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Tratado de Londres (1915)
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| Tratado de Londres | |
|---|---|
| Acordo entre França, Rússia, Grã-Bretanha e Itália | |
| Tipo | Tratado multilateral |
| Propósito | Entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial |
| Assinado | 26 de abril de 1915 |
| Local | Londres, Reino Unido |
| Negociador(es) | |
| Signatário(s) | |
| Partes | |
| Língua(s) | Inglês e francês |
O Tratado de Londres ou Pacto de Londres foi um acordo secreto fechado em 26 de abril de 1915 por Reino Unido, França e Rússia de um lado, e a Itália do outro, com o objetivo de atrair este último a entrar na Primeira Guerra Mundial pelo lado da Tríplice Entente. O acordo envolvia promessas de expansão territorial italiana aos custos da Áustria-Hungria e Império Otomano, bem como na África, onde foi prometido uma ampliação de suas colônias. Os países da Entente tinham a esperança de forçar as Potências Centrais, especialmente a Alemanha e Áustria-Hungria, a desviarem parte de suas forças para longe dos campos de batalha já existentes. Outra esperança era que Romênia e Bulgária seguissem o exemplo da Itália ao entrarem na guerra.
A Itália declarou guerra contra a Áustria-Hungria em 22 de maio, mas demorou um ano até finalmente declarar guerra também contra a Alemanha, causando ressentimento tanto na França e quanto no Reino Unido. Os Estados Unidos pressionaram durante a Conferência de Paz de Paris após a guerra para que o tratado fosse anulado, argumentado que ele era contra o princípio da autodeterminação. Um novo acordo foi criado na conferência que reduzia os ganhos territoriais prometidos originalmente: a Itália recebeu os territórios de Trentino-Alto Ádige e a Veneza Júlia, também ocupando a cidade de Valona na Albânia e as ilhas do Dodecaneso. Os italianos foram forçados a resolver sua fronteira oriental com o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos por meio do bilateral Tratado de Rapallo, recebendo assim a Ístria, a cidade de Zara como um enclave na Dalmácia, bem como várias ilhas no litoral oriental do Mar Adriático. As promessas de expansão colonial e uma parte da Anatólia não foram cumpridas.
Os resultados da Conferência de Paz de Paris transformaram o fervor nacional italiano dos tempos de guerra em um ressentimento nacionalista defendido por Gabriele d'Annunzio, que declarou que o resultado da guerra da Itália foi uma "vitória mutilada". Ele liderou uma bem sucedida marcha de veteranos e soldados insatisfeitos que capturou o porto de Fiume, que era reivindicado pela Itália e negado pela Entente. Esta ação ficou conhecida como Esforço de Fiume e d'Annunzio proclamou a Regência Italiana de Carnaro na cidade por um breve período antes de ser forçado a ir embora pelo Exército Real Italiano para que o Estado Livre de Fiume pudesse ser estabelecido. A Regência de Carnaro foi significativa no desenvolvimento do fascismo italiano.
