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Batalha de Di Car
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| Batalha de Di Car | |||
|---|---|---|---|
| Data | 604/11 | ||
| Local | Di Car, perto de Cufa (Sauade) | ||
| Coordenadas | |||
| Beligerantes | |||
| Comandantes | |||
| Forças | |||
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A Batalha de Di Car ou Dia de Di Car (em árabe: يوم ذي قار; romaniz.: Yawm Dhī Qār) foi um confronto travado no início do século VII entre uma coalizão de tribos árabes, principalmente dos bacritas e xaibanitas, e uma força enviada pelo Império Sassânida sob o comando geral de Ias ibne Cabiça, governador de Hira. O combate ocorreu junto às águas de Di Car, entre as posteriores cidades de Cufa e Uacite, mas sua data exata permanece incerta; com base na deposição de Anumane III (r. 580–602) em 602 e no governo de Ias até 611, costuma ser situado entre 604 e 611. As fontes árabes atribuem ao exército pró-sassânida cerca de dois mil soldados persas e três mil auxiliares árabes, enquanto não permitem estabelecer com segurança o efetivo da coalizão bacrita.
O confronto ocorreu no contexto da extinção do Reino Lácmida, tradicional intermediário dos sassânidas junto às tribos árabes da fronteira. Após entrar em conflito com o xainxá Cosroes II (r. 590–628), Anumane III foi preso e morto, e Hira passou a ser submetida a controle sassânida mais direto. Segundo uma das principais tradições, antes de dirigir-se à corte de Cosroes, Anumane confiou sua família, armas e outros bens ao chefe xaibanita Hani ibne Maçude; a recusa posterior de Hani em entregar o depósito, ou, segundo outra versão, a família do antigo rei, teria contribuído para precipitar a expedição sassânida. Os bacritas reuniram então diversos de seus ramos e derrotaram as tropas persas e seus aliados árabes. A escala real do combate, contudo, é difícil de determinar: Vaglieri admite que pode ter sido apenas uma escaramuça engrandecida pela tradição, enquanto Rezakhani o interpreta como um confronto fronteiriço pequeno e limitado posteriormente romantizado pelas fontes.
Apesar de sua provável importância militar limitada, Di Car adquiriu grande significado na memória árabe. A tradição passou a apresentá-la como a primeira grande vitória dos árabes sobre os persas e como demonstração de que o poder sassânida não era invencível, embora estudos modernos rejeitem a ideia de que o confronto tenha representado uma ruptura duradoura entre as tribos bacritas e o império. Ao longo dos séculos, uma vitória inicialmente associada sobretudo aos bacritas e xaibanitas foi progressivamente reinterpretada como triunfo coletivo dos árabes sobre os persas e incorporada à tradição dos Dias Árabes. Essa memória também foi relacionada retrospectivamente às conquistas muçulmanas e continuou a ser reelaborada na literatura e no discurso político até a época contemporânea.
Contexto
O Reino Lácmida foi fundado e governado pela dinastia homônima de c. 268 a 602. Estendendo-se pela Arábia Oriental e pela Mesopotâmia Meridional, existiu como dependência do Império Sassânida, embora os lácmidas mantivessem Hira como sua capital e dali exercessem ampla autonomia sobre as tribos árabes da fronteira.[1][2] Durante séculos, os sassânidas confiaram aos lácmidas a defesa de sua fronteira sudoeste contra incursões de tribos árabes, utilizando-os também como intermediários políticos entre o império e os grupos beduínos do nordeste da Arábia. Essa política envolvia o estabelecimento de vínculos com chefes das principais tribos fronteiriças. Entre os xaibanitas, por exemplo, membros do influente ramo hamamita (Hamame ibne Murra) mantinham estreitas relações com os lácmidas e os sassânidas: Anre ibne Xarrique comandou a força policial lácmida, Xarrique ibne Matar exerceu grande influência junto ao rei Almondir III (r. 503–554) e havia vínculos matrimoniais entre os dulitas (Dul ibne Xaibane) e a casa reinante de Hira. No início do século VII, Caice ibne Maçude recebeu ainda de Cosroes II benefícios territoriais nas proximidades de Alubula sob a condição de manter sua tribo sob controle.[3] Essa posição, contudo, não impediu conflitos periódicos: forças lácmidas eram ocasionalmente derrotadas por outras tribos, enquanto caravanas e territórios submetidos aos persas sofriam ataques de grupos árabes.[4] A posição dos lácmidas enfraqueceu ao longo do século VI, ao mesmo tempo que aumentava a pressão dos gassânidas e do Império Bizantino sobre a fronteira ocidental.[5]
