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Acontecimentos que levaram ao ataque a Pearl Harbor
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Os acontecimentos que levaram ao ataque a Pearl Harbor começaram em julho de 1940, meses após o início da Segunda Guerra Mundial, quando militares e políticos japoneses favoráveis à aliança com a Alemanha nazista e a Itália fascista —que haviam acabado de derrotar a França— conseguiram derrubar o primeiro-ministro Mitsumasa Yonai, que se opunha ao pacto por considerar que ele levaria à guerra contra o Reino Unido e os Estados Unidos. A mudança na política externa do Japão foi confirmada em setembro, quando o país decidiu ocupar o norte da Indochina francesa e assinou o Pacto Tripartite que o unia às potências europeias do Eixo.
Em maio do ano seguinte, os Estados Unidos expuseram sua posição nos chamados Quatro Princípios, apresentados pelo secretário de Estado Cordell Hull, totalmente contrários à política expansionista japonesa, cujo objetivo era estabelecer uma área exclusiva na Ásia Oriental e no Pacífico ocidental, chamada Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. A invasão alemã da União Soviética no final de junho de 1941 foi aproveitada pelo Japão para completar a ocupação da Indochina francesa, operação diante da qual o presidente americano Franklin D. Roosevelt reagiu impondo duras sanções econômicas, incluindo o embargo às exportações de petróleo.
Os Estados-Maiores do Exército e da Marinha imperiais, apoiados pelo ministro da Guerra, general Hideki Tojo, pressionaram o primeiro-ministro Fumimaro Konoe a entrar em guerra contra os Estados Unidos. Diante da impossibilidade de Konoe de prorrogar o prazo estabelecido para chegar a um acordo com os Estados Unidos antes de recorrer à força, ele apresentou sua renúncia em 16 de outubro. Foi substituído pelo general Tojo, que recebeu do imperador a tarefa de esgotar todas as possibilidades de acordo diplomático antes de declarar guerra. O novo prazo foi fixado para 30 de novembro, embora os preparativos bélicos não tenham sido abandonados —o plano de ataque à base naval americana de Pearl Harbor apresentado pelo almirante Yamamoto foi aprovado em 20 de outubro, no mesmo dia em que o gabinete de Tojo foi formado— e os líderes políticos e militares japoneses não fizeram nenhuma concessão importante às demandas americanas, exceto a retirada das tropas japonesas do sul da Indochina. Por isso, em 26 de novembro de 1941, o secretário Hull entregou aos representantes japoneses o que depois ficou conhecido como a Nota de Hull, na qual se exigia que o Japão retirasse completamente suas tropas não só da Indochina, mas também da China, além de romper a aliança com a Alemanha nazista.
A Nota de Hull foi considerada um ultimato pelos dirigentes japoneses, e em 1.º de dezembro a Conferência Imperial deu luz verde para entrar na guerra.
O momento escolhido foi fixado para as 8h00 (horário do Havaí, 13h30 em Washington D.C.) de 7 de dezembro de 1941.
Um problema técnico relacionado ao deciframento da mensagem pela embaixada japonesa fez com que o comunicado fosse entregue apenas às 14h20, quando já fazia uma hora que os aviões japoneses haviam iniciado o bombardeio. No dia seguinte, o presidente Roosevelt dirigiu-se ao Congresso para pedir a declaração de guerra ao Japão. Seu discurso começou dizendo: «Ontem, 7 de dezembro de 1941, uma data que viverá na infâmia, os Estados Unidos da América foram atacados de forma repentina e deliberada por forças navais e aéreas do Império do Japão».
Antecedentes

O Japão havia se tornado uma grande potência no Extremo Oriente na última década do século XIX e na primeira do século XX, durante a Era Meiji, graças às suas retumbantes vitórias na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894-1895) e na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), pelas quais obteve a posse de Taiwan, da Coreia e da parte sul da Ilha de Sacalina, além de direitos de arrendamento sobre a região chinesa da Manchúria que incluíam o controle da faixa de território por onde passava a Ferrovia do Sul da Manchúria, para o que mobilizou o Exército de Kwantung.[1][2] Embora a «área de influência» japonesa sobre o norte da China tenha se consolidado e ampliado após a Primeira Guerra Mundial, na qual o Japão participou ao lado dos aliados vencedores, o país foi obrigado a assinar o Tratado das Nove Potências (1922), acordado após a Conferência de Washington, pelo qual se reconhecia e garantia a soberania e integridade territorial da China e a política de portas abertas, defendida fundamentalmente pelos Estados Unidos.[3][4]

O «sistema de Washington», como foi chamado, começou a ser questionado pelo Japão em consequência do impacto da Grande Depressão iniciada em 1929.[5] As dificuldades econômicas que trouxe consigo —as exportações japonesas foram reduzidas à metade, o que se traduziu em uma drástica queda das importações de alimentos, matérias-primas e fontes de energia, especialmente petróleo, das quais o Japão carecia—[6] fortaleceram os grupos ultranacionalistas e militaristas, integrados também por oficiais do Exército,[7] que rejeitavam a cultura ocidental[8] e, em seu lugar, defendiam os valores tradicionais japoneses («niponismo» em oposição ao «ocidentalismo»).[9]

Assim, a ideia liberal da monarquia constitucional foi descartada —seu principal defensor, o prestigiado jurista Tatsukichi Minobe, foi acusado em 1935 do crime de «lesa-majestade» e obrigado a abandonar sua cátedra na Universidade de Tóquio— e, em seu lugar, impôs-se o culto ao imperador —apresentado como um «deus vivo», encarnação da nação—.[10] Em 1937, o ministro da Educação, o general da reserva Sadao Araki, antigo líder da facção mais ultranacionalista do Exército (Kodoha ou Facção do Caminho Imperial), promulgou uma lei intitulada Fundamentos do Regime Nacional (Kokutai no Hongi), na qual se afirmava que o imperador descendia da deusa Amaterasu, e que era a fonte da vida e da moralidade do povo. Da mesma forma, exaltavam-se as virtudes da lealdade, patriotismo, amor filial, harmonia, espírito nacional (kokutai) e bushido (o código dos guerreiros samurais), enquanto se condenava o individualismo ocidental, origem de movimentos indesejáveis como a democracia, o socialismo e o comunismo.[11]
Por outro lado, desde maio de 1932 os governos japoneses deixaram de ser parlamentares e passaram a ser integrados, em sua maioria, por pessoas não ligadas aos dois grandes partidos —o conservador Rikken Seiyukai e o liberal Rikken Minseito— e por altos comandantes do Exército e da Marinha.[12] A influência dos militares sobre o governo aumentou paradoxalmente após o fracassado golpe de Estado liderado pela facção Kodoha e conhecido como o Incidente de 26 de fevereiro de 1936.[13] No ano seguinte, instituiu-se a conferência de ligação entre o governo e os Estados-Maiores do Exército e da Marinha Imperiais, que passou a ser o órgão no qual, a partir de então, eram tomadas as grandes decisões, especialmente as relativas à política externa e à guerra; essas decisões eram depois sancionadas na Conferência Imperial, presidida pelo imperador, nas quais o presidente do Conselho Privado formulava as perguntas em seu nome, enquanto este permanecia em silêncio.[14]
Na política externa, os ultranacionalistas, com uma influência cada vez maior entre a classe dirigente civil e militar japonesa, rejeitavam o «sistema de Washington» e defendiam a criação de uma «zona exclusiva» na Ásia e no Pacífico, na qual o Japão poderia obter o que não conseguia em seu próprio território, ainda que isso significasse enfrentar as potências ocidentais com importantes interesses coloniais e econômicos na região: Reino Unido, França, Países Baixos e Estados Unidos.[15]

Embora a primeira concretização dessa política não tenha ocorrido até 1936,[16] o primeiro passo na formação da futura «Grande Ásia» foi a anexação da Manchúria em setembro de 1931.[17][18] Ali, o Japão estabeleceu um Estado fantoche chamado Manchukuo e colocou à frente dele Pu Yi, o último imperador da China. Nenhum governo reconheceu a nova administração.[19][20] Em março de 1933, o Japão abandonou a Sociedade das Nações[21][22] em protesto contra o relatório da Comissão Lytton que, após investigar o «incidente da Manchúria», condenara a intervenção japonesa e recomendara a retirada de suas tropas e a devolução da soberania da região à China.[23][24] No entanto, essa organização supranacional não foi além e não impôs nenhum tipo de sanção ao Japão. Os Estados Unidos, que não faziam parte dela, também não adotaram nenhuma medida. Contudo, o Japão ficou isolado internacionalmente, isolamento que se acentuou quando o governo, pressionado pela Marinha, denunciou em dezembro de 1934 o Tratado Naval de Londres de 1930 sobre a limitação de navios de guerra.[25] O Japão pareceu romper seu isolamento em novembro de 1936 ao aderir ao Pacto Anticomintern, que havia sido assinado pela Alemanha nazista e pela Itália fascista com o objetivo de buscar apoio para uma possível guerra contra a União Soviética na fronteira do norte da China, que constituía a principal preocupação do Exército Imperial Japonês.[16] Mas essa estratégia veio abaixo três anos depois com a assinatura do pacto germano-soviético em agosto de 1939.[26]

O segundo passo rumo à «Grande Ásia» foi a invasão da China, iniciada em julho de 1937. Após a rápida ocupação de Pequim,[27] os japoneses avançaram para o sul e, em novembro de 1937, tomaram Xangai.[28][29][30] No mês seguinte caiu a capital chinesa, Nanquim, onde os soldados japoneses desencadearam uma onda de saques e terror que resultou no assassinato de cerca de 200 000 pessoas,[31] entre soldados prisioneiros e civis, além do estupro de milhares de mulheres antes de sua execução.[32][33][34] Em outubro de 1938, Cantão caiu nas mãos dos japoneses,[35][36] de modo que, no final daquele ano, eles já haviam ocupado uma parte importante da China, embora na região de Chongqing ainda resistissem as forças do Kuomintang de Chiang Kai-shek, e na de Yan'an as do Partido Comunista da China de Mao Tsé-Tung.[37][38]

Convencido de que a guerra da China estava ganha, o primeiro-ministro Fumimaro Konoe anunciou, no final de 1938, o nascimento de uma «Nova Ordem» para a Ásia, que dois anos depois receberia o nome de Dai To-A Kyoeiken, ou Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental, e que na prática significava o domínio do Japão sobre toda a região convertida em seu Lebensraum ou «espaço vital».[35][39] No entanto, o anúncio revelou-se prematuro porque a guerra sino-japonesa continuou, e em janeiro de 1939 Konoe teve de renunciar.[40] No mês seguinte, os japoneses se apoderaram da ilha de Hainan, no golfo de Tonquim, de onde podiam ameaçar a Indochina francesa, as Índias Orientais Neerlandesas[39] e as Filipinas, então sob controle dos Estados Unidos (que, por outro lado, haviam começado a apoiar Chiang Kai-shek concedendo um crédito de 25 milhões de dólares). Além disso, o Congresso, a pedido do presidente Franklin D. Roosevelt, decidido a conter o expansionismo japonês, revogou em julho de 1939, com vigência a partir de 1.º de janeiro de 1940, o Tratado de Comércio e Navegação com o Japão de 1911,[41] o que se previa que teria consequências muito negativas para a economia japonesa, já que um terço das importações do Japão provinha dos Estados Unidos, incluindo bens vitais como sucata para a indústria siderúrgica e petróleo.[39]
Acontecimentos de 1940
16 de julho: a facção pró-Eixo liderada pelo Exército derruba o primeiro-ministro Yonai

Mesmo antes do início da Segunda Guerra Mundial na Europa, os líderes militares mantiveram um intenso debate sobre se o Japão deveria aliar-se à Alemanha nazista e à Itália fascista. A oposição mais frontal era a do ministro da Marinha, o almirante Mitsumasa Yonai,[42] apoiado por seus dois homens de confiança, o vice-ministro da Marinha, o almirante Isoroku Yamamoto, e o chefe de Assuntos Militares do Ministério, o vice-almirante Shigeyoshi Inoue. Os três estavam convencidos de que a aliança com as potências fascistas europeias levaria à guerra contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, um confronto para o qual a Marinha japonesa não estava preparada. Assim se manifestou o ministro Yonai na tensa reunião do governo de agosto de 1939, conseguindo impedir a aliança; a esse respeito, o imperador Hirohito comentaria: «Graças à Marinha, nosso país foi salvo». Yonai temia ser vítima de um atentado por parte dos setores ultranacionalistas, como já havia ocorrido antes; temendo também que o mesmo pudesse acontecer com seu vice-ministro, o almirante Yamamoto, afastou-o de Tóquio e, no mesmo mês de agosto, nomeou-o comandante da Frota Combinada, apesar de Yamamoto insistir em permanecer no Ministério. Também nomeou para um posto distante da capital o vice-almirante Inoue, um declarado antinazista que havia lido Mein Kampf em alemão e conhecia os comentários depreciativos sobre o Japão que apareciam na obra original, mas que haviam sido suprimidos na tradução para o japonês.[43]


