relativamente tranquilos em Ravena. Aí reuniu um cenáculo literário frequentado pelos filhos Pietro e Jacopo,[141][142] bem como por jovens intelectuais locais, entre eles Pieraccio Tedaldi e Giovanni Quirini.[143]
Ao serviço de Guido Novello desempenhou ocasionalmente missões diplomáticas,[N 19] entre as quais a que o levou a Veneza. Na época, a cidade lagunar encontrava-se em conflito com Guido Novello devido aos frequentes ataques das galés de Ravena à navegação veneziana.[144] Perante a ameaça de guerra, Guido Novello encarregou Dante de interceder junto do Senado de Veneza.

Os historiadores questionaram a escolha do poeta por Guido Novello, já com mais de cinquenta anos, para tão delicada missão diplomática. Alguns consideram que a escolha se deveu às boas relações de Dante com os Ordelaffi, senhores de Forlì, o que poderia facilitar uma solução negociada para o conflito.[145]
Morte
A morte e exéquias fúnebres
A embaixada teve um desfecho favorável para Ravena, mas revelou-se fatal para Dante. No regresso de Veneza, contraiu malária ao atravessar as pantanosas Valli di Comacchio.[120]
As febres agravaram-se rapidamente e Dante morreu em Ravena, durante a noite de 13 para 14 de setembro de 1321, com cerca de cinquenta e seis anos.[120][146]
As exéquias fúnebres, celebradas com grande solenidade, tiveram lugar na igreja de San Pier Maggiore (atual Basílica de São Francisco), na presença das principais autoridades da cidade e dos seus filhos.[147]
A morte de Dante provocou profunda comoção no meio literário, como testemunha Cino da Pistoia na canção Su per la costa, Amor, de l'alto monte.[148]
Os «túmulos» de Dante

Dante foi inicialmente sepultado numa urna de mármore colocada na igreja onde se realizaram as exéquias.[149]
Quando Ravena passou para o domínio da República de Veneza, o podestà Bernardo Bembo (pai do célebre Pietro Bembo) encarregou, em 1483, o arquiteto Pietro Lombardo de construir um monumento digno da memória do poeta.[149]
Essa intervenção eliminou o soneto Inclita fama cuius universum penetrat orbem (a ilustre fama daquele cuja glória se estende por todo o mundo.), tradicionalmente atribuído, embora sem consenso, a Menghino Mezzani, que, segundo alguns investigadores, se encontrava gravado no monumento anterior.[150]
No início do século XVI, Ravena regressou ao domínio dos Estados Pontifícios, e os legados papais descuraram a conservação do túmulo, que rapidamente entrou em estado de degradação.
Ao longo dos dois séculos seguintes apenas se registaram duas tentativas significativas de recuperação. A primeira ocorreu em 1692, quando o cardeal-legado Domenico Maria Corsi e o pró-legado Giovanni Salviati, ambos pertencentes a famílias nobres florentinas, mandaram restaurar o monumento.[151]
Poucas décadas mais tarde, o monumento voltou a sofrer danos devido ao levantamento do terreno sob a igreja. Em consequência disso, o cardeal-legado Luigi Valenti Gonzaga encarregou, em 1780, o arquiteto Camillo Morigia de projetar o pequeno templo neoclássico que ainda hoje acolhe o túmulo de Dante.[149]
As atribuladas vicissitudes dos restos mortais
Os restos mortais de Dante foram objeto de uma longa disputa entre Ravena e Florença poucas décadas após a sua morte, quando a figura do autor da Divina Comédia foi redescoberta pelos seus concidadãos graças à divulgação da biografia escrita por Giovanni Boccaccio.[N 20] Enquanto os florentinos reivindicavam os restos mortais por considerarem Dante um ilustre filho da cidade. Já em 1429 o município solicitara à família Da Polenta a restituição dos seus restos,[152] os ravenates defendiam que o poeta deveria permanecer na cidade onde falecera.[153]
Para impedir uma eventual transferência para Florença, hipótese tornada especialmente plausível durante os pontificados dos papas Leão X e Clemente VII, ambos da família Médici,[153] os frades franciscanos[154] retiraram secretamente os ossos do túmulo construído por Pietro Lombardo e esconderam-nos num local desconhecido, transformando, na prática, o monumento de Morigia num cenotáfio.[153]
Quando, em 1810, Napoleão Bonaparte decretou a supressão das ordens religiosas, os frades, que haviam transmitido de geração em geração o segredo da localização dos restos mortais, decidiram escondê-los no interior de uma parede do oratório adjacente ao quadrarco de Braccioforte.[153]
Os restos permaneceram ocultos até 1865, quando um operário, durante as obras de restauro do convento por ocasião do sexto centenário do nascimento de Dante, descobriu acidentalmente uma pequena caixa de madeira com inscrições latinas assinadas por frei Antonio Santi (1677).[153] As inscrições indicavam que a caixa continha os ossos de Dante. No seu interior foi encontrado um esqueleto praticamente completo.[155] Procedeu-se então à abertura da urna do templo de Morigia, que se revelou praticamente vazia, contendo apenas três falanges.[156] Esses ossos correspondiam perfeitamente ao esqueleto encontrado, confirmando a autenticidade dos restos.[156] A ossada foi recomposta, exposta durante alguns meses numa urna de cristal e, posteriormente, depositada novamente no templo de Morigia, dentro de um caixão de nogueira protegido por um revestimento de chumbo.
No túmulo de Dante, sob um pequeno altar, conserva-se o epitáfio latino composto por Bernardo da Canaccio por encomenda de Guido Novello, embora apenas gravado em 1357.[157]

"Os direitos da monarquia, os deuses celestes e as águas do Flegetonte cantei enquanto o destino o permitiu. Depois, quando a minha alma partiu para uma morada melhor e alcançou, entre as estrelas, o seu Criador, aqui jaz Dante, exilado da pátria que o gerou, Florença, mãe de pouco amor."
Epitaffium ad sepulcrum Dantis.[158]
Iura Monarchiae, Superos, Phlegetonta lacusque
Lustrando cecini, voluerunt fata quousque.
Sed quia pars cessit melioribus hospita castris
Actoremque suum petiit felicior astris,
Hic claudor Dantes, patriis extorris ab oris,
Quem genuit parvi Florentia mater amoris.
Pensamento e poética
Introdução
Abordar Dante enquanto pensador e poeta significa reconhecer a sua obra como uma autêntica catedral medieval, onde convergem, de forma orgânica, as diversas dimensões da cultura literária, filosófica, teológica e artística do seu tempo. Ao longo da sua produção, Dante debruçou-se sobre alguns dos principais temas da sua época, como o valor da língua vulgar, então em afirmação, as relações entre a Igreja e o Estado, o papel da filosofia moral na vida humana enquanto fundamento da convivência civil e do aperfeiçoamento do indivíduo, ou ainda a representação da mulher amada como figura da Teologia e instrumento de salvação.
A exaltação de Beatriz como mediadora da salvação constitui um dos eixos centrais da Divina Comédia, considerada a summa do pensamento dantesco e, em muitos aspetos, da própria cultura medieval.[159] Pela sua complexidade e monumentalidade, a obra foi comparada por Frédéric Ozanam, em Dante et la philosophie catholique au treizième siècle, a uma catedral gótica.[160] Nela, a arte, a poesia, a visão do Além e a análise da alma humana — que Francesco De Sanctis designou também como a «comédia da alma»[161] - unem-se harmoniosamente sob a orientação da razão, iluminada pela fé, ao longo da viagem do protagonista, culminando na contemplação de Deus no canto final do Paraíso.

O papel da língua vulgar e a conceção cívica da literatura
O papel da língua vulgar, definida por Dante no De vulgari eloquentia como Hec est nostra vera prima locutio («esta é a nossa verdadeira primeira linguagem»),[N 21] foi fundamental para o desenvolvimento do seu programa literário. Com Dante, a língua vulgar adquiriu estatuto de língua culta e literária, graças ao propósito do poeta florentino de encontrar um instrumento linguístico comum aos italianos, ou pelo menos às suas elites dirigentes.[162]
Nos primeiros capítulos do De vulgari eloquentia, Dante manifesta claramente a sua preferência pela língua materna e quotidiana em detrimento do latim, considerado uma língua aprendida e artificial:
‘’Harum quoque duarum nobilior est vulgaris: tum quia prima fuit humano generi usitata; tum quia totus orbis ipsa perfruitur, licet in diversas prolationes et vocabula sit divisa; tum quia naturalis est nobis, cum illa potius artificialis existat.’’ De vulgari eloquentia, I, 1, 4
“A mais nobre destas duas línguas é a vulgar: primeiro, porque foi a primeira utilizada pelo género humano; depois, porque todo o mundo dela faz uso, embora dividida em diferentes pronúncias e vocabulários; por fim, porque nos é natural, ao passo que a outra é antes artificial.”
A opção de Dante por escrever parte da sua obra em língua vulgar tinha igualmente um propósito social. Pretendia torná-la acessível a um público mais vasto, reduzindo a distância entre as elites cultas, habituadas a comunicar em latim, e os estratos menos instruídos da população, permitindo também a estes o acesso a conteúdos filosóficos e morais até então circunscritos ao meio universitário. A literatura é, assim, concebida como um instrumento ao serviço da sociedade, ideia que Dante formula programaticamente no Convívio:
E eu, portanto... aos pés daqueles que se sentam à mesa dos sábios, recolho o que deles cai; e, conhecendo a miserável condição daqueles que deixei para trás, movido pela doçura do pouco que vou recolhendo e por misericórdia, reservei alguma coisa para os infelizes, mostrando-a já há muito aos seus olhos e despertando neles maior desejo.”
A escolha de Dante pela língua vulgar poderá também ter sido influenciada pela obra de Andrea da Grosseto, escritor do século XIII que utilizou a língua vulgar da sua região — o dialeto grossetano da época — para traduzir para essa língua tratados latinos de Albertano da Brescia.[163]
Poética
O «plurilinguismo» de Dante
Com esta expressão feliz, o crítico literário Gianfranco Contini identificou a extraordinária versatilidade de Dante, particularmente nas Rimas, ao utilizar com naturalidade e harmonia uma ampla variedade de registos linguísticos.
{{harvnb|Contini|1992|pp=XXVIII}}</ref>"}},"i":0}}]}'/>«Dei più visibili e sommari attributi che pertengono a Dante, il primo è il plurilinguismo.»[164]
«Entre os atributos mais evidentes e marcantes de Dante, o primeiro é o plurilinguismo.»
Como já referido, Dante demonstra uma viva curiosidade pela estrutura da língua vulgar italiana, interessando-se pelas formas da linguagem quotidiana, pelas expressões populares e pelos diferentes níveis da oralidade. Essa atenção à riqueza expressiva da língua levou-o a criar um universo linguístico sem precedentes na poesia italiana em língua vulgar. Como observa Giulio Ferroni:
"Em comparação com a produção poética em língua vulgar italiana da segunda metade do século XIII, a Comédia alarga consideravelmente os horizontes sintáticos e lexicais. A variedade estilística cria uma multiplicidade de registos, recorrendo tanto à linguagem humilde como à mais elevada. Dante inspira-se na literatura latina e na literatura em língua vulgar, mas revela igualmente um vivo interesse pela linguagem falada, coloquial, incluindo as suas formas mais vivazes, agressivas e populares,"[165]

