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Alfudulitas
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Os alfudulitas (em árabe: الفضول; romaniz.: al-Fuḍūl) foram os integrantes de uma aliança de clãs coraixitas conhecida como Hilfe Alfudul (em árabe: حلف الفضول; romaniz.: Ḥilf al-Fuḍūl), estabelecida em Meca algumas décadas antes da Hégira, provavelmente após a última das Guerras Sacrílegas. O pacto teria surgido em resposta às injustiças sofridas por pessoas sem proteção tribal na cidade, particularmente depois que um mercador zubaidita foi lesado por um membro dos samitas e não conseguiu obter reparação. Por iniciativa de Azobair ibne Abede Almotalibe, representantes dos haxemitas, mutalibitas, zuraítas, taimitas e assaditas reuniram-se na residência de Abedalá ibne Judane e comprometeram-se a agir conjuntamente em defesa das vítimas de injustiça, independentemente de sua origem ou condição. Algumas fontes substituem os assaditas pelos alharititas entre os participantes.
O jovem Maomé teria participado do pacto como membro dos haxemitas e, segundo a tradição islâmica, continuou a referir-se favoravelmente a ele depois do início de sua missão profética. Os alfudulitas são apresentados nas fontes intervindo em disputas comerciais e em outros casos de abuso em Meca, e a autoridade moral da aliança continuou a ser invocada no período islâmico, inclusive durante o Califado Omíada. A impossibilidade de admitir novos integrantes levou à sua extinção com a morte do último dos participantes originais, embora o Hilfe Alfudul permanecesse na tradição como um precedente de ação coletiva contra injustiças. As fontes mencionam ainda um pacto homônimo muito mais antigo, atribuído a três jurumitas chamados Fadle ou portadores de nomes derivados dessa raiz; a relação entre esse relato e o nome da aliança coraixita constitui uma das diversas explicações tradicionais para a denominação Hilfe Alfudul, cuja origem exata é incerta.
Antecedentes e formação
As fontes muçulmanas registram a existência de dois pactos distintos conhecidos como Hilfe Alfudul (Hilf al-Fudul) na Meca pré-islâmica. O mais antigo teria sido celebrado entre os jurumitas, primeiros habitantes tradicionais da cidade, por três homens chamados Fadle ou portadores de nomes derivados da mesma raiz: Ibne Fadala, Ibne Uadaa e Ibne Alharite, embora outras versões apresentem diferentes nomes para os participantes. Segundo a tradição, eles juraram que, sempre que uma pessoa desprotegida, fosse ela habitante de Meca ou estrangeira, sofresse uma injustiça, eles e suas tribos a auxiliariam até que seus direitos fossem restituídos. Alguns autores explicaram a denominação Hilfe Alfudul como "pacto dos Fadles", relacionando-a aos nomes desses participantes. Outras interpretações derivaram o nome da alegada superioridade do acordo em relação ao mutaiabitas e ao alafitas, da caracterização coraixita do pacto como um juramento de virtude ou da restituição aos proprietários daquilo que lhes havia sido indevidamente tomado.[1] A variedade dessas explicações levou Charles Pellat a considerar que a verdadeira razão da denominação havia sido esquecida muito cedo. Entre as interpretações transmitidas posteriormente estão ainda a derivação de faḍl, no sentido de uma dívida ou excedente que não deveria permanecer nas mãos do devedor, e a explicação de Aljaiz, para quem o nome estaria relacionado às virtudes e vantagens excepcionais do pacto.[2]
O segundo e mais célebre Hilfe Alfudul foi estabelecido algumas décadas antes da Hégira, segundo diferentes tradições 33, 28 ou 18 anos antes desse acontecimento. Sua formação é situada num período em que rivalidades entre os clãs de Meca produziam conflitos recorrentes e pessoas sem proteção tribal, especialmente estrangeiros que visitavam a cidade para comerciar ou realizar peregrinações, podiam ser vítimas de abusos. O episódio tradicionalmente associado à criação do pacto teria ocorrido no mês sagrado de Dulcada, depois da última das Guerras Sacrílegas. Um mercador dos zubaiditas chegara do Iêmem para realizar a umra e vender suas mercadorias em Meca. Após negociar seus produtos com um comprador, este se recusou a pagar o preço acordado. A maioria das tradições identifica o comprador como Alás ibne Uail, dos samitas, enquanto Maomé ibne Habibe o identifica como Hudaifa ibne Caice Açami.