Em janeiro de 1940, o imperador Hirohito nomeou o almirante Yonai primeiro-ministro do Japão —com Hachiro Arita, também contrário à aliança com a Alemanha e a Itália, como ministro das Relações Exteriores—, mas essa decisão não intimidou os militares pró-Eixo, integrados pela quase totalidade dos altos comandos do Exército Imperial Japonês e por um setor da Marinha cada vez mais numeroso conforme os sucessos de Hitler na guerra na Europa se sucediam. Esses militares acreditavam que a aliança com as potências europeias do Eixo obrigaria a Grã-Bretanha a deixar de apoiar a China na Segunda Guerra Sino-Japonesa iniciada em 1937. Além disso, descartavam a intervenção dos Estados Unidos porque, como país «historicamente isolacionista», nas palavras do contra-almirante Takazumi Ika, não se atreveria a desafiar a poderosa aliança alemã-ítalo-japonesa colocando-se ao lado de uma Grã-Bretanha «já em declínio».[43] No entanto, tanto os políticos e militares pró-Eixo quanto os contrários à aliança concordavam com a necessidade de estabelecer uma «nova ordem» na Ásia Oriental que garantisse ao Japão o acesso às matérias-primas e fontes de energia de que necessitava e acabasse com o domínio na área das potências ocidentais. O desacordo residia em como consegui-lo.[44]
Quando ocorreu a rendição da França em junho de 1940, os altos comandos militares concordaram que era preciso aproveitar a «oportunidade de ouro» que se apresentava para expandir-se rumo ao sudeste da Ásia e estabelecer uma «esfera econômica autossuficiente» que iria do Oceano Índico aos mares do Sul. «Nunca em nossa história houve um momento como o presente, quando é tão urgente planejar o desenvolvimento de nosso poder nacional (...). Não devemos deixar escapar a oportunidade favorável que agora se apresenta», dizia a declaração do Exército na qual fixava sua posição. Mas para essa nova política, sintetizada no lema «defesa no norte e avanço no sul», era necessário um novo governo.[45]

A operação para derrubar o primeiro-ministro Yonai foi posta em marcha em julho, quando o ministro da Guerra Shunroku Hata renunciou, e o Exército se recusou a indicar um substituto, o que implicava a dissolução imediata do governo. Assim, Yonai não teve outra opção senão renunciar em 16 de julho, e o novo primeiro-ministro nomeado pelo imperador no dia seguinte foi o príncipe Fumimaro Konoe, o candidato favorito do Exército e que já havia estado à frente do governo quando começou, em 1937, o Incidente da China.[46][47] As pessoas que ocuparam os dois cargos-chave do gabinete também foram as indicadas pelo Exército: o general belicista Hideki Tojo, como ministro da Guerra, e o político e diplomata pró-Eixo Yosuke Matsuoka, como ministro das Relações Exteriores.[48] Em 22 de julho formou-se o novo governo e, no dia seguinte, o primeiro-ministro Konoe anunciou em um discurso transmitido pelo rádio que a antiga ordem mundial estava desmoronando e que o Japão precisava estar preparado para dar as boas-vindas à nova.[49] O ministro Matsuoka expressou isso de forma ainda mais clara:[50]
Em 27 de julho[51] reuniu-se a conferência de ligação com os Estados-Maiores do Exército e da Marinha na qual foi aprovada a declaração «Princípios Fundamentais da Política Básica Nacional», cujo rascunho havia sido elaborado pelo Exército. Nela fixava-se como objetivo instituir uma nova ordem na Ásia Oriental, que, segundo explicou o ministro das Relações Exteriores Yosuke Matsuoka, consistiria na criação de uma Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental. Na conferência, também foi acordado dar continuidade à expansão japonesa para o Sudeste Asiático, um objetivo estratégico defendido sobretudo pelo Estado-Maior da Marinha —para acessar os depósitos de petróleo das Índias Orientais Neerlandesas—, e que o Exército também apoiou, embora sua maior preocupação continuasse sendo a fronteira do norte da China e da Mongólia com a União Soviética, onde no ano anterior havia sofrido uma contundente derrota.[52] Segundo o historiador Antony Beevor, essa derrota foi chave para que os partidários de «atacar no sul», ou seja, situar como objetivo estratégico as colônias francesas, holandesas e britânicas do sudeste asiático e enfrentar a frota americana do Pacífico, se impusessem aos partidários de «atacar no norte» —isto é, enfrentar a União Soviética—.[53] Por fim, a declaração propunha o fortalecimento das relações com as potências do Eixo. «Devemos decidir compartilhar nosso destino com a Alemanha e a Itália», disse o subchefe do Estado-Maior do Exército.[54]
23 de setembro: o Japão ocupa o norte da Indochina francesa

Após a derrota da França em junho de 1940 pela Alemanha nazista, o Japão pressionou as autoridades coloniais francesas da Indochina —que dependiam do governo colaboracionista de Vichy— para que autorizassem a entrada de suas tropas no norte da Indochina, o que finalmente conseguiu —iniciando-se a ocupação em 23 de setembro—.[55][56] O motivo imediato era fechar a rota de abastecimento da China pela qual chegava a ajuda britânica e americana ao governo nacionalista de Chiang Kai-shek —o Japão tentava assim pôr fim ao «incidente da China», eufemismo usado pelos japoneses para se referir à Segunda Guerra Sino-Japonesa—.[57][58][59] Mas também era uma resposta ao cancelamento, no início do ano, do Tratado de Comércio e Navegação com os Estados Unidos —o que vinha criando graves problemas econômicos ao não poder acessar determinadas matérias-primas—[60] e à transferência da base da frota americana do Pacífico para Pearl Harbor, nas Ilhas Havaí, decidida em janeiro,[61] o que se somava a outras medidas acordadas anteriormente pelo presidente Roosevelt como resposta à invasão japonesa da China.[62]

Os Estados Unidos interpretaram a ocupação do norte da Indochina como uma nova prova da intenção do Japão de constituir um grande império na Ásia Oriental e, em 26 de setembro, o presidente Roosevelt ordenou o embargo aos envios de sucata, imprescindíveis para a indústria siderúrgica japonesa, e também aumentou a ajuda econômica a Chiang Kai-shek.[62] O governo da Grã-Bretanha entendeu-a da mesma forma e reabriu a rota da Birmânia para abastecer a China, além de conceder um novo empréstimo ao seu governo.[63][55] Os holandeses, aliados dos britânicos, recusaram-se a permitir o acesso do Japão às Índias Orientais Neerlandesas, ricas em petróleo. A reação das potências ocidentais avivou a ideia difundida pelos partidários da guerra de que o Japão estava sendo submetido ao «Cerco ABCD» (de Estados Unidos, Grã-Bretanha, China e Países Baixos).[64]
27 de setembro: assinatura do Pacto Tripartite entre Japão, Alemanha e Itália

Enquanto isso, o governo do príncipe Fumimaro Konoe vinha negociando com a Alemanha nazista a assinatura de uma aliança militar.[65] A iniciativa partira do ministro japonês Matsuoka, que recebeu o apoio entusiástico do Exército, e no início de setembro havia chegado a Tóquio Heinrich Stahmer, assessor de Joachim von Ribbentrop, para iniciar as conversas.[66]
Na conferência de ligação de 14 de setembro, na qual foi aprovada a Aliança —decisão ratificada na Conferência Imperial realizada cinco dias depois—, Matsuoka explicou que o Japão se encontrava em uma encruzilhada e que a melhor alternativa era aliar-se ao Eixo, que segundo ele estava prestes a derrotar a Grã-Bretanha, já que unir-se a esta e aos Estados Unidos suporia que «deveríamos resolver o Incidente da China como os Estados Unidos nos dissessem, abandonar nossa esperança de uma Nova Ordem na Ásia Oriental e obedecer aos ditames anglo-americanos ao menos durante o século seguinte». E em seguida perguntou retoricamente: «Estariam satisfeitos com isso os centenas de milhares de espíritos de nossos soldados mortos?». «Uma aliança com os Estados Unidos é impensável. O único caminho que nos resta é aliar-nos à Alemanha e à Itália», concluiu.[67]

Mas, para superar a oposição da Marinha ao acordo —à qual preocupava que a aliança pudesse conduzir a uma guerra contra os Estados Unidos, para a qual não estava ainda preparada e que, se prolongada, não poderia ser vencida—, Matsuoka teve de conceder que o Japão manteria sua independência na hora de decidir se entrava ou não em guerra e depois conseguir que a Alemanha aceitasse —embora a redação final desse ponto não estivesse isenta de ambiguidade—.[68] Outro elemento que acabou por convencer a Marinha foi a promessa de aumentar o orçamento naval.[69]
Matsuoka estava convencido de que o acordo com a Alemanha e a Itália fortalecia a posição do Japão nas futuras negociações com o governo de Washington.[70][71] O mesmo pensava o primeiro-ministro Konoe, que o apoiou, embora estivesse consciente dos riscos que isso acarretava. Assim, aos conselheiros imperiais reunidos no dia anterior à assinatura do pacto em Berlim, que expressaram dúvidas sobre o passo que seria dado, disse: «Temos de adotar uma postura firme em relação aos Estados Unidos para que não subestimem o Japão… Mas, caso se concretize o pior cenário, meu governo está determinado a enfrentá-lo».[72]

Em 27 de setembro, no dia seguinte ao anúncio das represálias dos Estados Unidos pela ocupação do norte da Indochina, assinou-se em Berlim o Pacto Tripartite dos dois países e da Itália fascista, segundo o qual cada uma das partes acudiria em ajuda daquela que fosse atacada por um terceiro, em clara referência aos Estados Unidos —já que naquele momento o outro possível agressor, a União Soviética, era aliada da Alemanha graças ao pacto germano-soviético assinado no final de agosto de 1939, poucos dias antes da invasão alemã da Polônia que deu início à Segunda Guerra Mundial—.[69][71] O ponto principal do Tratado dizia textualmente: as partes contratantes comprometem-se a «ajudar-se umas às outras com todos os meios políticos, econômicos e militares quando uma das três Partes Contratantes for atacada por uma potência que no presente não esteja envolvida na guerra europeia nem no conflito sino-japonês».[73]
Em 4 de outubro o primeiro-ministro Konoe declarou à imprensa: «Acho que será melhor para os Estados Unidos que tentem compreender as intenções do Japão e participem ativamente na construção da nova ordem mundial. Se os Estados Unidos interpretarem deliberadamente de forma errada a verdadeira vontade do Japão, Alemanha e Itália… e continuarem com suas provocações, não nos restará outra opção senão ir à guerra».[74] Essa nova etapa nas relações exteriores do Japão refletiu-se imediatamente em um aumento da tensão com os Estados Unidos —de fato, no início do ano seguinte as famílias do pessoal diplomático americano começaram a abandonar o Japão—.[72]
A ideia de que o Pacto Tripartite seria um fator dissuasivo em relação aos Estados Unidos revelou-se completamente equivocada, pois o governo americano o entendeu como a confirmação, junto com a ocupação do norte da Indochina, de que o Japão representava uma ameaça para o Extremo Oriente, da mesma forma que a Alemanha nazista representava para a Europa, e que devia ser detido.[56]
Acontecimentos de 1941
12 de maio: o embaixador japonês entrega em Washington a resposta aos «Quatro Princípios» do secretário Hull

Apesar de ter assinado o Pacto Tripartite, o governo japonês não desejava uma guerra com os Estados Unidos, devido ao fato de estes contarem com recursos muito superiores aos do Japão e à difícil situação econômica pela qual passava o país em consequência do esforço bélico provocado pelo interminável «incidente da China», sem esquecer sua dependência comercial em relação aos Estados Unidos, de onde provinha quase 90% do petróleo que consumia. Para tentar melhorar as relações com Washington, o primeiro-ministro japonês Konoe nomeou como novo embaixador o veterano almirante Kichisaburo Nomura, que simpatizava com as potências ocidentais, opunha-se à guerra e, além disso, era um velho conhecido do presidente Roosevelt.[62][75]
Nas conversas que Nomura manteve com o secretário de Estado americano Cordell Hull, este afirmou que só negociaria com o Japão se o país aceitasse os Quatro Princípios: o respeito à integridade territorial e à soberania dos países; a não ingerência em seus assuntos internos; o apoio ao princípio de igualdade de oportunidades, que incluía as relações comerciais; e a manutenção do status quo no Pacífico, que só poderia ser alterado por meios pacíficos.[76]

