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Ernane Galvêas
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Ernane Galvêas | |
|---|---|
Galvêas em 2011 | |
| 3º Presidente do Banco Central do Brasil | |
| Período | 21 de fevereiro de 1968 até 15 de março de 1974 |
| Presidente | Costa e Silva (até 31 de agosto de 1969) Segunda Junta Militar (até 30 de outubro de 1969) Emílio Médici |
| Antecessor(a) | Ary Burger (interino) |
| Sucessor(a) | Paulo Hortêncio Pereira Lira |
| 6º Presidente do Banco Central do Brasil | |
| Período | 17 de agosto de 1979 até 18 de janeiro de 1980 |
| Presidente | João Figueiredo |
| Antecessor(a) | Carlos Brandão |
| Sucessor(a) | Carlos Geraldo Langoni |
| Ministro da Fazenda do Brasil | |
| Período | 18 de janeiro de 1980 até 14 de março de 1985 |
| Presidente | João Figueiredo |
| Antecessor(a) | Márcio João Andrade Fortes (interino) |
| Sucessor(a) | Eduardo Pereira de Carvalho (interino) |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 1 de outubro de 1922 Cachoeiro de Itapemirim, ES |
| Morte | 23 de junho de 2022 (99 anos) Rio de Janeiro, RJ |
| Nacionalidade | brasileiro |
| Alma mater | Universidade Yale |
| Cônjuge | Léia dos Santos Galvêas |
| Filhos(as) | 2 |
| Profissão | economista |
Ernane Galvêas (Cachoeiro de Itapemirim, 1 de outubro de 1922 — Rio de Janeiro, 23 de junho de 2022) foi um economista e servidor público brasileiro. Ao longo de quase cinco décadas de vida pública, comandou o Banco Central do Brasil em dois períodos distintos (1968–1974 e 1979–1980) e ocupou o Ministério da Fazenda por toda a duração do governo Figueiredo (1980–1985), quando o país atravessou a crise da dívida externa latino-americana e negociou sucessivos acordos com o Fundo Monetário Internacional. No setor privado, presidiu a Aracruz Celulose, e durante mais de trinta anos atuou como consultor econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC).[1][2]
Primeiros anos e formação
Nascido no sul do Espírito Santo, era filho de José Cardoso Galvêas — natural de Varre-Sai, no interior fluminense — e de Maria de Oliveira Galvêas.[3] Após concluir o curso secundário em 1940, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde em 1942 foi aprovado em concurso do Banco do Brasil, instituição na qual fez carreira, progredindo de escriturário a chefe de serviço.[1][3] Em paralelo ao trabalho bancário, obteve diploma de contabilidade em 1945.[1]
Em 1953, passou a chefiar o setor de estudos econômicos da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), órgão precursor do Banco Central.[1] No ano seguinte, matriculou-se no Centro de Estudos Monetários Latino-Americanos (Cemla), na Cidade do México, onde concluiu formação em economia em 1956.[1][2] Realizou ainda estudos complementares nos Estados Unidos: frequentou, entre julho e setembro de 1958, o Economic Institute da Universidade de Wisconsin e, em seguida, cursou o mestrado em economia na Universidade Yale, em Connecticut.[3] Anos depois, em 1964, graduou-se também em direito.[2]
Carreira na administração pública
Sumoc e assessoria ministerial (1953–1966)
Na Sumoc, Galvêas envolveu-se nos debates sobre política monetária e cambial do período desenvolvimentista. Em 1960, representou o Brasil como técnico em encontro da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC) sobre sistemas de pagamentos regionais, realizado em Montevidéu. Naquele mesmo ano, começou a lecionar política monetária no curso de pós-graduação do Conselho Nacional de Economia, onde durante três anos também ministrou a disciplina de política e comércio internacional.[1]
Com a posse de Jânio Quadros, em março de 1961, transferiu-se da Sumoc para a assessoria econômica do Ministério da Fazenda. Ainda nesse ano, participou da delegação nacional na conferência da Organização dos Estados Americanos (OEA) que deu origem à Aliança para o Progresso — o programa norte-americano de cooperação econômica e social com a América Latina. Também assumiu, em caráter temporário, a secretaria executiva da Comissão Especial sobre Produtos Agrícolas.[1]
