Saúde
Unção dos enfermos
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A Unção dos Enfermos, conhecida também pelo antigo nome Extrema-unção, é um dos sete sacramentos da Igreja Católica, destinado a conferir graça espiritual, conforto e fortalecimento aos fiéis que enfrentam enfermidades graves, os efeitos da idade avançada, uma cirurgia de risco ou situações de perigo decorrentes de doença. O sacramento é também reconhecido, sob diferentes formas e interpretações, por diversas outras tradições cristãs.[1]
A prática da unção dos doentes possui raízes antigas e encontra fundamento nos Evangelhos e nos escritos apostólicos. O uso de óleo para fins medicinais, terapêuticos e religiosos era comum em diversas civilizações da Antiguidade, incluindo os povos do Oriente Próximo, os gregos e os judeus. O uso de óleo para fins de cura é mencionado nos escritos de Hipócrates.[2][3] No cristianismo, a Unção dos Enfermos desenvolveu-se como um rito de assistência espiritual aos doentes, associado à oração pela cura e ao fortalecimento da fé.
A Unção dos Enfermos distingue-se de outras unções litúrgicas realizadas no contexto de sacramentos como o Batismo, a Confirmação e a Ordem, bem como de cerimônias religiosas não sacramentais.[4] Na tradição católica, o sacramento é administrado por um sacerdote ou bispo e é considerado um dos dois sacramentos de cura, juntamente com a Penitência.
Catolicismo Romano
Na Igreja Católica, a Unção dos Enfermos é conferida aos fiéis que se encontram em perigo devido a doença grave, fragilidade decorrente da idade avançada ou agravamento significativo do estado de saúde. Embora durante séculos tenha sido frequentemente administrada apenas aos moribundos (in articulo mortis) — circunstância que deu origem à denominação tradicional de Extrema-unção[5][6] —, o Concílio Vaticano II restaurou a compreensão mais antiga do sacramento, enfatizando que ele não se destina exclusivamente aos momentos finais da vida.
O sacramento pode ser recebido mais de uma vez, especialmente quando a enfermidade se agrava ou quando surge uma nova doença grave. Quando administrado a uma pessoa próxima da morte juntamente com a Eucaristia, esta última recebe o nome de Viático (do latim viaticum, “provisão para a viagem”), por constituir o derradeiro alimento sacramental do cristão em sua passagem desta vida para a Casa do Pai.[7]
O rito consiste na imposição das mãos pelo sacerdote, seguida da unção da testa e das mãos com o óleo dos enfermos, previamente abençoado pelo bispo. A fórmula litúrgica atualmente utilizada no rito romano é:
“Por esta santa unção e pela Sua infinita misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo, para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na Sua misericórdia, alivie os teus sofrimentos.”[8]
Segundo o Catecismo da Igreja Católica, o sacramento une o enfermo de maneira especial à Paixão de Cristo, concede-lhe consolo, paz e coragem para enfrentar as dificuldades próprias da doença, fortalece a sua vida espiritual e, quando Deus o permite, pode também contribuir para a recuperação da saúde física. Além disso, proporciona o perdão dos pecados quando o enfermo não pode obter o sacramento da Reconciliação.
O fundamento bíblico da Unção dos Enfermos é identificado no capítulo 5 da Epístola de Tiago, que exorta os cristãos:
«Está alguém enfermo? Chame os sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o restabelecerá. Se ele cometeu pecados, lhe serão perdoados.» (Tg 5,14-15)." (§ 1510 do Catecismo).
Diz também o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica:
«A compaixão de Jesus pelos doentes e as numerosas curas de enfermos são um claro sinal de que, com Ele, chegou o Reino de Deus e a vitória sobre o pecado, o sofrimento e a morte. Com a sua paixão e morte, Ele dá um novo sentido ao sofrimento, o qual, se unido ao seu, pode ser meio de purificação e de salvação para nós e para os outros.» (n. 314 do Compêndio).
Igreja Ortodoxa

O ensinamento da Igreja Ortodoxa sobre o Santo Mistério (sacramento) da Unção é semelhante ao da Igreja Católica Romana.[9] No entanto, a recepção do Mistério não se limita àqueles que sofrem de doenças físicas. O Mistério é dado para a cura (tanto física quanto espiritual) e para o perdão dos pecados. Por essa razão, normalmente é necessário confessar-se antes de receber a Unção. Por ser um Sagrado Mistério da Igreja, somente os cristãos ortodoxos podem recebê-lo.