No entanto, o ministro das Relações Exteriores Matsuoka não aceitou os Quatro Princípios e alegou o direito do Japão ao uso da força, indo além até mesmo do que pensavam o Exército e a Marinha imperiais e o primeiro-ministro Konoe —embora este não tenha se atrevido a destituí-lo, pois teria desencadeado uma crise em seu governo—.[77] De fato, na conferência de ligação de 3 de maio, chegou a propor, para estupefação dos presentes, que o Japão atacasse a estratégica colônia britânica de Singapura,[64] tal como lhe haviam pedido Hitler e Goering na recente visita que fizera à Alemanha. Segundo Matsuoka, a conquista de Singapura também beneficiaria o Japão, porque obrigaria os Estados Unidos a repensar a possibilidade de uma guerra com ele.[78]

Nessa mesma conferência de ligação, o ministro das Relações Exteriores apresentou a resposta que devia ser dada à posição americana e que seria conhecida como o «Plano Matsuoka», no qual se instava os Estados Unidos a que, junto com o Japão, se esforçassem «por restabelecer a paz na Europa» —o que implicava a negociação com a Alemanha nazista, algo que Roosevelt não estava absolutamente disposto a fazer— e a que retirassem seu apoio ao governo chinês de Chiang Kai-shek. Também se exigia que as Filipinas, na época um território dos Estados Unidos, mantivessem «um status de neutralidade permanente» e que «a imigração japonesa nos Estados Unidos recebesse uma consideração amistosa, em termos de igualdade com outras nacionalidades e sem sofrer discriminação alguma». Por fim, não considerava necessário que no acordo que se assinasse com os Estados Unidos se fizesse referência a que «as atividades japonesas na área do Pacífico sudeste deverão ser realizadas por meios pacíficos, sem recorrer às armas», como havia aparecido em um rascunho de acordo redigido por meios extraoficiais, com o argumento de que «a política pacífica do governo japonês ficou clara em numerosas ocasiões». Com essa postura tão desafiadora, que surpreendeu até mesmo os militares, Matsuoka pretendia abordar as negociações com os Estados Unidos a partir de uma posição de força, pois, segundo ele, essa era a única linguagem que os americanos entendiam —«se você der um soco na cara deles, então eles o verão como igual e começarão a respeitá-lo», havia escrito Matsuoka sobre eles—.[79]
A resposta americana ao chamado «Plano Matsuoka», entregue em 12 de maio pelo embaixador Nomura ao secretário Hull, ocorreu em 21 de junho, coincidindo com o início da invasão alemã da União Soviética. Nela os Estados Unidos manifestavam seu compromisso com a manutenção da paz no Pacífico e negavam o direito do Japão de usar a força, reiterando assim os Quatro Princípios, cuja aceitação era necessária para iniciar a negociação. Na nota verbal que acompanhava a resposta, o secretário Hull criticou sem nomear o ministro Matsuoka, contrapondo sua atitude aos esforços a favor do entendimento que estava fazendo o embaixador Nomura. Hull lamentava que «alguns líderes japoneses que ocupam cargos influentes estejam claramente empenhados em uma política de apoio à Alemanha nazista e a suas ambições de conquista» e que, se os Estados Unidos entrassem em guerra na Europa, defenderiam que «o Japão lutasse ao lado de Hitler». «Este governo terá de esperar alguma indicação mais clara do que a que recebemos até agora de que o governo japonês como um todo deseja seguir as políticas de paz», dizia também a nota, o que constituía um pedido nada velado de que Matsuoka fosse substituído.[80]
2 de julho: a Conferência Imperial sanciona a decisão de ocupar o sul da Indochina francesa

A invasão da União Soviética pela Alemanha e seus aliados europeus abriu o debate entre os altos dirigentes japoneses sobre se o Japão deveria aproveitar a oportunidade para ganhar territórios no Extremo Oriente e atacar também a URSS,[81] e além disso demonstrar aos nazistas seu compromisso com o Pacto Tripartite, embora este não obrigasse o Japão a intervir, pois a Alemanha não havia sido agredida, mas era ela a agressora. Nas seis conferências de ligação realizadas na última semana de junho e no primeiro dia de julho, o «ataque ao norte» —como foi denominado a guerra com a URSS— foi defendido veementemente pelo ministro das Relações Exteriores Matsuoka,[64] mas os Estados-Maiores do Exército e da Marinha se opuseram —porque recordavam a derrota que lhes infligiu o Exército Vermelho em agosto de 1939—[59][82] e propuseram que a opção estratégica devia ser ocupar o resto da Indochina francesa, o que proporcionaria ao Japão arroz, estanho e borracha, além de uma base estratégica para um possível ataque sobre a Malásia Britânica e as Índias Orientais Neerlandesas —e também pressionaria estas últimas a vender mais petróleo ao Japão—. Matsuoka replicou que a «opção sul» provocaria duras represálias da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos —«prevejo que avançar para o sul será um grande desastre», declarou—, mas ao final acabou por aceitá-la —o primeiro-ministro Konoe não o apoiou—, embora continuou defendendo o «ataque ao norte», pois pensava que as duas ações podiam ser realizadas simultaneamente. Em uma última tentativa, Matsuoka solicitou que a «marcha para o sul» fosse adiada por seis meses, mas tampouco foi aceita a proposta.[83] O embaixador japonês em Washington, Nomura, também advertiu que a ocupação do sul da Indochina seria entendida pelos Estados Unidos como um passo para controlar o Sudeste Asiático, com vistas a Singapura e às Índias Orientais Neerlandesas, mas suas opiniões não foram levadas em conta.[76]

Uma vez alcançado o consenso na conferência de ligação a favor da «marcha para o sul», convocou-se a Conferência Imperial para formalizar o acordo. Na presença do imperador Hirohito, o presidente do Conselho Privado Yoshimichi Hara pediu explicações sobre uma frase inquietante do plano de ocupação da Indochina, que havia sido incluída para silenciar Matsuoka —«O Império não fugirá da guerra com a Grã-Bretanha e com os Estados Unidos»—. O chefe do Estado-Maior do Exército, Hajime Sugiyama, expressando o sentimento generalizado dos presentes, respondeu-lhe que não acreditava que «os americanos vão nos declarar guerra pela Indochina francesa», assegurando em seguida que a ocupação seria realizada «de forma pacífica». Hara disse que estavam «de acordo no básico», desde que todos estivessem cientes de que se devia evitar a guerra com os Estados Unidos e com a Grã-Bretanha —o imperador Hirohito havia indicado alguns dias antes a Matsuoka, de quem desconfiava: «Se nos atermos aos princípios do direito internacional, a resolução me faz duvidar»—.[84] Quando o ministro da Marinha e o chefe do Estado-Maior da Marinha Imperial informaram o restante dos altos comandos navais, estes ficaram atônitos ao saberem que o acordo incluía que o Japão «não fugiria» da guerra. O almirante Isoroku Yamamoto perguntou, embora ele conhecesse a resposta melhor do que ninguém, pois estava no comando da Frota Combinada que incluía os porta-aviões: «Estamos preparados para uma guerra aérea?».[85]
25 de julho: os Estados Unidos impõem duras sanções econômicas ao Japão
Os Estados Unidos tomaram conhecimento quase imediatamente do que havia sido acordado na Conferência Imperial, graças ao fato de terem decifrado a mensagem enviada pelo governo de Tóquio a seu embaixador em Washington informando sobre o plano de ocupação da Indochina. A destituição, em 18 de julho, do ministro das Relações Exteriores Matsuoka e sua substituição pelo almirante Teijiro Toyoda, até então ministro do Comércio e Indústria, não mudou os planos japoneses.[86] Assim, logo ao assumir o cargo, Toyoda pressionou o governo de Vichy para que aceitasse a ocupação de toda a Indochina francesa, ameaçando com o uso da força se recusasse.[87][76] Para o desenvolvimento da estratégia de «atacar no sul», o controle de toda a Indochina era chave, pois constituía a base perfeita para se apoderar dos cobiçados depósitos de petróleo das Índias Orientais Neerlandesas.[88]

Em 22 de julho os franceses finalmente aceitaram a ocupação «pacífica» de sua colônia, o que provocou a reação imediata dos Estados Unidos. Em 23 de julho o secretário de Estado Cordell Hull comunicou ao embaixador japonês Kichisaburō Nomura que as negociações que os dois países mantinham estavam rompidas e, dois dias depois, o presidente Franklin D. Roosevelt ordenou o congelamento de todos os ativos japoneses nos Estados Unidos,[89] decisão que foi apoiada pela Grã-Bretanha —cujo embaixador em Tóquio comunicou, indignado, a Toyoda: «Se vocês levarem adiante a ocupação, teremos que ver de que outras maneiras lidaremos com vocês»— e as Índias Orientais Neerlandesas. Também se começou a discutir a imposição do embargo de petróleo.[90]
A reação do governo e dos altos comandos militares japoneses foi de surpresa e certa incredulidade. «Estamos convencidos de que não haverá embargo [de petróleo] enquanto não formos além da ocupação militar da Indochina francesa», afirmou-se na conferência de ligação realizada logo após o conhecimento das sanções americanas.[90] Um alto funcionário do Ministério da Marinha reconheceu depois da guerra que ter agido da forma como foi feito «foi imperdoável».[91]
Por sua vez, o embaixador Nomura, que havia advertido seu governo sobre como os Estados Unidos reagiriam à ocupação da Indochina,[76] conseguiu se reunir com o presidente Roosevelt no mesmo dia 24 de julho à tarde no Salão Oval. No decorrer da conversa, o presidente fez uma proposta conciliadora —e audaciosa—[92] para que a transmitisse a seu governo: se o Japão desistisse de ocupar a Indochina, os Estados Unidos a considerariam «um país neutro da mesma forma como até agora se considerou a Suíça um país neutro».[93] No entanto, o governo de Konoe não se mostrou tão entusiasmado com a proposta quanto o embaixador Nomura e nem sequer a levou à conferência de ligação para discussão —o embaixador americano Joseph Grew reuniu-se com o ministro Toyoda em 27 de julho, mas não conseguiu que ele mudasse de posição—. Em decorrência da decisão americana, apoiada pela Grã-Bretanha e pelas Índias Orientais Neerlandesas, a imprensa japonesa começou a falar em tom alarmista do «Cerco ABCD» ao qual os quatro países a que se referia cada letra —Estados Unidos, Grã-Bretanha, China e Países Baixos— estavam submetendo o Japão.[94][89]

Em 28 de julho começou a Ocupação japonesa da Indochina.[82] Três dias depois, o chefe do Estado-Maior da Marinha, Osami Nagano, reuniu-se com o imperador Hirohito, a quem advertiu: «se nossos suprimentos de petróleo fossem interrompidos, esgotaríamos nossas reservas em dois anos. Se eclodisse uma guerra, teríamos para dezoito meses», pelo que não restaria «outra opção senão atacar». Hirohito perguntou-lhe se, nesse caso, «podemos esperar uma grande vitória como a que obtivemos no mar do Japão?», ao que Nagano respondeu: «Não tenho certeza de nenhuma vitória, muito menos de uma vitória extraordinária como a do Mar do Japão». «Que guerra imprudente seria essa!», exclamou o imperador.[95] No dia seguinte, os Estados Unidos começaram a aplicar o embargo de petróleo por não terem obtido nenhuma resposta do governo japonês.[96]
O embargo comercial, decretado pelos Estados Unidos e apoiado pela Grã-Bretanha e pelas Índias Orientais Neerlandesas, supôs um bloqueio econômico total para o Japão, pois dois terços de suas importações provinham desses países ou dos territórios controlados por eles. O problema do abastecimento de petróleo era especialmente premente, já que cerca de 85% do que consumia o Japão provinha dos Estados Unidos. Precisamente a perspectiva de esgotar suas reservas de petróleo, com o que o Japão seria como “um peixe em um lago do qual a água está sendo retirada aos poucos”, fez com que a Marinha defendesse a ocupação dos campos petrolíferos das Índias Orientais Neerlandesas, ainda que isso supusesse a guerra contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, à qual até então se havia oposto.[76]
6 de setembro: a Conferência Imperial estabelece o “início de outubro” como prazo final para as negociações com os Estados Unidos