O último soberano lácmida, Anumane III (r. 580–602), acabou entrando em conflito com o xainxá Cosroes II (r. 590–628). A tradição árabe relaciona o rompimento às intrigas que se seguiram à execução, por Anumane, do poeta cristão e funcionário sassânida Adi ibne Zaíde, que havia servido na corte de Ctesifonte como secretário e tradutor de documentos procedentes de Hira. Segundo essa tradição, Adi havia desempenhado papel na própria ascensão de Anumane ao trono, mas intrigas cortesãs acabaram levando o soberano lácmida a aprisioná-lo e executá-lo. Seu filho, Zaíde ibne Adi, que posteriormente ocupou a posição do pai junto à corte sassânida, teria então explorado sua proximidade com Cosroes para indispor o xainxá contra Anumane.[6] Uma das narrativas associa a ruptura final à recusa de Anumane em atender a uma exigência matrimonial de Cosroes, que pretendia obter mulheres da casa lácmida para sua corte, enquanto outras tradições a relacionam a divergências políticas, fiscais ou dinásticas.[7] As fontes, portanto, preservam explicações distintas para o conflito. Bosworth considera mais provável que Cosroes tivesse se tornado progressivamente hostil à autonomia lácmida e decidido assumir diretamente a defesa e a administração da fronteira árabe.[8] Rezakhani insere a deposição de Anumane num processo mais amplo de fortalecimento do controle sassânida sobre a fronteira meridional e sobre os contingentes árabes nela mobilizados. Segundo sua interpretação, a narrativa posterior, ao explicar a ruptura sobretudo como resultado de rivalidades pessoais e cortesãs, retirou o episódio desse contexto de política imperial de fronteira.[9] Rezakhani adverte ainda contra a interpretação retrospectiva da supressão dos lácmidas como um erro estratégico que teria simplesmente eliminado a zona-tampão do império diante da Arábia: do ponto de vista da política sassânida do período, a substituição da dinastia por um controle mais direto podia representar uma tentativa de submeter mais estreitamente os recursos militares árabes da fronteira à autoridade imperial.[10]
Percebendo a hostilidade do soberano sassânida, Anumane procurou apoio entre diferentes tribos árabes. Segundo a tradição, depois de não conseguir assegurar proteção suficiente entre os taiítas e outros grupos, confiou sua família, suas armas e outros bens a Hani ibne Maçude, um dos principais chefes dos xaibanitas, ramo dos bacritas, e dirigiu-se à corte sassânida. Foi preso e morto em 602, embora as fontes divirjam sobre as circunstâncias de sua execução.[7] Cosroes então extinguiu a monarquia lácmida e colocou Hira sob administração mais diretamente controlada pelos sassânidas, nomeando o taiíta Ias ibne Cabiça governador, acompanhado por um oficial persa referido nas fontes como Naqueviragã.[11] As consequências da eliminação do sistema lácmida para a segurança da fronteira são interpretadas de maneiras distintas. Segundo Bosworth, a ausência do antigo intermediário árabe deixou a borda do Sauade mais exposta às incursões das tribos do nordeste da Arábia, ao passo que Vaglieri observa que a prisão e morte de Anumane ou a própria sensação de enfraquecimento do controle fronteiriço podem ter incentivado os bacritas a intensificar seus ataques aos territórios sassânidas.[12][8]
Após a morte de Anumane, Cosroes ordenou a Ias ibne Cabiça que recuperasse os bens e equipamentos militares que o antigo rei havia confiado a Hani. Hani recusou-se a entregá-los, alegando que não poderia restituir o depósito a ninguém além de seu proprietário. Segundo a tradição preservada pelas fontes árabes, a recusa levou Cosroes a jurar a destruição dos bacritas, aos quais pertenciam os xaibanitas, e a preparar uma expedição contra eles. O soberano sassânida obteve informações dos taglibitas e decidiu realizar o ataque durante o verão, quando os diferentes grupos bacritas se reuniam em torno das águas de Di Car. Antes do início das hostilidades, enviou o taglibita Anumane ibne Zura aos bacritas, oferecendo-lhes como alternativas a submissão ou o abandono de suas terras; caso recusassem ambas, seriam atacados. Os bacritas decidiram permanecer e combater.[7] Outras versões diferem quanto ao motivo imediato da ruptura. Rezakhani, seguindo a narrativa de Atabari, observa que a reação inicial da corte sassânida à deposição de Anumane parece ter sido relativamente moderada e que seus protetores xaibanitas continuaram a circular livremente; nessa versão, foi a recusa de Hani em entregar a família do antigo rei a Cosroes que finalmente precipitou o confronto.[13] Donner adverte, contudo, que os relatos posteriormente romantizados da batalha não permitem determinar com segurança qual questão ou conjunto de questões provocou a ruptura momentânea entre os sassânidas e seus antigos aliados xaibanitas. Cosroes colocou então Ias ibne Cabiça à frente do exército enviado contra eles.[4]