A forma solene da unção cristã oriental requer o ministério de sete sacerdotes. Uma mesa é preparada, sobre a qual é colocado um recipiente contendo trigo . No trigo, são colocados uma lâmpada sagrada vazia, sete velas e sete pincéis de unção. As velas são distribuídas para que todos as segurem durante o serviço. O rito começa com a leitura do Salmo 50 (o grande salmo penitencial), seguida pelo canto de um cânone especial. Depois disso, o sacerdote mais graduado (ou bispo) verte azeite puro e uma pequena quantidade de vinho na lâmpada sagrada e profere a "Oração do Óleo", que invoca a Deus para "...santificar este Óleo, para que seja eficaz para aqueles que forem ungidos com ele, para cura e alívio de toda paixão, toda enfermidade da carne e do espírito, e todo mal...". Em seguida, são realizadas sete séries de epístolas, evangelhos, longas orações, Ectenias (ladainhas) e unções. Cada série é ministrada por um dos sete sacerdotes, por sua vez. O enfermo é ungido com o sinal da cruz em sete lugares: na testa, nas narinas, nas bochechas, nos lábios, no peito, nas palmas das mãos e no dorso das mãos. Após a última unção, o Livro do Evangelho é aberto e colocado com a escrita voltada para baixo sobre a cabeça do ungido, e o sacerdote principal lê a "Oração do Evangelho". Ao final, o ungido beija o Evangelho, a Cruz e as mãos direitas dos sacerdotes, recebendo sua bênção.
A Unção dos Enfermos é considerada um sacramento público, e não privado, sendo assim, o maior número possível de fiéis que puderem participar. Deve ser celebrada na igreja sempre que possível, mas, caso isso não seja viável, pode ser administrada na casa ou no quarto de hospital do enfermo.
Na Igreja Ortodoxa Grega e nas Igrejas de tradição helênica (Ortodoxa Antioquena, Melquita, etc.), a unção dos enfermos geralmente é administrada com o mínimo de cerimônia.
A unção também pode ser administrada durante as Vésperas do Perdão e a Semana Santa, na Quarta-feira Santa, a todos os que estiverem preparados. Aqueles que receberem a Unção na Quarta-feira Santa devem participar da Santa Ceia na Quinta-feira Santa. O significado de receber a Unção na Quarta-feira Santa é reforçado pelos hinos do Triódio para esse dia, que falam da mulher pecadora que ungiu os pés de Cristo.[10] Assim como seus pecados foram perdoados por causa de seu arrependimento, os fiéis são exortados a se arrependerem de seus pecados. Na mesma narrativa, Jesus diz: "ao derramar este perfume sobre o meu corpo, ela o fez para o meu sepultamento" (Id., v. 12), ligando a unção à morte e ressurreição de Cristo.
Em algumas dioceses da Igreja Ortodoxa Russa, é costume o bispo visitar cada paróquia ou região da diocese em algum momento durante a Grande Quaresma e dar a Unção dos Enfermos aos fiéis, juntamente com o clero local.
Igreja Ortodoxa Oriental
A Igrejas Ortodoxa Oriental considera a unção dos enfermos como um dos sete sacramentos.[11]
Igrejas luteranas
A unção dos enfermos foi mantida nas igrejas luteranas desde a Reforma.[12] Embora não seja considerado um sacramento como o batismo, a confissão e a eucaristia, é conhecido como um ritual no mesmo aspecto que a confirmação, a ordem e o matrimônio.
Igrejas anglicanas
As edições de 1552 e posteriores do Livro de Oração Comum omitiram a forma de unção dada na versão original (1549) em sua Ordem para a Visitação dos Enfermos, mas a maioria dos livros de oração anglicanos do século XX contém a unção dos enfermos.[13] O Livro de Oração Comum (1662) e a revisão proposta de 1928 incluem a "visitação dos enfermos" e a "comunhão dos enfermos" (que consistem em várias orações, exortações e salmos).