Quando soube que os Estados Unidos haviam decretado o embargo de petróleo ao Japão, o primeiro-ministro Konoe reconheceu em privado que «foi um erro pensar que [a ocupação da] Indochina francesa não causaria um prejuízo grave», mas não fez nada para organizar a retirada. Os comandantes militares nem sequer consideraram essa alternativa, muito pelo contrário, pensaram que, diante de um castigo que consideravam desproporcional pela ocupação «pacífica» da Indochina, não havia outra opção senão a guerra. A imprensa japonesa, por sua vez, retomou a campanha sensacionalista sobre o «Cerco ABCD», apresentando assim os Estados Unidos e seus aliados como os agressores que ameaçavam «a paz do Pacífico» e a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental.[97]
Em 6 de agosto o governo do Japão rejeitou a proposta de Roosevelt de declarar a Indochina neutra e anunciou que não se retiraria da Indochina até que não tivesse concluído a guerra com a China e ficasse garantida a «posição regional especial» do Japão na Ásia oriental.[98][99] No entanto, dois dias depois, o primeiro-ministro Konoe, em uma tentativa desesperada de «evitar a guerra com os Estados Unidos a todo custo» —como confessou a Kinkazu Saionji, um de seus conselheiros—, propôs realizar uma entrevista pessoal com o presidente Roosevelt em Honolulu ou em algum outro lugar no meio do Pacífico, o que não tinha precedentes na história do Japão, embora contasse com a completa aprovação do imperador.[100] O governo americano respondeu que, antes da realização da reunião —que sugeriu que fosse realizada em Juneau, a capital do Alasca— «deveria haver um princípio de acordo sobre os assuntos mais importantes», em referência aos Quatro Princípios do secretário Hull e à retirada japonesa da Indochina, pelo que «a reunião deveria ter como objetivo ratificar o princípio de acordo alcançado». Imediatamente Konoe e seus conselheiros redigiram uma proposta de «princípio de acordo» tal como haviam solicitado os americanos, e que incluía certas concessões. Esta devia ser discutida na próxima conferência de ligação que seria realizada em 3 de setembro.[101][102]

Um dia antes da realização da conferência, o general Sugiyama, chefe do Estado-Maior do Exército, comunicou a Konoe os três princípios que o Exército e a Marinha consideravam inegociáveis: a aliança do Japão com o Eixo, a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental e a presença das tropas japonesas na China.[103] A posição tão firme dos militares é o que provavelmente explica por que Konoe não tenha chegado a expor sua proposta de «princípio de acordo» na conferência de ligação e preferisse aderir à proposta apresentada pelo ministro das Relações Exteriores, que oferecia menos concessões, já que só propunha a retirada japonesa da China assim que fossem alcançados os acordos necessários com esse país, além de promessas vagas em relação às demais questões em litígio, o que implicava que o Japão nem se comprometia a abandonar a Indochina nem a romper o Pacto Tripartite.[104][102]
No entanto, o tema principal tratado na conferência de ligação não foi esse, mas o plano militar «Elementos Essenciais para Executar as Políticas do Império», elaborado pelos Estados-Maiores do Exército e da Marinha em antecipação a uma guerra com as potências ocidentais e no qual se propunha «início de outubro» como prazo final para as negociações com os Estados Unidos, já que, no caso de que estas fracassassem, as hostilidades deviam iniciar-se no mais tardar em 31 de outubro, antes que o inimigo pudesse se reforçar e antes que começasse a estação das monções do sul —e enquanto o inverno rigoroso protegia o país de um possível ataque soviético pelo norte—, além de que, como indicou o almirante Nagano, chefe do Estado-Maior da Marinha Imperial, «o império está cada vez mais carente de todo tipo de recursos materiais».[105][106] E se não os conseguirmos, acrescentou Nagano, «não será possível manter uma guerra prolongada». «Embora eu acredite que, neste momento, tenhamos uma chance de vencer a guerra, receio que essa chance desapareça com o passar do tempo», concluiu.[107]
Em 5 de setembro à tarde, Konoe informou do plano «Elementos essenciais…» ao imperador Hirohito, que se alarmou porque dava prioridade à guerra em detrimento da diplomacia[108] e além disso se mostrou surpreso porque ninguém o havia informado de que os preparativos para a guerra estivessem tão avançados. Então Konoe sugeriu ao imperador que convocasse os chefes do Alto Estado-Maior do Exército e da Marinha para que lhe dessem uma explicação. O almirante Nagano e o general Sugiyama dirigiram-se imediatamente ao palácio imperial e, a pedido do imperador, comprometeram-se a que iriam «dar mais ênfase à diplomacia», mas advertindo que, se esta fracassasse, seria preciso ir à guerra, «ainda que só haja uma remota possibilidade de que seja um sucesso», afirmou Nagano. Finalmente Hirohito deu sua aprovação ao plano.[109]
No dia seguinte, 6 de setembro, reuniu-se a Conferência Imperial na qual, como estipulava o rígido protocolo imperial, o presidente do Conselho Privado Yoshimichi Hara fez uma série de perguntas sobre o plano em nome do imperador. Mas quando quis saber se se dava prioridade à estratégia ou à diplomacia —ou quando, segundo a versão de Ian Kershaw, pediu apoio à iniciativa de Konoe de reunir-se com Roosevelt e evitar «a pior situação possível entre o Japão e os Estados Unidos»—[110] e não obteve resposta, o imperador falou pela primeira vez na história das conferências imperiais: «A pergunta que o presidente Hara acaba de fazer não poderia ser mais pertinente. É lamentável que os dois chefes de estados-maiores não sejam capazes de respondê-la». E em seguida leu um poema pacifista de seu avô, o grande imperador Meiji, escrito em 1904, no início da Guerra Russo-Japonesa:[111][112]
todos os homens são irmãos.
Num mundo assim,
por que as ondas se agitam,
e os ventos rugem?


Mas finalmente o imperador não se opôs à decisão de comprometer o Japão a ir à guerra —considerada por muitos líderes militares como inevitável— se as negociações com os Estados Unidos fracassassem, o que era bastante provável,[113] porque, segundo a historiadora Eri Hotta, «não havia um precedente de veto imperial». «Movendo-se cautelosamente entre seus papéis divino e terrestre, o imperador escolheu limitar-se a recitar um poema», conclui.[111] O historiador Ian Kershaw recorda que «o poder do Imperador era mais limitado na prática do que na teoria» pelo que era «impensável» que se negasse a sancionar a decisão acordada pela conferência de ligação, e que, se o tivesse feito, teria colocado em perigo a própria monarquia. Além disso, o imperador «não podia ordenar a militares pouco dispostos a dar marcha a ré em uma postura que havia sido associada pelo público em geral, bem como pela maior parte das elites, com a honra nacional do Japão».[114] Por outro lado, o historiador Antony Beevor acredita que a oposição do imperador à guerra «não se baseava em razões morais, mas simplesmente no temor de sair derrotado».[59]
Por sua vez, o primeiro-ministro Konoe reuniu-se em segredo com o embaixador americano Joseph Grew para que conseguisse a tão ansiada reunião pessoal com Roosevelt quando terminou a conferência.[115][116] Durante o encontro, Konoe sugeriu que poderia estar disposto a aceitar inicialmente os Quatro Princípios propostos pelo secretário Cordell Hull. Grew comunicou imediatamente a seu governo o conteúdo da reunião e exortou-o a que aceitasse o encontro entre Konoe e Roosevelt. No entanto, Hull e seu principal assessor nos assuntos do Extremo Oriente, Stanley Hornbeck, continuavam muito céticos sobre as intenções pacíficas do Japão, posição que também mantinha o presidente Roosevelt, como o fez saber ao embaixador Nomura na reunião que manteve com ele em 3 de setembro, no mesmo dia em que em Tóquio se realizava a Conferência Imperial.[117]
18 de outubro: o general Tojo é nomeado novo primeiro-ministro do Japão

Uma vez obtida a sanção imperial, o Exército e a Marinha intensificaram os preparativos bélicos, realizando exercícios de simulação das operações previstas.[118] Paralelamente, o embaixador Nomura tentava conseguir que se realizasse o encontro entre Konoe e Roosevelt —alegando que se a reunião não se realizasse o governo Konoe cairia e se instauraria uma ditadura militar—,[106] mas o secretário Hull considerou que o princípio de acordo elaborado pelo Ministério das Relações Exteriores japonês representava um retrocesso, pelo que Nomura teve de comunicar a seu governo que só com uma concessão importante, como concordar, em princípio, com a retirada das tropas da China, seriam criadas as condições para que a cúpula Konoe-Roosevelt se realizasse.[119] No entanto, a conferência de ligação realizada em 20 de setembro descartou fazer concessões e limitou-se a reiterar a proposta inicial, inclusive em um tom mais firme, para desespero de Nomura, de modo que o embargo de petróleo e o restante das sanções econômicas continuaram.[120][121]
Por sua vez, os chefes do Estado-Maior, apoiados pelo ministro do Exército Tojo, pressionavam para que se concretizasse a data limite para as negociações com os Estados Unidos e, na conferência de ligação de 25 de setembro, indicaram que «em 15 de outubro no mais tardar temos de ter escolhido entre diplomacia e guerra» —o único que se opôs abertamente foi o ministro da Marinha Koshiro Oikawa, pois os altos comandos da Marinha pensavam que «era uma loucura começar uma guerra com os Estados Unidos»—.[122][121] A pressão levou Konoe a pensar em renunciar, mas foi dissuadido pelo conselheiro do imperador Koichi Kido,[121] quem sugeriu que ele propusesse a reconsideração da resolução aprovada pela Conferência Imperial de 6 de setembro.[123]
Quatro dias depois, em 29 de setembro, o almirante Isoroku Yamamoto, chefe da Frota Combinada e que já tinha pronto seu plano de ataque a Pearl Harbor, enviou um relatório ao chefe do Estado-Maior da Marinha, Nagano, no qual, após afirmar que a única possibilidade de vitória seria «conseguir sucessos importantes nas primeiras batalhas», duvidava que, mesmo assim, fosse possível alcançar a vitória em uma guerra contra os Estados Unidos. O relatório concluía: «Não se deve travar uma guerra com probabilidades tão pequenas de vitória».[124]
Enquanto isso, as chances de que a reunião entre Konoe e Roosevelt ocorresse pareciam cada vez mais remotas, sobretudo depois que, em 2 de outubro, o secretário de Estado Hull reiterou ao embaixador Nomura que a cúpula não se realizaria enquanto não se tivesse alcançado «um consenso sobre os pontos essenciais» —em referência aos Quatro Princípios propostos em maio—,[125] e que incluíam «uma declaração precisa» das intenções do Japão «quanto à retirada da China e da Indochina francesa» e um «esclarecimento» de sua posição no âmbito do Pacto Tripartite.[126][127]
Konoe reuniu-se em 5 de outubro com o ministro da Guerra Tojo para tentar convencê-lo da necessidade de fazer alguma concessão aos Estados Unidos, mas este se mostrou inflexível: «Os Estados Unidos nos exigem que abandonemos o Pacto Tripartite, aceitemos incondicionalmente os Quatro Princípios e detenhamos a ocupação militar. O Japão não pode tolerar tudo isso».[128] Quando, em outra reunião realizada no dia seguinte, Konoe o repreendeu dizendo que os militares encaram as guerras “com demasiada indiferença”, Tojo respondeu: «Às vezes, é preciso reunir toda a coragem necessária, fechar os olhos e pular [no abismo] da plataforma do Kiyomizu».[129] Alguns historiadores afirmam que Tojo disse essa frase em 14 de outubro, no encontro que teve com Konoe pouco antes da reunião do governo.[130]

Em uma última tentativa de ganhar tempo, Konoe convocou em 12 de outubro os ministros das Relações Exteriores, da Guerra, da Marinha e o diretor do Conselho de Planejamento do Governo, o tenente-general da reserva Teiichi Suzuki.[131] Logo ao começar a reunião, disse-lhes: «Devemos continuar buscando uma solução diplomática. Não tenho confiança em uma guerra como esta. Se começássemos uma guerra, teria de fazê-lo alguém que acreditasse nela». Tojo replicou que o governo devia manter-se fiel à resolução «sancionada pelo imperador» na Conferência Imperial de 6 de setembro. «Isto é incrível!», exclamou. Os demais participantes não responderam.[132] Dois dias depois —em 14 de outubro, apenas um dia antes do fim do prazo para encerrar a via diplomática—, momentos antes da reunião do governo, Konoe tentou pela última vez que Tojo aceitasse a retirada das tropas. Disse-lhe o seguinte:[133]

