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Fernando Milliet
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Fernando Milliet de Oliveira | |
|---|---|
| 12º Presidente do Banco Central do Brasil | |
| Período | 5 de maio de 1987 até 9 de março de 1988 |
| Presidente | José Sarney |
| Antecessor(a) | Lício de Faria (interino) |
| Sucessor(a) | Elmo de Araújo Camões |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 13 de março de 1942 (84 anos) São Paulo, SP |
| Nacionalidade | brasileiro |
| Progenitores | Pai: Eduardo Sabino de Oliveira |
| Alma mater | FGV-SP Michigan State University Universidade Harvard |
| Profissão | empresário, administrador de empresas |
Fernando Milliet de Oliveira (São Paulo, 13 de março de 1942) é um empresário e administrador de empresas brasileiro. Graduado em administração pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e com pós-graduação na Michigan State University e na Harvard Business School, lecionou na FGV, dirigiu a seguradora do Comind e liderou o Banespa. Exerceu a presidência do Banco Central do Brasil entre maio de 1987 e março de 1988, durante o governo Sarney, num período marcado pela moratória da dívida externa, pelo Plano Bresser e pelas negociações com credores internacionais.[1][2]
Origens e formação
Filho do engenheiro Eduardo Sabino de Oliveira, formado pela Escola Politécnica da USP, Fernando Milliet nasceu em São Paulo em 1942. Seu pai, que obtivera uma bolsa de estudos na Europa pouco antes da crise de 1929, tornou-se defensor do uso do álcool como substituto parcial da gasolina e realizou experiências no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para adaptar motores ao novo combustível. Chegou a propor ao presidente Getúlio Vargas a mistura obrigatória de álcool à gasolina, medida adotada pelo país a partir de 1930–1931 e que, décadas depois, viabilizaria o Proálcool.[3]
Milliet cresceu em São Miguel Paulista, então distrito fabril onde funcionava a Companhia Nitro Química Brasileira, empregadora de seu pai, antes de a família se transferir para a capital. Cursou o primário na Escola Elvira Brandão e o secundário no Colégio Santa Cruz.[4] Em seguida, ingressou na Faculdade de Administração de Empresas da FGV-SP. Durante a graduação, interessou-se por questões de desenvolvimento econômico e chegou a cogitar estudar Administração pública na École Nationale d'Administration (ENA), em Paris, mas optou por cursar administração de empresas nos Estados Unidos.[4]
No ambiente universitário, envolveu-se na política estudantil: disputou espaço com o colega Eduardo Suplicy pela presidência do Centro Acadêmico e acabou direcionando-se à União Estadual dos Estudantes (UEE). Ocupava cargo assessor em entidade estudantil quando os militares tomaram o poder em março de 1964.[5] Contrário ao regime militar, participou de atividades do Partido Democrata Cristão (PDC) e viajou a um congresso de democracia-cristã em Berlim em 1965, mas o endurecimento do regime e a extinção dos partidos pelo AI-2 o levaram a optar pela carreira acadêmica.[6]
Pós-graduação nos Estados Unidos
Formado em dezembro de 1964, Milliet trabalhou por um ano na empresa têxtil do pai em Osasco antes de embarcar com a família para os Estados Unidos no final de 1965. Na Universidade Estadual de Michigan (Michigan State University), em East Lansing, cursou mestrado em administração de empresas por meio de convênio mantido com a FGV-SP para formação de professores; financiou-se com economias próprias, pois ainda não integrava o quadro docente da Fundação.[7] Ao tomar conhecimento de um programa da Harvard Business School voltado a docentes estrangeiros, pediu transferência e completou mais um ano de estudos em Harvard.[8] Retornou ao Brasil no segundo semestre de 1967, prestou concurso na FGV e, em 1968, passou a lecionar na instituição.[4]
Início de carreira
Nos primeiros anos após o retorno, Milliet acumulou três atividades: docência na FGV-SP, trabalho na empresa do pai e funções no Comind, banco ao qual se ligara por meio de vínculos familiares. A partir de 1970, assumiu a diretoria da seguradora do conglomerado.[9][1]
Ainda em 1968, como professor da FGV, assessorou a delegação brasileira em arbitragem sobre o café solúvel na Organização Internacional do Café (OIC), contribuindo com análise de custos industriais em contexto inflacionário.[10]
Governo de São Paulo
Em meados de 1975, o governador Paulo Egídio Martins convidou Milliet não para a área financeira, como este esperava, mas para estudar a situação dos recursos humanos da administração estadual. Com apoio da Fundap e de funcionários de carreira, Milliet liderou a elaboração de um projeto que regularizou a situação de aproximadamente 200 mil servidores temporários então desprovidos de direitos previdenciários e trabalhistas. O plano, que envolveu pesquisa sobre condições de trabalho e comparações com o setor privado, foi aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa como Lei Complementar 180, de 12 de maio de 1978.[11]