Como assinala Guglielmo Barucci, «não estamos perante uma evolução progressiva do estilo de Dante nas Rimas, mas perante a coexistência - mesmo num mesmo período - de formas e estilos diversos».[166] A capacidade de Dante para passar, nas Rimas, de temas amorosos a temas políticos, morais ou burlescos atinge a sua expressão máxima na Divina Comédia, onde adapta continuamente o estilo às exigências da matéria tratada.
Esta conceção relaciona-se com a Rota Vergilii, segundo a qual a cada assunto corresponde um determinado registo estilístico. Como explica Pier Vincenzo Mengaldo, Dante herda a tradicional tripartição medieval dos estilos, derivada da retórica clássica e aplicada, desde Élio Donato e Servius, às três grandes obras de Virgílio: as Bucólicas, de estilo humilde; as Geórgicas, de estilo intermédio; e a Eneida, de estilo elevado.[167]
Na Divina Comédia, embora as três cânticas possam ser associadas, de forma geral, aos estilos humilde, intermédio e sublime, essa divisão teórica é frequentemente ultrapassada pelas exigências da narrativa. Assim, mesmo no Inferno, tradicionalmente associado ao estilo mais baixo, encontram-se passagens de elevadíssima intensidade poética e dramática, como os episódios de Francesca da Rimini e de Ulisses.
Do ponto de vista lexical, o plurilinguismo dantesco manifesta-se também na incorporação de elementos provenientes de diferentes tradições linguísticas, incluindo latinismos, galicismos e, naturalmente, o vulgar florentino.[168]
O dolce stil novo em Dante: entre o autobiografismo e a espiritualização
Dante desempenhou um papel decisivo na renovação da lírica em língua vulgar, não apenas do ponto de vista técnico e linguístico, mas também no plano temático. A espiritualização da figura de Beatriz e a inserção da sua história de amor num enquadramento de natureza autobiográfica conferiram ao dolce stil novo características originais e inovadoras.[169] Embora a figura idealizada da mulher amada - a chamada donna angelo - seja um topos recorrente na poesia de Lapo Gianni, Guido Cavalcanti e Cino da Pistoia, em Dante ela adquire uma dimensão mais concretamente histórica.[N 22] Pela profundidade filosófica da sua reflexão, a poesia de Dante apenas encontra paralelo na de Guido Cavalcanti. A principal diferença entre ambos reside, porém, na conceção do amor. Em Dante, Beatriz é a mediadora da conversão espiritual do poeta e aquela que o conduz à bem-aventurança celeste - uma função que alcança a sua plena realização na Divina Comédia, onde o próprio nome Beatriz («portadora de beatitude») adquire um significado simbólico. Em Cavalcanti, pelo contrário, a mulher amada é fonte de sofrimento e angústia, afastando o homem da elevação espiritual que caracteriza a visão dantesca do amor.[170] Outra das grandes inovações de Dante consiste na importância concedida à introspeção psicológica e ao autobiografismo. Pouco desenvolvidas na literatura medieval, estas dimensões anunciam já a sensibilidade de Petrarca e, mais tarde, do Humanismo. Dante foi o primeiro escritor italiano a distinguir claramente entre o «eu» enquanto personagem da narrativa e o «eu» enquanto narrador da sua própria experiência. Retomando uma observação do italianista norte-americano Charles Singleton, Gianfranco Contini descreveu esta originalidade da escrita dantesca nos seguintes termos:
’’É justo recordar o italianista norte-americano Charles Singleton que, num ensaio penetrante, observou como no «eu» de Dante convergem o homem universal, sujeito do viver e do agir, e o indivíduo histórico, protagonista de uma experiência concreta, hic et nunc, num determinado espaço e num determinado tempo. Diríamos hoje: o Eu (em maiúscula) transcendental e o «eu» (em minúscula) existencial.’’Contini 1992, pp. 34-35
Beatriz: a “mulher anjo”

O amor pela bela jovem envolta em tecido escarlate, a quem ele chama Beatriz, possui todas as características de um primeiro amor juvenil, na sua pureza e virgindade, mais na imaginação do que no coração. Beatriz assemelha-se mais a um sonho, a um fantasma, a um ideal celeste do que a uma realidade concreta capaz de produzir efeitos próprios. Um olhar, uma saudação: eis toda a história desse amor. Beatriz morreu anjo antes de ser mulher, e o amor não teve tempo de se transformar numa paixão, como hoje se diria; permaneceu um sonho e um suspiro.
|Francesco de Sanctis
História da Literatura Italiana, [1870], Morano, Nápoles, 1890, p. 59.
Foi assim que De Sanctis, considerado o pai da historiografia literária italiana, escreveu sobre a mulher amada pelo poeta, Beatriz. Embora ainda hoje se procure compreender em que consistia realmente, para Dante, o amor por Beatriz Portinari (a presumível identificação histórica da Beatriz da Vida Nova), apenas se pode concluir com segurança a importância que esse amor teve para a cultura literária italiana. É em nome desse amor que Dante imprimiu a sua marca ao Dolce stil novo, inaugurando a sua «segunda fase poética» (na qual manifesta a sua plena originalidade em relação aos modelos anteriores)[171] e conduzindo poetas e escritores a descobrir os temas do amor de uma forma nunca antes tão enfatizada. O amor por Beatriz (assim como, embora de modo diferente, Francesco Petrarca demonstrará pela sua Laura) constituirá o ponto de partida para a formulação do seu manifesto poético, uma nova conceção do amor cortês sublimado pela sua intensa sensibilidade religiosa (o culto mariano, com as laudas, chegou a Dante através das correntes pauperistas do século XIII, desde os franciscanos) e, por isso, despojado dos elementos sensuais e carnais típicos da lírica provençal. Essa formulação poética, culminada com a poesia do louvor,[172] conduzirá, após a morte da Beatriz «terrena», primeiro à investigação filosófica (a Dama Piedosa) e, depois, à teológica (a aparição de Beatriz em sonho, que impele Dante a regressar a ela após o seu desvio filosófico, crítica que se tornará mais severa em Purgatório, Canto XXX).[N 23] Essa alegorização da amada, entendida como veículo de salvação, marca definitivamente o afastamento da temática amorosa e conduz Dante em direção à verdadeira sabedoria, isto é, à luz ofuscante e impenetrável que envolve Deus no Paraíso. Beatriz confirma-se, assim, naquele papel salvífico próprio dos anjos, que leva não apenas ao amado, mas a todos os homens, a bem-aventurança a que antes se fazia referência.[N 24] Mantendo uma função alegórica, Dante atribui ainda um valor numerológico à figura de Beatriz,[N 25] Foi, com efeito, aos nove anos de idade que a encontrou pela primeira vez e, mais tarde, um novo encontro deu-se à hora nona. A seu respeito dirá ainda: «não admite estar em outro número que não o nove».
Das rimas «amorosas» às «pétreas»
Após o fim da experiência amorosa, Dante concentrou-se cada vez mais numa poesia marcada pela reflexão filosófica e política, que assumiria traços duros e sofridos nas rimas da segunda metade da década de 1290, também chamadas rimas "pétreas", por se centrarem na figura de uma certa "donna petra" (mulher pedra), completamente antitética às «donne che avete intelletto d'Amore» e à doçura e bem-aventurança que Beatriz infunde no coração de Dante.[173][174]
Com efeito, como observam Salvatore Guglielmino e Hermann Grosser, a poesia de Dante perdeu aqui a doçura e a graça características da lírica da Vida Nova, assumindo, em contrapartida, traços ásperos e difíceis:
... a experiência das rimas pétreas, que se relacionam com a experiência do trobar clus [poesia difícil] de Arnaut Daniel, constitui um exercício fundamental de estilo áspero (em contraste com o estilo doce do dolce stil novo).
Guglielmino & Grosser 2000, p. 151
As fontes e os modelos literários