Na reunião do governo que se realizou a seguir, Tojo manteve sua posição. «Aceitar integralmente as exigências dos Estados Unidos aniquilaria os benefícios obtidos do Incidente da China e, por extensão, ameaçaria a existência de Manchukuo e até afetaria o domínio japonês sobre a Coreia e sobre Taiwan», disse, perguntando-se retoricamente em seguida: «Naturalmente, se queremos voltar ao pequeno Japão dos dias anteriores ao Incidente da Manchúria, não resta nada mais a dizer, não?». Nenhum membro do gabinete respondeu.[134]
Com sua intervenção, Tojo colocou em dúvida a liderança de Konoe, pelo que, quando terminou a reunião do gabinete, dirigiu-se ao palácio imperial para pedir a mudança do primeiro-ministro. Reuniu-se com o guardião do selo privado Koichi Kido, a quem disse que só sob um novo governo seria possível reconsiderar a decisão adotada na conferência imperial de 6 de setembro e propôs que se nomeasse o príncipe Naruhiko Higashikuni, que era contrário à guerra, como novo primeiro-ministro.[135] Essa proposta indicava que Tojo havia começado a duvidar da opção bélica,[136] provavelmente devido à conversa que havia mantido alguns dias antes com o ministro da Marinha Oikawa. Tojo perguntou-lhe se tinha confiança na vitória, ao que Oikawa respondeu: «Temo que não… Se a guerra se prolongar por alguns anos, não sabemos qual será o resultado… O que eu disse não deve sair desta sala». Então Tojo afirmou: «Se a Marinha não tem confiança, devemos reconsiderar. Será preciso rever tudo o que for necessário, embora, é claro, isso deva ser feito com o humilde reconhecimento da nossa grande responsabilidade». O que significava que o governo devia renunciar.[137]


Kido não achava conveniente que um membro da família imperial estivesse à frente do governo em um momento tão delicado,[136] pelo que propôs ao imperador que nomeasse como novo primeiro-ministro aquele que havia desencadeado a crise, o general Tojo[125] —«Sem dor não há recompensa, não lhe parece?» disse ao imperador, em alusão ao provérbio chinês: «É preciso entrar na toca do tigre para capturar seus filhotes»—.[138] Assim, em 17 de outubro, um dia depois que Konoe apresentasse a renúncia,[134] Tojo foi chamado ao palácio e o imperador ofereceu-lhe o posto de primeiro-ministro. Tojo, que, na verdade, esperava ser repreendido pelo imperador, ficou muito surpreso, mas finalmente aceitou. A missão que lhe foi encomendada foi «unificar a política do Exército e da Marinha e, mais ainda, voltar a examinar a decisão da conferência imperial de 6 de setembro», segundo havia explicado Kido na reunião anterior que manteve o órgão assessor do imperador, formado pelos antigos primeiros-ministros, e na qual ninguém se opôs à candidatura de Tojo. Quando Kido se reuniu com Tojo após ter aceitado o cargo, disse-lhe: «Devo ressaltar que é desejo do imperador que, ao formular a política nacional, você não se encontre prisioneiro da resolução imperial de 6 de setembro. Deve considerar a situação interna e externa de forma profunda e abrangente. O imperador deseja que se proceda com cautela».[139] Mas a verdade era que «o principal opositor à retirada das tropas da China, o homem que havia adotado a linha mais dura nas negociações e, acima de tudo, aquele que havia moldado a atual crise em torno da decisão entre a guerra e a paz, o general Hideki Tojo, estava agora à frente do governo japonês».[136] De fato, sua nomeação alarmou os governos da Grã-Bretanha e da China, e também o dos Estados Unidos, que passou a ver a guerra como algo muito mais iminente.[140]
20 de outubro: o Estado-Maior da Marinha aprova o plano de ataque a Pearl Harbor
O almirante Isoroku Yamamoto, chefe da Frota Combinada, não acreditava que o Japão pudesse ganhar uma guerra contra os Estados Unidos, mas se existisse uma mínima possibilidade sua obrigação era aproveitá-la.[141] Em outubro de 1940, no mês seguinte à assinatura do Pacto Tripartite ao qual se havia oposto porque estava convencido de que conduziria à guerra contra as potências ocidentais,[141] havia dito: «Não cabe a menor dúvida! Lutar contra os Estados Unidos é como lutar contra o mundo inteiro. Mas foi decidido. Por isso, vou dar o meu melhor. Certamente morrerei a bordo do Nagato [seu navio-almirante]».[73] Em uma carta privada escreveu que uma vez começadas as hostilidades entre Estados Unidos e Japão, «não será suficiente que tomemos Guam e as Filipinas, nem sequer Havaí e São Francisco. Teremos de avançar até Washington e assinar o tratado (isto é, ditar os termos da paz) na Casa Branca».[142]
Logo após a assinatura do Pacto Tripartite, Yamamoto começou a traçar a estratégia da guerra no Pacífico. Logo chegou à conclusão de que a única opção de vitória para o Japão era desferir um golpe decisivo no início da guerra que talvez obrigasse os Estados Unidos a negociar, e que esse golpe poderia ser o ataque à frota americana do Pacífico em sua própria base de Pearl Harbor, no Havaí. Uma ideia descabida — e foi assim que o embaixador americano em Tóquio, Joseph Grew, a interpretou — quando, no final de janeiro de 1941, chegaram a ele “rumores de guerra” de que “as forças militares japonesas estavam planejando um ataque surpresa em grande escala a Pearl Harbor”.[141]
Carta do almirante Yamamoto ao capitão Genda solicitando que ele estudasse a viabilidade de um ataque aéreo a Pearl Harbor. Fevereiro de 1941
Dependendo das mudanças que ocorrerem na situação internacional, poderemos ser arrastados para uma guerra contra os Estados Unidos. Se o Japão e os Estados Unidos entrassem em guerra, teríamos que recorrer a uma tática radical… Deveríamos tentar, com toda a força de nossas Primeira e Segunda Divisões Aéreas, desferir um golpe contra a frota americana no Havaí, de modo que, por algum tempo, os Estados Unidos não pudessem avançar para o Pacífico ocidental. Nosso alvo seria um grupo de navios de guerra americanos… Não seria fácil realizar algo assim. Mas estou decidido a dar tudo de mim para concretizar este plano, supervisionando eu mesmo as divisões aéreas. Gostaria que você investigasse detalhadamente a viabilidade de um plano com essas características.
Em fevereiro de 1941 Yamamoto enviou uma carta, por meio do contra-almirante Takijiro Onishi, chefe da 11ª Divisão Aérea, ao capitão Minoru Genda, membro do alto comando da Primeira Divisão Aérea e o melhor piloto da Marinha Imperial, na qual pedia que «investigasse detalhadamente a viabilidade de um plano de ataque» com aviões a Pearl Harbor, reconhecendo-lhe que «não seria fácil fazer algo assim». Na carta dizia que se tratava de «desferir um golpe na frota americana no Havaí, de forma que, durante um tempo, os Estados Unidos não pudessem avançar rumo ao Pacífico ocidental».[143] Para elaborar seu plano, Yamamoto havia contado com as informações que lhe havia proporcionado o cônsul japonês em Honolulu, que havia estado observando os movimentos da frota americana. Entre elas, uma em particular chamou sua atenção: os navios permaneciam ancorados no porto nos fins de semana.[144]
Dois meses depois, Yamamoto recebeu a resposta redigida por Onishi, na qual ele e Genda falavam apenas de bombardeios de mergulho e em altitude, o que o decepcionou, pois haviam descartado o uso de torpedos lançados por aviões devido à pouca profundidade das águas de Pearl Harbor — os torpedos japoneses precisavam de cerca de trinta metros para não se incrustarem no fundo e seguirem em direção ao alvo, enquanto a profundidade média em Pearl Harbor era de doze metros—. Mas Yamamoto insistiu que o ataque com torpedos era possível e respondeu que seria necessário aprimorá-los e treinar os pilotos para usá-los.[145]
Genda e Onishi começaram a trabalhar na resolução dos problemas decorrentes do uso de torpedos. Com a ajuda dos técnicos, conseguiram reduzir drasticamente a profundidade a que precisavam mergulhar para atingir o alvo e treinaram os pilotos a voar bem baixo, diminuindo assim a possibilidade de os torpedos se chocarem contra o fundo do mar quando lançados dos aviões. Em setembro, começaram os exercícios de simulação de guerra na baía de Kinko, na prefeitura de Kagoshima, escolhida por sua semelhança com Pearl Harbor. Nenhum dos pilotos que participaram sabia qual era o objetivo. No final de setembro, o plano de ataque a Pearl Harbor já estava pronto. Além de Genda e Onishi, o principal colaborador de Yamamoto na elaboração final havia sido Kameto Kuroshima, um oficial de planejamento excêntrico a quem Yamamoto estimava muito, pois lhe oferecia soluções nas quais ele nunca havia pensado e que ousava contradizê-lo.[146]
No entanto, o plano de ataque a Pearl Harbor apresentado por Yamamoto foi rejeitado pelo Estado-Maior da Marinha Imperial por ser excessivamente arriscado e por envolver o uso de muitos recursos navais que seriam necessários em outros teatros de guerra, uma vez que exigia seis dos dez porta-aviões de que a Marinha Imperial dispunha na época. Mas Yamamoto não se conformou e enviou Kuroshima a Tóquio para defender o plano e, como último recurso, ameaçar com sua demissão e a de toda a sua equipe caso não fosse aceito. Em 20 de outubro[147] o Estado-Maior cedeu —a renúncia de Yamamoto representaria um duro golpe para o moral e a eficácia da Frota Combinada—[148] e o aprovou, apesar das dúvidas que o plano continuava a suscitar.[149]
A data e a hora do ataque foram marcadas para as 8h da segunda-feira, 8 de dezembro, horário de Tóquio; 8h do domingo, 7 de dezembro, no Havaí; e 13h30 do mesmo dia em Washington.[150] O domingo foi escolhido porque a luz da lua facilitaria o voo dos aviões antes do amanhecer.[151]

O plano de ataque a Pearl Harbor, junto com o restante da ordem de batalha organizada pelos Estados-Maiores do Exército e da Marinha, foi apresentado ao imperador Hirohito na tarde de 2 de novembro, no dia seguinte à conferência de ligação na qual se havia decidido fixar 30 de novembro como prazo final para as negociações com os Estados Unidos, depois da qual seriam desencadeadas as ofensivas previstas no Pacífico e no Sudeste Asiático, simultaneamente ao ataque a Pearl Harbor.[151] Os objetivos principais da «campanha rumo ao sul», junto com Pearl Harbor, eram o arquipélago das Filipinas, território sob domínio dos Estados Unidos, e Malásia, colônia britânica que incluía a estratégica base de Singapura. Também seria atacada a Tailândia e em seguida a colônia britânica da Birmânia.[152] Operações secundárias teriam como objetivo a colônia britânica de Hong Kong, e as ilhas de Wake e de Guam, onde a frota americana do Pacífico tinha suas bases de operações avançadas e onde estavam os submarinos e os aviões de reconhecimento. A conquista das Índias Orientais Neerlandesas começaria quando todos esses objetivos fossem alcançados. A ofensiva tinha de concluir em um prazo máximo de 20 semanas, depois das quais já não restaria nenhuma força aérea, naval ou terrestre dos Estados Unidos ou da Grã-Bretanha capaz de impedir o domínio japonês sobre o sudeste da Ásia e o Pacífico ocidental.[153][147]
No entanto, o almirante Yamamoto continuava duvidando das possibilidades de uma vitória do Japão. «Durante os primeiros seis ou doze meses de guerra contra os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, vou causar estragos em todas as suas linhas e conquistar uma vitória atrás da outra», previu ele. «Depois disso… não tenho esperanças de vencer».[154]
5 de novembro: a Conferência Imperial adia para 30 de novembro o prazo final para chegar a um acordo com os EUA

No mesmo dia em que o Estado-Maior da Marinha aprovava o plano de Yamamoto, o general Tojo formou seu governo, de acordo com a missão que lhe havia sido encomendada. Nomeou como novo ministro das Relações Exteriores o experiente diplomata Shigenori Togo, que não via com bons olhos a Alemanha nazista e estava disposto a fazer concessões aos Estados Unidos, e para os outros dois cargos importantes do gabinete, os ministérios das Finanças e da Marinha, também nomeou dois antibelicistas declarados, Okinori Kaya e o almirante Shigetaro Shimada, respectivamente —Tojo, por sua vez, manteve-se à frente do ministério da Guerra e assumiu também o cargo de Ministro do Interior, antecipando-se à possibilidade de distúrbios decorrentes das concessões que seria necessário fazer para chegar a um acordo com os Estados Unidos—[140]. Todos concordaram que o objetivo do governo era prorrogar o prazo das negociações com os Estados Unidos e, assim, dar uma chance à via diplomática para evitar a guerra.[155] No entanto, Tojo não substituiu nenhum dos chefes e subchefes belicistas do Estado-Maior do Exército e da Marinha, que, por outro lado, não receberam instruções do imperador — como Tojo havia recebido — para buscar uma solução diplomática para a crise com os Estados Unidos.[156] Além disso, em sua primeira declaração, o novo governo afirmou sua adesão «à política nacional inabalável do Império» e seu compromisso de «levar o Incidente da China a um desfecho favorável, consolidar firmemente a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental e contribuir para a paz mundial».[157]


