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Tartária
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A Tartária (em latim: Tataria, também conhecida como Grande Tartária [Tartaria Magna]) era um nome utilizado por europeus desde a Idade Média até o século XX para designar uma grande extensão de território da Ásia Central e setentrional que se estendia do Mar Cáspio e das Montanhas Urais até o Oceano Pacífico, habitado pelos povos turcomanos e mongóis do Império Mongol, genericamente chamados de tártaros. O território conhecido por este nome abrange as regiões atuais da Sibéria, Turquestão (com exceção do Turquestão Oriental), Grande Mongólia, Manchúria e, por vezes, o Tibete.
Etimologia. Primeiras descrições da Tartária
O termo «Tartária» é mencionado pela primeira vez por volta de 1173 pelo viajante navarro Benjamim de Tudela, que escreveu sobre uma «província tibetana da Tartária… no lado do Turquestão e de Tanchut, ao norte do Mogolistão». O termo «tártaros», sem uma designação específica, foi utilizado num livro sobre os feitos e as vitórias contra os sarracenos do rei nestoriano dos tártaros, David — Relatio de David (1221). Os «tártaros» também são encontrados no cronista francês Alberico. As primeiras menções não tinham uma conotação negativa; os seus autores, seguindo fontes orientais, associavam os mongóis ao reino do Preste João. Este mito, que apresentava os mongóis sob uma perspetiva positiva, exerceu uma influência duradoura na perceção dos tártaros na Europa. O primeiro uso relativamente preciso da palavra «tártaros» remonta a 1224, quando a rainha georgiana Rusudana, numa carta ao Papa Honório III, chamou de tártaros os mongóis que haviam atacado a Geórgia. O frade dominicano e viajante húngaro Julião (1238), que partira em busca da Grande Hungria nas estepes cumanas, relatou sobre os tártaros e descreveu a catástrofe da invasão mongol. A perceção começou a mudar para o lado negativo entre 1236 e 1238, com a difusão de informações sobre as consequências destrutivas das conquistas mongóis, e alterou-se radicalmente em 1241–1242, após os mongóis devastarem o Reino da Hungria e alcançarem o Adriático[1][2].

O conceito de «Tartária» como uma designação geográfica específica foi presumivelmente construído entre 1238 e 1242. Por volta de 1241–1242, em associação com a invasão mongol da Europa, ocorreu a inclusão do nome do inferno mitológico ("Tártaro") no topónimo «Tatária». O orientalista do século XIX, O. Wolff, considerava que o aparecimento do «r» nas línguas europeias foi causado pela influência dos dialetos persas, nos quais o «r» podia ou não ser pronunciado. No entanto, o mais provável é que, devido à ausência de ligações entre os cronistas europeus e a Pérsia, a «Tartária» tenha surgido sem influência externa, como resultado de uma atração paronímica historicamente condicionada — duas palavras foneticamente próximas e semanticamente diferentes fundiram-se numa só. Pelo relato do cronista inglês Mateus Paris, depreende-se que o primeiro a associar os «tártaros» ao «Tártaro», em 1241, foi o rei francês Luís IX, que em 1244 proclamou uma cruzada contra os mongóis[3][4]. Segundo a versão de Mateus, o rei respondia a uma pergunta da sua mãe, Branca de Castela, sobre uma possível invasão dos tártaros[5][6]:146—147[7]
Citação: Ó minha mãe, que os céus nos apoiem! Pois se este povo vier até nós, ou os empurraremos de volta para o Tártaro, de onde saíram, ou eles nos enviarão a todos para os céus.
Luís é frequentemente apontado como o autor desta associação, embora seja possível que a palavra já estivesse em uso há alguns anos (como pensava, por exemplo, O. Wolff). In 1244, o imperador germânico Frederico II correlacionou de forma semelhante o Tártaro e os tártaros: «ad sua Tartara Tartari detrudentur» («que os Tártaros sejam lançados no seu Tártaro»)[8]. A palavra «Tartária» fixou-se no uso: Luís IX utilizou o termo na correspondência com os khans mongóis entre 1248 e 1262[9].
As descrições de Mateus Paris e do imperador Frederico remetiam ao Tártaro: os tártaros eram chamados de «povo odioso», «ferozes como demónios», «enviados pelo próprio Satanás». O seu aparecimento nas fronteiras da Europa foi associado à vinda do Anticristo: num ambiente entre 1250 e 1400 (Mateus Paris, ao compilar a "Chronica Majora", estava seguro de que o Anticristo viria em 1250[10]), na expectativa do Juízo Final, os mongóis transformaram-se por centenas de anos em «gentes do Inferno», cavaleiros do Apocalipse e guerreiros do Anticristo, tanto nas crenças populares como entre os europeus instruídos. Os mongóis foram representados desta forma mais tarde por Roger Bacon, pelo historiador arménio Kirakos de Gandzak, pelo cronista Jean de Joinville, por Dante na «Divina Comédia», entre outros[11][12][13]. Como pitorescamente afirmado numa edição académica russa de 1848[14]: «No entendimento dos europeus, os "tártaros" são um povo que traz horrores e o fim do mundo, e a forma desta palavra tornou-se de uso geral, aludindo à origem dos inimigos do Cristianismo a partir do Tártaro pagão».