Antecedentes
Reino Unido, França e Rússia, as potências da Tríplice Entente, tentaram achar mais aliados após o início da Primeira Guerra Mundial. A primeira tentativa de trazer a Itália, então parte da Tríplice Aliança com Alemanha e Áustria-Hungria, para a Entente ocorreu entre agosto e setembro de 1914.[1] Ao mesmo tempo, a questão tornou-se estreitamente relacionada com esforços de conseguir uma aliança com a Bulgária, ou pelo menos garantir sua neutralidade,[2] em troca de ganhos territoriais sobre a Sérvia, aliada da Entente. Em compensação, foi prometido a Sérvia territórios da Áustria-Hungria, especificamente a Bósnia e Herzegovina e uma saída para o Mar Adriático na Dalmácia.[3]
Negociações
Primeiras ofertas

As negociações de agosto e setembro de 1914 foram conduzidas a partir de uma iniciativa russa. Em 4 de agosto, apenas um dia depois da Itália declarar sua neutralidade, o embaixador italiano na Rússia afirmou que o país poderia se juntar à Entente em troca de Trentino-Alto Ádige, Valona e uma posição dominante no Adriático. Sergei Sazonov, o Ministro do Exterior russo, foi atrás da questão por achar que tal ação da Itália poderia fazer a Romênia a também se juntar à Entente contra a Áustria-Hungria. Sir Edward Grey, o Secretário de Assuntos Estrangeiros britânico, era a favor de ideia, dizendo que Trieste deveria ser adicionada à reivindicação como importante a fim de conquistar a opinião pública italiana em favor da entrada na guerra.[1]
Guglielmo Imperiali, o embaixador italiano no Reino Unido, apresentou a Grey as condições para a entrada da Itália no conflito, mas este não considerou que as conversas poderiam produzir resultados práticos. Grey disse a Imperiali que o Reino Unido não consideraria mais a questão até a Itália se comprometer a se juntar a Entente. Sir Rennell Rodd, o embaixador britânico na Itália, foi instruído por Grey a perguntar ao presidente do conselho de ministros italiano Antonio Salandra se a Itália poderia entrar na guerra. Salandra informou Rodd que isso era impossível naquele momento e qualquer tentativa prematura de abandonar a neutralidade prejudicaria quaisquer possíveis alianças futuras. Sazonov foi informado disso e assim a Rússia abandonou a questão.[4]
As motivos das sondagens da Entente e a consideração italiana foram totalmente oportunistas. A Entente enxergava a Alemanha como o principal inimigo e queria forçá-la a desviar suas forças para longe dos campos de batalha já existentes. A Itália tinha interesses diferentes, enxergando a possibilidade de cumprir objetivos irredentistas na Áustria-Hungria, conquistar uma posição dominante no Adriático e expandir seu império colonial.[5] A maior parte do público italiano inicialmente era a favor da neutralidade, mas grupos a favor de uma guerra expansionista contra a Áustria-Hungria se formaram em todas as partes do espectro político. Os apoiadores mais fervorosos de uma guerra foram grupos irredentistas liderados por Giovanni Giuriati e Alfredo Rocco, que enxergavam a guerra como uma oportunidade de disputa étnica contra as populações eslavas do sul vizinhas.[6]
Dalmácia e Valona
Salandra e Antonino Paternò Castello, seu Ministro de Assuntos Externos, não romperam completamente as conversas. Eles esperaram pelos meses seguintes por um momento oportuno para aumentarem suas exigências até o máximo. Houve uma tentativa de recomeçar as negociações em Londres em 16 de setembro, quando Castello disse a Rodd que italianos e britânicos compartilhavam o interesse de impedir o avanço dos domínios eslavos sob influência russa para o oeste, especialmente impedir influência eslava no Adriático, onde os irredentistas italianos reivindicavam a Dalmácia. Castello instruiu Imperiali para dizer aos britânicos que a Itália não decidiria abandonar sua neutralidade antes da Entente aceitar suas condições, porém Grey insistiu que a Itália se comprometesse em seu juntar à Entente primeiro e assim as conversas ruíram novamente.[7]