Em 1962, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) contratou-o para participar de um grupo de especialistas encarregado de analisar mecanismos de crédito à exportação de bens de capital na região.[1] No mesmo período, representou o Ministério da Fazenda nos colegiados da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e da Superintendência Nacional do Abastecimento (Sunab).[1]
Entre setembro de 1963 e junho de 1965, dirigiu o setor financeiro da Comissão de Marinha Mercante — período que abrangeu a ruptura institucional de março de 1964.[1] Na sequência, retomou a assessoria econômica do Ministério da Fazenda sob o ministro Octávio Gouvêa de Bulhões, no governo Castelo Branco, permanecendo nela até meados de 1966.[1]
Carteira de Comércio Exterior (1966–1968)
Em julho de 1966, assumiu a direção da Carteira de Comércio Exterior (Cacex) do Banco do Brasil, órgão central na política de exportações do país, cargo que ocupou até início de 1968.[1]
Primeira presidência do Banco Central (1968–1974)
Indicado pelo ministro da Fazenda Delfim Netto, assumiu a chefia do Banco Central do Brasil em fevereiro de 1968, no governo Costa e Silva, sucedendo a Rui Aguiar da Silva Leme.[1] Na condução do banco, dedicou-se especialmente à montagem de instrumentos de crédito voltados ao setor exportador, coordenando a atuação da Cacex e de outros órgãos econômicos.[1]
Sua gestão estendeu-se por três governos consecutivos — Costa e Silva, a Junta Militar de 1969 e Emílio Garrastazu Médici —, coincidindo com a fase de acelerado crescimento conhecida como milagre econômico brasileiro. Transmitiu o cargo a Paulo Pereira Lira em março de 1974.[1]
Atuação no setor privado (1974–1979)
Fora do governo, ingressou na Aracruz Celulose, empreendimento capixaba de grande porte que combinava capitais privados, estatais e estrangeiros. Inicialmente vice-presidente, tornou-se posteriormente presidente da companhia.[1][2] A partir de 1975, passou a integrar também o conselho consultivo do Grupo Financeiro Intercontinental.[1]
Segunda presidência do Banco Central (1979–1980)
O retorno à esfera pública ocorreu com a instalação do governo Figueiredo, em 1979. Em maio daquele ano, Galvêas foi designado para presidir o conselho do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec); em agosto, voltou ao comando do Banco Central do Brasil, no lugar de Carlos Brandão, afastado após desentendimentos com o ministro da Fazenda Karlos Rischbieter a respeito da regulação do open market e da reforma do sistema financeiro.[1] Simultaneamente, Mário Henrique Simonsen deixou a Secretaria de Planejamento, sendo substituído por Delfim Netto.[1]
Ao tomar posse, Galvêas encontrou a base monetária em expansão superior a 50%. Declarou que perseguiria a meta oficial de limitar esse crescimento a 30% no ano, embora advertisse que o aperto monetário não poderia ser abrupto a ponto de causar recessão.[1] Adotou medidas para restringir o uso de cheques administrativos nas transações do open market e, em dezembro de 1979, articulou com Rischbieter uma maxidesvalorização cambial de 30%.[1]
Ministro da Fazenda (1980–1985)

Cinco meses após retornar ao Banco Central, Galvêas foi alçado ao Ministério da Fazenda, em janeiro de 1980, quando Rischbieter se demitiu em razão de conflitos com a linha econômica conduzida por Delfim Netto no Planejamento. Carlos Geraldo Langoni o substituiu na chefia do Banco Central.[1] A escolha de Galvêas — reconhecidamente alinhado a Delfim — sinalizava a intenção do governo de consolidar a Secretaria de Planejamento como centro decisório da política econômica.[1] Em seu discurso de posse, delimitou suas atribuições ao campo do balanço de pagamentos e do orçamento monetário, salientando a necessidade de atuação coordenada com os demais órgãos da área econômica.[1]
O início da gestão coincidiu com o agravamento do cenário externo: à segunda crise do petróleo (1979–1980) somaram-se a escalada dos juros internacionais promovida pelo Federal Reserve, a recessão nos países industrializados e a deterioração dos preços das principais commodities de exportação do Brasil, o que elevou dramaticamente a vulnerabilidade do balanço de pagamentos e o peso da dívida externa.[1][4]