Numa carta a Guilherme de Auvergne em 1242, um bispo húngaro relatava que a terra dos "tártaros" ficava «além das montanhas, perto do rio Egog», concluindo que se tratava do povo de Gog e Magog[15][16]. Na "Chronica Majora" de Mateus Paris, a Tartária surge como um lugar cercado por uma «barreira montanhosa intransponível»:98[17]; nas montanhas nasce o rio dos mortos — o "Tártaro":102 ou "Egog". O rio deu nome ao povo da Tartária; esta última ideia está presente em Julião[18]. De acordo com Mateus, a «tribo satânica» atravessou em número incontável as montanhas e o rio intransponíveis e apareceu para anunciar o fim do mundo:98—100, 102[19], ligação que para o cronista foi adicionalmente confirmada pela «descoberta» do rio[10]. O frade dominicano Simon de Saint-Quentin, que participou entre 1245 e 1248 na embaixada papal de Ascelin de Lombardie à corte do khan mongol, localizou a Tartária «fora da Pérsia e da Arménia» e colocou-a nos limites das fronteiras da Índia; o rei dos tártaros era David. Segundo o historiador J. Richard, por Índia entendia-se o Canato de Caraquitai[20].
Geografia e história
A Tartária frequentemente era dividida em seções, com prefixos que indicavam o nome da autoridade dominante ou da localização geográfica. Assim, a Sibéria ocidental era a "Tartária Moscovita" ou "Russa", o Turquestão oriental (posteriormente o Xinjiang chinês) e a Mongólia eram a "Tartária de Catai" ou "Chinesa", o Turquestão ocidental (mais tarde conhecido como Turquestão Russo) era conhecido como "Tartária Independente", e a Manchúria como "Tartária Oriental".
À medida que o Império Russo se expandiu para leste, mais da Tartária foi se tornando conhecido para os europeus, e o termo passou gradualmente a ser menos usado. As regiões europeias a norte do Mar Negro que eram habitadas por povos turcomanos ficaram conhecidas como Pequena Tartária.
O "deserto de Komul da Tartária" foi mencionado pelo pensador alemão Immanuel Kant em suas Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime como uma "grande [e] infinita solidão".

Na Rússia há o Tataristão ou República Autônoma da Tartária, cuja capital é Qazan e que é atravessado pelo rio Volga. Em 21 de março de 1992 a região aprovou sua soberania através do voto, apesar de não desejar a independência. A nação é responsável por 23% da produção de petróleo da Rússia.
Bibliografia
- Fleming, Peter: One's Company (1936) e News From Tartary (1936), republicados como Travels in Tartary;
- Kotkin. Stephen. "Defining Territories and Empires: from Mongol Ulus to Russian Siberia 1200-1800". SRC Winter Symposium: Socio-Cultural Dimensions of the Changes in the Slavic-Eurasian World. Janeiro de 30 - 1 de fevereiro de 1997. Disponível em
Ligações externas
- Mapa de 1704 da Tartária
- Mapa de 1736 da Tartária mostrando as suas diferentes 'subdivisões' (Moscovita, Independente e Chinesa).
- ↑ Gorshenina 2014, pp. 107—109.
- ↑ Connell 2016, pp. 106—107.
- ↑ Gorshenina 2014, pp. 40—41, 109, 111—112.
- ↑ Connell 2016, pp. 105—106.
- ↑ Gorshenina 2014, p. 109.
- ↑ Matthieu Paris (1840). [(https://books.google.ru/books?id=sLouAAAAMAAJ&pg=PA141&source=gbs_toc_r&cad=4#v=onepage&q&f=false) Grande Chronique de Matthieu Paris] Verifique valor
|url=(ajuda). 5. P.: Paulin, Libraire-éditeur. [(https://web.archive.org/web/20231110102159/https://books.google.ru/books?id=sLouAAAAMAAJ&pg=PA141&source=gbs_toc_r&cad=4#v=onepage&q&f=false) Cópia arquivada em 10 de novembro de 2023] Verifique valor|arquivourl=(ajuda) Parâmetro desconhecido|responsável=ignorado (ajuda) - ↑ Connell 2016, p. 105.
- ↑ Gorshenina 2014, pp. 109, 111.
- ↑ Gorshenina 2014, p. 111.
- 1 2 Westrem 1998, p. 59.
- ↑ Gorshenina 2014, pp. 109—112, 114.
- ↑ Connell 2016, p. 106.
- ↑ Калуцков 2018.
- ↑ Карманная книжка 1848.
- ↑ Gorshenina 2014, p. 112.
- ↑ Connell 2016, p. 115.
- ↑ Gorshenina 2014, pp. 110, 112.
- ↑ Gorshenina 2014, pp. 112—113.
- ↑ Gorshenina 2014, p. 110.
- ↑ Gorshenina 2014, p. 139.