Dante e o mundo clássico
Dante nutria um profundo apreço pela Antiguidade clássica e pela sua cultura, como demonstram a sua devoção por Virgílio, o elevado respeito por César e as numerosas fontes gregas e latinas que utilizou na construção do universo imaginário da Divina Comédia. A referência aos “spiriti magni” no Inferno, IV, constitui uma alusão explícita aos autores sobre os quais assentava a cultura dantesca.[N 26][175] Na Divina Comédia, o poeta glorifica no Limbo a elite moral e intelectual do mundo antigo, um lugar agradável e ameno situado nos confins do Inferno, onde vivem os justos que morreram sem batismo, privados da bem-aventurança, mas sem sofrerem uma dor física. [N 27] Ao contrário do que fariam posteriormente Petrarca e Boccaccio, Dante permaneceu profundamente ligado à conceção medieval da civilização grega e latina, integrando-a na história da salvação defendida pelo cristianismo. Esta perspetiva assentava na doutrina medieval da exegese conhecida como doutrina dos quatro sentidos - sentido literal, simbólico, alegórico e anagógico — através da qual se procurava identificar uma mensagem cristã nos autores da Antiguidade.[N 28] Virgílio é visto por Dante não tanto na sua dimensão histórica e cultural de intelectual latino da época augustana, mas sobretudo na sua dimensão profético-soteriológica.[176] Com efeito, foi interpretado como aquele que predisse o nascimento de Jesus Cristo na IV écloga das Bucólicas, razão pela qual foi posteriormente glorificado pelos cristãos medievais.[177] Para além desta dimensão mítica da figura de Virgílio, Dante viu nele o seu supremo modelo literário e moral, como evidencia o prólogo do poema:
“‘’O de li altri poeti onore e lume,’’<br />’’Vagliami 'l lungo studio e l' grande amore’’<br />’’Che m'ha fatto cercar lo tuo volume.’’<br />’’Tu se' lo mio maestro e 'l mio autore,’’<br />’’Tu se' solo colui da cu' io tolsi’’<br />’’lo bello stilo che m'ha fatto onore.‘’</poem>"}},"i":0}}]}'/>“‘’Ó honra e luz dos outros poetas,’’\n‘’Valha-me o longo estudo e o grande amor’’\n‘’Que me fizeram procurar o teu volume.’’\n‘’Tu és o meu mestre e o meu autor,’’\n‘’És o único de quem tomei’’\nO belo estilo que me deu honra.'’</poem>"}},"i":0}}]}'/>“‘’O de li altri poeti onore e lume,’’
’’Vagliami 'l lungo studio e l' grande amore’’
’’Che m'ha fatto cercar lo tuo volume.’’
’’Tu se' lo mio maestro e 'l mio autore,’’
’’Tu se' solo colui da cu' io tolsi’’
’’lo bello stilo che m'ha fatto onore.‘’
“‘’Ó honra e luz dos outros poetas,’’
‘’Valha-me o longo estudo e o grande amor’’
‘’Que me fizeram procurar o teu volume.’’
‘’Tu és o meu mestre e o meu autor,’’
‘’És o único de quem tomei’’
O belo estilo que me deu honra.'’
A iconografia medieval
Dante foi profundamente influenciado pelo mundo que o rodeava, inspirando-se tanto na dimensão artística em sentido estrito — como bustos, baixo-relevos e frescos presentes nas igrejas — como naquilo que podia observar na sua vida quotidiana. Barbara Reynolds observa que:
”Dante [estava] habituado a casos de tortura, morte por privações, homicídio, traição, adultério, sodomia e bestialidade. Imagens do mal encontravam-se representadas por toda a parte. A cúpula do Batistério de São João Batista, por exemplo, era decorada com mosaicos... nos quais estavam representados o inferno, o purgatório, o paraíso, o Juízo Final e, de particular importância para a Divina Comédia, uma imagem grotesca de Satanás [...] Os demónios e os tormentos do Inferno não são invenções da imaginação pessoal de Dante. Esses terríveis avisos... eram recitados em verso por trovadores ambulantes, constituíam temas de sermões e de representações teatrais.”Reynolds 2007, pp. 27–28
Os episódios de Malacoda, Barbariccia e da sua masnada, presentes nos cantos XXI, XXII e XXIII do Inferno, portanto, não podem ser atribuídos exclusivamente ao imaginário pessoal do poeta, mas derivam, na sua poderosa e degradante caricatura iconográfica, daquilo que Dante podia observar nas igrejas e nas ruas de Florença através de representações alegóricas. Para além das fontes iconográficas, existiam também textos que apresentavam o demónio com traços desumanos e bestiais. Entre estes destacava-se a Visão de Túndalo, do século XI, em quel o demónio é descrito a devorar as almas dos condenados, bem como as crónicas de Giacomino da Verona e Bonvesin de la Riva.[178]

Também as paisagens da Divina Comédia reproduzem elementos característicos das cidades medievais: a presença de fortificações, como o castelo do Limbo e as muralhas da cidade de Dite; as pontes de Malebolge; e as referências, no canto XV, às imponentes diques de Bruges e de Pádua:
Assim como os Flamengos entre Guizanda e Bruges,\nTemendo a onda que contra eles se lança,\nFazem um dique para que o mar se afaste;\nE assim como os de Pádua junto ao Brenta,\npara proteger as suas vilas e os seus castelos,\nantes que Carentana sinta o calor…\n''[https://it.wikisource.org/wiki/Divina_Commedia/Inferno/Canto_XV Inferno, XV, 4–9].</poem>"}},"i":0}}]}'/>Quali Fiamminghi tra Guizzante e Bruggia,\nTemendo 'l fiotto che 'nver' lor s'avventa, \nFanno lo schermo perché 'l mar si fuggia;\n E quali Padoan lungo la Brenta,\nPer difender lor ville e lor castelli,\nAnzi che Carentana il caldo senta</poem>"}},"i":0}}]}'/>Assim como os Flamengos entre Guizanda e Bruges,
Temendo a onda que contra eles se lança,
Fazem um dique para que o mar se afaste;
E assim como os de Pádua junto ao Brenta,
para proteger as suas vilas e os seus castelos,
antes que Carentana sinta o calor…
Inferno, XV, 4–9.
Quali Fiamminghi tra Guizzante e Bruggia,
Temendo 'l fiotto che 'nver' lor s'avventa,
Fanno lo schermo perché 'l mar si fuggia;
E quali Padoan lungo la Brenta,
Per difender lor ville e lor castelli,
Anzi che Carentana il caldo senta
As próprias penas infernais podem, assim, ser entendidas como uma transposição visual da «cultura» medieval em sentido amplo.[178]
Dante entre o cristianismo e o Islão
Fundamental foi também a influência exercida pela produção literária ligada à religião cristã e, em certa medida, também à religião islâmica.[179] Mais controversas foram as teses de Miguel Asín Palacios, apresentadas na obra La escatología musulmana en la Divina Comedia.[180] A Bíblia é, sem dúvida, o livro a que Dante mais recorreu: para além das numerosas referências presentes na Comédia, encontram-se ecos bíblicos também na Vita nova (por exemplo, o episódio da morte de Beatriz reproduz alguns elementos do de Cristo no Calvário)[181] e no De vulgari eloquentia (no episódio da torre de Babel como origem das línguas, presente no primeiro livro). Para além da produção estritamente religiosa, Dante recorreu também à literatura religiosa medieval, inspirando-se, por exemplo, na Visio sancti Pauli, obra do século V que narra a ascensão do apóstolo das nações ao terceiro céu do Paraíso.[182] Para além das fontes literárias cristãs, segundo a filóloga Maria Corti, Dante teria tido acesso ao Livro da Escada, uma obra escatológica árabe traduzida para castelhano, francês antigo e latim por iniciativa do rei Afonso X.[183] Um exemplo concreto encontra-se no conceito islâmico de espírito da vida (rūḥ al-ḥayāh), entendido como o «ar» que sai da cavidade do coração. A este respeito, Dante escreve: «...espírito da vida, o qual reside na mais secreta câmara do coração».[184] O historiador espanhol Miguel Asín Palacios expôs as suas teses acerca dos conhecimentos de Dante sobre o Islão na obra L’escatologia islamica nella Divina Commedia.[185]
O papel da filosofia na produção de Dante

Como já foi referido na parte biográfica, Dante, após a morte de Beatriz, dedicou-se ao estudo da filosofia. A partir do Convívio, sabemos que Dante tinha lido o De consolatione philosophiae de Boécio e o De amicitia de Cícero[186] e que, posteriormente, começou a participar nas disputas filosóficas que as duas principais ordens religiosas (Franciscanos e dominicanos) promoviam pública ou indiretamente em Florença, uns explicando a doutrina dos místicos e de São Boaventura, outros apresentando as teorias de São Tomás de Aquino. O crítico Bruno Nardi[187] destaca os traços fundamentais do pensamento filosófico de Dante que, embora assente no tomismo, apresenta também outros aspetos, entre os quais uma evidente influência do neoplatonismo (por exemplo, de Pseudo-Dionísio, o Areopagita nas hierarquias angélicas do Paraíso).[188] Apesar das influências da escola platónica, Dante sofreu sobretudo a influência de Aristóteles, cujo pensamento atingiu o apogeu na Europa medieval na segunda metade do século XIII[N 29]
Aristóteles na produção poética
A produção poética de Dante foi influenciada, em particular, por duas obras de Aristóteles: a Física e a Ética a Nicómaco. A descrição do mundo natural pelo filósofo de Estagira, a par da tradição médica que remontava a Galeno, constituiu a principal fonte a que Dante e Cavalcanti recorreram para a elaboração da chamada “doutrina dos espíritos”.[189] Através dos comentários elaborados por Averróis e por Alberto Magno,[190] Dante sustentou que o funcionamento do corpo humano se devia à presença de vários espíritos em determinados órgãos, dos quais surgiam depois sentimentos correspondentes ao estímulo proveniente do exterior. Na presença de Beatriz, esses espíritos entravam em alvoroço, suscitando em Dante violentas reações emocionais e assumindo, como no caso abaixo transcrito, também uma vontade própria, expressa através da figura retórica da prosopopeia:
Apareceu vestida de uma cor nobilíssima, humilde e honesta, sanguínea, cingida e adornada da forma que convinha à sua muito jovem idade.
Nesse momento, digo verdadeiramente que o espírito da vida, que reside na mais secreta câmara do coração, começou a tremer tão fortemente que se manifestava horrivelmente nos mais pequenos pulsos; e, tremendo, disse estas palavras: «Ecce deus fortior me, qui veniens dominabitur michi». Nesse momento, o espírito animal, que reside na alta câmara onde todos os espíritos sensitivos levam as suas perceções, começou a maravilhar-se muito e, falando especialmente aos espíritos da visão, disse estas palavras: «Apparuit iam beatitudo vestra». Nesse momento, o espírito natural, que reside naquela parte onde é ministrado o nosso alimento, começou a chorar e, chorando, disse estas palavras: «Heu miser, quia frequenter impeditus ero deinceps!».