Oposição às reivindicações italianas sobre a Dalmácia veio em especial de sir Arthur Nicolson, o Subsecretário de Estado Permanente para Questões Externas britânico, que comentou que Sazonov estava certo de que a Dalmácia queria se juntar à Croácia-Eslavônia. Nicolson também afirmou que se a Dalmácia fosse anexada pela Itália, esta estaria herdando um problema da Áustria-Hungria, que tinha uma grande população de eslavos do sul querendo maior independência. Mesmo assim, Castello conseguiu dos britânicos apoio para uma ocupação de Valona, na Albânia. Isto foi feito em preparação para uma intervenção italiana e concebido para dar algum prestígio ao governo italiano. Castello, prevendo uma oposição de Sazonov, pediu que Grey convencesse os russos a permitirem isso sem concessões como um mau necessário para atrair a Itália à Entente.[8]
Sonnino substitui Castello

Houve no final de outubro uma tentativa de fazer a Itália intervir contra um esperado ataque otomano no Canal de Suez. Sazonov avisou Grey a não oferecer a Dalmácia em troca, com o segundo respondendo que nenhuma oferta foi feita porque o canal aberto era do interesse italiano.[9]
A questão de uma aliança para a Itália foi assumida por Sidney Sonnino, que sucedeu Castello em novembro como o novo Ministro de Assuntos Externos. Sonnino propôs a Rodd um acordo não vinculante que poderia ser transformado em um vinculante em um momento oportuno. Apesar de propostas similares terem sido recusadas anteriormente, Rodd foi informado por seus contatos no governo italiano que as Forças Armadas da Itália estavam se preparando para intervir em fevereiro de 1915, fazendo Rodd pressionar Grey a considerar a proposta. Entretanto, Grey recusou a ideia por considerá-la uma barganha hipotética, estando nesse momento aparentemente indiferente sobre uma aliança com a Itália.[10]
Salandra e Sonnino em seguida foram então negociar com as Potências Centrais em uma aparente tentativa de manter esses países contidos até que mais negociações com a Entente pudessem ser realizadas. Essas conversas ruíram definitivamente em 15 de fevereiro de 1915. No dia seguinte, Sonnino enviou a Imperiali uma lista contendo dezesseis condições específicas para que a Itália entrasse na guerra.[11]
Aliança búlgara
Ao mesmo tempo, a Entente também tentando uma aliança com a Bulgária, ou pelo menos garantir sua neutralidade amigável. A situação levou a um conflito de reivindicações territoriais com a Itália e Sérvia. Entregar a Dalmácia para a Itália praticamente bloquearia a saída para o Adriático prometida à Sérvia, que seria uma compensação por a Sérvia ceder boa parte da Macedônia do Vardar para a Bulgária como pedido pela Entente para atiçar o interesse dos búlgaros. Sazonov queria fortalecer sua oferta para os sérvios e indiretamente para os búlgaros ao garantir a saída para o mar para a Sérvia, mas isto foi barrado por Grey, que considerava mais importante uma aliança com a Itália.[12]
Após o início da Campanha de Galípoli contra o Império Otomano em meados de fevereiro, os britânicos ficaram convencidos que a Bulgária entraria na guerra pela Entente em semanas. Mesmo assim, a Rússia estava preocupada que forças búlgaras e gregas pudessem ocupar Constantinopla e tirar os russos da região, mesmo que o seu controle da cidade tenha sido prometido pela Entente.[13] Sonnino enxergou a entrada de Bulgária e Grécia como algo que provavelmente garantiria a vitória da Entente nos Bálcãs. Imperiali informou Grey em 4 de março que a Itália entraria na guerra e lhe apresentou as dezesseis condições, insistindo em conter o avanço eslavo para o oeste.[14]
Constantinopla

Grey comentou que as reivindicações italianas eram excessivas, mas também que elas não entravam em conflito com os interesses britânicos. Ele achou que as recentes objeções russas sobre um ataque grego contra Constantinopla poderiam ser superadas pela adição de tropas italianas, além de que a entrada da Itália na guerra iria acelerar uma decisão de Bulgária e Romênia, que ainda não tinham se comprometido.[14]