A força reunida combinava tropas sassânidas, contingentes procedentes do Sauade e tribos árabes aliadas. Segundo as cifras preservadas pelas fontes árabes, o exército pró-sassânida reunia cerca de dois mil soldados persas e três mil auxiliares árabes sob Ias ibne Cabiça.[4] Além dos iaditas e taglibitas mencionados por outras fontes,[14] registram-se os anamiritas,[15] segmentos dos taiítas,[16] tamimitas e outros grupos árabes.[7] Segundo Mishin, os baraítas, da confederação dos cudaaítas, estiveram do lado persa.[17] Os bacritas, por sua vez, reuniram uma coalizão de seus diferentes ramos, formada pelos xaibanitas, ijelitas, dulitas, caicitas, taimalatitas e iascuritas.[18] Segundo Vaglieri, todos os clãs bacritas participaram da coalizão, com exceção dos hanifaítas.[12] A eles juntaram-se ainda cerca de duzentos prisioneiros tamimitas que se encontravam em poder dos bacritas, em sua maioria pertencentes aos riaítas (Banu Ria ibne Iarbu). Segundo a tradição transmitida por Abu Ubaida, os prisioneiros pediram para ser libertados a fim de combater ao lado dos bacritas, afirmando que dessa forma defendiam a si próprios. Diante das dúvidas dos bacritas quanto à sua lealdade, dispuseram-se a ser identificados para que sua atuação no combate pudesse ser reconhecida.[19] A posse das armas e cotas de malha anteriormente confiadas por Anumane aos xaibanitas também teria contribuído para seu equipamento militar.[8]
Batalha
A batalha ocorreu em Di Car, um ponto de abastecimento de água situado entre as posteriores cidades de Cufa e Uacite, na direção da primeira.[7] Sua data permanece incerta. As tradições árabes situam o confronto em momentos muito diferentes, desde o ano do nascimento de Maomé até alguns meses depois da Batalha de Badre, em 2–3 A.H. (623–625), enquanto Maomé ibne Habibe o datou de algum momento entre 606 e 622. A cronologia histórica permite restringir consideravelmente esse intervalo: como Anumane III foi deposto e morto em 602 e Ias ibne Cabiça governou Hira até 611, Vaglieri e Bosworth colocam Di Car entre 604 e 611, enquanto alguns estudiosos propuseram especificamente 610 ou 611.[12][8][20] Do lado sassânida, Ias ibne Cabiça exercia o comando geral de uma força composta por tropas regulares persas, contingentes procedentes do Sauade e aliados árabes.[12][7] Entre estes, Anumane ibne Zura, que anteriormente atuara como emissário de Cosroes junto aos bacritas, comandava os contingentes dos taglibitas e anamiritas,[21][22] enquanto Calide ibne Iázide Albarani comandava um destacamento de iaditas e baraítas; a composição desse destacamento sugere que os iaditas presentes eram relativamente pouco numerosos e ocupavam posição secundária dentro das forças pró-sassânidas.[17] Entre as tropas persas, Hamarze e Fanabarzim comandavam, cada um, mil cavaleiros dos asvaranos, sendo ambos descritos nas fontes como asvares e marzobãs.[23] Iacute Alhamaui descreve Hamarze como o grande marzobã de Cosroes e situa-o à frente da ala direita do exército, enquanto Fanabarzim comandava a ala esquerda. Durante o combate, Hamarze foi morto em duelo pelo iascurita Iázide ibne Harita, enquanto Fanabarzim também foi morto durante a derrota sassânida.[22]
Os bacritas não parecem ter combatido sob um comando supremo único, e a direção de suas forças foi exercida por diferentes chefes tribais e guerreiros.[4] Segundo uma tradição preservada por Ibne Abede Rabi, os três principais chefes bacritas em Di Car eram Hani, o xaibanita Iázide e o ijelita Hanzala; a mesma fonte, contudo, conserva uma tradição segundo a qual os bacritas não possuíam um chefe único, pois haviam sido atacados em suas próprias terras e seus guerreiros acorreram diretamente ao combate. Na disposição das forças, Becre comandava a ala direita e Hanzala a esquerda, enquanto uma tradição situa Hani no centro.[24][25] Entre os demais chefes tribais que participaram da concentração bacrita estava Abede Anre ibne Bixer, destacado chefe dos Banu Caice ibne Talaba, que comandou uma das unidades que combateram os persas em Di Car.[26] Abu Alfaraje de Ispaã menciona ainda, entre as sucessivas lideranças que chegaram com os grupos bacritas convocados para a concentração, Jabala ibne Baite, Alharite ibne Uala e Alharite ibne Rebia, este último dos taimalatitas.[27] O filho de Jabala, Anre ibne Jabala, também participou do confronto e, imediatamente antes do combate, recitou versos exortando os bacritas a não se deixarem intimidar pela aparência e pelas armas do exército adversário.[28]