Ainda mais significativa foi a influência de Aristóteles na Comédia, onde se fez sentir a presença da Ética a Nicómaco, além da Física. Desta última, Dante adotou a estrutura cosmológica da Criação (estrutura profundamente devedora também do astrónomo egípcio Ptolomeu),[191] adaptando-a depois à fé cristã[192]}; da Ética, por sua vez, inspirou-se na organização ordenada e racional do seu mundo ultraterreno, dividindo-o em várias subunidades (círculos no Inferno, cornijas no Purgatório e céus no Paraíso), onde colocava determinadas categorias de almas de acordo com as faltas ou virtudes cometidas em vida[N 30]
Aristóteles na produção sociopolítica
No âmbito político, Dante partilha com Aristóteles e São Tomás de Aquino a ideia de que o Estado tem um fundamento racional e natural, assente em relações hierárquicas capazes de conferir estabilidade e ordem interna. Nardi acrescenta que “embora reconhecendo que o esquema geral da sua metafísica é o da escolástica cristã, é certo que ele introduziu nele alguns elementos característicos, como a produção mediada do mundo inferior e a conceção acerca da origem da alma humana, resultante da conjugação do ato criador com a obra da natureza”.[187]
O esoterismo dantesco
Vários autores abordaram os aspetos esotéricos das obras de Dante, talvez determinados pela adesão, hoje considerada comprovada, à seita dos Fiéis do Amor. A própria estrutura e os conteúdos da Divina Comédia revelariam referências claras nesse sentido. Sob este aspeto, são de particular importância a obra de Guénon, L'esoterismo di Dante, e o texto de Luigi Valli, Il linguaggio segreto di Dante e dei «Fedeli d'Amore».[193][194] A partir do século XIX, vários autores defenderam a tese de que Dante poderia ter sido um cristão herege: entre eles, Ugo Foscolo,[195] Gabriele Rossetti, [196] e Eugène Aroux, [197] Mais recentemente, Maria Soresina propôs a hipótese de que a suposta heresia de Dante teria sido o catarismo.[198]
Obras

Por Eugène Delacroix, Museu do Louvre
Il Fiore e Detto d'Amore
Duas obras poéticas em língua vulgar, de temática, léxico e estilo semelhantes e situadas cronologicamente entre 1283 e 1287, foram atribuídas com alguma segurança a Dante pela crítica do século XX, sobretudo a partir do trabalho do filólogo dantesco Gianfranco Contini.[199][200] Contudo, como salienta Giulio Ferroni, persiste entre os críticos literários a opinião de que Il Fiore e Detto d'Amore, dois poemas que se inspiram na obra-prima medieval em língua de oïl Roman de la Rose, são, na realidade, obras de autoria dantesca duvidosa.[201]
Le Rime

Le Rime ("As rimas") também chamadas de "Canzoniere",[202] é uma coletânea reunida e organizada por editores modernos, que engloba o conjunto da produção lírica de Dante, desde as composições da juventude até às da maturidade (as primeiras datam de cerca de 1284),[203] divididas entre Rime giovanili e Rime dell'esilio, de modo a distinguir dois grupos de poemas líricos bastante diferentes quanto ao tom e aos temas abordados. As Rime giovanili incluem textos de cariz lírico (sonetos, canções, baladas, sextinas…[202]) que refletem as várias tendências da lírica cortês da época, nomeadamente a guittoniana, a guinizelliana e a cavalcantiana, passando de temas amorosos a tenções jocosas de carácter veladamente erótico e lúdico com Forese Donati (desafiado na Tenzone con Forese) e com Dante da Maiano.[204]
Vita Nuova
A Vita Nuova pode ser considerada o “romance” autobiográfico de Dante, no qual é celebrado o amor por Beatriz, apresentada com todas as características próprias do estilo stilnovista de Dante. A língua utilizada é a toscana, tanto para os poemas (o que não é grande novidade, já que muitas obras líricas tinham sido escritas em língua vulgar) como para os comentários que, pelo seu carácter mais teórico, já inovam ao prescindir do latim. Relato da vida espiritual e da evolução poética do Poeta, apresentado como exemplum, a Vita nova é um prosimetro (composição caracterizada pela alternância entre prosa e verso) e encontra-se estruturada em quarenta e dois (ou trinta e um) capítulos em prosa[N 31] ligados por uma narrativa coerente, que enquadra uma série de textos poéticos compostos em diferentes momentos, entre os quais assumem particular relevância a canzone-manifesto Donne ch'avete intelletto d'amore e o célebre soneto Tanto gentile e tanto onesta pare. Segundo boa parte dos estudiosos, para a forma do prosímetro, Dante ter-se-á inspirado nas razos provençais (ou seja, nas «razões»), que serviam para explicar as circunstâncias que davam origem às composições líricas, e no De consolatione philosophiae de Boécio.[205] A obra é dedicada ao amor por Beatriz e terá sido composta provavelmente entre 1292 e 1293.[206] A composição das ‘’Rimas'’ pode situar-se, segundo a cronologia fornecida por Dante, entre 1283, data a que remonta o soneto A ciascun alma presa, e depois de junho de 1291, aniversário da morte de Beatriz. Para estabelecer com alguma segurança a data de composição da obra como um todo orgânico, a crítica tem recorrido recentemente ao ano 1300, data-limite que corresponde à morte do destinatário Guido Cavalcanti: “Este meu primeiro amigo a quem escrevo isto” (Vita nova, XXX, 3).
Convívio
O Convívio foi escrito entre 1303 e 1308.[207] O título deriva do latim convivium, ou seja, «banquete» (de sabedoria), e é a primeira das obras de Dante escrita imediatamente após o seu afastamento forçado de Florença, constituindo o grande manifesto do objetivo “civil” que a literatura deve desempenhar na sociedade humana. A obra, de caráter filosófico, consiste no comentário (o “pão”) a 14 canções doutrinais (os “pratos”), colocadas no início. Constitui uma verdadeira enciclopédia dos conhecimentos mais importantes para aqueles que pretendam dedicar-se à atividade pública e civil sem terem realizado estudos regulares.[208] É, por isso, escrita em língua vulgar, para ser compreendida precisamente por aqueles que anteriormente não tiveram possibilidade de estudar latim.
O incipit do Convívio deixa claro que o autor é um grande conhecedor e seguidor de Aristóteles; este é, de facto, citado como “Lo Filosofo”.[N 32] O ‘’incipit’’ explica também claramente a quem se destina a obra e a quem não se destina: apenas aqueles que não tiveram oportunidade de conhecer a ciência deveriam ter acesso a ela. Estes foram impedidos por dois tipos de razões:
- internas: malformações físicas, vícios e malícia;
- externas: responsabilidades familiares e civis e limitações decorrentes do local de nascimento.
Dante considera felizes os poucos que podem participar na mesa da Ciência, onde se come o «pão dos anjos», e miseráveis aqueles que se contentam em comer o alimento das ovelhas. Dante não se senta à mesa, mas afastou-se daqueles que comem o pasto e recolheu aquilo que cai da mesa dos eleitos para criar com isso outro banquete. O autor preparará um banquete e servirá uma iguaria (as composições em verso) acompanhada do pão (a prosa) necessário para assimilar a sua essência. Serão convidados a sentar-se apenas aqueles que foram impedidos pelas responsabilidades familiares e civis, enquanto os preguiçosos permanecerão aos seus pés para recolher as migalhas.[N 33]
De vulgari eloquentia

Contemporâneo do Convívio, o De vulgari eloquentia é um tratado em latim escrito por Dante entre 1303 e 1304.[209] A obra, que Dante planeava originalmente dividir em quatro livros, ficou inacabada: apenas o primeiro livro foi concluído integralmente, enquanto do segundo foram escritos 14 capítulos. Embora abordasse o tema da língua vulgar, foi escrito em latim porque os interlocutores a quem Dante se dirigia pertenciam à elite cultural da época,[210] que, fortemente marcada pela tradição da literatura clássica, considerava o latim indiscutivelmente superior a qualquer língua vulgar e por isso utilizado para escrever sobre lei, religião e tratados internacionais, isto é, sobre assuntos da máxima importância. Dante lançou-se numa defesa apaixonada da língua vulgar, afirmando que esta merecia tornar-se uma língua ilustre, capaz de competir com a língua de Virgílio, se não mesmo de a igualar. Contudo, sustentava que, para se tornar uma língua capaz de abordar assuntos importantes, a língua vulgar deveria ser[211]:
- illustre (por ser luminosa e, portanto, capaz de conferir prestígio a quem a utiliza na escrita);
- cardinale (de tal modo que, em torno dela, girassem as línguas vulgares regionais, como uma porta em torno do seu eixo);
- aulico (tornada nobre pelo seu uso erudito, de modo a ser digna de ser falada na corte);
- curiale (enquanto língua das cortes italianas e apropriada aos atos políticos de um soberano).
Com estes termos, Dante pretendia afirmar a plena dignidade da língua vulgar também como língua literária, e não apenas como língua exclusivamente popular. Depois de reconhecer a grande dignidade do siciliano ilustre, a primeira língua literária a alcançar dignidade nacional, passa em revista as restantes línguas vulgares italianas, encontrando numa algumas qualidades e noutra outras que, somadas, deveriam constituir a língua italiana. Dante vê na língua italiana a Panthera redolens dos bestiários medievais: animal que atrai a sua presa (neste caso, o escritor) pelo seu perfume irresistível, que Dante sente em todas as línguas vulgares regionais, e em particular no siciliano, sem contudo conseguir alguma vez vê-la materializar-se.[212] Faltava, com efeito, uma língua italiana utilizável em todos os seus registos por todos os estratos da população da península Itálica. Para a fazer reaparecer, era, portanto, necessário recorrer às obras dos literatos italianos que até então tinham surgido, procurando assim delinear um cânone linguístico e literário comum.[213]
De Monarchia