Sazonov era contra qualquer participação italiana em Constantinopla, enxergando isto como uma ameaça ao controle russo da cidade prometido em troca das perdas do país na guerra.[14] Isto fez Grey conseguir do Comitê de Defesa Imperial e da França um reconhecimento formal da reivindicação russa sobre a cidade, o que por sua vez fez Sazonov aceitar com um acordo com a Itália, porém ele não aceitaria os italianos pegarem o litoral do Adriático ao sul da cidade de Espalato e que tropas italianas não participassem da captura dos estreitos turcos.[15]
O pedido sobre os estreitos turcos era aceitável para Grey porque os britânicos nunca anteciparam que a Itália realmente participaria de uma campanha contra Constantinopla. A maior parte da reivindicação italiana, sobre a aquisição de Trentino, Trieste e Ístria, provavelmente geraria protestos por parte de Frano Supilo, uma importante figura no recém criado Comitê Iugoslavo que defendia os interesses dos eslavos do sul vivendo na Áustria-Hungria, contra o controle sobre territórios povoados principalmente por eslavos do sul. Por outro lado, Sazonov e Nikola Pašić, este o Presidente do Conselho de Ministros sérvio, achavam isso aceitável.[15] A Declaração de Niš sérvia sobre seus objetivos de guerra defendia uma disputa para libertar e unificar "irmãos não libertados",[16] se referindo às "três tribos de um único povo" que eram os sérvios, croatas e eslovenos, sendo isso um meio de atrair o apoio dos eslavos do sul vivendo na Áustria-Hungria,[16] porém Pašić estava preocupado principalmente em alcançar a ideia da Grande Sérvia. Sazonov concordou,[15] dizendo que não tinha nada para falar pelos croatas e eslovenos e que não aprovaria que forças russas lutassem nem por "meio dia" pela liberdade de eslovenos.[17]
Últimas semanas

As negociações continuaram por mais seis semanas por conta de discordâncias ainda restantes, pois Sazonov ainda tinha objeções sobre o tamanho das ganhos territoriais italianos na Dalmácia. A reivindicação italiana até o rio Neretva, incluindo a península de Pelješac e todas as ilhas adriáticas, não se baseava em autodeterminação, mas sim em preocupações sobre uma futura guerra, já que os negociadores italianos alegavam que a Rússia poderia ocupar o litoral austro-húngaro enquanto a Itália não tinha portos defensáveis no litoral oeste do Adriático. O Comitê de Defesa Imperial estava preocupado com o poderio naval russo cada vez maior no Mar Mediterrâneo e é possível, apesar de não existirem evidências diretas, que isto influenciou o apoio britânico para as reivindicações italianas, sendo isto um meio de barrar o fortalecimento russo na região.[18]
Grey, na esperança de alcançar o avanço diplomático necessário para garantir alianças com Bulgária, Romênia e Grécia, transformou as dezesseis exigências de Sonnino em um esboço de acordo e a repassou para a Rússia, mesmo com protestos do Comitê Iugoslavo. Sazonov foi contra esse esboço e contra a oferta italiana de Ragusa como um porto para os eslavos do sul, pois a cidade não tinha rotas de transporte por terra. Ele exigiu Espalato e um porto melhor, também sendo contra o pedido de desmilitarização do litoral de Montenegro. Grey esboçou outro documento levando em conta as objeções russas e o enviou para Imperiali, mas Sonnino ameaçou acabar com as negociações por conta das diferenças.[19]
O impasse foi resolvido por Théophile Delcassé, o Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, que estava disposto a pagar qualquer preço para conseguir uma aliança com a Itália, acreditando que isto também traria alianças com Bulgária, Romênia e Grécia. Delcassé propôs uma redução das reivindicações italianas na Dalmácia para favorecer a Sérvia em troca de uma possessão sem restrições das ilhas do Dodecaneso. Isto deu certo porque o Exército Imperial Russo perdeu a iniciativa nos Cárpatos e seu comandante, o grão-duque Nicolau da Rússia, informou Sazonov que suporte italiano e romeno era urgentemente necessário para reconquistarem a iniciativa. Em resposta, Sazonov aceitou a proposta de Delcassé, insistindo que a Itália entrasse na guerra até o final de abril e deixando todas as questões de desmilitarização para o primeiro-ministro britânico H. H. Asquith. Este elaborou um rascunho em 9 de abril que foi aceito por Sonnino, com algumas pequenas alterações ocorrendo cinco dias depois.[20] O acordo foi finalmente assinado em 26 de abril por Grey e os embaixadores Imperiali, Paul Cambon e Alexander von Benckendorff em nome do Reino Unido, Itália, França e Rússia, respectivamente.[21]