Os relatos sobre o desenrolar do confronto contêm elementos cuja historicidade é difícil de determinar, e Vaglieri observa que não é possível estabelecer sequer se Di Car constituiu uma batalha de grandes proporções ou uma escaramuça posteriormente engrandecida pela tradição, embora as fontes mencionem vários milhares de combatentes.[12] Rezakhani é mais inclinado a considerá-la um confronto pequeno e limitado de fronteira, cuja importância posterior decorreu muito mais de sua preservação e elaboração na memória histórica do que de suas consequências militares imediatas. Segundo o autor, a extensão do relato preservado por Atabari, com numerosos episódios de heroísmo atribuídos aos xaibanitas e outros bacritas e acompanhados por abundante material poético, reflete a romantização posterior da batalha.[13] Segundo a narrativa preservada pela TDV, os bacritas aproveitaram-se de seu conhecimento do terreno desértico e de suas formas de combate para resistir a um exército sassânida numericamente superior. As armas e cotas de malha que Anumane havia anteriormente confiado aos xaibanitas também teriam sido empregadas pelos combatentes bacritas.[8] A tradição atribui ainda papel às mulheres presentes entre os bacritas, que teriam incentivado os guerreiros durante o confronto. Um elemento particularmente destacado pelas fontes foi a conduta dos iaditas que integravam o exército sassânida. Segundo uma das tradições, os bacritas estabeleceram secretamente um acordo com eles antes ou durante a batalha, e os iaditas abandonaram o campo, enfraquecendo as forças de Ias.[7] Os bacritas lançaram então seu ataque decisivo e puseram em fuga o exército adversário. As tropas sassânidas e seus aliados árabes foram derrotados, e os vencedores perseguiram os persas em direção ao Sauade.[8]
Apesar da derrota, não se conhece uma grande represália sassânida subsequente contra os bacritas; Vaglieri considera que uma combinação de circunstâncias impediu a reação que normalmente seria esperada após semelhante desafio à autoridade imperial.[12] Além da tradição que relaciona diretamente a expedição aos bens e armas de Anumane confiados aos xaibanitas, as fontes preservam outras explicações para o confronto. Segundo um relato atribuído a Ibne Alcalbi, após a deposição de Anumane, grupos bacritas intensificaram suas incursões contra o território sassânida no Iraque. O xaibanita Caice ibne Maçude teria proposto a Cosroes um acordo pelo qual protegeria as terras persas contra novas incursões em troca da concessão de terras, mas seus rivais entre os bacritas continuaram os ataques com o objetivo de comprometer sua posição. Cosroes teria então aprisionado Caice e exigido reféns dos bacritas como condição para libertá-lo; diante da recusa destes, enviou contra eles a expedição posteriormente derrotada em Di Car.[4] Donner observa que as relações de Caice com os sassânidas já haviam oscilado anteriormente: poucos anos antes de receber de Cosroes benefícios territoriais nas proximidades de Alubula, ele realizara uma incursão contra o Sauade e fora derrotado pelos persas. Após Di Car, acabou novamente preso pelo xainxá, possivelmente por não ter conseguido impedir que seus companheiros tribais participassem da batalha.[18] Sua trajetória ilustra, segundo Donner, o caráter variável das relações entre os principais chefes xaibanitas e o poder sassânida.[29] Rezakhani interpreta essa situação num quadro mais amplo, no qual os grupos árabes da fronteira sudoeste desfrutavam de considerável liberdade de ação, mas ocupavam simultaneamente uma posição precária diante do poder imperial. A tentativa sassânida de limitar sua autonomia refletiria também a importância desses grupos como recursos militares cuja mobilização o império procurava controlar mais diretamente.[30] A versão atribuída a Ibne Alcalbi é, por sua vez, compatível com a interpretação de Vaglieri e Bosworth segundo a qual a extinção do Reino Lácmida tornou a fronteira do Sauade mais vulnerável e incentivou grupos beduínos a intensificar suas incursões contra o território sassânida.[12][8]