A obra foi composta por ocasião da campanha de Henrique VII do Luxemburgo à Itália, entre 1310 e 1313. É composta por três livros e constitui a ‘’summa’’ do pensamento político de Dante.[214] No primeiro, Dante afirma a necessidade de um império universal e autónomo, reconhecendo-o como a única forma de governo capaz de garantir a unidade e a paz. No segundo, reconhece a legitimidade do direito de império por parte dos Romanos. No terceiro livro, Dante demonstra que a autoridade do monarca deriva de uma vontade divina[215] e, portanto, depende de Deus, não estando sujeita à autoridade do pontífice; ao mesmo tempo, porém, o imperador deve mostrar respeito pelo pontífice, Vigário de Deus na Terra.[216]
A posição de Dante é, em vários aspetos, original, ao opor-se decisivamente à tradição política associada à Doação de Constantino: o De Monarchia contrasta tanto com os defensores da conceção hierocrática[217] como com os defensores da autonomia política e religiosa dos soberanos nacionais em relação ao imperador e ao papa. No fim, recomenda a concórdia entre ambas as partes, obedecendo àquele "que é o único governador de todas as coisas, espirituais e temporais";[218]
Commedia

Intitulada inicialmente apenas como Comédia, a obra-prima de Dante foi, posteriormente, rebatizada por Giovanni Boccaccio com o adjetivo de “Divina” [219] e é considerada o mais importante testemunho literário da civilização medieval, bem como uma das maiores obras da literatura universal.[220] É designada “comédia” por ser escrita em estilo “cómico”, isto é, não elevado ou, segundo outro ponto de vista, por começar com situações de dor e medo e terminar com a paz e a sublimidade da visão de Deus. Dante começou a trabalhar na obra por volta de 1300 (ano jubilar, tanto que situa em 7 de abril desse ano a sua viagem pela selva escura) e continuou a escrevê-la durante o resto da vida, publicando as cantiche à medida que as concluía.[N 34] Existem notícias de cópias manuscritas do Inferno por volta de 1313, enquanto o Purgatório foi publicado nos dois anos seguintes. O “Paraíso, iniciado talvez em 1316, foi publicado à medida que os cantos eram concluídos, nos últimos anos de vida do poeta. O poema divide-se em três livros ou cânticas, cada um composto por 33 cantos (exceto o Inferno, que apresenta 34, uma vez que o primeiro funciona como proémio de todo o poema), aos quais correspondem os três estilos da Rota Vergilii (simples, médio e elevado): cada canto é composto por tercetos de hendecassílabos (a terza rima dantesca).

A Comédia procura oferecer uma representação ampla e dramática da realidade, muito distante da pedante poesia didática medieval, mas impregnada de uma nova espiritualidade cristã que se mistura com a paixão política e os interesses literários do poeta. Narra uma viagem imaginária pelos três reinos do além-túmulo, nos quais se projetam o bem e o mal do mundo terreno, realizada pelo próprio poeta, enquanto «símbolo» da humanidade, sob a orientação da razão e da fé: Dante é acompanhado tanto no Inferno como no Purgatório pelo seu mestre Virgílio; no Paraíso, por Beatriz e, finalmente, por São Bernardo. O percurso tortuoso e árduo de Dante, cuja linguagem se torna cada vez mais complexa à medida que ascende ao Paraíso, representa, sob a forma de metáfora, também o difícil processo de maturação da língua vulgar ilustre, que se emancipa dos estreitos limites municipais para elevar o vulgar florentino acima das restantes variantes da língua vulgar italiana, enriquecendo-o simultaneamente pelo contacto com estas.[N 35]
As Epístolas e a Epístola XIII a Cangrande della Scala
Desempenham um papel relevante as 13 Epístolas escritas por Dante durante os anos do exílio. Entre as principais epístolas, centradas sobretudo em questões políticas (relacionadas com a campanha de Henrique VII aItália) e religiosas (como a carta dirigida aos cardeais italianos reunidos, em 1314, para eleger o sucessor de Clemente V).[221] A Epístola XIII a Cangrande della Scala, datada de entre 1316 e 1320, é a última e a mais importante das epístolas atualmente conservadas, embora a sua autenticidade seja parcialmente posta em causa.[222] Contém a dedicatória do Paraíso ao senhor de Verona, bem como importantes indicações para a leitura da Comédia: o assunto (a condição das almas após a morte), a pluralidade dos sentidos, o título (que deriva do facto de começar de forma áspera e triste e terminar com um final feliz) e a finalidade da obra, que não é apenas especulativa, mas também prática, pois procura retirar os vivos do estado de miséria e conduzi-los à felicidade.[223]
Egloghe
As Éclogas são duas composições de caráter bucólico, escritas em latim entre 1319 e 1321, em Ravena, que fazem parte de uma correspondência com Giovanni del Virgilio, intelectual bolonhês.[224] As duas composições de Giovanni del Virgilio receberam os títulos de Egloga I e Egloga III, enquanto as de Dante são a Egloga II e a Egloga IV. A correspondência, sob a forma de tenção, entre os dois surgiu quando Giovanni del Virgilio censurou Dante por pretender conquistar a coroa poética escrevendo em língua vulgar, e não em latim. Esta crítica suscitou a reação de Dante e a composição das Egloghe, uma vez que Giovanni del Virgilio lhe havia enviado uma composição em latim e, segundo a doutrina medieval da responsio, o interlocutor deveria responder utilizando o mesmo género.[225]
A Quaestio de aqua et terra