Termos

O Artigo 1 do tratado determinava que um acordo militar seria fechado a fim de garantir tropas russas contra a Áustria-Hungria para impedir que esta concentre todas as suas forças contra a Itália. O Artigo 2 exigia que a Itália entrasse na guerra contra todos os inimigos de Reino Unido, França e Rússia, já o Artigo 3 obrigava a Marinha Real Britânica e Marinha Nacional Francesa a apoiar o esforço de guerra italiano ao destruir a Marinha Austro-Húngara.[22]
O Artigo 4 determinava que a Itália receberia Trentino e a parte sul da região de Tirol ao definir uma nova fronteira entre Itália e Áustria-Hungria na linha entre a montanha de Piz Umbrail e o vilarejo de Dobbiaco, com a fronteira oriental italiana indo desde Tarvisio ao norte até o litoral do Golfo de Quarnerolo, deixando Fiume de fora.[23][24]
O Artigo 5 dava a Dalmácia para a Itália, especificamente a parte norte em uma linha saindo do Cabo Planca no sentido nordeste, incluindo as cidades de Zara e Sebenico, bem como a foz do rio Cherca e seus afluentes no território italiano. A Itália também receberia todas as ilhas austro-húngaras no Adriático, exceto Brazza, Solta, Bua, Zirona Piccola, Zirona Grande, Veglia, Arbe, Pervicchio, San Gregorio, Calva, Liciniana e Calamotta. O artigo também especificava que o litoral restante entre Fiume e o rio Drin ficaria com a Croácia, Sérvia e Montenegro.[25]
Além disso, o Artigo 5 exigia a desmilitarização do litoral entre o Cabo Planka e o rio Aoös, com exceção de uma faixa entre Sabbioncello e um ponto dez quilômetros de distância ao sudeste de Ragusa e dentro do território montenegrino onde bases militares seriam permitidas por meio de arranjos pré-guerra.[25] A intenção dessa desmilitarização era garantir o domínio militar italiano na região.[26] O litoral entre o ponto dez quilômetros ao sudoeste de Ragusa e o rio Drin seria dividido entre Sérvia e Montenegro.[27] No geral, os Artigos 4 e 5 dariam para a Itália uma população de aproximadamente duzentos mil falantes de alemão, bem como seiscentos mil eslavos do sul.[28]
Os Artigos 6 e 7 dava para a Itália a soberania total de Valona, da ilha de Saseno e os territórios ao redor necessários para sua defesa, exigindo que uma faixa de terra fosse deixada ao oeste do Lago de Ocrida para uma fronteira entre Sérvia e Grécia. A Itália passaria a representar a Albânia em relações internacionais, mas teria que aceitar sua divisão territorial para Sérvia, Montenegro e Grécia caso Reino Unido, França e Rússia assim decidissem. O Artigo 8 dava para a Itália a soberania total das ilhas do Dodecaneso.[29]
Provisões para ganhos territoriais além da Europa foram escritas de maneira bem mais vaga do que as outras provisões do tratado.[28] O Artigo 9 prometia para a Itália território na área de Antália em uma possível partição do Império Otomano, enquanto o Artigo 10 lhe concedia direitos pertencentes ao sultão otomano na Líbia sob o Tratado de Lausanne. O Artigo 13 prometia à Itália compensação caso os impérios coloniais britânico e francês conquistassem ganhos territoriais sobre o império colonial alemão na África. O Artigo 12 responsabilizava a Entente em apoiar o futuro controle das cidades de Meca e Medina na península Arábica por um estado muçulmano independente.[30]
Os Artigos 11 e 14 prometiam uma parte da qualquer indenização de guerra e um empréstimo para a Itália no valor de cinquenta milhões de libras. O Artigo 15 prometia o apoio da Entente na oposição italiana à inclusão do Vaticano em quaisquer questões de resolução pós-guerra, já o Artigo 16 dizia que o tratado deveria permanecer em segredo.[31]
Consequências
Resposta

