Saúde
O Almada
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O Almada é um poema herói-cômico da juventude de Machado de Assis, em oito cantos, sobre um episódio histórico do tempo colonial já abordado por José de Alencar em O Garatuja.
Embora parte do Canto III tivesse sido publicado anteriormente na Revista Brasileira de 15 de outubro de 1879 com o título "A assuada", algumas estrofes do canto V em A Estação de 15 de agosto de 1885, e algumas estrofes dos cantos I e III tivessem sido incluídas, sob o título "Velho Fragmento", no livro de poesias Ocidentais, o poema foi publicado pela primeira vez quase na íntegra (quase porque algumas folhas do manuscrito se perderam) na coletânea póstuma Outras Relíquias organizada por Mário de Alencar.[1]
Enredo
O poema toma como ponto de partida um episódio histórico ocorrido no Rio de Janeiro em 1659. À época, era prelado administrador da cidade o padre Manuel de Sousa Almada. Um tabelião, Sebastião Ferreira Freire, é vítima de uma assuada certa noite, quando regressava para casa. Ao levar a queixa ao ouvidor-geral Pedro de Mustre Portugal, este abre um inquérito e descobre que os responsáveis pela agressão são criados do prelado. Assim que toma conhecimento da devassa, Almada exige que o ouvidor lhe entregue o processo em três dias, sob ameaça de excomunhão; diante da recusa de Mustre Portugal, este é de fato excomungado no momento em que embarcava para a capitania do Espírito Santo. O ouvidor suspende a viagem e leva um protesto à Câmara em nome do rei; os vereadores, por sua vez, comunicam o caso ao governador da cidade, Tomé de Alvarenga, que convoca teólogos, o reitor do Colégio, o abade, o prior dos Carmelitas e o guardião dos Franciscanos, os quais decidem, por unanimidade, suspender a excomunhão e remeter todo o processo ao rei em Portugal.[2]
Composição
O poema foi escrito no início da década de 1870, período em que Machado de Assis ainda estava na fase "romântica" de sua obra.[3] Na "Advertência" que antecede o poema, Machado de Assis situa expressamente sua obra dentro da tradição do poema heroico-cômico, apontando como modelos Le Lutrin (1674–1683), de Nicolas Boileau, e O Hissope (1802), de António Dinis da Cruz e Silva.[2] Como nesses dois poemas, O Almada segue a estrutura tripartite da epopeia clássica: proposição, invocação e narração. Além disso, introduz personificações alegóricas de vícios (a Ira e a Gula) que intervêm no destino das personagens humanas, no lugar das divindades da epopeia tradicional.[2] Porém, diferentemente de seus modelos, onde a disputa se dá entre membros do próprio clero, o conflito machadiano opõe um representante da Igreja a uma autoridade civil, o ouvidor-geral.[2]
O pesquisador Pedro G. Serra observa que, ao contrário de Le Lutrin e O Hissope, Machado de Assis esvazia deliberadamente o gênero de sua carga satírica imediata ao ambientar a disputa dois séculos antes de sua escrita, tratando o episódio como matéria "rigorosamente histórica" e reivindicando para o poema uma intenção "exclusivamente literária", e não de sátira de ocasião.[4]
Recepção crítica
"O Almada" não é, em geral, um dos poemas mais comentados de Machado, e sua avaliação entre estudiosos costuma ser bastante distinta da de sua prosa. O crítico e poeta Manuel Bandeira, na introdução às Poesias Completas de Machado de Assis, descreveu-o como um exercício literário "frio".[4] Pedro G. Serra acredita que essa avaliação simplifica o poema ao reduzi-lo a mera imitação, já que O Almada reelabora o gênero heroico-cômico de modo próprio, esvaziando-o de sua função satirizante original para operar antes como um exercício de "teoria" do gênero do que como sátira de costumes contemporâneos.[4]
Já o crítico e ensaísta Astrojildo Pereira propôs uma leitura de viés político e social, associando o texto ao despertar de uma consciência nacional brasileira ainda incipiente. O poema também contradiz a ideia de um Machado de Assis alheio à "paisagem" e à realidade histórica do país, na medida em que reconstitui com cuidado documental um episódio do Rio de Janeiro colonial.[5]
A estudiosa Adna Candido de Paula propôs uma leitura hermenêutica do poema à luz do conceito de "mimese tripartida" do filósofo Paul Ricoeur, relacionando a base histórica documental do poema (o conflito real ocorrido no Rio de Janeiro em 1659), o trabalho de ficcionalização anunciado na "Advertência" e a possibilidade de recontextualização do texto por leitores posteriores.[2] Para a autora, o cuidado de Machado de Assis em ancorar o poema num fato histórico verificável e em descrever com precisão traços sociais e econômicos da colônia, como a presença da escravidão, desmente a visão de que sua poesia estivesse alheia às questões sociais de seu tempo, ainda que o poema esteja longe de constituir poesia de crítica social explícita.[2]
Referências
- ↑ Ver Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, verbete "Almada (O)" e Mário de Alencar, "Advertência" do livro Outras Relíquias.
- 1 2 3 4 5 6 Paula, Adna Candido de (2008). «Mimesis tripartida, uma leitura hermenêutica de "O Almada" de Machado de Assis». Revista da Anpoll. 24 (1): 109–124
- ↑ Serra, Pedro G. (2013). «Machado de Assis e o risum movet do poema herói-cómico. Algumas cláusulas a propósito d'O Almada» (PDF). Diálogos Latinoamericanos (20): 182–200
- 1 2 3 Serra, Pedro G. (2013). «Machado de Assis e o risum movet do poema herói-cómico. Algumas cláusulas a propósito d'O Almada» (PDF). Diálogos Latinoamericanos (20): 182–200
- ↑ «Quem foi Astrojildo Pereira, crítico que viu marxismo em Machado de Assis». Fundação Astrojildo Pereira. Consultado em 13 de julho de 2026