Para «voltar a examinar» a resolução da Conferência Imperial de 6 de setembro, conforme Tojo havia se comprometido, realizaram-se sucessivas conferências de ligação entre 23 e 30 de outubro —exceto o dia 26—,[158] das quais também participaram o diretor-geral do Conselho de Planejamento do Governo, Teiichi Suzuki, e o ministro das Finanças Kaya, para que avaliassem as consequências econômicas de uma guerra contra os Estados Unidos.[159] Nessas reuniões os que mais pressionaram a favor da guerra foram os chefes do Estado-Maior do Exército e da Marinha, Sugiyama e Nagano, apesar de terem sido obrigados a reconhecer que o Japão não poderia manter um conflito prolongado —eles confiavam de que os Estados Unidos seriam forçados a pedir a paz após as primeiras vitórias japonesas—. Ambos insistiam que, quanto mais o Japão esperasse, menores seriam suas chances de vencer a guerra, pois os recursos estavam se esgotando —«Devemos decidir de uma vez se vamos à guerra ou não», disse Nagano; «É preciso agir rapidamente!», insistiu Sugiyama—. Os que se manifestaram contra a opção bélica foram os novos ministros Togo e Kaya, enquanto que o, em princípio, antibelicista ministro da Marinha Shimada, após a reunião que teve em 27 de outubro com o príncipe Hiroyasu Fushimi, chefe da Frota Imperial, que lhe reiterou a postura dos chefes dos Estados-Maiores: «se não tomarmos rapidamente uma decisão, perderemos uma oportunidade», não se opôs à guerra. O diretor do Escritório de Planejamento, Suzuki, também não o fez. Por sua vez, o primeiro-ministro Tojo, que cada vez mais nutria dúvidas sobre a guerra,[160] tentou conciliar as duas posições e, por fim, propôs que a decisão definitiva fosse tomada na reunião de 1º de novembro.[161][162]
Na conferência de ligação de 1.º de novembro, que durou dezessete horas, Tojo defendeu uma via intermediária entre ir ou não ir à guerra: continuar as negociações diplomáticas sem descartar a possibilidade da guerra, o que implicava que continuariam os preparativos bélicos enquanto se tentava alcançar um acordo com o governo dos Estados Unidos.[162] Depois de um árduo e longuíssimo debate, foi isso que finalmente se decidiu, estabelecendo 30 de novembro como prazo final para as negociações,[163] que foi o prazo máximo de tempo que conseguiu o ministro Togo depois de insistir que «por natureza, a diplomacia requer muitos dias e noites para conseguir seus objetivos. Como ministro das Relações Exteriores, não posso realizar esforços diplomáticos se não tiverem probabilidade alguma de sucesso. Preciso da garantia de que terei o tempo e das condições necessárias para consegui-lo. É desnecessário dizer que é preciso evitar a guerra».[164][125]

Às dez da noite, após onze horas de debate, começou-se a discutir os termos da negociação com os Estados Unidos.[165] O ministro das Relações Exteriores explicou a necessidade de fazer concessões para que a via diplomática tivesse alguma oportunidade de sucesso e propôs que o Japão oferecesse a retirada das tropas situadas na metade sul da Indochina francesa, voltando assim à situação anterior a julho.[166] No entanto, o chefe e o subchefe do Estado-Maior do Exército, os generais Sugiyama e Tsukada, opuseram-se de forma veemente —«Não vamos retirar as tropas do sul da Indochina… [porque] se o fizéssemos, os Estados Unidos teriam conseguido seu objetivo. Então poderiam interferir em nossos assuntos sempre que quisessem», alegou Osamu Tsukada—. Diante da possibilidade de que Togo renunciasse, o que faria cair o governo, o primeiro-ministro Tojo apoiou o ministro das Relações Exteriores, e, por fim, ficou acordado que a proposta de transferência das tropas do sul para o norte da Indochina seria um último recurso caso as negociações chegassem a um impasse; ou seja, faria parte de um plano B alternativo, caso o plano A — que não previa a retirada — fracassasse.[167][125][168] O problema fundamental era que os altos comandantes militares não estavam dispostos a fazer concessões significativas aos Estados Unidos para evitar a guerra — consideravam a retirada das tropas japonesas da China uma desonra —, embora muitos deles fossem pessimistas quanto às chances de vencer a guerra.[154] O general Tsukada, subchefe do Estado-Maior do Exército, havia dito na reunião:[169]
Em 4 de novembro, o Conselho Supremo de Guerra se reuniu, presidido excepcionalmente pelo imperador Hirohito[170] —a quem dois dias antes os chefes dos Estados-Maiores do Exército e da Marinha haviam informado dos planos de guerra que incluíam o ataque a Pearl Harbor—. O Conselho não se opôs ao acordo da conferência de ligação de que as negociações diplomáticas e os preparativos para a guerra se desenvolveriam ao mesmo tempo. Na reunião o primeiro-ministro Tojo mostrou-se muito mais belicista do que na conferência de ligação realizada três dias antes. «Se nos limitarmos a ficar de braços cruzados e permitirmos que nosso país volte a ser o “pequeno Japão” de outros tempos, estaríamos manchando sua deslumbrante história de dois mil e seiscentos anos», afirmou.[171]
No dia seguinte, 5 de novembro, realizou-se a Conferência Imperial, em uma atmosfera de preocupação e abatimento, compartilhada também pelo imperador.[172] O ministro das Relações Exteriores Togo foi o encarregado de apresentar os acordos alcançados na conferência de ligação do dia 1.º de novembro que receberiam a sanção imperial e, surpreendentemente, realizou um discurso belicista, acusando os Estados Unidos de serem o agressor.[173]

O primeiro-ministro Tojo destacou que se as conversas fracassassem não restava outra opção senão ir à guerra para evitar que o Japão ficasse reduzido a uma «nação de terceira classe».[152] «Dentro de dois anos não teremos petróleo para uso militar. Os navios ficarão parados. Quando penso no fortalecimento das defesas americanas no sudoeste do Pacífico, na expansão da frota americana, no inacabado Incidente da China, e em todo o resto, não vejo o fim das dificuldades. Podemos falar de austeridade e sofrimento, mas pode nosso povo suportar esse tipo de vida durante muito tempo?». Depois, quando o presidente do Conselho Privado Hara lhe perguntou sobre a retirada das tropas da China, Tojo exaltou os sacrifícios que o Japão havia feito desde que a guerra havia começado e acrescentou que a retirada deixaria o Japão em uma posição pior do que tinha antes da guerra. A China seria mais poderosa do que antes e «poderia inclusive tentar se apoderar da Manchúria, Coreia e Formosa». Hara esteve de acordo com Tojo e afirmou que era impossível aceitar todas as demandas dos Estados Unidos «do ponto de vista da situação política interna e de nossa autopreservação». E acrescentou: «Se perdermos esta oportunidade de ir à guerra, teremos de nos submeter aos ditames dos Estados Unidos. Por conseguinte, reconheço que é inevitável que decidamos iniciar a guerra contra os Estados Unidos». O imperador nesta ocasião permaneceu em silêncio.[174]
27 de novembro: O Japão rompe as negociações em resposta à Nota de Hull

Dois dias após a realização da conferência de ligação em que foi decidido prorrogar o prazo para as negociações com os Estados Unidos até 30 de novembro, o ministro das Relações Exteriores Shigenori Togo encarregou o experiente diplomata Saburo Kurusu de ir a Washington com a missão de conduzir as negociações com o governo americano.[175][147] Togo informou-lhe das condições japonesas pactuadas na conferência de ligação do dia 1.º de novembro para alcançar um acordo com os Estados Unidos: um Plano A, no qual não se fazia nenhuma concessão importante, e um Plano B que só deveria ser considerado como último recurso e que incluía a retirada das tropas japonesas do sul da Indochina francesa. Antes de partir, Kurusu reuniu-se com o primeiro-ministro, o general Hideki Tojo, que lhe disse: «Faça tudo o que puder e volte com um acordo».[176]
Kurusu saiu do Japão em 7 de novembro, no mesmo dia em que o embaixador Nomura apresentava ao secretário de Estado Cordell Hull o Plano A, que Togo lhe havia enviado desde Tóquio —comunicação que foi interceptada e decodificada pelos serviços de inteligência americanos que interpretaram que o Japão estava se preparando para a guerra enquanto mantinha as conversas diplomáticas e assim o comunicaram ao secretário Hull—[170]. Quando Kurusu chegou a Washington em 15 de novembro ainda não haviam iniciado as negociações formais —Hull havia dito a Nomura que antes era necessário realizar «conversas exploratórias»—.[177] Enquanto isso os preparativos bélicos continuavam e no mesmo dia da chegada de Kurusu a Washington havia se reunido em Tóquio a conferência de ligação na qual havia sido aprovado o «Plano para Facilitar a Conclusão da Guerra com Estados Unidos, Grã-Bretanha e Países Baixos». Este dizia:[178]

Em 17 de novembro Kurusu reuniu-se com Roosevelt no Salão Oval, reunião da qual também participaram o embaixador Nomura e o secretário de Estado Hull. Kurusu pediu ao presidente que visse a situação desde «a perspectiva japonesa», ao que Roosevelt respondeu: «Entre amigos, não há palavras definitivas», frase que o impressionou. No entanto, não houve avanços nas questões cruciais, especialmente quanto ao desejo americano de que o Japão abandonasse o Pacto Tripartite —em uma reunião anterior, Hull havia dito a Nomura que seria muito difícil para ele «fazer com que a população deste país e a de todas as nações pacíficas acreditassem que o Japão estava agindo com vistas à paz», pois “estava vinculado por uma aliança ao agressor mais flagrante que surgiu no planeta nos últimos dois mil anos”, acrescentando em seguida que, se o governo dos Estados Unidos “chegasse a um acordo com o Japão, enquanto o Japão continuasse vinculado à Alemanha”, as pessoas poderiam “me linchar”.[179] No memorando que Hull redigiu sobre a reunião, ele observou que «no que diz respeito aos três principais pontos que separam nossos dois países [a igualdade de oportunidades comerciais, a retirada da China e o Pacto Tripartite]… não foi feito qualquer esforço para resolver essas questões durante a reunião».[180]
O discurso proferido pelo primeiro-ministro Tojo perante o parlamento japonês no mesmo dia da conversa entre Kurusu e Roosevelt — transmitido pela primeira vez para todo o país — não contribuiu em nada para as “conversas exploratórias”, pois nele Tojo afirmou que as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos constituíam “um ato agressivo e hostil equivalente a um conflito armado”, pedindo em seguida a união da nação “aconteça o que acontecer”. Ele encerrou seu discurso expressando seu respeito e gratidão pelas “almas heróicas dos mortos em combate” para proteger sua nação.[181] Homenagear os soldados mortos em combate era precisamente o argumento que Tojo sempre havia invocado para se opor à retirada da China.[133]
No dia seguinte, 18 de novembro, Kurusu e Nomura reuniram-se com Hull, que reiterou que enquanto o Japão continuasse ligado ao Pacto Tripartite não sabia se «poderia fazer-se algo para alcançar um acordo satisfatório». Foi então que, inesperadamente, o embaixador Nomura passou diretamente ao Plano B e sugeriu a retirada das tropas japonesas do sul da Indochina, de forma que os dois países pudessem «[voltar] ao status existente antes dessa data em julho… antes de que [os Estados Unidos] pusessem em vigor as medidas de congelamento». Mas Hull não considerou isso suficiente e afirmou que o embargo não seria suspenso até que os japoneses tivessem “adotado definitivamente um rumo pacífico e renunciado aos planos de conquista”. Nomura insistiu, e então Hull disse que consultaria os britânicos e os holandeses sobre a nova proposta japonesa.[182]
Kurusu e Nomura enviaram uma mensagem otimista a Tóquio sobre o andamento das negociações, mas, em 20 de novembro, receberam um telegrama severo do ministro Togo, que estava furioso porque, antes de terem explorado todas as possibilidades do Plano A, eles haviam passado para o Plano B e, sobretudo, porque haviam apresentado a retirada das tropas do sul da Indochina como uma proposta isolada. Assim, ele ordenou que apresentassem uma versão do Plano B que, além da retirada das tropas — que aparecia em quinto e último lugar —, incluísse outros quatro pontos: 1) o compromisso do Japão de não ir além da Indochina em seus avanços militares; 2) a cooperação para a obtenção dos recursos das Índias Orientais Neerlandesas; 3) o levantamento do embargo de petróleo e do congelamento dos ativos japoneses nos Estados Unidos; 4) o compromisso dos Estados Unidos de não intervir no acordo de paz sino-japonês que poria fim à guerra que os dois países travavam desde 1937. Togo concluiu dizendo: «Se não conseguirmos a aprovação dos Estados Unidos para este plano, teremos simplesmente de aceitar a possibilidade de que as negociações tenham fracassado».[183]