Apesar do tratado supostamente ser secreto, o Comitê Iugoslavo e seus apoiadores descobriram as linhas gerais das provisões em Londres no final de abril.[32] A Sérvia e o comitê protestaram em termos fortes nas capitais da Entente.[2] Pašić criticou a desconsideração ao princípio da autodeterminação e a falta de conversas com a Sérvia. Ele exigiu que a Entente não fechasse tratados com a Áustria-Hungria ou Romênia sobre fronteiras do interesse da Croácia sem conferir com a Sérvia primeiro, também pedindo garantias de uma futura união política de sérvios, croatas e eslovenos. Pašić telegrafou sua proposta para Grey por meio do embaixador britânico Charles Louis des Graz, mas Grey negou os dois pedidos. Ante Trumbić, o presidente do Comitê Iugoslavo, se encontrou com lorde Robert Crewe-Milnes, 1.º Marquês de Crewe e membro do gabinete britânico, e exigiu apoio para a unificação da Croácia, Ístria e Dalmácia e então uma união política com a Sérvia.[33] Notícias sobre o tratado também fizeram o Comitê Iugoslavo adotar uma opinião menos crítica das exigências sérvias sobre o método de unificação dos eslavos do sul, pois tinha ficado claro que a unidade dos croatas e unidade dos eslovenos dependeriam do sucesso da Sérvia.[34] O texto completo do tratado foi publicado apenas em 1917 pelos bolcheviques durante a Revolução de Outubro.[32] Neste mesmo ano, Pašić e Trumbić negociaram e concordaram com a Declaração de Corfu, que estabelecia um plano para a unificação pós-guerra dos eslavos do sul com o objetivo de fazer frente às reivindicações territoriais italianas delineadas pelo Tratado de Londres.[35]
A política de Grey e o tratado foram criticados pela imprensa britânica, com o arqueólogo Arthur Evans publicando um artigo em abril de 1915 em que descrevia o tratado como a manifestação das ambições chauvinistas italianas na Dalmácia causando uma crise. Os historiadores Robert Seton-Watson e Wickham Steed descreveram as reivindicações italianas como absurdas e as políticas de Grey como injustas. Grey respondeu que a Sérvia receberia territórios da Áustria-Hungria em caso de vitória na guerra.[33]
Decorrer da guerra
Uma disputa interna ocorreu na Itália nas últimas semanas antes de sua entrada na guerra. O fervor nacional foi ampliado por discursos de Gabriele d'Annunzio, que defendia a guerra como uma medida de valor nacional e incitava violência contra neutros e o ex-presidente do conselho de ministros Giovanni Giolitti.[36]
O governo italiano decidiu em 22 de maio de 1915 lançar o Fronte Alpino ao declarar guerra apenas contra a Áustria-Hungria. Isto ignorou os requerimentos do Artigo 2 do tratado, que era declarar guerra contra todas as Potências Centrais. A França acusou a Itália de violar o tratado e a Rússia especulou a possível existência de um acordo de não agressão com a Alemanha.[37] A falta de preparação do Exército Real Italiano foi citada como o motivo pelo não cumprimento do tratado. Este fracasso em não declarar guerra contra todas as Potências Centrais fez com que a Itália ficasse isolada da Entente.[38] Os italianos declararam guerra contra o Império Otomano em 20 de agosto após pressões da Entente e disputas políticas internas.[39] A Itália só foi declarar guerra contra a Alemanha em 27 de agosto de 1916.[40] A Itália quase foi militarmente derrotada em 1917 na Batalha de Caporetto e forçada a recuar, mas conseguiu se recuperar e contra-atacar um ano depois na Batalha de Vittorio Veneto, porém ao custo de seiscentos mil mortos, agitação social e uma economia destruída.[28] De acordo com o Armistício de Villa Giusti, a Itália pode ocupar os territórios austro-húngaros prometidos pelo Tratado de Londres, parte dos quais também eram reivindicados pelo não reconhecido Estado dos Eslovenos, Croatas e Sérvios.[41] Tropas italianas começaram a entrar nessas áreas em 3 de novembro de 1918,[42] ocuparam Fiume no dia 17 e foram parados antes de Lubiana por uma defesa organizada pela cidade que incluía um batalhão de prisioneiros de guerra sérvios.[43]
