Saúde
Primeira Crise de Marrocos
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| Crise de Tânger | |||
|---|---|---|---|
| Data | 31 de março de 1905 – 7 de abril de 1906 | ||
| Local | Tânger, Marrocos | ||
| Desfecho | Tratado de Algeciras | ||
| Beligerantes | |||
| Comandantes | |||
| Parte das Causas da Primeira Guerra Mundial | |||
A Primeira Crise de Marrocos ou Crise Marroquina de 1905-1906 ou Crise de Tânger foi uma crise internacional ocorrida entre março de 1905 e maio de 1906 pelo estatuto do Marrocos. A Alemanha tentou usar a questão da independência do Marrocos para aumentar os atritos entre a França e o Reino Unido, bem como para promover os interesses comerciais dos alemães no Marrocos. Conseguiram seu objetivo declarado de garantir a independência de Marrocos, mas falharam em atrair o apoio diplomático para as suas posições na conferência internacional resultante. A crise piorou as relações dos alemães com a França e o Reino Unido, e ajudou a garantir o sucesso da nova aliança anglo-francesa, a Entente Cordiale.[1] O episódio tem sido apontado como uma das causas da Primeira Guerra Mundial.
A Crise
Localizado no norte da África, em frente da Península Ibérica, o Marrocos era no final do século XIX um reino muçulmano autocrático, pobre e relativamente isolado. O país tinha uma grande importância estratégica para as potências europeias: situado ao sul do Estreito de Gibraltar (o norte do Estreito é dominado pela Espanha e pela Grã-Bretanha, que possui o pequeno enclave de Gibraltar), o Marrocos controla, potencialmente, a passagem do Oceano Atlântico para o Mar Mediterrâneo. Em 1880, as potências europeias participaram da Convenção de Madri, reconhecendo a independência marroquina e o livre-comércio no país.[2] Entretanto, no início do século XX, o sultão Abdulazize I tentou implantar reformas modernizadoras e ocidentalizantes que geraram muito descontentamento, particularmente entre os líderes muçulmanos. As revoltas tribais juntaram-se à resistência contra as reformas e, em 1902-1903, o Marrocos mergulhou na guerra civil. A França aproveitou-se da situação e buscou assumir o controle do país depois de fazer acordos com a Espanha, a Itália e, principalmente, com a Grã-Bretanha.[3] Em 1898, os franceses e britânicos estiveram a beira da guerra no que ficou conhecido como Incidente de Fachoda por causa da disputa pelo Egito e o Sudão, ocupados pela Grã-Bretanha. Em 1904, diante das oportunidades oferecidas pela fragilidade do Marrocos, França e Grã-Bretanha negociaram o histórico acordo da Entente Anglo-Francesa ou Entente Cordiale, que encerrou a antiga rivalidade colonial entre as duas potências; assim, a França reconheceu formalmente o domínio britânico sobre o Egito e o Sudão, e a Grã-Bretanha aceitou a preeminência francesa sobre o Marrocos.[3][4]
O Kaiser alemão Guilherme II via nos acordos feitos pela França com o Reino Unido ou com a Espanha discriminação, visto que a Alemanha estava a ser excluída de também poder entrar e sair de Marrocos quando quisesse.[4]
Aproveitando-se do enfraquecimento temporário da Rússia em razão da Revolução Russa de 1905 e de sua derrota na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), a Alemanha tentou enfraquecer a Entente Anglo-Francesa desafiando a penetração da França no Marrocos.[4]
Em março de 1905, Guilherme II visitou a cidade marroquina de Tanger e fez um pronunciamento defendendo a soberania do país.[3] O Kaiser foi ao Marrocos dizer ao sultão que este podia governar o seu país e foi igualmente dizer ao povo marroquino que este podia ser independente.[4] Estes comentários em favor da independência de Marrocos criaram mal-estar nas relações diplomáticas entre a França e também entre o Reino Unido com a Alemanha. Por sua vez, o chanceler alemão, Bernhard von Bülow, exigiu uma conferência internacional para discutir a questão marroquina, acreditando que as potências apoiariam a independência do Marrocos, o que deixaria os franceses isolados e humilhados. No entanto, os planos alemães falharam. Na Conferência de Algeciras (1906), a independência marroquina foi confirmada, mas a França obteve o controle da polícia e do banco estatal do Marrocos, com apoio da Grã-Bretanha. A crise fortaleceu a aliança anglo-francesa e deixou a Alemanha, e não a França, humilhada e isolada.[4]