Em fevereiro de 1980, aderiu ao Partido Democrático Social (PDS), legenda governista surgida com a extinção do bipartidarismo no final de 1979.[1]
Episódio das ações da Vale do Rio Doce
Ainda em março de 1980, a decisão de Galvêas de autorizar a venda maciça de papéis de estatais no mercado acionário gerou controvérsia. Em quatro pregões, o Banco Central negociou 150 milhões de ações da Companhia Vale do Rio Doce, provocando escândalo político que colocou em risco a permanência do ministro. Convocado ao Congresso Nacional pela oposição, Galvêas alegou que a operação fora necessária para cobrir uma carência de caixa do Tesouro, que devia transferir recursos ao BNDE para honrar compromissos com o Proálcool.[1]
Crise da dívida externa e acordos com o FMI
A situação mais grave de sua gestão teve início em setembro de 1982, quando o México suspendeu o serviço de sua dívida externa. Os bancos credores reagiram cortando linhas de crédito a todos os grandes devedores latino-americanos.[1] Trabalhando em conjunto com Delfim Netto e Langoni, Galvêas chefiou as negociações brasileiras de reestruturação do débito externo, que naquela altura já excedia oitenta bilhões de dólares. O país recorreu também ao Fundo Monetário Internacional (FMI), comprometendo-se a adotar um programa de ajuste fiscal e monetário como contrapartida ao crédito recebido.[1]
Antes mesmo da crise mexicana, em agosto de 1981, diante da saída do general Golbery do Couto e Silva da Casa Civil, Galvêas já havia reiterado publicamente as prioridades econômicas do governo: conter os gastos públicos, frear investimentos estatais, disciplinar a expansão monetária e estimular exportações e produção agrícola. Sobre a recessão industrial, argumentou que ela decorria, sobretudo, do efeito desorganizador da própria inflação sobre a atividade produtiva, e não das políticas de ajuste. Rejeitou as demandas empresariais por estímulo à demanda interna, sustentando que o caminho para compensar a retração dos investimentos estava no mercado externo.[1]
Em fevereiro de 1983, determinou uma nova desvalorização cambial de 30%, com o objetivo de melhorar a competitividade dos produtos brasileiros no exterior e reequilibrar as contas externas.[1] Nos meses seguintes, reconheceu as dificuldades em atender às metas trimestrais pactuadas com o FMI. Em maio daquele ano, recebeu o título de "Homem do Ano" da Câmara de Comércio Brasil–Estados Unidos, em Nova Iorque.[1]
Ao longo de 1984, o quadro externo apresentou relativa melhora: os cinco indicadores centrais do acordo com o FMI — envolvendo reservas internacionais, nível de endividamento, crédito doméstico líquido e resultado fiscal do Tesouro — foram cumpridos no primeiro semestre. A inflação, porém, manteve-se em patamar elevado, e Galvêas descartou a adoção de medidas heterodoxas contra ela enquanto durasse o mandato de Figueiredo.[1]
Saída do ministério
Em março de 1985, com a posse de José Sarney, Galvêas transmitiu a pasta a Francisco Dornelles.[1]
Atividades posteriores
Consultoria e setor privado
Afastado do governo, voltou-se à consultoria e à participação em conselhos empresariais. Integrou os colegiados da Aracruz Celulose — à qual retornou formalmente em 2008 — e do Grupo Lorentzen.[1][2]
A partir de outubro de 1988, tornou-se consultor econômico da presidência da Confederação Nacional do Comércio (CNC), função que manteve por mais de três décadas, acumulando a coordenação do Conselho Técnico da entidade — mais tarde rebatizado como Conselho de Notáveis.[2][5]
Exerceu ainda a presidência da APEC — Associação Promotora de Economia — e a secretaria-geral do Comitê Brasileiro da Câmara de Comércio Internacional. Integrou o conselho de administração da Fundação Getulio Vargas e era presidente de honra da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).[2]
Em 1996, aceitou convite do governador capixaba Vítor Buaiz (PT) para compor um colegiado encarregado de formular projetos estratégicos para o Espírito Santo.[1]
Posicionamentos sobre política econômica