Alguns anglicanos aceitam que a unção dos enfermos tem um caráter sacramental e, portanto, é um canal da graça de Deus, considerando-a um "sinal exterior e visível de uma graça interior e espiritual", que é a definição de um sacramento. O Catecismo da Igreja Episcopal dos Estados Unidos da América inclui a Unção dos Enfermos entre os "outros ritos sacramentais" e afirma que a unção pode ser feita com óleo ou simplesmente com a imposição de mãos. O rito da unção está incluído no "Ministério aos Enfermos" da Igreja Episcopal.
O Artigo 25 dos Trinta e Nove Artigos, que são uma das fórmulas históricas da Igreja da Inglaterra (e como tal, da Comunhão Anglicana), falando dos sacramentos, diz: "Esses cinco comumente chamados Sacramentos, isto é, Confirmação, Penitência, Ordem, Matrimônio e Unção dos Enfermos, não devem ser contados como Sacramentos do Evangelho, sendo que surgiram em parte do seguimento corrupto dos Apóstolos, em parte são estados de vida permitidos nas Escrituras; mas não têm a mesma natureza de Sacramentos que o Batismo e a Ceia do Senhor, porque não têm nenhum sinal visível ou cerimônia ordenada por Deus."[14]
Em 1915, membros da Comunhão Anglicana fundaram a Guilda de São Rafael, uma organização dedicada a promover, apoiar e praticar o ministério de cura de Cristo.[15]
Outras comunidades protestantes
Os protestantes oferecem a unção em uma grande variedade de formatos.[16] As comunidades protestantes geralmente divergem bastante quanto ao caráter sacramental da unção. A maioria dos protestantes tradicionais reconhece dois sacramentos, a eucaristia e o batismo, e acredita que a unção é um rito instituído pelo homem. Comunidades protestantes mais recentes geralmente usam o termo ordenança em vez de sacramento.
Ver também
Referências
- ↑ «O que é o Sacramento da Unção dos Enfermos?». Minha Biblioteca Católica. 24 de agosto de 2023. Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ P. J. Hartin, Daniel J. Harrington James -- 2003 Page 267 "Anointing of the sick was a customary practice in both the Hellenistic and Jewish worlds. The use of oil for healing purposes is referred to in the writings of Hippocrates: "Exercises in dust differ from those in oil thus. Dust is cold, oil is warm."
- ↑ John Lightfoot Horæ hebraicæ et talmudicæ: Hebrew and Talmudical exercitations Volume 2 - Page 155 "On the ninth day of the month Ab, and in the public fasts, anointing for dress is forbid; anointing not for dress is allowed." [Hebrew text] They anointed themselves often, not for excess, or bravery, or delight, but for the healing of some disease, "
- ↑ Oxford Dictionary of the Christian Church (Oxford University Press 2005 ISBN 978-0-19-280290-3), article "unction"
- ↑ S.A, Priberam Informática. «últimos sacramentos». Dicionário Priberam. Consultado em 21 de outubro de 2021
- ↑ S.A, Priberam Informática. «in articulo mortis». Dicionário Priberam. Consultado em 21 de outubro de 2021
- ↑ «Unção dos enfermos: um dos sete sacramentos que confere a graça». Universo Paulinas. Consultado em 31 de maio de 2026
- ↑ «Rito para os enfermos». Vatican News
- ↑ «Миссионерское обозрение. 1903 г. 2 полугодие - читать, скачать». azbyka.ru (em russo). Consultado em 3 de setembro de 2025
- ↑ Mateus 26:6–16
- ↑ Arzoumanian, Fr. Zaven (2007). Theology of the Armenian Apostolic Orthodox Church: Introduction. [S.l.]: The Western Diocese Of the Armenian Church. 66 páginas
- ↑ Fink, Peter E., S.J., ed. Anointing of the Sick. Alternative Futures for Worship, vol. 7. Collegeville: Liturgical Press, 1987
- ↑ Oxford Dictionary of the Christian Church (Oxford University Press 2005 ISBN 978-0-19-280290-3), article "unction"
- ↑ «Thirty-Nine Articles»
- ↑ «Guild of St Raphael». St Brelade's Parish Church (em inglês). Consultado em 12 de abril de 2022
- ↑ Laurie F. Maffly-Kipp, Leigh E. Schmidt, and Mark Valeri, eds., Practicing Protestants: Histories of Christian Life in America, 1630–1965 (Baltimore MD: Johns Hopkins University Press, 2006), 138-49. ISBN 9780801883620; and «The Protestant Heritage». Encyclopedia Britannica (em inglês). Consultado em 10 de junho de 2019