Rescaldo
A repercussão posterior de Di Car foi muito superior à sua possível importância militar imediata. A vitória de uma coalizão árabe sobre forças que incluíam tropas regulares sassânidas adquiriu forte significado simbólico, sendo interpretada na tradição árabe como demonstração de que os persas não eram invencíveis. Segundo Kelpetin, a notícia da derrota de um exército considerado muito superior em número e força foi recebida com entusiasmo não apenas entre os participantes da batalha, mas também entre outras tribos da Península Arábica, e Di Car acabou transformando-se posteriormente num símbolo da resistência árabe aos sassânidas. Essa interpretação aparece de maneira particularmente clara numa tradição atribuída a Maomé, segundo a qual Di Car teria sido a primeira ocasião em que os árabes prevaleceram sobre os persas e sua vitória teria ocorrido por intermédio do profeta.[12][8] A autenticidade dessa tradição, contudo, é discutida.[31] Segundo Alajmi, a memória coletiva do confronto desenvolveu progressivamente dimensões tribal, étnica e religiosa, de modo que uma vitória originalmente associada aos bacritas, e particularmente aos xaibanitas, passou a ser representada como triunfo dos árabes em conjunto sobre os persas.[32] Essa transformação já pode ser observada na poesia do período abássida: Alajmi identifica um poeta morto em 845 como o primeiro de que se tem notícia a atribuir explicitamente a vitória de Di Car a todos os árabes, apresentando o confronto como ocasião em que estes se afirmaram diante dos persas.[33] Rezakhani observa que a elaboração posterior de Di Car também a transformou em prelúdio das conquistas muçulmanas, demonstração da suposta fraqueza do poder sassânida e manifestação de uma unidade árabe na fronteira desértica, interpretações que atribuem ao confronto uma dimensão histórica muito superior à sua provável escala militar.[13] Alguns estudiosos, aparentemente influenciados pela tradição posterior, interpretaram Di Car como parte de uma prolongada rebelião árabe contra o domínio persa e atribuíram-lhe papel no desenvolvimento de maior confiança política e autoconsciência entre os árabes.[34] Donner rejeita a interpretação de Di Car como uma ruptura duradoura nas relações entre os bacritas e o poder sassânida, considerando o alinhamento antissassânida dos xaibanitas e de outros grupos bacritas na batalha resultado de um desacordo temporário dentro de relações caracterizadas por aproximações e afastamentos periódicos. Alguns dos chefes envolvidos posteriormente restabeleceram relações com os persas, e não há indícios de uma agitação antissassânida entre as tribos do nordeste da Arábia nos anos imediatamente posteriores ao confronto.[29] A batalha tampouco é mencionada pelas fontes persas, circunstância que Landau-Tasseron relaciona à escala limitada do confronto e ao fato de ter representado uma derrota sassânida. Seu significado ideológico e simbólico parece, portanto, ter crescido posteriormente e ultrapassado consideravelmente sua importância política e militar imediata.[4]
A vitória teve também ampla repercussão na tradição literária árabe. Poetas celebraram os combatentes e a derrota dos sassânidas, e Atabari preservou numerosos versos relativos ao confronto. As tradições sobre a batalha, reunidas sobretudo por Abu Ubaida, continuaram a desenvolver-se entre os narradores dos Dias Árabes e forneceram posteriormente material para narrativas populares. Segundo Vaglieri, elementos dessa tradição foram incorporados ao romance de Antara ibne Xadade e à narrativa intitulada Kitāb Ḥarb Banī Shaybān maʿa Kisrā Anūshirwān (lit. "Livro da guerra dos xaibanitas contra Cosroes Anuxirvã").[12] Alajmi observa que esta última obra se apresenta como a única versão verdadeira do confronto e rejeita as demais narrativas como falsificações, embora a interprete como parte do processo pelo qual narradores posteriores adaptaram a tradição clássica às circunstâncias de suas próprias épocas; a obra foi posteriormente preparada para leitores contemporâneos e republicada em Bagdá em 1988.[35] Essa abundante tradição poética e narrativa contribuiu para fazer de Di Car um dos mais célebres episódios dos Dias Árabes.