A reflexão filosófica prolongou-se até ao final da vida do poeta. Em 20 de janeiro de 1320, Dante deslocou-se novamente a Verona para discutir, na igreja de Santa Helena, a estrutura do cosmos segundo os princípios aristotélico-ptolemaicos, que, naquela época, já constituíam objeto de estudo privilegiado para a composição do Paraíso. Dante sustenta aqui que a Terra se encontrava no centro do universo, rodeada pelo mundo sublunar (composto por terra, água, ar e fogo), e que a água se encontrava acima da esfera terrestre. Daí resulta uma reflexão filosófica caracterizada pela disputatio com os seus adversários.[226]
Receção e influência internacional
Receção no mundo lusófono
Em Portugal, há notícia da existência, já no século XV, de um códice dantesco no Mosteiro de Alcobaça. O cronista Gomes Eanes de Zurara demonstra conhecer a literatura italiana e menciona o Inferno, constituindo uma das primeiras referências explícitas a Dante na literatura portuguesa. Também no tratado Virtuosa Benfeitoria, de Gomes Ferreira da Silva, e na literatura ascética do período se encontram vestígios ou reminiscências da obra dantesca.[227]
No final do século XV, os contactos entre Portugal e Itália intensificaram-se, nomeadamente na corte de D. João II, onde estavam presentes diversos italianos. A crítica dantesca identifica várias imitações e recriações de motivos associados a Dante na poesia reunida no Cancioneiro Geral, compilado por Garcia de Resende e publicado em Lisboa em 1516, sobretudo entre as composições de Duarte de Brito, Diogo Brandão e Luís Anriques, que combinam elementos da tradição medieval com novas formas de expressão humanista.[228]
Entre essas composições destaca-se o poema de Duarte de Brito que descreve uma viagem alegórica por lugares desconhecidos, durante a qual o poeta encontra figuras mitológicas, históricas e literárias e é conduzido por um guia. O poema apresenta evidentes afinidades com o Inferno e constitui uma das primeiras recriações portuguesas de motivos dantescos. A influência poderá, contudo, ter chegado a Duarte de Brito por intermédio da literatura castelhana, designadamente da tradição derivada de El Infierno de los enamorados, do Marquês de Santillana.[229][230] De facto, a obra de Dante chegava aos escritores portugueses através de uma complexa rede de circulação cultural que incluía a literatura italiana, a produção castelhana dela derivada e os contactos entre as cortes e os meios intelectuais da Península Ibérica. Esta circunstância explica também a dificuldade em determinar, para cada autor português, se uma determinada afinidade com Dante resulta de leitura direta do poeta italiano ou de uma fonte intermediária.[231]
José Maria da Costa e Silva refere uma primeira tradução do ‘’Inferno'’, da qual nada subsistiu.[232]
A influência italiana tornou-se mais profunda na literatura portuguesa durante a primeira metade do século XVI, sobretudo com a viagem de Sá de Miranda a Itália, entre 1521 e 1526/1527. O poeta entrou em contacto direto com a cultura literária italiana e introduziu posteriormente em Portugal novas formas métricas e poéticas, num processo que contribuiu para a transformação da poesia portuguesa. Dante fazia parte do conjunto de grandes autores italianos então valorizados, ao lado de Petrarca, Ariosto e Pietro Bembo.[233] É neste contexto de crescente italianização da literatura portuguesa que se inscreve também a relação posteriormente estabelecida entre Dante e Camões. No seu comentário a Os Lusíadas, publicado em 1639, Manuel de Faria e Sousa recorre à Commedia como paradigma estrutural e teológico para a interpretação alegórica da epopeia, nomeadamente a propósito da Ilha dos Amores e da visão da máquina do mundo.[234]
As primeiras traduções integrais conservadas da Divina Comédia surgiram apenas no século XIX. No Brasil, uma das primeiras manifestações conhecidas de tradução dantesca ocorreu em 1843, quando Luís Vicente De-Simoni traduziu sete cantos da Divina Comédia. A tradução e divulgação de Dante intensificaram-se no Brasil durante o século XIX, em particular no contexto do Romantismo brasileiro, quando o poeta italiano passou a ser uma referência mais frequente entre escritores e intelectuais.[235]
Em Portugal, a difusão de Dante desenvolveu-se paralelamente através da circulação de edições italianas e castelhanas, de traduções parciais e da crítica literária. A tradução integral demorou, contudo, a surgir. Em 1886, foi publicada em Lisboa, pela Imprensa Nacional, uma tradução do Inferno realizada pelo padre brasileiro Joaquim Pinto de Campos, acompanhada de prefácio, notas e comentários.[236]
As primeiras traduções integrais da Divina Commedia em língua portuguesa só aparecem no fim do século XIX: a de Francisco Bonifácio de Abreu, barão da Vila da Barra (Rio de Janeiro, 1888), e a de Domingos José Ennes (Lisboa, publicada entre 1887 e 1889).[237]
No Brasil, José Pedro Xavier Pinheiro publica em 1907 a tradução integral da Divina Comédia, em três volumes. Esta torna-se uma das traduções brasileiras de referência e viria a conhecer numerosas reedições, desempenhando durante décadas um papel central na divulgação de Dante entre os leitores de língua portuguesa.[238] A receção de Dante no Brasil ganhou particular importância através da obra de Machado de Assis. O escritor traduziu o canto XXV do Inferno, publicado em 1874, e recorreu frequentemente a Dante na sua própria produção literária. A partir da década de 1870, referências à Divina Comédia e ao poeta italiano aparecem em romances, contos e crónicas de Machado de Assis, revelando que Dante não era apenas um autor traduzido, mas também uma presença efetiva no seu universo literário.[239][240] Durante os séculos XIX e XX, para além das traduções integrais, vários escritores e poetas traduziram cantos ou episódios isolados da Divina Comédia. Entre eles encontram-se Dante Milano,[241] que traduziu cantos do Inferno, Augusto de Campos, autor de traduções de vários cantos da mesma cântica,[242] e Haroldo de Campos,[243] que traduziu passagens do Paraíso. Estas versões assumiram, em alguns casos, uma forte dimensão de recriação poética, procurando transpor para português não apenas o conteúdo do original, mas também os seus procedimentos formais e sonoros. Entre as traduções integrais brasileiras do século XX destaca-se a de Cristiano Martins, publicada em 1976.[244] Em 1998, Ítalo Eugenio Mauro publicou uma nova tradução integral, em edição bilingue, pela Editora 34. A multiplicação destas versões revela a permanência de Dante no sistema literário brasileiro e a diversidade das soluções encontradas para a tradução da sua poesia.[245][246]
Em Portugal, um dos principais empreendimentos de tradução da obra de Dante ocorreu na década de 1960. A edição da Minotauro, publicada em três volumes, apresentou o Inferno na tradução de Fernanda Botelho, o Purgatório na tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen[247] e o Paraíso na tradução de Armindo Rodrigues. O projeto constituiu um momento importante na divulgação da obra dantesca entre os leitores portugueses.[248] Nas décadas seguintes, Dante continuou a ser traduzido, editado e estudado em Portugal. Vasco Graça Moura publicou em 1995 uma nova tradução integral da Divina Comédia, que teve ampla circulação e várias reedições. Foram também objeto de tradução ou estudo, por este autor, obras como a Vita nuova, o Convívio, o De vulgari eloquentia e a Monarquia, bem como diferentes aspetos da sua poesia, pensamento filosófico, conceção política e teoria da língua.[237]
Em 2021, por ocasião do sétimo centenário da morte de Dante, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda publicou uma nova tradução integral da Divina Comédia, realizada por Jorge Vaz de Carvalho. A edição procurou reproduzir em português os valores formais e expressivos da poesia de Dante.[249]
Em Itália

Dante alcançou uma repercussão e uma fama praticamente imediatas em Itália. Já a partir da segunda metade do século XIV, Boccaccio iniciou uma verdadeira difusão do culto de Dante, culminando primeiro na composição do Trattatello in laude di Dante e depois nas Esposizioni sopra la Commedia.[250] A herança de Boccaccio foi retomada, durante a fase do primeiro humanismo, pelo chanceler da República Florentina Leonardo Bruni, que compôs a Vita di Dante Alighieri (1436) e contribuiu para a continuidade do mito dantesco entre as gerações de literatos (Agnolo Poliziano, Lourenço de Médici e Luigi Pulci) e artistas (Sandro Botticelli) florentinos da segunda metade do Quattrocento.[251]
A influência de Dante começou, contudo, a diminuir a partir de 1525, quando o cardeal Pietro Bembo, nas Prose della volgar lingua, estabeleceu a superioridade de Petrarca no campo da poesia e de Boccaccio no da prosa. Este cânone excluiria o Dante da Comédia, por ser difícil de imitar, determinando um declínio que, apesar das apaixonadas defesas de Miguel Ângelo e, posteriormente, de Giambattista Vico, se prolongaria durante os séculos XVII e XVIII, também em consequência da inclusão do De Monarchia no Índice. Só com a época romântica e do Risorgimento[252] Dante recuperou um papel de primeiro plano, enquanto símbolo da italianidade e da solidão própria do herói romântico.
O elevado valor literário da Comédia, consagrado por De Sanctis na sua Storia della letteratura italiana e posteriormente reafirmado por Carducci, Pascoli e Benedetto Croce, encontrou no século XX[253] estudiosos e cultores apaixonados como Gianfranco Contini, Umberto Bosco, Natalino Sapegno, Giorgio Petrocchi, Maria Corti e, nos últimos anos, Marco Santagata.
Também no século XX e no século XXI, vários pontífices dedicaram palavras de apreço a Alighieri: Bento XV, Paulo VI e João Paulo II recordaram-no pelo seu elevadíssimo valor artístico e moral; Bento XVI, pela fineza teológica; e Francisco, pelo valor soteriológico da Comédia.[254][255][256][257][258][259]
No mundo

Entre o Quattrocento e o século XXI, Dante conheceu fases distintas nos restantes países do mundo, influenciadas por fatores históricos e culturais de acordo com as diferentes regiões geográficas:
- Inglaterra[260]: Geoffrey Chaucer, para além do modelo do Decameron, inspirou-se também na Comédia, retirando elementos das tragédias do Inferno, como a do Conde Ugolino. Praticamente ignorado durante os séculos XV e XVI, o poeta florentino encontrou um grande admirador em John Milton, que se inspirou no imaginário dantesco para a criação do universo do seu Paradise Lost. Com o Romantismo, Dante foi admirado por escritores (William Blake, William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge, George Gordon Byron e Alfred Tennyson) e pintores (Dante Gabriel Rossetti e os Pré-Rafaelitas, além de William Bell Scott), que o consideraram um verdadeiro mestre da poesia e da arte. No século XX, Edward Morgan Forster inspirou-se na selva escura para o Omnibus celeste, enquanto Thomas Stearns Eliot, poeta de origem norte-americana naturalizado inglês e grande admirador da Divina Comédia, sublinhou a sua profunda influência sobre grande parte da sua obra, em particular sobre The Waste Land (A Terra Desolada, 1922), um dos seus ensaios dedicados a Dante, posteriormente reunidos no volume Scritti su Dante.[261]

- França[262]: com exceção de alguns códices de Christine de Pizan, Dante não foi profundamente conhecido em França até à campanha a Itália, em 1494, de Carlos VIII. Durante o reinado de Francisco I, Dante difundiu-se também graças à chamada Escola de Lyon, fundada por mercadores italianos que levaram a Comédia para além dos Alpes. As críticas posteriores de Pietro Bembo e a difusão do petrarquismo obscureceram a fama de Dante em França, fenómeno favorecido pelos poetas de La Pléiade e pelo classicismo francês durante o reinado de Luís XIV. Posteriormente duramente criticado por Voltaire, Dante recuperou alguma notoriedade no século XIX, graças às lições de Claude Fauriel e Abel-François Villemain.
- Alemanha[263]: tal como em França, Dante foi conhecido relativamente tarde na Alemanha. Ao contrário do que sucedeu noutras nações europeias, o interesse pelo Poeta Supremo atingiu, porém, um verdadeiro apogeu durante a Reforma Protestante, devido aos conteúdos anticlericais e polémicos presentes no De Monarchia. O Dante da Comédia só foi descoberto na época do Romantismo, graças a August Wilhelm von Schlegel, aos filósofos Friedrich Schelling e Hegel e ao filólogo Karl Witte.
- Espanha[264]: precoce foi, pelo contrário, o conhecimento de Dante em Espanha, graças a obras datadas dos séculos XIV e XV, como o Cancionero de Baena, e a autores como Enrique de Aragón. A Espanha, um dos principais expoentes da Contrarreforma, condenou veementemente o anticlericalismo dantesco, provocando um verdadeiro eclipse da sua fama que perdurou até 1829, com a chegada do Romantismo. Foram fundamentais as traduções da Comédia, em prosa, por Manuel Aranda San Juan (1868), e em verso, pelo Conde de Cheste (1879).
- Américas[265]: já durante o século XIX, o norte-americano Ralph Waldo Emerson introduziu a Vita Nova no continente americano, contribuindo para um interesse crescente pela obra de Dante na literatura norte-americana, nomeadamente através de Ezra Pound e Henry Miller. No mundo hispânico, destaca-se, por sua vez, o culto que o argentino Jorge Luis Borges manifestou pela Comédia.
Na cultura de massas

