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Voto de Minerva
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O voto de Minerva é uma expressão idiomática que designa o voto de desempate, normalmente proferido pelo último votante para resolver uma votação até então empatada.[1] No uso jurídico-administrativo brasileiro, o termo é frequentemente empregado como sinônimo informal de voto de qualidade, prerrogativa regimental conferida a um membro específico, habitualmente o presidente ou dirigente, para resolver um impasse na votação.[2]
O termo tem origem na versão de Ésquilo para o julgamento de Orestes, episódio da mitologia grega apresentado na peça Eumênides, na qual a deusa Atena (correspondente à deusa romana Minerva) preside o primeiro tribunal do Areópago. Contudo, a função exercida pela deusa no mito original difere da definição moderna da expressão.[3]
Origem na Mitologia Grega
A origem da expressão está na Oresteia, a única trilogia completa da Grécia Antiga sobrevivente até a atualidade.[4] A obra, do dramaturgo Ésquilo, venceu em primeiro lugar o festival das Grandes Dionísias em 458 AEC (antes da Era Comum).[5] A peça final da trilogia, Eumênides, apresenta a versão do julgamento de Orestes que serve como fonte primária para o mito.
O Enredo da Oresteia
A trilogia narra o ciclo de violência na casa de Atreu, frequentemente chamado de maldição dos atridas. Na primeira peça, Agamêmnon, rei de Argos[nota 1], retorna da Guerra de Troia e é assassinado por sua esposa, Clitemnestra, vingando o sacrifício de sua filha, Ifigênia.[6] Na segunda peça, Coéforas, o filho de Agamêmnon, Orestes, retorna do exílio e, sob orientação do deus Apolo, mata Clitemnestra e seu amante, Egisto, em vingança pelo pai.[7]
O matricídio, no entanto, é um crime de sangue que despertava a fúria das Erínias (conhecidas como Fúrias na mitologia romana), divindades primordiais que puniam implacavelmente tais transgressões. A terceira peça, Eumênides, começa com Orestes atormentado e perseguido pelas Erínias. Ele busca refúgio no templo de Apolo, que, embora o tenha induzido a cometer o ato, não pode libertá-lo da perseguição. Apolo então o direciona a Atenas, para ser julgado sob a proteção da deusa Atena.[8]
O Julgamento em Atenas
Em Atenas, Atena funda o tribunal do Areópago com participação de júri cidadão para julgar o caso, episódio mítico que dramatiza a criação de um foro cívico.[9] O julgamento marca a passagem de uma justiça baseada na vingança de sangue, personificada pelas Erínias, para a ordem jurídica cívica da pólis.[10] Apolo atua como advogado de defesa de Orestes, enquanto as Erínias são as acusadoras.
O ponto crucial do julgamento, e a origem da expressão "voto de Minerva", ocorre no momento da votação. Antes da contagem dos votos, Atena anuncia duas ações fundamentais:
- O Voto Pessoal de Atena: A deusa declara que depositará seu voto em favor de Orestes. Justifica sua decisão afirmando que, por não ter mãe que a tenha gerado, sua afinidade está inteiramente com o masculino e com a figura paterna.[11] [nota 2] [nota 3]
- A Lei do Empate: Imediatamente após anunciar seu voto, ela estabelece a regra que decidirá o julgamento: "Vence Orestes, ainda que empate".[12] [nota 4]
Após a votação do júri, a contagem dos votos revela um empate.[13] Consequentemente, Orestes é absolvido.