[2] Sem conseguir receber o pagamento, o mercador procurou alguns dos principais integrantes do alafitas, aliança à qual pertenciam os samitas, mas não obteve auxílio. Segundo a tradição preservada pela TDV, esses chefes temiam que uma intervenção contra um membro dos samitas levasse o clã a abandonar sua aliança, enfraquecendo-os diante dos mutaiabitas. Na manhã seguinte, o mercador subiu ao monte Abu Cubais e recitou em voz alta versos nos quais denunciava a injustiça sofrida e apelava aos coraixitas. Enquanto os integrantes dos alafitas permaneceram indiferentes, os clãs associados aos mutaiabitas reagiram à denúncia.[1]
A iniciativa para organizar uma resposta é tradicionalmente atribuída a Azobair ibne Abede Almotalibe, tio de Maomé. Azobair, que havia participado ativamente da última Guerra Sacrílega e, segundo a tradição, lamentava seu envolvimento no conflito, procurou Abedalá ibne Judane, chefe dos taimitas e um dos homens mais ricos, idosos e influentes de Meca, e convenceu-o a reunir os representantes dos clãs interessados em solucionar o problema. A reunião ocorreu na residência de Abedalá ibne Judane e dela não teria participado nenhum dos clãs pertencentes aos alafitas. As fontes geralmente enumeram entre os participantes os haxemitas, mutalibitas, zuraítas, taimitas e assaditas. Almaçudi, porém, apresenta os alharititas no lugar dos assaditas. Após as discussões, os participantes comprometeram-se por juramento a agir conjuntamente contra injustiças cometidas em Meca. O pacto determinava, em essência, que seus membros agiriam "como uma única mão" ao lado do oprimido e contra o opressor até que os direitos da vítima fossem restituídos, independentemente de sua origem ou condição, além de prestarem auxílio material uns aos outros. As tradições acrescentam um componente ritual à celebração do acordo: os participantes teriam lavado a Pedra Negra e bebido a água utilizada na lavagem enquanto prestavam o juramento.[1][2] O jovem Maomé, então membro dos haxemitas, teria participado da reunião juntamente com seu tio Zobair; a TDV registra tradições que lhe atribuem vinte ou 35 anos de idade na ocasião.[3] A importância atribuída ao pacto aparentemente ultrapassou os próprios clãs que o celebraram. Segundo uma tradição, Oteba ibne Rabia, sogro de Abu Sufiane e integrante do campo dos alafitas, teria lamentado não poder participar do acordo e declarado que estaria disposto até mesmo a abandonar seu próprio grupo de parentesco para integrá-lo.[4] Pellat observa que o islã posteriormente não repudiou o pacto e que Maomé teria recordado sua participação de maneira favorável, afirmando que não trocaria aquele compromisso nem pelos mais valiosos camelos e que, caso fosse novamente convocado a um acordo semelhante já sob o islã, responderia favoravelmente.[2]
Atuação
As tradições preservam diversos episódios destinados a ilustrar a atuação dos alfudulitas na proteção de pessoas que não conseguiam obter reparação por meio das estruturas tribais ordinárias. Em um deles, um mercador dos tumalaítas vendeu mercadorias a Ubai ibne Calafe, um dos homens proeminentes de Meca, mas não recebeu o pagamento devido. O mercador recorreu então aos alfudulitas, que lhe recomendaram procurar novamente Ubai e exigir o pagamento, advertindo-o de que, caso este continuasse a recusá-lo, os membros da aliança interviriam pessoalmente para recuperar a dívida. Diante da ameaça de intervenção, Ubai pagou imediatamente ao mercador. Outro relato diz respeito a um mercador dos catamitas que chegou do Iêmem a Meca acompanhado de sua filha para realizar a peregrinação. Nubai ibne Alhajaje, um dos homens poderosos da cidade, teria tomado a jovem à força. O pai procurou os alfudulitas, que cercaram imediatamente a residência de Nubai, recuperaram a mulher e a devolveram ao mercador. As tradições atribuem ao pacto uma função semelhante em episódios envolvendo Abu Jal. Em um deles, Abu Jal comprou mercadorias de um homem da tribo dos iraxitas, mas se recusou a pagá-las. Um politeísta que conhecia a hostilidade de Abu Jal contra Maomé indicou ironicamente ao mercador que recorresse a este, que se encontrava junto à Caaba, afirmando que ele conseguiria recuperar o dinheiro. Maomé acompanhou o homem até a residência de Abu Jal e obteve o pagamento sem resistência.[4]