Ao longo do século XX, a figura de Dante foi objeto de numerosas iniciativas destinadas a divulgar a sua obra junto do grande público. Por ocasião do cinquentenário da Unificação da Itália, a Milano Films[266] e a Helios Film[267] realizaram as duas primeiras longas-metragens dedicadas ao Inferno, obras que suscitaram reações tanto positivas como negativas, estas últimas devido à presença de elementos eróticos. Uma nova produção televisiva, Dante, foi lançada em 2022, com Pupi Avati como realizador.[268]
Nas décadas seguintes, as celebrações nacionais dedicadas a Dante, como o sexto centenário da sua morte, em 1921, e o sétimo centenário do seu nascimento, em 1965, contribuíram para sensibilizar o público italiano para o legado do Poeta Supremo, também através da produção televisiva Vita di Dante, realizada em 1965 por ocasião do sétimo centenário.[269] Durante a segunda metade do século XX, a divulgação da sua obra foi também promovida através da emissão de liras com o retrato de Dante,[270] bem como de uma banda desenhada da Disney inspirada no Inferno.[271][272]
Graças à televisão, a divulgação da obra de Dante alcançou um público cada vez mais amplo: Vittorio Gassman, Vittorio Sermonti e Roberto Benigni recitaram versos da Comédia em manifestações públicas. No resto do mundo, Dante inspirou, por sua vez, a realização de alguns filmes, como Seven[273] e de algumas mangas, como as obras de Gō Nagai, e videojogos, entre os quais Dante's Inferno.[274]
Personagens e lugares do Inferno foram escolhidos pela União Astronómica Internacional para dar nome a formações geológicas na superfície de Io, satélite de Júpiter.[275] Além disso, em 1998, o retrato de Dante Alighieri pintado por Rafael foi escolhido para a face nacional da moeda italiana de 2 euros.[276] Em 2020, a República Italiana estabeleceu o 25 de março como data anual de comemoração de Dante; esta data nacional foi denominada ‘’Dantedì’’.[277]
Iconografia