A decisão, no entanto, provoca a fúria das Erínias, que se sentem desonradas e ameaçam lançar uma praga sobre a terra de Atenas. O que se segue é um debate no qual Atena, por meio da persuasão e da promessa de honras perpétuas, apazigua a ira das deusas. Ela lhes oferece uma nova morada e um novo papel na cidade: em vez de serem apenas personificações da vingança, elas se tornarão guardiãs benevolentes da justiça e da prosperidade de Atenas. Ao aceitarem a proposta de Atena, as Erínias passam por uma transformação simbólica e são celebradas no final da peça com uma procissão de tochas. Na tradição posterior, elas ficariam conhecidas como as Eumênides ("Benevolentes").[nota 5]
Diferenças entre o mito popular e o texto de Ésquilo
A popularidade da Oresteia ao longo dos séculos consolidou certas interpretações que, embora comuns, não correspondem com precisão ao texto de Ésquilo.[14] É importante esclarecer três pontos fundamentais que são frequentemente simplificados ou mal compreendidos:
- A Função do Voto de Atena: Atena não profere um "voto de desempate" para resolver um impasse já existente. O texto de Ésquilo mostra que ela vota antes da contagem final dos votos do júri e de forma justamente a empatar a votação. A absolvição de Orestes ocorre porque estava previsto que o empate seria a seu favor.
- A Contagem dos Votos: É comum a afirmação de que o júri era composto por doze mortais, com o voto de Atena sendo o 13º. No entanto, o texto de Ésquilo não especifica o número de jurados nem a contagem numérica dos votos. A ideia de um júri de doze membros é baseada em práticas posteriores, mas não é uma informação presente na fonte primária. Gagarin e outros classicistas analisam que o foco dramático está no resultado de empate e na aplicação da regra, não na aritmética da votação.[3]
- A Composição do Coro: As Erínias não são representadas como o trio com nomes próprios (Tisífone, Megera e Alecto) da tradição romana posterior, popularizada por Virgílio. Na peça de Ésquilo, as Erínias constituem o coro trágico principal. Na época em que a Oresteia foi encenada, o coro trágico era convencionalmente composto por doze membros, um número que só mais tarde foi aumentado para quinze por Sófocles.[15] A peça, portanto, apresenta um grupo de doze Fúrias anônimas atuando como uma entidade coletiva.
Uso no Brasil
No Brasil, a expressão "voto de Minerva" é frequentemente utilizada para designar, em linguagem corrente, o voto de desempate atribuído ao presidente de um órgão colegiado. No âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, essa ideia possui fundamento regimental específico. O Regimento Interno da Corte estabelece como atribuição do presidente proferir voto de qualidade nas decisões do Plenário em que houver empate.[16]
Em processos penais, incluindo julgamentos de habeas corpus e recursos correlatos, o empate deve ser resolvido a favor do réu, em conformidade com o princípio in dubio pro reo.[17] Nessas circunstâncias, o voto de desempate do presidente do STF só é utilizado quando não houver regra específica que determine o resultado do empate.[18]
Notas
- ↑ Na tragédia Oresteia de Ésquilo, a localização de Agamêmnon como rei de Argos — em vez de Micenas, como na poesia de Homero — é geralmente entendida como uma escolha deliberada de atualização político-dramática. No contexto histórico da encenação de Eumênides, Atenas mantinha uma aliança recente com Argos: a peça dramatiza essa aliança como se existisse desde a era heroica, apresentando-a como garantia mítica de fidelidade entre Argos e Atenas. Assim, a transferência da capital de Agamêmnon para Argos não reflete tradição épica antiga, mas antes uma adaptação ideológica destinada a legitimar e valorizar diplomaticamente, no palco trágico, a política externa ateniense contemporânea. Ver Sommerstein 2010, p. 285
- ↑ Embora na Teogonia de Hesíodo a mãe de Atena seja a deusa Métis, a afirmação da deusa na peça de Ésquilo funciona como um recurso retórico para sublinhar sua origem singular (tendo nascido da cabeça de Zeus) e, consequentemente, sua lealdade ao pai. Ver Ésquilo 2004c, p. 53.
- ↑ Esta passagem é central para a análise de J. J. Bachofen (Bachofen 1861), que interpreta o julgamento de Orestes como a transição do matriarcado para o patriarcado. Friedrich Engels (Engels 2026) destaca essa interpretação, observando, contudo, que Bachofen atribui às divindades do mito a realização dessa mudança, não ao "desenvolvimento das condições reais de existência dos homens".
- ↑ Essa ação pode ser interpretada como precursora do princípio jurídico moderno in dubio pro reo (na dúvida, a favor do réu). Ver Filonik 2024.
