Saúde
Templo de fogo
Texto da Wikipédia (pt), licença CC BY-SA. O BETARUBI mostra o verbete inteiro nesta página — a leitura não continua fora do site.
Um templo de fogo (em persa médio: ātaxš-kadag ou kadag ī ātaxš; em persa: آتشکده ou آتشگاه; romaniz.: ātaškada ou ātašgāh; em gujarati: અગિયારી; romaniz.: agiyārī) é um local de culto dos zoroastristas.
Nome
A palavra em persa novo ātaškada, e seus correspondentes em persa médio ātaxš-kadag e kadag ī ātaxš, é traduzida literalmente como "casa do fogo". Esse conceito definia um edifício consagrado no qual um fogo sagrado (atar) permanecia permanentemente aceso. Esse termo é menos frequentemente atestado nos livros pálavis zoroastristas do que os sinônimos mān ī ātaxš e xānag ī ātaxš. O culto templário do fogo parece ter sido instituído apenas na parte final do Período Aquemênida (século IV a.C.), e não há alusão a ele no Avestá, nem é conhecida qualquer palavra em persa antigo para "templo de fogo". Os partas parecem ter chamado tal edifício de *ātarōšan, "lugar do fogo ardente" (o termo sobrevive como empréstimo no armênio atrušan), e há diversas referências literárias estrangeiras a templos em sua época. A natureza prosaica dos nomes em persa médio (kadag, mān e xānag são todos termos usados para uma casa comum) talvez reflita um desejo, por parte daqueles que promoveram o culto templário em Pérsis, de mantê-lo o mais próximo possível, em caráter, do antigo culto ao fogo doméstico da lareira, e de desencorajar elaborações. Após a conquista árabe, um nome diferente para "templo de fogo" passou ao uso geral entre os zoroastristas, a saber Dar-e Mehr (ou sua variante Darb-e Mehr[1]), e eventualmente ele substituiu inteiramente os termos mais antigos entre os zoroastristas iranianos. Os parses, ao se estabelecerem na Índia, adotaram também o termo guzerate agiary (agiyārī), uma tradução literal de ātaškada, que utilizam lado a lado com Dar-e Mehr. No século XX, os faslis, um grupo reformista entre os parses, reviveram o termo ātaškada como nome para seu novo templo de fogo em Bombaim. Esse termo também é hoje usado pelos zoroastristas de Teerã para seu principal templo de fogo. Como designação descritiva, ele é compreendido pelos persas muçulmanos, que ao longo dos séculos o aplicaram localmente a várias ruínas consideradas restos de templos.[2]
História e desenvolvimento


Os restos mais antigos identificados de um templo de fogo no Irã localizam-se no monte Caje, no Sistão, onde subsiste um altar pétreo dedicado ao fogo sagrado. Da construção original, atribuída de forma provisória aos períodos selêucida ou parto inicial, sobreviveram apenas traços da planta arquitetônica. O edifício foi posteriormente reconstruído durante o período parto e novamente ampliado e remodelado na era sassânida. Conhece-se um número relativamente elevado de ruínas de templos desse último período, sobretudo no sudoeste do Irã — em regiões como Pérsis, Carmânia e Iraque persa —, mas os vestígios mais grandiosos pertencem ao Adur Gusnaspe, no Azerbaijão. O elemento arquitetônico característico do templo sassânida era o santuário abobadado, chamado gombade, onde o fogo sagrado era instalado. Esse recinto tinha planta quadrada e quatro pilares angulares que sustentavam a cúpula mediante trompas arquitetônicas. Em muitos sítios, apenas o gombade sobreviveu, geralmente construído em alvenaria de pedra irregular intercalada com fiadas de pedra aparelhada; por isso, tais ruínas são conhecidas em Farse como čahār-ṭāq ("quatro arcos"). Evidências arqueológicas e literárias indicam que o gombade costumava ser circundado por um corredor ou deambulatório, utilizado tanto pelos sacerdotes encarregados do fogo quanto pelos fiéis. Um pequeno templo típico parece ter incluído o santuário do fogo acompanhado desse corredor, além de aposentos menores destinados ao armazenamento de lenha, incenso e utensílios rituais, e ainda um yazišn-gāh, ou "local de culto", onde os sacerdotes realizavam as cerimônias religiosas. Esses rituais jamais ocorriam dentro do gombade, espaço no qual nenhuma veneração era permitida além daquela dirigida diretamente ao fogo. Alguns sítios preservam ainda indícios de grandes salões destinados às assembleias comunitárias durante os gaambares e outras festividades religiosas. Brasas provenientes do fogo sagrado podiam ser levadas a esses salões para acender outro fogo destinado ao culto coletivo; contudo, não existe evidência literária, arqueológica ou tradicional de que o fogo principal, uma vez instalado em seu altar-pilar no gombade, fosse removido exceto em circunstâncias necessárias à sua preservação — como limpeza, reparos do santuário ou situações de perigo. Após ser "entronizado" (nišāst) mediante rituais solenes, o fogo devia permanecer ardendo "vitoriosamente" (pad wahrāmīh) para sempre, fixo em sua morada santificada, tal qual o fogo doméstico na lareira.[2]