Paulo Egídio nomeou-o secretário de Administração, cargo no qual também conduziu a política previdenciária do governo, tendo sob sua alçada o Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (IPESP). Em parceria com o atuário Gerhard Dutzman e a colaboração de Wadico Bucchi, Milliet promoveu estudo que antecipava o agravamento das contas previdenciárias, entregando as conclusões ao governador e ao ministro da Previdência.[12] Durante a gestão, enfrentou ainda a primeira greve de servidores públicos desde 1964, ocorrida no Hospital dos Servidores e no Hospital das Clínicas; enquanto o presidente Ernesto Geisel pressionava por ação policial, Paulo Egídio optou pela via negocial.[13]
Terminada essa gestão em 1979, Milliet retornou ao setor privado e, valendo-se da experiência adquirida na diretoria da seguradora do Comind, fundou com sócios a Soma Seguros, empresa à qual se dedicou até 2004.[14][1]
No Banespa
Em 1983, o governador Franco Montoro convidou Bresser Pereira para a presidência do Banespa, e Bresser chamou Milliet para a vice-presidência.[15] O banco vivia momento crítico: possuía mais depósitos em dólares do que em moeda nacional em razão de suas agências no exterior, e a inadimplência das estatais reduzia sua capacidade de atuar no setor privado.[16]
Em 1985, Milliet sucedeu Bresser na presidência e publicou o que descreveu como o melhor balanço da história do Banespa em moeda estável. No ano seguinte, porém, os efeitos do Plano Cruzado — captação a juros fixos e empréstimos indexados — inverteram o resultado. Para enfrentar a crise, negociou diretamente com o Sindicato dos Bancários um acordo salarial inovador que atrelava parte da remuneração ao lucro da instituição, medido em Obrigações do Tesouro Nacional (OTN).[17]
Nos primeiros meses de 1987, já sob o governo Orestes Quércia, o Banespa continuava extremamente lucrativo em razão da aceleração inflacionária. Milliet encomendou ao departamento econômico do banco um estudo que estimou em cerca de 4% do PIB o volume de recursos transferidos da economia para o sistema bancário naquele período de transição pós-Cruzado. Encaminhou o documento a Fernão Bracher, então presidente do Banco Central, porém Bracher deixou o cargo pouco depois, substituído por Francisco Gros.[18] Em abril de 1987, Milliet foi nomeado para suceder Gros na presidência do Banco Central.[1]
Presidência do Banco Central
Contexto e posse
Milliet tomou posse logo após a decretação da moratória da dívida externa, medida do governo Sarney que se estenderia até outubro de 1987. O Banco Central enfrentava, naquele momento, a necessidade de liquidar em média uma instituição financeira por semana — entre distribuidoras, corretoras, financeiras e bancos de investimento — além de lidar com a situação problemática de bancos estaduais fora de seu controle direto.[19][1]
Em seu discurso de posse, defendeu a sustentação de juros reais elevados frente à inflação para coibir a repetição do padrão de consumo observado no Plano Cruzado e as práticas especulativas sobre produtos. Sustentou a necessidade de manutenção do mecanismo de desvalorizações graduais do cruzado diante do dólar como estímulo às vendas externas, ressaltando simultaneamente a urgência de recompor o equilíbrio econômico mediante uma estrutura sustentável de desenvolvimento.[1]
O Plano Bresser
Milliet mantinha relação próxima com o ministro Bresser Pereira, com quem viajava semanalmente de São Paulo a Brasília no avião do Banco Central. Aos sábados, participava de reuniões na residência de Bresser em São Paulo, das quais também tomavam parte Pérsio Arida, André Lara Resende, Chico Lopes e Edmar Bacha, entre outros economistas que assessoravam informalmente a equipe econômica.[20]
O Plano Bresser, lançado em 12 de junho de 1987, inspirava-se na teoria da inflação inercial e propunha combatê-la por meio de uma moeda indexada que, posteriormente, daria lugar a uma moeda estável. Milliet considerava que o plano tinha fundamentos consistentes, mas o ajuste fiscal necessário para seu sucesso não se concretizou, e os resultados ficaram aquém do esperado.[21]
Intervenções em bancos estaduais
Em maio de 1987, Milliet ordenou a intervenção no Banco do Estado do Pará (Banpará) devido aos resultados deficientes e aos prejuízos elevados da instituição. A decisão contou com a recomendação de Pérsio Arida, então diretor da Área Bancária do Banco Central. Dirigentes do Banpará tiveram seus patrimônios bloqueados durante a apuração. O governador de Minas Gerais, Newton Cardoso, reagiu com indignação quando medida análoga — a decretação do Regime de Administração Especial Temporária (RAET) — atingiu a Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais (MinasCaixa) e o Credireal.[22][1]