Resposta francesa
A Alemanha buscou uma conferência multilateral onde os franceses pudessem ser chamados à responsabilidade perante outras potências europeias. O ministro dos negócios estrangeiros francês, Théophile Delcassé, adotou uma postura desafiadora, sustentando que não havia necessidade de tal conferência. Em resposta, o conde Bernhard von Bülow, o chanceler alemão, ameaçou com guerra sobre o assunto, embora isso fosse um blefe.[5][6] O Kaiser Guilherme não queria a guerra, afirmando em Bremen pouco antes de partir: "O meu estudo da história não me encorajou a lutar pelo domínio mundial. No império com que sonho, o imperador alemão terá a confiança de outros países e deve ser visto como um vizinho honesto e pacífico".[7] A crise atingiu o seu pico em meados de junho. Os franceses cancelaram todas as licenças militares (15 de junho) e a Alemanha ameaçou assinar uma aliança defensiva com o sultão (22 de junho). O primeiro-ministro francês Maurice Rouvier recusou-se a arriscar uma guerra com a Alemanha por causa do assunto. Delcassé renunciou, pois o governo francês não apoiaria mais a sua política. Em 1 de julho, a França concordou em comparecer à conferência.
A crise continuou até a véspera da conferência em Algeciras, com a Alemanha convocando unidades de reserva (30 de dezembro) e a França movendo tropas para a fronteira alemã (3 de janeiro).
Conferência de Algeciras
A Conferência de Algeciras, que durou de 16 de janeiro a 7 de abril de 1906, foi convocada para resolver a disputa. Das 13 nações presentes, os representantes alemães descobriram que o seu único apoiador era a Áustria-Hungria. Uma tentativa alemã de compromisso foi rejeitada por todos, exceto pela Áustria-Hungria.[8] A França teve apoio firme da Grã-Bretanha, Rússia, Itália, Espanha e Estados Unidos. Os alemães decidiram aceitar um acordo de compromisso para salvar as aparências, o qual foi assinado em 31 de março de 1906.
Consequência
Embora a Conferência de Algeciras tenha resolvido temporariamente a Primeira Crise Marroquina, ela apenas piorou as tensões entre a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente que levaram à Primeira Guerra Mundial.[9]
A Primeira Crise Marroquina também mostrou que a Entente Cordiale era forte, já que a Grã-Bretanha havia defendido a França na crise. A crise pode ser vista como uma razão para a Entente Anglo-Russa e o Pacto Anglo-Franco-Espanhol de Cartagena serem assinados no ano seguinte. O Kaiser Guilherme II estava furioso por ter sido humilhado e estava determinado a não recuar novamente, o que levou ao envolvimento alemão na Segunda Crise Marroquina.[9]
Ver também
Referências
- ↑ Grey of Fallodon, Twenty-Five Years, vol. 1 pp49-52
- ↑ «1911: Alemanha reconhece o domínio francês no Marrocos». Deutsche Welle
- 1 2 3 «Moroccan crises». Encyclopædia Britannica. Arquivado do original em 29 de outubro de 2013
- 1 2 3 4 5 «Mar 31, 1905: The First Moroccan Crisis». History.com
- ↑ Viscount Grey of Fallodon (1925). Twenty-Five Years, Vol. 1. Nova York: Frederick A. Stokes. pp. 49–52
- ↑ Massie, Robert K. (1992). Dreadnought: Britain, Germany, and the coming of the Great War. Londres: Cape. ISBN 0-224-03260-7
- ↑ Ereignisse und Gestalten. [S.l.: s.n.] pp. 270–271
- ↑ Kerr, Anne; Wright, Edmund (2015). A Dictionary of World History 3.ª ed. [S.l.]: Oxford University Press. 17 páginas. ISBN 9780199685691
- 1 2 Soroka, Marina (2011). Britain, Russia, and the Road to the First World War: The Fateful Embassy of Count Aleksandr Benckendorff (1903-16) (em inglês). [S.l.]: Ashgate Publishing, Ltd.