No grande templo de Adur Gusnaspe, no Azerbaijão, arqueólogos encontraram, ao final de uma sucessão de salões colunados, os vestígios de um gombade que aparentemente substituíra um antigo santuário de teto plano, além da base de um monumental altar de fogo em pedra. Também vieram à luz restos de um complexo arquitetônico sofisticado, composto por pátios, salas abobadadas, corredores, pórticos e pequenas câmaras destinadas ao fogo. Os edifícios utilizavam pedra aparelhada e tijolo cozido, e preservam sinais de decoração luxuosa, incluindo revestimentos de finas placas de mármore e afrescos em estuque branco no interior do gombade, com figuras maiores que o tamanho natural. Embora os sassânidas proibissem imagens de culto propriamente ditas, toleravam representações em alto-relevo de seres divinos; provavelmente são essas imagens que Almaçudi menciona ao descrever as ruínas do grande templo de Istacre. Segundo seu relato, tratava-se de um edifício imponente, sustentado por colunas feitas de enormes blocos de pedra com capitéis esculpidos, cercado por um vasto espaço aberto delimitado por um muro decorado com refinadas esculturas figurativas. Nenhum vestígio desse templo, que já se encontrava arruinado no século IX, subsiste atualmente. O mesmo ocorreu com o templo de Carcui, cujo fogo sagrado parece ter sido extinto durante as invasões mongóis do século XIII. Pouco antes disso, Zacaria de Gasvim descreveu as elevadas cúpulas gêmeas do templo, cada uma rematada por um chifre recurvado para o interior, formando juntas a aparência dos chifres de um gigantesco touro.[3]
Durante o período islâmico, os templos do Irã foram em sua maioria demolidos ou convertidos em mesquitas, algumas das quais incorporaram quase inteiramente as antigas estruturas zoroastristas. Em poucos lugares ainda é possível reconhecer o gombade de um antigo templo no interior de edifícios muçulmanos. Um exemplo célebre podia ser visto até recentemente na mesquita da aldeia de Iasde-e Caste (Yazd-e Ḵāst), em Farse, enquanto outros sobrevivem na região de Iasde. Os zoroastristas, por sua vez, foram obrigados a preservar seus fogos sagrados em construções discretas de tijolo cru, indistinguíveis de habitações humildes. Como medida adicional de proteção, a câmara do fogo frequentemente era escondida entre os recessos das espessas paredes, assumindo formatos variados — por vezes retangulares, por vezes cobertos por abóbadas de berço. Em todos os casos, essa pequena câmara possuía teto duplo para preservar a pureza do fogo, e os orifícios de ventilação eram inclinados de modo a impedir a entrada de chuva ou objetos externos. O recinto do fogo era sempre pavimentado, muitas vezes com seixos, enquanto o restante do edifício frequentemente conservava simples chão de terra batida. Pelos relatos de viajantes, os templos parses de Guzerate — região submetida em grande parte ao domínio muçulmano desde o século XIV — eram igualmente modestos até que o domínio britânico proporcionou maior segurança à comunidade. O antigo templo de Navessari continua representando esse modelo arquitetônico simples, embora tenha sido bastante ampliado; ainda assim, nenhum fogo sagrado parse está instalado em edifício anterior ao final do século XVIII. A maioria dos templos parses remonta aos séculos XIX e início do XX, erguida numa combinação harmoniosa de estilos locais com elementos ocasionais do vitorianismo britânico. O fogo sagrado costuma ser instalado num santuário central quadrado, aberto em três lados por janelas através das quais os fiéis podem contemplá-lo. Apenas os sacerdotes responsáveis pelo fogo, em razão de sua pureza ritual adicional, podem ingressar nesse recinto. No Irã, os zoroastristas começaram a reconstruir seus templos em escala mais monumental no final do século XIX, quando a opressão muçulmana começou gradualmente a diminuir. Alguns desses edifícios, construídos em tijolo cozido e pedra, apresentavam dimensões impressionantes e aspecto elegante. Como arquitetos muçulmanos inevitavelmente participavam dessas obras, muitos desses templos seguiram o vocabulário geral da arquitetura iraniana. Outros, entretanto, foram reconstruídos segundo modelos parses. Tanto no Irã quanto na Índia, os templos modernos frequentemente incorporam elementos inspirados conscientemente nas ruínas aquemênidas de Persépolis, como a figura alada em disco, capitéis taurinos e, em um caso em Bombaim, esculturas monumentais de animais guardiões.[4]
Referências
- ↑ Boyce 1993, p. 669-670.
- 1 2 Boyce 1987, p. 9.
- ↑ Boyce 1987, p. 9-10.
- ↑ Boyce 1987, p. 10.
Bibliografia
- Boyce, Mary (1987). «ātaškada». Encyclopaedia Iranica. III. Londres e Nova Iorque: Routledge & Kegan Paul. pp. 9–10
- Boyce, Mary (1993). «Dar-e Mehr». Encyclopaedia Iranica. IV. Londres e Nova Iorque: Routledge & Kegan Paul. pp. 669–670