No mês seguinte, o presidente do Banespa, Otávio Ceccato, divulgou uma operação fraudulenta que teria causado prejuízo à instituição. Milliet confirmou que a transação fora conduzida por corretora vinculada ao banco, porém contestou o montante alegado e não adotou medidas interventivas.[1]
Renegociação da dívida externa
Ainda em maio de 1987, retomaram-se as discussões sobre a dívida externa brasileira. A reorganização financeira incorporou elevação do gasto público entre 18% a 21% do PIB e modificações no sistema tributário de caráter urgente, visando recuperar a arrecadação líquida e restaurar a capacidade de investimento do setor público. A administração visava a uma negociação global do passivo, abrangendo os vencimentos imediatos e o estoque total junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e demais organismos multilaterais.[1]
A proposta brasileira de desconto sobre o estoque da dívida foi rejeitada pelo secretário do Tesouro americano James Baker, que a considerou inaceitável como ponto de partida para negociações. Diante do impasse, o ministro Bresser indicou Fernão Bracher como negociador junto aos credores internacionais.[23][1]
Após a saída de Bresser do Ministério da Fazenda em dezembro de 1987, Milliet permaneceu no cargo para concluir as negociações, a pedido do novo ministro Maílson da Nóbrega. Nesse período, adotou uma estratégia de token payment — pagamento simbólico sinalizando disposição de negociar — acertada em encontro no Palácio do Planalto que reuniu o presidente Sarney, Maílson. Além disso, regulamentou a conversão de dívida externa em investimento por meio de leilões na bolsa de valores, nos quais os títulos eram negociados com desconto sobre o valor de face.[24]
Pedro Malan, então diretor do Banco Mundial, telefonou a Milliet alertando que certas concessões em discussão eram tão drásticas que a própria instituição multilateral procurava evitá-las.[25]
Em fevereiro de 1988, Milliet selou um acordo de médio prazo referente ao adiamento das obrigações vencíveis em junho. O pacto recebeu objeções de Bresser Pereira, que argumentava serem os 5,8 bilhões de dólares refinanciados incompatíveis com necessidades de crescimento, pois exigiriam um saldo comercial duas vezes superior. Milliet rebateu a crítica, enfatizando que a meta de superávit acompanhava as realidades da conjuntura econômica.[1] Cerca de um ano depois da saída de Milliet, o secretário do Tesouro americano Nicholas Brady apresentaria plano semelhante ao que fora proposto por Bresser — com redução da dívida, securitização e alongamento de prazos —, iniciativa que viria a equacionar o problema da dívida externa de diversos países em desenvolvimento.[26]
Saída do Banco Central
Tendo concluído o acordo preliminar, Milliet desligou-se da presidência do Banco Central em março de 1988, citando razões pessoais. Todavia, seu afastamento já havia sido acertado desde dezembro do ano precedente, ficando sua permanência condicionada ao término das negociações de médio prazo. Elmo de Araújo Camões o substituiu.[1]
Vida pessoal
Retornando ao setor privado, retomou o comando do Grupo Soma. Contraiu matrimônio com Maria Alice Milliet.[1]
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Cruz 2001.
- ↑ Oliveira 2019, p. 9.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 15–16.
- 1 2 3 Oliveira 2019, p. 16.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 16–17.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 17–18.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 19.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 19–20.
- ↑ Oliveira 2019, p. 23.
- ↑ Oliveira 2019, p. 24.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 25–26.
- ↑ Oliveira 2019, p. 28.
- ↑ Oliveira 2019, p. 26.
- ↑ Oliveira 2019, p. 30.
- ↑ Oliveira 2019, p. 41.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 42–43.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 45–46.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 46–47.
- ↑ Oliveira 2019, p. 48.
- ↑ Oliveira 2019, p. 49.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 49–51.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 57.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 51–52.
- ↑ Oliveira 2019, pp. 52–53.
- ↑ Oliveira 2019, p. 52.
- ↑ Oliveira 2019, p. 53.
Bibliografia
- Cruz, Ednílson (2001). MILLIET, Fernando. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. [S.l.]: FGV/CPDOC
- Fernando Milliet de Oliveira. Col: Coleção História Contada do Banco Central do Brasil. 13. Brasília: Banco Central do Brasil. 2019. 66 páginas
| Precedido por Lício de Faria |
Presidente do Banco Central do Brasil 1987 — 1988 |
Sucedido por Elmo de Araújo Camões |