Em 20 de novembro Nomura e Kurusu entregaram pessoalmente o Plano B completo ao secretário Hull, que os recebeu muito friamente para consternação dos dois representantes japoneses. Hull disse-lhes que o povo americano via o Japão como um aliado da Alemanha nazista e que os dois países pretendiam dividir o mundo entre si. Quanto à proposta japonesa, ele comentou com eles em particular que a considerava um ultimato, acrescentando em seguida que suas condições eram «tão ridículas que nenhum alto funcionário americano jamais teria sequer sonhado em aceitá-las».[184]
No dia seguinte Kurusu, angustiado porque o tempo se esgotava, tomou uma iniciativa por conta própria e reuniu-se com Hull para apresentar-lhe uma nota pessoal na qual dizia que se os Estados Unidos entrassem em guerra na Europa o Japão atuaria de forma independente a respeito de seus parceiros do Pacto Tripartite. Na nota pessoal Kurusu mencionava o artigo III do Pacto, que, segundo ele, permitia ao Japão «interpretar suas obrigações com liberdade e independência». «Meu governo jamais lançaria o povo do Japão à guerra a pedido de uma potência estrangeira; só aceitará a guerra como último recurso e necessidade ineludível para manter sua segurança e preservar a vida nacional contra uma injustiça ativa», dizia também a nota. Mas Hull, conforme indicou no memorando da reunião, não considerou que o que ele dizia «fosse de especial utilidade» e a descartou.[185]
A resposta definitiva do governo dos Estados Unidos foi entregue a Kurusu e Nomura no final da tarde de 26 de novembro pelo secretário Hull e, em essência, representava um retorno à posição inicial dos Estados Unidos, mas em um tom muito mais duro e com novas exigências.[186][187] Tratava-se de um documento intitulado «Esboço das bases propostas para um acordo entre os Estados Unidos e o Japão», que seria mais conhecido como a Nota de Hull. Uma primeira dificuldade para sua aceitação pelos representantes japoneses era que se propunha um acordo multilateral de não agressão que devia incluir também a Grã-Bretanha, China, Países Baixos, a União Soviética e Tailândia, quando só estavam autorizados a alcançar um acordo bilateral. Mas o mais grave para eles era a segunda parte intitulada «Medidas que os governos dos Estados Unidos e do Japão devem tomar», composta por dez pontos, na qual estavam descritas as condições exigidas pelos Estados Unidos para se chegar a um acordo: a retirada das tropas japonesas da Indochina e da China; o reconhecimento do governo de Chiang Kai-shek com sede em Chongqing como único governo legítimo da China —o que implicava que o Japão retirasse o apoio ao governo fantoche de Wang Jingwei—; a renúncia aos direitos de extraterritorialidade na China e às vantagens e direitos derivados do Protocolo Boxer de 1901; o reconhecimento da liberdade de comércio e da igualdade de oportunidades como os princípios que deviam reger as relações econômicas na Ásia.[188][186] Os «Dez Pontos» de Hull também incluíam a renúncia do Japão ao Pacto Tripartite.[152] Em contrapartida, os Estados Unidos ofereciam o descongelamento dos ativos japoneses e o início de conversas para estabelecer um novo tratado comercial e, a mais longo prazo, assegurar a paz no Pacífico.[189]

Hull reconheceu mais tarde que não pensava «seriamente que o Japão aceitaria nossa proposta»,[190][191] pois achava que isso poderia significar uma guerra com o Japão, e assim comentou com o secretário de Defesa Henry Stimson: «Eu já lavei as mãos em relação a este assunto; agora a responsabilidade recai sobre você, sobre Knox [secretário da Marinha], o exército e a marinha».[186] Segundo Antony Beevor, «apenas uma renúncia imediata e total dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha às suas pretensões poderia ter evitado o conflito naquela altura. Mas tal sinal de fraqueza ocidental provavelmente teria encorajado os japoneses a lançar seu ataque frontal».[152]

O retorno à posição inicial inflexível, em vez de se buscar um modus vivendi, como Roosevelt e Hull chegaram a propor inicialmente,[186][184] deveu-se essencialmente a dois fatores. O primeiro foi o pouco entusiasmo dos governos da Grã-Bretanha, dos Países Baixos e da Austrália em relação à proposta japonesa[184] e, sobretudo, a rejeição radical do governo chinês de Chiang Kai-shek,[186] que fez o governo americano perceber que, se cedesse ao Japão, conforme explicou Hull após a guerra, corria-se o risco «de que a moral e a resistência chinesas desmoronassem, e até mesmo de que a própria China se desintegrasse».[192] De fato, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill havia enviado um telegrama ao presidente Roosevelt apoiando a posição de Chiang Kai-shek e expressando sua preocupação com a possível derrota da China.[189]

O segundo fator, provavelmente o mais decisivo,[192] foi um relatório da inteligência militar sobre movimentos de tropas japonesas no sudeste da Ásia —havia sido detectado um grande comboio de navios de guerra e navios de transporte com cerca de 50 000 soldados a bordo atravessando o Mar da China Meridional—[154][189] o que indicava que o Japão estava prestes a lançar um ataque a qualquer momento.[192] Essa conclusão era corroborada por um telegrama enviado pelo ministro Togo à embaixada em Washington, que havia sido decifrado pelos serviços secretos americanos, no qual se afirmava que, caso não se chegasse a um acordo diplomático após 29 de novembro, as coisas avançariam “de forma automática”.[189] Quando foi informado sobre os movimentos das tropas, o presidente Roosevelt ficou furioso, pois isso era uma prova da má-fé dos japoneses, e afirmou que isso «mudava completamente a situação»[189] — mais tarde, ele disse estar convencido de que os japoneses certamente atacariam os Estados Unidos em 1º de dezembro, «pois é sabido que os japoneses atacam sem aviso prévio»—.[193] No entanto, o retorno a uma postura firme em relação ao Japão não significava que o governo americano quisesse entrar em guerra naquele momento, uma vez que tanto o Chefe do Estado-Maior do Exército, o general George Marshall, quanto o Chefe de Operações Navais, o almirante Harold R. Stark, haviam informado ao presidente Roosevelt que os Estados Unidos ainda não estavam preparados.[154]

Depois de lerem o documento, Kurusu e Nomura tentaram convencer Hull a suavizar algumas das exigências — como a natureza multilateral do acordo ou a retirada do apoio a Wang Jingwei —, pois sabiam que seu governo as rejeitaria — como observou a historiadora Eri Hotta, “o esboço dava a impressão de que os Estados Unidos estavam exigindo do Japão uma rendição incondicional sem tê-lo derrotado em uma guerra” —,[194] mas Hull recusou categoricamente. Então, solicitaram uma audiência com o presidente, e a reunião ocorreu no dia seguinte. Roosevelt lhes disse que não pretendia introduzir nenhuma alteração na Nota de Hull e justificou sua posição referindo-se aos recentes «movimentos e declarações japonesas, que apontam inequivocamente para a conquista pela força, ignorando toda possibilidade de um acordo pacífico e os princípios nos quais este se baseia». Da mesma forma, mostrou-se decepcionado com os líderes japoneses, os quais “continuavam a expressar sua oposição aos princípios fundamentais da paz e da ordem”, acrescentando em seguida uma declaração categórica: “Enquanto o elemento contrário à paz que controla o governo não se decidir definitivamente a agir e a manifestar-se em uma direção pacífica, não haverá conversas que possam levar a algum lugar, como ficou demonstrado de forma evidente”. Por fim, o presidente Roosevelt previu que, se «infelizmente [o Japão] decidir seguir o hitlerismo e tomar o caminho da agressão», seria «o grande perdedor». Quando a reunião terminou, o Departamento de Estado, contrariando a política seguida até então, informou à imprensa o que havia sido discutido. O The New York Times publicou no dia seguinte, 28 de novembro: “Todos os esforços dos Estados Unidos para resolver suas divergências com o Japão parecem ter se esgotado ontem e cabe a Tóquio dar o próximo passo, que pode ser diplomático ou militar”.[195]


No mesmo dia em que os representantes japoneses em Washington recebiam a Nota de Hull, partia secretamente da baía de Hitokappu, na ilha de Iturup, no arquipélago das Curilas, a frota japonesa comandada pelo vice-almirante Chuichi Nagumo, que iria atacar Pearl Harbor. Foi então que as tripulações e os pilotos foram informados sobre o objetivo da missão.[196][197] A frota estava composta por seis porta-aviões, com o Akagi como navio-almirante,[144] escoltados apenas por dois couraçados, dois cruzadores e onze contratorpedeiros.[198] O governo dos Estados Unidos, que controlava parcialmente as comunicações criptografadas japonesas e havia mobilizado aviões e navios de reconhecimento, não tomou conhecimento da partida da força naval que iria atacar Pearl Harbor porque ela ocorreu sem o uso de rádio e sob forte chuva.[199][144]
Ao meio-dia de 27 de novembro, um dia depois que a frota que ia atacar Pearl Harbor tivesse zarpado em segredo —nem sequer o primeiro-ministro Hideki Tōjō conhecia os detalhes—, a Nota de Hull chegou ao Governo japonês. Apesar de não conter um prazo para resposta, o governo e os Estados-Maiores do Exército e da Marinha a interpretaram como um ultimato —e como um insulto—.[189] O ministro Togo, que pensou em renunciar, escreveu mais tarde: “Perdi toda a esperança. Tentei imaginar que aceitava [as exigências], mas não havia como engoli-las.»[200] Os consternados líderes japoneses, furiosos sobretudo com a exigência da retirada completa das tropas japonesas da China,[191] voltaram a recorrer à teoria do «cerco ABCD» para acusar os Estados Unidos de serem o agressor. Por sua vez, os oficiais superiores mais belicistas consideraram a nota como «praticamente um milagre», pois, ao tornar impossível a solução diplomática, deixava a guerra como única alternativa.[201][191]
1º de dezembro: a Conferência Imperial ratifica a decisão de entrar em guerra com os Estados Unidos

Em 29 de novembro o imperador Hirohito reuniu em um almoço todos os ex-primeiros-ministros para que lhe dessem sua opinião sobre a Nota de Hull. Embora todos estivessem contra a guerra, só o almirante Mitsumasa Yonai, cuja oposição à assinatura do Pacto Tripartite havia provocado sua queda em julho do ano anterior, atreveu-se a falar claramente: «Peço desculpas por expressar minha opinião de forma tão direta, mas acredito que não devemos cair na miséria absoluta em nosso esforço para evitar uma miséria gradual». Surpreendentemente, o único que concordou com essa argumentação foi o príncipe Fumimaro Konoe, que havia substituído Yonai, assinado o Pacto Tripartite e autorizado a invasão da Indochina francesa. «Não deveríamos esperar até que as dificuldades surgissem e tentar sair agora deste impasse?», perguntou-se ele. Ninguém lhe respondeu.[202] Tojo afirmou, após a guerra, que a opinião majoritária expressa na reunião era de que «se esta guerra era uma questão de sobrevivência, então temos que estar preparados para lutar, mesmo que a derrota fosse previsível».[191]
Naquela mesma tarde de 29 de novembro, reuniu-se a conferência de ligação que, por proposta do primeiro-ministro Tojo, decidiu entrar em guerra.[197] Os chefes dos Estados-Maiores informaram que todos os preparativos bélicos estavam quase totalmente concluídos. Foi então que os membros do governo foram informados de que a data do início dos ataques era 8 de dezembro, embora ainda não soubessem quais eram os alvos e que um deles era Pearl Harbor.[203]

