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O Moço Loiro
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| O Moço Loiro | ||||
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Capa da 1ª edição | ||||
| Autor(es) | Joaquim Manuel de Macedo | |||
| Idioma | Português | |||
| Gênero | Romance urbano | |||
| Editora | Rio de Janeiro (2ª ed., 1854, em 2 volumes) | |||
| Cronologia | ||||
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O Moço Loiro é um romance de Joaquim Manuel de Macedo, publicado originalmente em 1845, em dois volumes, com uma segunda edição já em 1854.[1] Inserido na corrente do Romantismo brasileiro, o romance retrata a sociedade burguesa da cidade do Rio de Janeiro e de Niterói em meados do século XIX, e é apontado por Ferdinand Wolf, já em 1863, como o mais célebre dos romances de Macedo depois de A Moreninha.[1]
Diferentemente da estrutura relativamente simples de A Moreninha, em que uma única história de amor se desenrola linearmente, O Moço Loiro recorre amplamente aos maneirismos ideológicos do Romantismo: o mistério preside toda a ação, que avança "à sombra" e mantém a expectativa do leitor até o final, ao longo de mais de quatrocentas páginas em que duas intrigas (uma amorosa, outra detetivesca) se entrelaçam. Essa complexidade estrutural é considerada única na obra de Macedo, não se repetido em nenhum outro de seus romances da década de 1840.[1]
Enredo
A ação do romance é desencadeada quando um homem misterioso, conhecido apenas como "o Desconhecido", passa a cortejar Honorina, filha do comerciante Hugo de Mendonça, deixando-lhe bilhetes de amor assinados apenas com uma frase que se repete: a promessa de "um amor de poeta... um amor de fogo". Vai aparecendo sob diferentes disfarces: como cabeleireiro, como bateleiro, como bardo e como velho pescador que a salva de morrer afogada. Paralelamente, um jovem de cabelos loiros, encontrado por Honorina num sarau, conta-lhe a história de um sonho de amor não correspondido, episódio que dá ao romance o seu título.
Entrelaçada a essa intriga amorosa, corre uma segunda trama, de caráter detetivesco: anos antes, uma cruz de brilhantes, herança sagrada da família Mendonça, desaparecera, e todas as suspeitas recaíram sobre Lauro de Mendonça, primo de Honorina, que partiu amaldiçoado pela própria família. Ao longo do romance, revela-se que o verdadeiro autor do furto foi Otávio, pretendente rejeitado de Honorina, que usa a joia para chantagear Félix, guarda-livros da casa comercial de Hugo, obrigando-o a fraudar notas promissórias contra a firma. Um segundo "Desconhecido", mais velho e ameaçador, passa então a investigar o crime, confrontando Félix e Otávio até obrigá-los a devolver a cruz e confessar a fraude, restaurando o nome de Lauro.
No desfecho, quando a família de Hugo se prepara para receber o "novo administrador" da casa comercial, o homem que entra na sala é reconhecido, simultaneamente, como o "Moço Loiro" por Honorina e Raquel, e como "Lauro" por Hugo e sua avó Ema: as três máscaras, o Desconhecido da trama amorosa, o Desconhecido da trama detetivesca e o Moço Loiro, revelam-se uma única pessoa, Lauro de Mendonça, que se casa por fim com Honorina.
Análise
Olivo Pedron demonstra, com apoio na teoria estruturalista de Tzvetan Todorov e A. J. Greimas, que o romance repousa sobre dois processos simultâneos: a duplicidade de intrigas (uma amorosa, outra detetivesca) e o que o autor chama de "sincretismo de personagens", o fato de um único ator (Lauro) desdobrar-se, ao longo da narrativa, em três "subatores" distintos: o Desconhecido da intriga amorosa, o Desconhecido da intriga detetivesca e o próprio Moço Loiro. Segundo Pedron, esses dois processos, comprovados por meio de sucessivas cenas em que o texto insinua e depois confirma cada identidade, ocorrem conjugados apenas neste romance de Macedo, distinguindo-o inclusive de A Moreninha (1844), cuja estrutura narrativa é comparativamente mais contida.[1]
A dissertação também reúne um panorama da fortuna crítica do romance ao longo de mais de um século. Já em 1863, o crítico austríaco Ferdinand Wolf, em sua história da literatura brasileira, destacava o "poderoso interesse" despertado pela intriga complicada conduzida por um desconhecido sob diversos disfarces, além do valor artístico conferido à obra por dois caracteres femininos "habilmente desenhados e bem desenvolvidos".[2] Já José Veríssimo foi um dos críticos mais severos, afirmando que Macedo não se distinguia "nem pelo vigor do pensamento, nem por qualidades de expressão literária", apontando defeitos recorrentes de língua e estilo em toda a sua obra romanesca.[3]
Antonio Candido, por sua vez, reconhece no romance de Macedo antes um valor sociológico do que propriamente estético, concluindo que o autor teve "pouco das três acuidades fundamentais do bom romancista: a sociológica, a psicológica, a estética; em todo o caso, mais a primeira que as outras duas".[4] Mais favorável, M. Cavalcanti Proença destacou que O Moço Loiro reúne todas as características do romance que agradava ao público de sua época: um enredo entrecortado de expectativas, situações dramáticas de tradição popular, figuras psicologicamente coerentes, e um cuidado especial com os costumes fluminenses e a linguagem tipicamente brasileira.[5]
Machado de Assis, contemporâneo de Macedo e crítico de sua obra, situava-se numa posição intermediária: reconhecia o talento e a reputação do romancista, ainda que sem poupar críticas a obras específicas consideradas mais fracas.[6] Pedron conclui, a partir desse panorama, que a bibliografia crítica sobre Macedo é escassa e pouco orgânica para um autor que foi, ao mesmo tempo, um dos pioneiros do romance brasileiro e um dos escritores mais lidos de sua geração, tendo alcançado, ainda em vida, cinco edições de O Moço Loiro, número superado apenas pelas seis edições de A Moreninha.[1]
Referências
- 1 2 3 4 5 Pedron, Olivo (1978). O Moço Loiro: narrativa e personagens (PDF) (Dissertação (Mestrado em Letras)). Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina. Consultado em 27 de julho de 2020
- ↑ WOLF, Ferdinand. Le Brésil littéraire: histoire de la littérature brésilienne. Berlim: Ascher, 1863. p. 236-238 apud PEDRON, Olivo. O Moço Loiro: narrativa e personagens. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1978. p. 10-11.
- ↑ VERÍSSIMO, José. História da literatura brasileira. 4. ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1963. p. 172-208 apud PEDRON, Olivo. O Moço Loiro: narrativa e personagens. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1978. p. 18-19.
- ↑ CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 2. vol. 3. ed. São Paulo: Martins, 1971. p. 137-143 apud PEDRON, Olivo. O Moço Loiro: narrativa e personagens. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1978. p. 18-19.
- ↑ PROENÇA, M. Cavalcanti. Estudos literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 16 apud PEDRON, Olivo. O Moço Loiro: narrativa e personagens. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1978. p. 18-19.
- ↑ ASSIS, Machado de. Obra completa. v. 3. Rio de Janeiro: Aguilar, 1962. p. 798-847 apud PEDRON, Olivo. O Moço Loiro: narrativa e personagens. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1978. p. 10-11.