- ↑ A designação "Eumênides" para as deusas apaziguadas, embora comum na tradição posterior e usada como título da peça, não aparece no texto de Ésquilo. Ver Sommerstein 2010, p. 131.
Referências
- ↑ «Voto de Minerva». Dicio, Dicionário Online de Português. Consultado em 21 de fevereiro de 2026
- ↑ «Sancionado o voto de qualidade no Carf e vetado perdão de multas a contribuintes». Agência Senado. 21 de setembro de 2023. Consultado em 21 de fevereiro de 2026.
O presidente em exercício, Geraldo Alkcmin, sancionou com vetos a Lei 14.689, que restabelece o voto de desempate a favor do governo nas votações do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf).
- 1 2 Gagarin 1975.
- ↑ «Oresteia». Encyclopædia Britannica. Consultado em 21 de fevereiro de 2026.
It is his last work and the only complete trilogy of Greek dramas that has survived.
- ↑ Sommerstein 2010, p. 8.
- ↑ Ésquilo 2004a.
- ↑ Ésquilo 2004b.
- ↑ Ésquilo 2004c.
- ↑ Sommerstein 2010, p. 145.
- ↑ Gomes & Monteiro 2019.
- ↑ Ésquilo 2004c, vv. 735-738.
- ↑ Ésquilo 2004c, v. 741.
- ↑ Ésquilo 2004a, vv. 752-753.
- ↑ «Termo "voto de minerva" tem origem na mitologia grega; entenda». G1/Globo News. 18 de setembro de 2013. Consultado em 21 de fevereiro de 2026.
A votação do júri, formado por 12 cidadãos de Atenas, acabou em empate, e foi Atenas ou Minerva, a Deusa da Razão e da Justiça, que deu o voto decisivo e inocentou Orestes.
- ↑ Stehle 2023.
- ↑ «Presidente do STF passa a ter voto de qualidade em caso de empate no Plenário». Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Consultado em 21 fevereiro 2026
- ↑ «Maioria de votos e o critério de desempate no Habeas Corpus». Consultor Jurídico. 16 maio 2024. Consultado em 21 fevereiro 2026
- ↑ «STF: 2ª turma irá rejulgar extradição de colombiano que matou namorada». Migalhas. Consultado em 21 fevereiro 2026
Bibliografia
- Gagarin, Michael (1975). «The Vote of Athena». The American Journal of Philology. 96 (2): 121–127. JSTOR 294376
- Sommerstein, Alan H. (2010). Aeschylean Tragedy 2 ed. Londres: Bloomsbury. ISBN 978-1-8496-6795-1
- Ésquilo (2004a). Agamêmnon. Traduzido por Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras. ISBN 85-7321-204-7
- Ésquilo (2004b). Coéforas. Traduzido por Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras. ISBN 85-7321-205-5
- Ésquilo (2004c). Eumênides. Traduzido por Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras. ISBN 85-7321-206-3
- Daniel Machado Gomes; Marco Antônio Souza Monteiro (2021). «As Eumênides de Ésquilo e o Problema da Vingança no Estado Moderno». Anais do IX CIDIL – Narrativas de um Direito Curvo: Homenagem a Calvo Gonzáles. Consultado em 21 de fevereiro de 2026
- Bachofen, Johann Jakob (1861). Das Mutterrecht: Eine Untersuchung über die Gynaikokratie der Alten Welt nach ihrer religiösen und rechtlichen Natur. Stuttgart: Burns & Oates
- Friedrich Engels. «"Prefácio à quarta edição de A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado"». Marxists.org. Consultado em 21 de fevereiro de 2026
- Jakub Filonik (2024). «Acquitted/Convicted by a Single Vote?: Aeschines 3.252 and Vote Counts in Athenian Oratory». Brill. Mnemosyne. 78 (5): 781–794. doi:10.1163/1568525x-bja10285
- Stehle, Eva (2023). «The Choruses of Aeschylus». In: Jacques A. Bromberg; Peter Burian. A Companion to Aeschylus. Hoboken, NJ: Wiley-Blackwell. pp. 230–241. doi:10.1002/9781119072348.ch17