A entrada italiana na guerra não fez a Bulgária se juntar à Entente, pois derrotas britânicas e francesas em Galípoli deixaram os búlgaros mais cautelosos.[13] Os alemães capturaram Caunas na Lituânia em junho de 1915 durante a Grande Retirada russa e isto convenceu a Bulgária que a Entente perderia a guerra. Pašić em agosto recebeu uma mensagem da Entente prometendo ganhos territoriais em troca de concessões na Macedônia do Vardar.[44] A mensagem prometia a Bósnia e Herzegovina, Sírmia, Bačka, o litoral do Adriático do Cabo Planka até o ponto a dez quilômetros ao sudeste de Ragusa, as ilhas do Adriático não designadas para a Itália e a Eslavônia caso fosse capturada pela Entente. Sonnino pediu para que a Croácia Central não fosse oferecida, algo que Pašić aceitou em troca de entregar à Bulgária parte da Macedônia do Vardar nas fronteiras concordadas em 1912 após a Primeira Guerra dos Bálcãs. Entretanto, Pašić também pediu mais ganhos territoriais na Croácia Central e Banato.[45] A intenção era que as terras eslovenas não prometidas a Itália ficariam com a Áustria-Hungria.[26] A Bulgária se juntou às Potências Centrais em 6 de outubro e atacou a Sérvia cinco dias depois.[44]
Saint-Jean-de-Maurienne
A partição do Império Otomano foi discutida pelas potências da Entente em duas conferências realizadas em Londres em janeiro e fevereiro de 1917, e uma outra sediada em Saint-Jean-de-Maurienne na França em abril. Era aparente que os interesses italianos estavam entrando em conflito com os interesses britânicos e franceses,[46] porém os representantes italianos mesmo assim insistiram no cumprimento das promessas do Tratado de Londres sobre a Antália. Para reforçar a proporcionalidade dos ganhos italianos em relação aos de seus aliados, os vilayets de Konya e Adana foram adicionadas à reivindicação. A maioria das exigências italianas foram aceitas no Acordo de Saint-Jean-de-Maurienne, fechado em 19 de abril. A França exigiu que a Rússia também confirmasse o acordo, porém isto ficou impossível depois do início da Revolução Russa.[47]
Conferência de Paris

As provisões do Tratado de Londres foram um grande ponto de disputa entre a Itália e o resto da Entente durante a Conferência de Paz de Paris. Os principais representantes italianos, Sonnino e o presidente do conselho de ministros Vittorio Orlando, exigiram a aplicação do tratado baseando-se no princípio de segurança, bem como a anexação de Fiume a partir do princípio da autodeterminação (porém ignorando o subúrbio predominantemente eslavo de Sussak).[48] Britânicos e franceses não apoiariam publicamente qualquer reivindicação além daquelas do tratado, enquanto em particular achavam que italianos mereciam pouco por causa de sua atitude reservada sobre a Alemanha nos estágios iniciais da guerra.[49]
Franceses e britânicos deixaram Woodrow Wilson, o presidente dos Estados Unidos, conter as ambições italianas no Adriático ao defender a autodeterminação da área de acordo com o nono item de seus Quatorze Pontos.[50] Wilson considerava o Tratado de Londres um símbolo da perfídia da diplomacia europeia.[51] Ele achava que o tratado era inválido por conta da doutrina jurídica da rebus sic stantibus diante das mudanças fundamentais nas circunstâncias causadas pela dissolução da Áustria-Hungria.[52] Os representantes britânicos e franceses permaneceram passivos sobre a questão,[53] já Wilson publicou um manifesto em 24 de abril de 1919 explicando seus princípios e apelando a um senso de justiça nos italianos. Orlando e Sonnino deixaram Paris em protesto e foram celebrados na Itália como campeões da honra nacional. Eles retornaram em 7 de maio, mas não tomaram iniciativa alguma, aguardando uma oferta conciliatória. Britânicos e franceses, na ausência da delegação italiana, decidiram anular o Acordo de Saint-Jean-de-Maurienne por falta de consentimento russo e não cumprir as reivindicações italianas na Anatólia e África.[50]