Em 30 de novembro o irmão menor do imperador Hirohito, o príncipe e contra-almirante da Marinha Imperial Nobuhito Takamatsu, tentou convencê-lo a impedir a guerra.[204] «A Marinha não pode se dar ao luxo de entrar em combate. Dá a impressão de que, se fosse possível, a Marinha preferiria evitar uma guerra com os Estados Unidos. Se deixarmos passar esta oportunidade, será impossível evitá-la. A Marinha começará a se mobilizar para o combate em 1º de dezembro. Após essa data, [a guerra] será inevitável», disse ele. Hirohito respondeu que temia uma possível derrota do Japão, mas que não podia interferir nas decisões tomadas pelo governo e pelo Alto Comando. Mais tarde, Hirohito justificaria sua atitude dizendo: “Se eu não tivesse aprovado a guerra, [o primeiro-ministro] Tojo teria renunciado, teria ocorrido um grande golpe de Estado e, por sua vez, isso teria dado origem a argumentos absurdos a favor da guerra”.[205]
Assim que o príncipe Takamatsu deixou o palácio, o guardião do selo privado Koichi Kido, que considerava que não era “o momento apropriado” para o imperador intervir, chamou Tojo ao palácio para que esclarecesse as dúvidas de Hirohito, mas este delegou a tarefa ao Chefe do Estado-Maior da Marinha, Osami Nagano, e ao ministro da Marinha, Shigetaro Shimada — “as estratégias navais são tudo [nesta guerra]”, disse ele. Nagano e Shimada disseram ao imperador que as engrenagens da guerra já haviam começado a se mover “automaticamente” com o objetivo de curar o “câncer do Pacífico”.[178]
No dia seguinte, 1º de dezembro, reuniu-se a Conferência Imperial, pela quarta vez em cinco meses. O almirante Nagano declarou, em nome dos Estados-Maiores do Exército e da Marinha: “Estamos agora em condições de iniciar as operações, conforme os planos previstos, assim que recebermos a ordem imperial para recorrer à força”.[206] Como o prazo fixado para as negociações com os Estados Unidos já havia expirado, foi aprovada a entrada em guerra contra os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e os Países Baixos. Hirohito não se pronunciou.[207] O presidente do Conselho Privado, Hara, disse:[208]

No dia seguinte à reunião da Conferência Imperial, o almirante Isoroku Yamamoto enviou uma mensagem codificada ao vice-almirante Nagumo, comandante da frota que navegava em silêncio em direção a Pearl Harbor, na qual lhe ordenava que lançasse o ataque. A mensagem dizia: «Escalem o monte Niitaka 1208».[209]
Enquanto isso, os estados-maiores do Exército e da Marinha dos Estados Unidos esperavam o ataque japonês a qualquer momento. Acreditavam que os alvos mais prováveis seriam Malaca, a Tailândia ou as Filipinas. Ninguém esperava que o ataque fosse contra Pearl Harbor, no meio do Pacífico.[210] O problema residia no fato de que os serviços de inteligência não sabiam onde estavam os seis porta-aviões da Primeira e da Segunda Frotas japonesas. Em 2 de dezembro, o almirante Husband E. Kimmel, chefe da Frota do Pacífico, disse a um de seus subordinados quando este lhe comunicou que ainda não os haviam localizado: “Quer dizer que eles poderiam estar cercando Diamond Head [perto da entrada de Pearl Harbor] e vocês não saberiam?”.[144]
7 de dezembro: ataque a Pearl Harbor e declaração de guerra

Considerando que o fator surpresa era essencial para o sucesso da operação, o governo japonês e o Alto Comando — ignorando a opinião do principal responsável pela mesma, o almirante Yamamoto, e até mesmo a do próprio imperador, de que o Japão deveria respeitar o disposto no direito internacional sobre a guerra — decidiram que anunciariam o rompimento das relações com os Estados Unidos apenas meia hora antes do início do ataque a Pearl Harbor (previsto para as 8h do dia 7 de dezembro nas ilhas Havaí; às 13h30 do mesmo dia em Washington).[211][212] Para garantir o sigilo, ele também decidiu não informar seus representantes em Washington sobre a decisão de entrar em guerra contra os Estados Unidos, por isso, após 1º de dezembro, eles continuaram com suas negociações diplomáticas — Kurusu, quando soube meses depois que a guerra já estava decidida, pois o governo japonês, no dia 3 de dezembro, havia indicado a ele e a Nomura que continuassem com suas negociações diplomáticas, considerou esse fato como uma tática deliberada para enganar e confundir o adversário, assim como pensavam os americanos —.[213] Na verdade, Kurusu e Nomura conseguiram que o presidente Roosevelt enviasse uma carta pessoal ao imperador em prol da paz, mas ela foi retida por ordem do Estado-Maior do Exército, de modo que Hirohito só a recebeu meia hora antes do início do ataque a Pearl Harbor.[214][215]


O governo japonês enviou o comunicado da ruptura das negociações —do qual havia sido suprimida a frase que falava da possível declaração de guerra japonesa de acordo com a Convenção de Haia—[216] apenas algumas horas antes do ataque.[197] O comunicado ia acompanhado da ordem de que não o entregassem antes das 13h00 (horário de Washington; 7h30, horário do Havaí, isto é, justamente meia hora antes do início do ataque). Mas a embaixada japonesa teve dificuldades para decifrar e digitar o documento, que consistia em quatorze pontos e uma conclusão final,[217] pelo que Nomura e Kurusu o apresentaram a Hull às 14h20, quando já fazia uma hora que o ataque a Pearl Harbor havia começado —o que Nomura e Kurusu desconheciam, já que seu governo tampouco os havia informado sobre a operação—.[218] Quando Hull os recebeu, perceberam que ele estava furioso — nem lhes apertou a mão, nem os convidou a se sentar.[210] Não podiam saber que tanto ele quanto o presidente Roosevelt conheciam o conteúdo da mensagem desde as 10 da manhã, já que os serviços de inteligência a haviam interceptado e decifrado antes que a própria embaixada japonesa —de fato por volta das 12 da manhã os comandantes das bases navais e terrestres americanas do Pacífico já haviam sido advertidos do iminente ataque japonês, mas não sobre Pearl Harbor, devido às más condições meteorológicas (a mensagem chegaria quando o ataque japonês já havia começado)—.[210] Além disso, havia poucos minutos que o secretário de Estado havia sido informado de que a base de Pearl Harbor estava sendo atacada por aviões japoneses. Em determinado momento, Hull parou de ler o documento que os representantes japoneses lhe haviam entregue e disse a eles:[211][142]

Kurusu e Nomura voltaram confusos para a embaixada, onde encontraram, na entrada, uma multidão que os repreendia. Foi então que souberam que o Japão havia atacado os Estados Unidos de surpresa e antes mesmo de ter declarado guerra.[219] Depois que os dois representantes japoneses se retiraram, Hull os chamou de “homúnculos e canalhas”.[218]
No discurso que proferiu no dia seguinte perante o Congresso para solicitar a declaração de guerra ao Japão — também conhecido como o “discurso da infâmia”, pois começava dizendo: “Ontem, 7 de dezembro de 1941, uma data que ficará marcada pela infâmia, os Estados Unidos da América foram atacados de forma repentina e deliberada pelas forças navais e aéreas do Império Japonês” —,[220] Roosevelt denunciou a conduta abominável dos japoneses por terem usado a diplomacia para ocultar os preparativos:[221]
Ver também
Referências
- ↑ Kershaw 2007, p. 92; 94.
- ↑ Kennedy 2015, p. 353.
- ↑ Kershaw 2007, p. 92-93.
- ↑ Kennedy 2015, p. 354.
- ↑ Kershaw 2007, p. 93-94.
- ↑ Hane 2006, p. 197-198.
- ↑ Kershaw 2007, p. 94.
- ↑ Hane 2006, p. 200«Na década de 1930, foi dada especial ênfase à defesa do caráter sagrado do sistema imperial — que tem sua origem na deusa Sol —, à inviolabilidade da política nacional, à singularidade e superioridade da raça japonesa e de sua história, bem como à “integração das cinco partes do mundo sob o mesmo teto”».
- ↑ Hane 2006, p. 204.
- ↑ Kershaw 2007, p. 95; 105.
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- 1 2 Kershaw 2007, p. 332.
- ↑ Hotta 2015, p. 161-169.
- ↑ Hotta 2015, p. 170-173«Todos estavam se convencendo de que, desde que a ocupação do sul da Indochina ocorresse sem violência física e não se estendesse além da península, o mundo não iria criar obstáculos, muito menos iniciar uma guerra contra o Japão».
- ↑ Hotta 2015, p. 174-175.
- ↑ Hotta 2015, p. 177; 181-184.
- ↑ Hotta 2015, p. 184-185.
- ↑ Beevor 2014, p. 350-351.
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- 1 2 Hotta 2015, p. 185.
- ↑ Hotta 2015, p. 185-186.
- ↑ Hotta 2015, p. 186.
- ↑ Hotta 2015, p. 186-187«Roosevelt estava determinado a afastar o Japão do regime de Hitler de qualquer maneira possível. Como a prioridade de Roosevelt era fornecer a ajuda necessária à Grã-Bretanha — e agora também à União Soviética —, era preciso garantir a paz no Pacífico, e isso exigia alguma criatividade».
- ↑ Hotta 2015, p. 187-189.
- ↑ Hotta 2015, p. 190-191.
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- 1 2 Hane 2006, p. 232.
- ↑ Kershaw 2007, p. 341.
- ↑ Kershaw 2007, p. 341-342.
- ↑ Hotta 2015, p. 218-221«Hirohito estava ciente da imprudência do plano (…). Sua inclinação natural para evitar a guerra, como patriarca do Estado-família japonês e amante da paz, entrava em conflito com sua responsabilidade como comandante supremo das Forças Armadas, cuja função era garantir a sobrevivência do Japão por meio da preparação para a guerra; nessa ocasião, prevaleceu a segunda, e por isso ele aceitou o plano de guerra».
- ↑ Kershaw 2007, p. 345.
- 1 2 Hotta 2015, p. 221-222.
- ↑ Kershaw 2007, p. 345-346.
- ↑ Kershaw 2007, p. 346-347.
- ↑ Kershaw 2007, p. 343.
- ↑ Kershaw 2007, p. 347-348.
- ↑ Hotta 2015, p. 223-224«Teoricamente, Konoe ainda poderia chegar a um acordo diplomático com Washington, mas o tempo estava se esgotando e a facção pró-guerra acabara de superar um grande obstáculo ao obter o consentimento do imperador. Ou, mais exatamente, as Forças Armadas, embora divididas e inseguras quanto à viabilidade de uma guerra concebida precipitadamente, estavam se tornando prisioneiras de sua própria retórica belicosa. Agora que um prazo específico havia sido estabelecido, o impulso para a guerra havia adquirido uma dinâmica interna própria».
- ↑ Kershaw 2007, p. 348.
- ↑ Hotta 2015, p. 227-228.
- ↑ Kershaw 2007, p. 348-349.
- ↑ Hotta 2015, p. 231-233.
- 1 2 3 Kershaw 2007, p. 349.
- ↑ Hotta 2015, p. 234-235; 246-248.
- ↑ Hotta 2015, p. 234-235.
- ↑ Hotta 2015, p. 240«As dúvidas do comandante-chefe da Marinha, um grande estrategista, demonstravam que o rumo para a guerra traçado pelos estados-maiores não tinha muita relação com a realidade estratégica do país».
- 1 2 3 4 Hane 2006, p. 233.
- ↑ Hotta 2015, p. 241-242.
- ↑ Kershaw 2007, p. 350.
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- 1 2 Hotta 2015, p. 225-226.
- 1 2 Kershaw 2007, p. 353.
- ↑ Hotta 2015, p. 258-260.
- 1 2 3 Kershaw 2007, p. 354.
- ↑ Hotta 2015, p. 246-248.
- ↑ Hotta 2015, p. 261-262.
- ↑ Hotta 2015, p. 262-266«Como Tojo era a pessoa que havia insistido que a resolução da conferência imperial de 6 de setembro era sagrada, Kido achou que o melhor seria que ele assumisse a difícil tarefa de revogá-la. […] É claro que a lógica de que a voz mais abertamente belicista do gabinete anterior se tornasse o próximo primeiro-ministro para evitar a guerra era questionável. Além disso, a problemática decisão imperial havia sido tomada conjuntamente pelo governo e pelo Alto Comando. Se o governo tinha que admitir sua parcela de responsabilidade pelo dia 6 de setembro, os dois chefes dos estados-maiores também deveriam fazê-lo. Kido não fez qualquer esforço para destituir Sugiyama ou Nagano e cortar o mal pela raiz».
- 1 2 Kershaw 2007, p. 356.
- 1 2 3 Hotta 2015, p. 141.
- 1 2 Kershaw 2007, p. 374.
- ↑ Hotta 2015, p. 141-142.
- 1 2 3 4 Beevor 2014, p. 353.
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- 1 2 3 Hane 2006, p. 235.
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- ↑ Hotta 2015, p. 325-326.
- ↑ Hotta 2015, p. 326.
- ↑ Hotta 2015, p. 331«Os antigos líderes do Japão simplesmente não fizeram um esforço conjunto para apoiar e encorajar o imperador, que estava com medo, a estar à altura do desafio e a usar sua autoridade para impedir a mobilização bélica.»
- ↑ Hotta 2015, p. 331-332.
- ↑ Kershaw 2007, p. 370-371.
- ↑ Hotta 2015, p. 332-333.
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