Ao longo dos séculos, Dante Alighieri foi retratado por numerosos artistas, contribuindo para a formação de uma iconografia amplamente difundida. As representações tradicionais mostram-no com um rosto anguloso, expressão austera e um pronunciado nariz aquilino, traços que se tornaram canónicos em obras como os retratos de Sandro Botticelli, Giotto di Bondone, Rafael e Gustave Doré. É também frequente surgir representado com um cappuccio vermelho e uma coroa de louros, símbolo de excelência poética herdado da Antiguidade clássica.
A descrição física mais conhecida do poeta foi deixada por Giovanni Boccaccio no Trattatello in laude di Dante:
Fu adunque questo nostro poeta di mediocre statura [...] Il suo volto fu lungo, e il naso aquilino, e gli occhi anzi grossi che piccioli, le mascelle grandi, e dal labbro di sotto era quel di sopra avanzato; e il colore era bruno, e i capelli e la barba spessi, neri e crespi, e sempre nella faccia malinconico e pensoso.|Trattatello in laude di Dante, XX
Foi, pois, este nosso poeta de estatura mediana [...] O seu rosto era alongado, o nariz aquilino, os olhos mais grandes do que pequenos, as mandíbulas largas, e o lábio superior projetava-se menos do que o inferior; tinha tez morena, cabelos e barba espessos, negros e crespos, e conservava sempre no rosto uma expressão melancólica e pensativa.
No entanto, os estudos antropológicos realizados sobre os restos mortais de Dante vieram pôr em causa parte desta tradição iconográfica. Em 1921, por ocasião do sexto centenário da morte do poeta, o antropólogo Fabio Frassetto, da Universidade de Bolonha, obteve autorização para estudar o seu crânio, embora este se encontrasse incompleto devido à ausência da mandíbula.[279] Apesar das limitações técnicas da época, Frassetto concluiu que a imagem transmitida pela tradição artística não correspondia inteiramente ao verdadeiro aspeto físico do poeta.
Em 2007, uma equipa coordenada por Giorgio Gruppioni, da Universidade de Bolonha, realizou uma reconstrução facial baseada no modelo craniano elaborado por Frassetto, com a colaboração do antropólogo Francesco Mallegni, da Universidade de Pisa, e do escultor Gabriele Mallegni.[280][281] Segundo os investigadores, o modelo reproduz cerca de 95% da aparência real de Dante e revela um rosto de traços menos angulosos e um nariz menos proeminente do que aquele que se popularizou na pintura renascentista. A reconstrução aproxima-se sobretudo do retrato realizado poucos anos após a morte do poeta pela escola de Giotto, considerado o testemunho iconográfico mais fidedigno da sua aparência.[279]
- Galeria de Retratos da Universidade do Texas
- Dante em A Disputa do Sacramento, de Rafael
- Retrato atribuído à escola de Giotto di Bondone
Ver também
- A Divina Comédia
- Asteroide 2999 Dante, que recebeu o nome em honra do poeta.
- Beatrice Portinari
- Escritores italianos
Notas
- ↑ Dante expõe esta sua convicção em Convivio IV, XXIII 9: «Là dove sia lo punto sommo di questo arco, per quella disaguaglianza che detta è di sopra, è forte da sapere; ma ne li più io credo tra il trentesimo e quarantesimo anno, e io credo che ne li perfectly naturati esso ne sia nel trentacinquesimo anno».
- ↑ Os críticos literários Umberto Bosco e Giovanni Reggio sustentam que Dante foi influenciado por uma passagem extraída da Bíblia: «L'opinione era ricalcata d'altronde su un passo biblico: "Dies annorum nostrorum sunt septuaginta anni" (Psalmus 90 (89), 10))» (Dante Alighieri, La Divina Commedia, a cura di Umberto Bosco e Giovanni Reggio, Vol. 1 Inferno, p. 7).
- ↑ Barbero 2020, p. 63 recorda como os diminutivos eram comuns na Florença medieval.
- ↑ Relativamente ao debate sobre a nobreza da família Alighieri, consulte-se: Carpi 2004; Barbi 1925
- ↑ Barbero 2020 recorda que a família de Dante não pertencia à nobreza mas, dado que esta era recordada com o apelido "Alagherii", isso indicava que a família do poeta era superior a muitas outras famílias da cidade. Para ser mais preciso, o historiador diz: «Não é a nobreza, mas é o emergir da massa».
- ↑ Nem todos concordam em atribuir a maternidade de Tana a Lapa di Chiarissimo Cialuffi. Veja-se Barbero 2020, p. 66: «E, portanto, Tana era irmã de Dante para todos os efeitos, filha de Alighiero e Bella...»
- ↑ O último verso recorda, de facto, o Sonho de Cipião (Somnium Scipionis) de Cícero, onde os homens que se distinguiram pelos seus méritos cívicos encontram finalmente a paz numa espécie de «paraíso», eternizando-se (como afirma precisamente Dante).
- ↑ Veja-se a relação polémica com Orbicciani em Purgatório, XXIV, vv. 52–62, onde surge também a primeira definição de Stil novo.
- ↑ O conhecimento do provençal por parte de Dante pode ser reconstituído quer a partir das citações presentes no De vulgari eloquentia, quer dos versos em provençal inseridos no Purgatório (Canto XXVI, vv. 140–147]).
- ↑ Dante alude à morte violenta de Corso Donati no [Purgatório XXIV, vv. 82–84], colocando a profecia post eventum na boca do seu irmão, Forese: «"Agora vai", disse ele; "pois aquele que mais culpa tem,/vejo-o arrastado pela cauda de uma besta/para o vale onde jamais há remissão./A besta avança a cada passo mais veloz,/acelerando sempre, até que o derruba,/e deixa o corpo vilmente desfeito». O tema da cavalgada infernal constitui um topos literário bem conhecido da literatura medieval, sendo retomado posteriormente tanto por Giovanni Boccaccio como por Jacopo Passavanti.
- ↑ O próprio Dante mencionaria Carlos Martel de Anjou na Divina Comédia ([Paraíso VIII, v. 31] e [X, v. 1]).
- ↑ O texto integral das sentenças foi publicado em Dante Ricci (ed.), Il processo di Dante, Florença, Arnaud, 1967 (nova edição com apresentação de Morris L. Ghezzi, Udine, Mimesis, 2011); Malato 2015.
- ↑ A notícia do encontro entre Dante e Scarpetta Ordelaffi foi transmitida pelo humanista Flavio Biondo, natural de Forlì. Cf. Barbero 2020.
- ↑ «...10 de junho: Niccolò da Prato abandona Florença; última década de junho: os Negros consolidam o seu poder na cidade, apoderando-se de todos os cargos públicos.» (Petrocchi 2008).
- ↑ Havia já vários anos que a Itália era devastada pelas guerras civis entre guelfos e gibelinos. Além disso, desde 1305, papa Clemente V instalara a sua corte em Avinhão, enquanto o imperador Alberto I evitava intervir nos assuntos italianos, provocando a célebre invectiva política de Dante no Purgatório VI, vv. 97–99.
- ↑ Foi provavelmente nesta ocasião que Dante encontrou, em Pisa, o seu velho amigo Ser Petracco e o seu filho, o futuro Francesco Petrarca, então ainda criança, segundo o próprio Petrarca nas Familiares XXI, 15. Cf. o artigo sobre Francesco Petrarca e Barbero 2020.
- ↑ A ascensão da ala mais extremista dos Guelfos Negros tornou praticamente impossível o regresso dos exilados. Em 1315, após a derrota dos Guelfos Negros perante Uguccione della Faggiuola, a comuna de Florença decretou uma amnistia destinada a numerosos exilados, entre os quais figurava Dante. O perdão, porém, estava condicionado ao pagamento de uma multa e à participação numa cerimónia pública de penitência, durante a qual os beneficiados deveriam reconhecer a sua culpa perante as autoridades da cidade. Dante recusou submeter-se a tais condições, considerando-as incompatíveis com a sua honra. Numa carta dirigida a um amigo florentino, afirmou que jamais regressaria por um caminho que ofendesse a sua dignidade, preferindo permanecer no exílio. Não apenas Dante, mas também os seus filhos Jacopo e Pietro foram condenados à morte por não terem aceite a amnistia. Cf. Barbero 2020.
- ↑ Dante deixa transparecer essa falta de estima em Convívio], IV, XVI, 6. Cf. Varanini 1989.
- ↑ «... pode deduzir-se que o senhor de Ravena quis encarregá-lo, talvez mais de uma vez, de missões diplomáticas e de trabalhos de chancelaria, nunca porém de um serviço contínuo e oficial de secretário.» (Petrocchi 2008).
- ↑ «A difusão da biografia de Boccaccio produziu os seus efeitos. Em 1373, os cidadãos de Florença solicitaram aos priores a organização de um ciclo de leituras públicas da Comédia.» (Reynolds 2007).
- ↑ De vulgari eloquentia, I, II, 1
- ↑ Apesar das visões oníricas e da abundante simbologia presentes na Vida Nova]], a obra decorre no quadro da Florença medieval e faz referência a pessoas e acontecimentos reais. Entre eles contam-se o próprio Guido Cavalcanti, a quem Dante chama «o primeiro dos meus amigos»,Vita nova III, 14: “... io chiamo primo de li miei amici…”), uma provável alusão às campanhas militares de 1289 (Vita Nova, IX,1: «Appresso la morte di questa donna alquanti die avvenne cosa per la quale me convenne partire de la sopradetta cittade e ire verso quelle parti dov'era la gentile donna ch'era stata mia difesa...»), e a morte de Folco Portinari, pai de Beatriz.(Vita nuova XXII, 1: ‘’Appresso ciò non molti dì passati, sì come piacque al glorioso sire lo quale non negoe la morte a sé, colui che era stato genitore di tanta maraviglia quanta si vedea ch'era questa nobilissima Beatrice, di questa vita uscendo, a la gloria etternale se ne gio veracemente») e via dicendo.’’
- ↑ Andrea Cortellessa. «Purgatório, Canto XXX: comentário crítico». Oilproject. Consultado em 21 de maio de 2015. Cópia arquivada em 1 de dezembro de 2017.
Quando Beatriz «passa à segunda vida», isto é, morre, Dante comete a sua culpa: muda de vida; perde a direita via, o caminho reto; «afastou-se de mim e entregou-se a outrem». Não se trata do ciúme de uma mulher viva, mas da alegoria da perda do papel e do sentido da existência que Dante evidentemente experimentou.
- ↑ Como manifesta o soneto programático Tanto gentile e tanto onesta pare (‘’Vita nuova’’, cap. XXVI), Dante estende a todos os homens os benefícios da visão de Beatriz («Mostrasi sì piacente a chi la mira,/che dà per li occhi una dolcezza al core,/che 'ntender no la può chi no la prova»).
- ↑ O número nove é, não por acaso, um múltiplo do número três que, na numerologia judaico-cristã, representa a perfeição de Deus, por simbolizar as três pessoas da Trindade. Veja-se Chines 2007, p. 51.
- ↑ Como observa Reynolds, “todo este conjunto de filósofos, poetas, moralistas e cientistas representa as credenciais científicas de Dante, a sua "bibliografia" de referência, as fontes autorizadas daquilo que se preparava para escrever sobre o inferno, o purgatório e o paraíso”.
- ↑ Dante descreve-o nos seguintes termos: “Quivi, secondo che per ascoltare,/non avea pianto mai che di sospiri/che l'aura etterna facevan tremare» (Inferno IV, vv. 25-27): “‘’Ali, segundo o que era possível ouvir,/não havia outro pranto senão o dos suspiros/que faziam tremer o ar eterno.’’” E explica posteriormente a razão da condenação dessas almas: “... s'elli hanno mercedi,/non basta, perché non ebber battesmo,/ch'è porta de la fede che tu credi;/e s'e’ furon dinanzi al cristianesmo,/non adorar debitamente a Dio:/e di questi cotai son io medesmo./Per tai difetti, non per altro rio,/semo perduti, e sol di tanto offesi/che sanza speme vivemo in disio». (Inferno IV, vv. 34-42): “... se eles tiveram méritos,não bastam, porque não receberam o batismo,/que é a porta da fé em que tu crês;/e, se viveram antes do cristianismo,/não adoraram devidamente a Deus:/e entre estes estou eu também./Por tais faltas, e não por outro pecado,/estamos perdidos, e apenas sofremos isto:/vivermos sem esperança no desejo.”
- ↑ Lisa Pericoli. «La "Commedia" di Dante: fonti e modelli». Oilproject. Consultado em 21 de maio de 2015. Cópia arquivada em 1 de abril de 2018.
’’Né si può dimenticare che alla base della rilettura dei “classici” c’è sempre, nella mentalità medievale, la teoria dei “quattro sensi” dell’interpretazione: il senso letterale (che trasmette la “lettera” del testo, ovvero il suo riferirsi al mondo reale), quello allegorico (in cui dietro la storia fittizia c’è un senso recondito da scoprire), quello morale (relativo all’insegnamento etico che si può desumere dalle pagine scritte) e quello anagogico (che reinterpreta il contenuto dell’opera in ottica spiritual-salvifica).”: “Também não se pode esquecer que, na base da releitura dos “clássicos”, está sempre, na mentalidade medieval, a teoria dos “quatro sentidos” da interpretação: o sentido literal (que transmite a “letra” do texto, isto é, a sua referência ao mundo real), o alegórico (em que, por detrás da história fictícia, existe um sentido oculto a descobrir), o moral (relativo ao ensinamento ético que se pode extrair das páginas escritas) e o anagógico (que reinterpreta o conteúdo da obra numa perspetiva espiritual e salvífica).”
- ↑ De Matteis 1970: “[As obras de Aristóteles]... tinham-se tornado, por volta de meados do século XIII, os textos fundamentais e praticamente únicos em que se ensinava filosofia nas faculdades de Artes; «Assim, o aristotelismo, a partir de meados do século, passou a constituir a “filosofia” por excelência e única, à qual todos os mestres faziam referência”.
- ↑ Anselmi-Ruozzi 2003, p. 223, Citação: ”... o Inferno de Dante é fundamentalmente tripartido. Nos primeiros seis círculos encontram-se os culpados de incontinência, no sétimo os de violência, e no oitavo e no nono os de fraude. Esta tripartição deve-se, em parte, à Ética a Nicómaco de Aristóteles e, por outro lado, ao De Officiis de Cícero, este último mediado pelo Corpus iuris civilis de Justiniano.”.
- ↑ A edição crítica tradicional de Barbi, de 1921, conta 42 capítulos; a de Gorni, de 1996, revê essa divisão, contando 31.
- ↑ “Sì come dice lo Filosofo nel principio de la Prima Filosofia, tutti li uomini naturalmente desiderano di sapere”: “Assim como diz o Filósofo no princípio da Primeira Filosofia, todos os homens desejam naturalmente saber.” (Convívio I, 1)
- ↑ ’’Ma vegna qua qualunque è [per cura] familiare o civile ne la umana fame rimaso, e ad una mensa con li altri simili impediti s'assetti; e a li loro piedi si pongano tutti quelli che per pigrizia si sono stati, che non sono degni di più alto sedere: e quelli e questi prendano la mia vivanda col pane, che la far[à] loro e gustare e patire.”: “Venha, pois, todo aquele que, por preocupações familiares ou civis, ficou para trás na humana fome [de saber], e sente-se à mesma mesa com os outros que, por motivos semelhantes, foram impedidos; e aos seus pés se coloquem todos aqueles que se abstiveram por preguiça, não sendo dignos de ocupar um lugar mais elevado: e uns e outros tomem o meu alimento com o pão que fará com que o saboreiem e o assimilem.” (Convívio I, 13).
- ↑ Segundo uma notícia transmitida por Boccaccio, Benvenuto e pelo anónimo florentino, os primeiros sete cantos teriam sido compostos em Florença antes do exílio. Tendo ficado em Florença e sido encontrados pela sua esposa, teriam sido entregues ao poeta durante a sua estadia na Lunigiana, onde retomaria a composição da obra. Sobre esta questão, ver Ferretti 1935 e Ferretti 1950, pp. 3–25.
- ↑ Leonardo Rossi. «La Lingua della Commedia». Consultado em 27 de fevereiro de 2018.
’’Ebbene, in un quadro tanto eterogeneo Dante sa vedere, profeticamente, ciò che nessun altro aveva visto: la possibilità stessa di un unitario spazio letterario italiano [...] E sarà la fama del poema, attestata già mentre Dante era in vita, ad assicurare al volgare fiorentino il prestigio necessario per travalicare i confini della Toscana e raggiungere ampi strati sociali, non solo quelli di più alta cultura.’’: Pois bem, num quadro tão heterogéneo, Dante sabe ver, profeticamente, aquilo que mais ninguém vira: a própria possibilidade de um espaço literário italiano unitário [...] E será a fama do poema, atestada já enquanto Dante era vivo, a assegurar ao vulgar florentino o prestígio necessário para ultrapassar as fronteiras da Toscânia e alcançar amplas camadas sociais, e não apenas as de mais elevada cultura.
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Ligações externas
- «A Divina Comédia - Texto integral». - tradução de José Pedro Xavier Pinheiro (em português)
- «A Divina Comédia - Inferno». - tradução de José Pedro Xavier Pinheiro
- «A Divina Comédia - Purgatório». - tradução de José Pedro Xavier Pinheiro (em português)
- «A Divina Comédia - Paraíso». - tradução de José Pedro Xavier Pinheiro
- «IntraText Digital Library - Obras de Dante Alighieri». - (em português)
- «Obras de Dante Alighieri» (em italiano). PDF, TXT, RTF