Orlando e Sannino tinham opiniões diferentes sobre as reivindicações no leste do Adriático. Orlando estava preparado para abrir mão da Dalmácia exceto por Zara e Sebenico, e insistir na anexação de Fiume. Sonnino achava o oposto. Isto levou à adoção do slogan "Pacto de Londres mais Fiume", assim como a exigência das promessas do Tratado de Londres e Fiume se tornando uma questão de honra nacional.[54] Os ganhos italianos no Adriático limitaram-se à Veneza Júlia, Ístria e várias ilhas. Fiume foi designada uma cidade independente depois de negociações entre Orlando e Trumbić. Ganhos territoriais italianos incluíram correções nas fronteiras do Tratado de Londres ao redor de Tarvisio para que a Itália tivesse uma conexão ferroviária direta com a Áustria.[55] O primeiro-ministro britânico David Lloyd George deu apoio apenas para designações de cidades livres para Zara e Sebenico, enquanto o primeiro-ministro francês Georges Clemenceau apoiava isso apenas para Zara.[55] A Itália renunciou suas reivindicações ao Dodecaneso, exceto Rodes, no secreto Acordo Venizelos-Tittoni em favor da Grécia, com os dois países concordaram em apoiar as reivindicações um do outro em uma partição da Albânia.[56]
Vitória mutilada
A incapacidade de Orlando e Sannino de conseguirem todo o território prometido produziu um sentimento de que a Itália estava perdendo a paz. Fervor patriótico foi substituído por ressentimento nacionalista e o governo foi considerado incapaz de defender os interesses nacionais. Francesco Saverio Nitti, o sucessor de Orlando, tirou as tropas italianas de Fiume e entregou a cidade para um comando militar interaliado. Isto fez d'Annunzio liderar uma força formada por veteranos e soldados rebeldes, com o apoio de tropas regulares na área da fronteira, naquilo que ficou conhecido como "Esforço de Fiume" para a captura bem sucedida da cidade. D'Annunzio declarou a Regência Italiana de Carnaro em Fiume, com seu sistema de governo influenciando o desenvolvimento do fascismo. Ela se tornou um modelo de ordem parlamentar alternativa que os fascistas procuravam.[57]
O Esforço de Fiume levou à queda do governo de Nitti por conta de pressão do Partido Socialista Italiano, d'Annunzio e Benito Mussolini.[57] Giolitti, o sucessor de Nitti, e "renunciantes democráticos" da herança cultura dálmata foram os próximos a serem criticados pelos nacionalistas. D'Annunzio formulou a acusação do slogan "Vitória nossa, não serás mutilada", referindo-se à promessa da Dalmácia feita no Tratado de Londres, o fracasso da anexação da "totalmente italiana" cidade de Fiume e a elusiva dominação do Adriático como tendo tirado todo o significado da participação italiana na Guerra. Sua posição deu origem ao mito da "vitória mutilada".[58]
Após o Motim de Bersaglieri,[56] no que foi chamado de Guerra de Vlora de 1920, forças albanesas expulsaram a guarnição italiana em Valona, porém a Itália ainda manteve a ilha de Saseno.[59] A Itália abandonou o Acordo Venizelos-Tittoni em 22 de julho e em vez disso reconheceu a independência albanesa nas suas fronteiras de 1913.[56] A Itália entrou em contato direto com o recém estabelecido Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos para definirem um meio termo de suas fronteiras no Adriático.[53] A fronteira foi estabelecida no Tratado de Rapallo, abrindo mão de uma pequena parte dos ganhos esperados no norte mas ganhando a Ístria, o enclave de Zara e várias ilhas.[60] Giolitti fez a Marinha Real Italiana expulsar d'Annunzio de Fiume e a cidade se tornou Estado Livre de Fiume de acordo com os termos do Tratado de Rapallo.[60] O tratado dava para a Itália o planalto de Monte Nevoso ao norte de Fiume e uma faixa de terra entre a cidade e a Ístria.[61] O Tratado de Rapallo adicionou 350 mil eslovenos e croatas à população italiana.[62]
Referências
- 1 2 Lowe 1969, p. 534.
- 1 2 Robbins 1971, p. 574.
- ↑ Robbins 1971, pp. 565–568.
- ↑ Lowe 1969, p. 535.
- ↑ Burgwyn 1997, p. 3.
- ↑ Knox 2007, pp. 174–175.
- ↑ Lowe 1969, pp. 535–536.
- ↑ Lowe 1969, pp. 537–538.
- ↑ Lowe 1969, p. 538.
- ↑ Lowe 1969, p. 539.
- ↑ Lowe 1969, pp. 539–540, 545.
- ↑ Robbins 1971, p. 570.
- 1 2 Robbins 1971, pp. 572–573.
- 1 2 3 Lowe 1969, p. 541.
- 1 2 3 Lowe 1969, p. 542.
- 1 2 Ramet 2006, p. 40.
- ↑ Pavlowitch 2003, p. 30.
- ↑ Lowe 1969, pp. 542–544.
- ↑ Lowe 1969, pp. 544–546.
- ↑ Lowe 1969, pp. 546–548.
- ↑ Tratado 1920, Preâmbulo.
- ↑ Tratado 1920, §§ 1–3.
- ↑ Tratado 1920, § 4.
- ↑ Moos 2017, pp. 27–39.
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Ligações externas
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