Em outra ocasião, um mercador zubaidita chegou a Meca para vender suas mercadorias. Abu Jal teria impedido os demais comerciantes de negociar com ele e oferecido um preço reduzido pelos produtos, valendo-se de sua influência para que ninguém apresentasse oferta superior. Ao tomar conhecimento da situação, Maomé comprou pelo preço solicitado pelo mercador uma carga correspondente a três camelos. Quando Abu Jal o procurou posteriormente, Maomé teria invocado o Hilfe Alfudul e advertido-o a não repetir esse comportamento. A autoridade moral atribuída ao pacto continuou a ser invocada depois do advento do islã. Durante o califado de Moáuia I (r. 661–680), surgiu uma disputa patrimonial entre Huceine ibne Ali e o sobrinho do califa, Alualide ibne Oteba, então governador de Medina. Diante da tentativa de Alualide de pressioná-lo, Huceine ameaçou recorrer ao Hilfe Alfudul caso seu direito não fosse respeitado. Segundo o relato, a ameaça foi suficiente para que o governador abandonasse sua posição.[4] Assim, embora a aliança remontasse à Meca pré-islâmica, seu nome continuou a funcionar como referência a um compromisso coletivo contra determinadas formas de injustiça durante o primeiro período islâmico. Pellat igualmente observa que o pacto ainda era ocasionalmente evocado durante o período omíada e que, em determinadas disputas, a ameaça de colocá-lo novamente em funcionamento podia ser utilizada como instrumento de pressão.[2]
Dissolução e legado
A continuidade institucional dos alfudulitas era limitada pelo caráter fechado da aliança, uma vez que novos integrantes não podiam ser admitidos depois de sua celebração. Consequentemente, à medida que seus participantes originais morreram, o grupo foi progressivamente reduzido, até desaparecer com a morte de seu último membro no início do Califado Omíada.[4] O desaparecimento dos participantes, contudo, não eliminou a memória do acordo: como demonstra sua invocação no conflito entre Huceine ibne Ali e Alualide ibne Oteba, o Hilfe Alfudul continuou a ser lembrado como precedente ao qual se podia apelar contra uma injustiça.[2] As fontes islâmicas também atribuem a Maomé avaliações posteriores favoráveis ao pacto. Segundo tradições citadas pela TDV, depois do início de sua missão profética ele teria afirmado que o islã apenas reforçara os princípios representados pela aliança, que não trocaria sua participação nela nem por uma manada de valiosos camelos de pelo vermelho e que, caso fosse novamente convidado a integrar um pacto semelhante, aceitaria sem hesitação.[4] A mesma tradição é registrada por Pellat, para quem a preservação dessas declarações demonstra que o acordo não foi repudiado pelo islã. A memória do Hilfe Alfudul também adquiriu utilização polêmica nos séculos posteriores. No século IX, Aljaiz recorreu ao pacto como argumento em favor da superioridade dos haxemitas sobre os abedexemecitas, ancestrais dos omíadas, salientando que estes últimos não haviam participado da aliança. Aljaiz chegou a qualificá-la como o mais nobre dos pactos celebrados pelos coraixitas. Já na historiografia moderna, Muhammed Hamîdullah relacionou o Hilfe Alfudul coraixita à tradição acerca do pacto homônimo atribuído aos jurumitas, interpretando este último como uma espécie de "ordem de cavalaria" e propondo que Zobair ibne Abde Almotalibe teria promovido sua restauração movido pelo remorso decorrente de sua participação nas Guerras Sacrílegas.[2]
Referências
- 1 2 3 Hamîdullah 1998, p. 31.
- 1 2 3 4 5 6 7 Pellat 1986, p. 389.
- ↑ Hamîdullah 1998, pp. 31–32.
- 1 2 3 4 5 Hamîdullah 1998, p. 32.
Bibliografia
- Pellat, Ch. (1986). «Ḥilf al-Fuḍūl». The Encyclopaedia of Islam. 3: H–Iram 2 ed. Leida: E. J. Brill. p. 389. OCLC 495469525
- Hamîdullah, Muhammed (1998). «Hilfü'l-Fudûl». Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 18. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı. pp. 31–32
