Saúde
Ururau da Lapa (lenda)
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| Ururau da Lapa | |
|---|---|
| Informações gerais | |
| Primeira aparição | Relatos do século XVIII |
| Informações pessoais | |
| Origem | Campos dos Goytacazes, RJ |
| Características físicas | |
| Espécie | Jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) |
Ururau (do tupi ururá, “jacaré”) é uma figura do folclore brasileiro que designa tanto o Jacaré-de-papo-amarelo quanto uma criatura mítica associada às águas do Rio Paraíba do Sul. Sua manifestação lendária mais conhecida é o Ururau da Lapa, tradição oral registrada em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro.
O termo possui circulação histórica nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, sendo registrado por Luís da Câmara Cascudo como designação popular de grandes jacarés da Mata Atlântica.[1]
Etimologia e identificação zoológica
O vocábulo deriva do tupi ururá, utilizado por povos indígenas para designar grandes répteis aquáticos. No interior paulista e fluminense, “ururau” tornou-se forma popular para o Caiman latirostris.[1]

Em Campos dos Goytacazes, o topônimo Rio Ururaí (“rio dos jacarés”) reforça a relação entre o mito e o ecossistema fluvial regional.[2]
A lenda do Ururau da Lapa
Segundo registros literários e estudos acadêmicos, a narrativa remonta ao século XVIII e descreve a transformação de um homem em um jacaré colossal após transgressão moral ou religiosa.[2]
Entre os elementos recorrentes da tradição oral destacam-se:
- o romance proibido entre um jovem humilde e a filha de um fazendeiro;
- a metamorfose em jacaré de couraça impenetrável;
- o ataque a uma embarcação que transportava um sino destinado à Igreja da Lapa;
- o afundamento do sino no Rio Paraíba do Sul, que teria se tornado abrigo da criatura.
A tradição sustenta que, em noites de tempestade ou festividade, seriam ouvidas badaladas submersas do sino.[2]
Cascudo registra o Ururau como entidade devoradora associada ao controle moral noturno, característica comum a narrativas do folclore luso-brasileiro.[1]
Presença na cultura
Literatura nacional
Em Macunaíma (1928), de Mário de Andrade, o termo surge na expressão “jacaré-ururau de papo amarelo”, indicando uso lexical associado ao repertório zoológico e mítico de matriz indígena.[3]
No romance O Coronel e o Lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho, ambientado no Norte Fluminense, o Ururau compõe o universo fantástico regional, dialogando com o imaginário local.
Afonso Arinos, no conto “Assombramento” (1898), registra a presença do ururau como criatura temida no interior brasileiro.
Em obras literárias nacionais, o termo “ururau” aparece com frequência como designação zoológica derivada do tupi, referindo-se ao Jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), sem necessariamente estabelecer relação direta com a tradição específica do Ururau da Lapa campista.[1]
Literatura campista
A consolidação escrita da lenda em âmbito local deve-se a cronistas e escritores de Campos dos Goytacazes.
Manoel Alberto Barbosa Guerra (1908–1977) registrou elementos da tradição em crônicas publicadas na imprensa regional, contribuindo para sua fixação literária.
Osório Peixoto Silva publicou, em 1976, O Ururau da Lapa e Outras Estórias, obra considerada marco na transposição do mito para a literatura regional.[4]
Fernando da Silveira abordou o imaginário da Curva da Lapa e do Rio Paraíba do Sul em obras como A Volta da Lapa (2002), contribuindo para a preservação da memória cultural associada ao mito.
A obra infantojuvenil Ururau Pançudo (2014), de Sylvia Paes e Carmen Eugênia Gomes, apresenta releitura pedagógica da lenda e é mencionada em estudos sobre educação patrimonial.[2]
Teatro
A montagem O Auto do Ururau, produzida pela Cia. de Arte Lázaro, adaptou a lenda para uma dramaturgia que dialoga com as várias tradições performativas da cultura popular campista, incluindo elementos associados ao jongo e outras expressões regionais analisadas em estudos antropológicos sobre práticas culturais do município.[5]
No Prêmio Shell de Teatro de 2005 (18ª edição), a peça foi reconhecida na relação oficial de vencedores com menção específica na categoria de música, composta por Caique Botkay e José Sisneiro, associada à produção Auto do Ururau.[6]
Carnaval
A lenda dá nome à tradicional escola de samba G.R.E.S. Ururau da Lapa, fundada em 1979, que adota o jacaré como símbolo oficial e incorpora referências ao mito em sua identidade visual e em seus desfiles.
Música
A canção “Querelas do Brasil” (1978), de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, gravada por Elis Regina, menciona o termo “ururau” entre vocábulos associados à diversidade cultural e linguística brasileira.[7] No contexto da composição, o uso se aproxima da matriz lexical indígena do termo, sem referência direta à tradição específica do Ururau da Lapa campista.
Estudos e interpretação historiográfica
Pesquisas acadêmicas situam o Ururau como elemento de construção simbólica da identidade campista e como expressão das relações históricas entre sociedade e ambiente na planície goytacá.[2]
O historiador Aristides Soffiati analisa a lenda em articulação com o ecossistema fluvial regional, destacando a conexão entre o mito e o topônimo Rio Ururaí, interpretado como “rio dos jacarés”.[2]
Trabalhos desenvolvidos na Universidade Federal Fluminense investigam o uso pedagógico da lenda no ensino de História regional e patrimônio imaterial.[8]
Legado
O Ururau integra o repertório simbólico de Campos dos Goytacazes e é mobilizado em projetos de educação patrimonial, grafite urbano e iniciativas culturais voltadas à valorização da história local.[2]
O Ururau da Lapa figura em inventário formal de referências culturais do município, sem registro como patrimônio imaterial pelo IPHAN.[9]
Referências
- 1 2 3 4 Cascudo, Luís da Câmara (2001). Dicionário do Folclore Brasileiro. [S.l.]: Global
- 1 2 3 4 5 6 7 Soffiati, G. L.; Lopes, C. R. da C.; Barbosa, J. S. M.; Pessanha, N. da C. M.; Silva, P. G. T. da. "Ururau da Lapa: proposta de ensino de História Regional e Local a partir de sobrevivências de uma lenda folclórica na cultura campista contemporânea" .
- ↑ Mário de Andrade (1928). Macunaíma. [S.l.: s.n.]
- ↑ Osório Peixoto Silva (1976). O Ururau da Lapa e Outras Estórias. [S.l.]: Imago. ISBN 8531201527
- ↑ REF-{{{2}}}
- ↑ «All winners of the Shell Theatre Award until 2023 – Shell Brasil» (PDF). Consultado em 4 de março de 2026
- ↑ (1979) Créditos do álbum Elis, Essa Mulher.
- ↑ Lopes, Brenda Formágio (2023). Lenda Urbana na Escola: O Ururau da Lapa como ferramenta de ensino (PDF) (Tese). Universidade Federal Fluminense
- ↑ «Lei Ordinária nº 9.065/2021 – Plano Municipal de Cultura de Campos dos Goytacazes» (PDF). Sistema Nacional de Cultura / Ministério da Cultura. Consultado em 4 de março de 2026