[31] Webb observa que essa reelaboração literária contribuiu para transformar uma vitória de grupos tribais específicos numa confrontação entre árabes e persas. Nesse processo, Abu Ubaida e narradores posteriores incorporaram ao relato um poema atribuído a Bucair Alaçame, figura que Webb não localizou nas antologias poéticas e nos dicionários biográficos de poetas do século IX por ele consultados e cuja presença em Al-Aghānī se restringe ao poema sobre Di Car. A composição enfatiza numericamente as forças envolvidas e contribui para a representação heroica posterior do confronto.[36] A reelaboração do episódio prosseguiu nos séculos posteriores, com diferentes autores adaptando sua memória às circunstâncias de suas próprias épocas.[35]
Vaglieri e Bosworth relacionam ainda a experiência adquirida em Di Car aos primeiros ataques árabes contra o Iraque nas décadas seguintes. Segundo essa interpretação, os bacritas, e particularmente os xaibanitas, teriam adquirido com a vitória uma percepção mais clara da vulnerabilidade militar sassânida; em 633, foi o xaibanita Almutana ibne Harita quem tomou a iniciativa de realizar incursões contra o território iraquiano e incentivou o comandante muçulmano Calide ibne Alualide a avançar contra o Iraque e Hira.[12][8] Donner, porém, adverte contra a interpretação de uma continuidade direta entre Di Car e a posterior participação xaibanita nas conquistas muçulmanas. Os xaibanitas que apoiaram os exércitos muçulmanos estavam sob o comando de Almutana, pertencente aos saditas (Sade ibne Murra), até então um ramo pouco destacado da tribo, enquanto os hamamitas, clã dominante dos xaibanitas e cujos chefes haviam desempenhado papel importante em Di Car, não aparecem entre as forças muçulmanas; seu principal chefe, Bisre ibne Caice, apoiou Sajá durante as Guerras da Apostasia e posteriormente combateu os muçulmanos durante a conquista do Iraque.[37] Rezakhani propõe uma continuidade de caráter mais amplo entre o ambiente militar da fronteira sassânida e os primeiros futūḥāt. Segundo sua interpretação, a separação historiográfica entre a guerra bizantino-sassânida de 602–628 e as conquistas muçulmanas obscurece o papel desempenhado no teatro meridional por grupos árabes que já atuavam militarmente em nome dos sassânidas e que, com o desaparecimento da autoridade imperial, puderam converter-se em agentes autônomos e procurar consolidar seu domínio sobre diferentes territórios.[38] Essa interpretação não implica uma continuidade específica entre os bacritas que combateram em Di Car e aqueles que posteriormente participaram das conquistas, mas insere ambos os acontecimentos num processo mais amplo de transformação das estruturas políticas e militares da fronteira. A eliminação do Reino Lácmida, as mudanças na organização da fronteira e, posteriormente, a crescente instabilidade interna do Império Sassânida após a queda de Cosroes II em 628 formaram parte do contexto que precedeu as conquistas muçulmanas, entre cujos acontecimentos decisivos estiveram a Batalha de Cadésia, em 636, e a subsequente conquista muçulmana da Pérsia.[39]
No período contemporâneo, uma peça publicada na Síria em 1931, em meio à difusão do pan-arabismo, apresentou a batalha como vitória dos árabes e chegou a ser encenada por estudantes, enquanto uma obra juvenil publicada em 2006 reelaborou o episódio em linguagem simplificada para transmitir valores como nobreza e cavalheirismo.[40] A recuperação moderna de Di Car adquiriu também usos políticos durante a Guerra Irã-Iraque (1980–1988), quando escritores e poetas recorreram à batalha como precedente histórico da confrontação contemporânea e materiais escolares iraquianos selecionaram elementos de sua tradição para apresentá-la como antecedente de uma vitória nacional sobre os persas.[41] A instrumentalização política da memória de Di Car reapareceu durante a intervenção militar no Iêmen, iniciada em 2015. A percepção dos hutis como aliados do Irã favoreceu uma nova representação do conflito em termos de oposição árabo-persa, e Alajmi registra que meios de comunicação sauditas estabeleceram paralelos explícitos entre a campanha contemporânea e Di Car, retomando a antiga batalha como precedente histórico da confrontação com a influência iraniana.[42]
Referências
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Bibliografia
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