Depois de deixar o governo, Galvêas manteve presença ativa no debate econômico. Opôs-se ao Plano Cruzado de 1986, sustentando que o congelamento de preços geraria escassez, ágios e filas, sem eliminar as causas estruturais da inflação. Criticou também a decisão do governo Sarney de interromper os entendimentos com os credores externos e decretar moratória, rompendo com a estratégia negociadora que ele próprio conduzira no ministério.[1]
Em 1987, durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, contestou propostas de ampliação da intervenção estatal na economia e de extensão de direitos trabalhistas, que, em sua visão, comprometeriam a livre iniciativa. No início de 1988, prescreveu como remédio para o déficit público e a inflação o aumento da receita líquida do governo, por meio do corte de subsídios e transferências.[1]
Atividades acadêmicas
Galvêas exerceu o magistério superior em diversas instituições do Rio de Janeiro. Na Faculdade de Economia e Finanças, lecionou moeda e crédito; na Faculdade de Ciências Econômicas do Estado da Guanabara (Amaro Cavalcanti), ensinou comércio internacional. No Conselho Nacional de Economia, ministrou cursos de política monetária (1960) e política de comércio internacional (1961–1963).[1]
Em sua homenagem, a FGV EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças criou o Prêmio Ministro Ernane Galvêas, que distingue os melhores trabalhos acadêmicos produzidos por alunos da instituição.[2]
Vida pessoal
Casou-se com Léia dos Santos Galvêas, com quem teve dois filhos.[1] Deixou também netas e bisnetos.[6]
Morte
Galvêas faleceu na noite de 23 de junho de 2022, aos 99 anos, no Hospital Samaritano, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, dias após ter sido submetido a uma cirurgia na garganta.[4] A diretoria do Banco Central, a CNC e diversas personalidades do setor econômico manifestaram pesar pelo falecimento.[6]
Em agosto de 2024, a CNC inaugurou em sua sede carioca o Espaço Ministro Ernane Galvêas, em tributo ao economista.[5]
Obras
Galvêas publicou, além de numerosos artigos, os seguintes livros:[1][2]
- Brasil: fronteira do desenvolvimento (Rio de Janeiro: APEC Editora, 1974)
- Brasil: desenvolvimento e inflação (Rio de Janeiro: APEC Editora, 1976)
- Brasil: economia aberta ou fechada? (Rio de Janeiro: APEC Editora, 1982)
- Aprendiz de empresário (Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1983)
- Sistema Financeiro e Mercado de Capitais (Rio de Janeiro: IBMEC, 1985)
- A Saga da Crise (Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1985)
- A Crise do Petróleo (Rio de Janeiro: APEC Editora, 1985)
- As Duas Faces do Cruzado (Rio de Janeiro: APEC Editora, 1987)
- Inflação, Déficit e Política Monetária (Rio de Janeiro: CNC, 1985)
- Crônicas Econômicas: Análise retrospectiva 2002/2005
- Crônicas Econômicas: Análise retrospectiva 2006/2010
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 «Ernâni Galveias». Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC). Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 «Prêmio Ministro Ernane Galvêas». FGV EPGE Escola Brasileira de Economia e Finanças. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 3 «Ernane Galvêas (Coleção História Contada do Banco Central do Brasil, v. 6)» (PDF). Banco Central do Brasil. 2019. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 «Morre no Rio, aos 99 anos, o ex-ministro da Fazenda, Ernane Galvêas». Agência Brasil. 23 de junho de 2022. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 «Espaço Ministro Ernane Galvêas é inaugurado na sede da CNC, no Rio de Janeiro». Portal do Comércio. 19 de agosto de 2024. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
- 1 2 «Ex-ministro da Fazenda, capixaba Ernane Galvêas morre aos 99 anos». A Gazeta. 24 de junho de 2022. Consultado em 24 de fevereiro de 2026
Ligações externas
- Ministros de Estado da Fazenda — Ernane Galvêas Ministério da Fazenda do Brasil
- Ernane Galvêas (Coleção História Contada do Banco Central do Brasil, v. 6) Banco Central do Brasil
| Precedido por Rui Leme |
Presidente do Banco Central do Brasil 1968 — 1974 |
Sucedido por Paulo Hortêncio Pereira Lira |
| Precedido por Carlos Brandão |
Presidente do Banco Central do Brasil 1979 — 1980 |
Sucedido por Carlos Geraldo Langoni |
| Precedido por Márcio Fortes |
Ministro da Fazenda 1980 — 1985 |
Sucedido por Francisco Dornelles |

