Saúde
Nair de Teffé
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Nair de Teffé | |
|---|---|
Nair de Teffé, em data desconhecida | |
| 9.ª Primeira-dama do Brasil | |
| Período | 8 de dezembro de 1913 a 15 de novembro de 1914 |
| Presidente | Hermes da Fonseca |
| Antecessor(a) | Orsina da Fonseca |
| Sucessor(a) | Maria Pereira Gomes |
| Dados pessoais | |
| Nome completo | Nair de Teffé von Hoonholtz |
| Nascimento | 10 de junho de 1886 Petrópolis, Rio de Janeiro, Império do Brasil |
| Morte | 10 de junho de 1981 (95 anos) Niterói, Rio de Janeiro, Brasil[1] |
| Nacionalidade | brasileira |
| Cônjuge | Hermes da Fonseca (c. 1913; v. 1923) |
| Ocupação | caricaturista, pintora, atriz, pianista e escritora |
Nair de Teffé von Hoonholtz (Petrópolis,[nota 1] 10 de junho de 1886 – Niterói, 10 de junho de 1981), conhecida profissionalmente pelo pseudônimo Rian e, depois do casamento, também como Nair de Teffé Hermes da Fonseca, foi uma caricaturista, pintora, atriz, pianista, escritora e promotora cultural brasileira. É reconhecida como a primeira mulher a publicar regularmente caricaturas na imprensa brasileira, atividade que exerceu em um meio profissional até então predominantemente masculino.[2][3][4]
Filha do almirante Antônio Luís von Hoonholtz, barão de Teffé, Nair passou parte da infância e da juventude na Europa, onde recebeu formação artística. De volta ao Brasil, adotou o pseudônimo Rian, formado pela inversão das letras de seu primeiro nome, e publicou em 1909, na revista Fon-Fon, a caricatura da atriz francesa Réjane. Posteriormente, colaborou com periódicos brasileiros e franceses, retratando artistas, integrantes das elites sociais, diplomatas e personalidades políticas.[5][6]
Em 8 de dezembro de 1913, casou-se com o então presidente Hermes da Fonseca e tornou-se primeira-dama do Brasil durante o último ano do mandato presidencial. No Palácio do Catete, promoveu reuniões artísticas e musicais que procuravam aproximar formas de cultura popular dos espaços oficiais. A mais conhecida ocorreu em 26 de outubro de 1914, quando executou ao violão o tango brasileiro Gaúcho, popularmente chamado de Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. A apresentação provocou a reação de setores conservadores e um discurso de condenação de Rui Barbosa no Senado.[7][8]
Depois da Presidência, participou das disputas políticas que antecederam a eleição de 1922 e acompanhou Hermes da Fonseca durante a crise que culminou em sua prisão. Viúva desde 1923, desenvolveu atividades teatrais e beneficentes, dirigiu uma associação literária em Petrópolis, manifestou-se favoravelmente à participação das mulheres na política e idealizou o Cinema Rian, inaugurado em Copacabana em 1942. Nas décadas de 1950 e 1960, voltou a produzir caricaturas e colaborou para a preservação de sua obra em instituições como o Museu Histórico Nacional.[1][6]
Primeiros anos e formação
Família
Nair era filha de Antônio Luís von Hoonholtz e Maria Luísa Dodsworth von Hoonholtz, barões de Teffé. Seu pai foi almirante da Marinha do Brasil, herói da Guerra do Paraguai, senador da República, esteve ligado à organização da Repartição Hidrográfica da Marinha e representou o Brasil em missões diplomáticas na Europa. Nair tinha três irmãos, Álvaro, Oscar e Otávio, e cresceu em uma família integrada aos círculos militares, diplomáticos e intelectuais dos últimos anos do Império e do começo da República.[2][3]
Pelo lado paterno, era neta do aristocrata prussiano Frederico Guilherme von Hoonholtz, engenheiro, mineralogista e militar que serviu no Brasil, tornando-se posteriormente um empresário de sucesso neste país. Pelo lado materno, pertencia à família Dodsworth e era sobrinha do 2.º barão de Javary e prima-irmã da condessa de Frontin, D. Maria Leocádia Dodsworth de Frontin, esposa do engenheiro Paulo de Frontin, conde de Frontin. Essas relações familiares contribuíram para sua circulação por ambientes diplomáticos e culturais, mas também fizeram com que suas escolhas profissionais fossem observadas à luz das expectativas sociais dirigidas às mulheres das elites do período.[2][4][9]
Educação na Europa
Ainda criança, acompanhou a família nas viagens decorrentes da carreira diplomática do pai. Em 1887, os Teffé estabeleceram-se em Paris. Após uma passagem pelo Brasil, transferiram-se para Roma e, em 1894, Nair foi matriculada no convento da Assunção, em Nice. Frequentou posteriormente o Cours Vivaudy e recebeu uma educação que abrangia idiomas, literatura, música e desenho.[2]
Em Paris, estudou pintura com Madame Lavrut e frequentou cursos de desenho, incluindo aulas de modelo vivo associadas à Academia Julian. A formação europeia colocou-a em contato com a tradição francesa da caricatura, com revistas ilustradas e com um ambiente artístico em que o desenho humorístico constituía uma forma de comentário sobre a sociedade e a política. Retornou ao Brasil no final de 1905, estabelecendo-se com a família em Petrópolis.[2][1]
Carreira artística
Surgimento de Rian
Ao voltar ao Brasil, Nair começou a desenhar pessoas de seu círculo social. O pseudônimo Rian era um anagrama de Nair e também permitia uma associação humorística com a palavra francesa rien, que significa “nada”. O nome artístico ajudava a separar a caricaturista da identidade familiar e aristocrática sob a qual era conhecida socialmente.[2][4]
A amiga e mecenas Laurinda Santos Lobo esteve entre as pessoas que a incentivaram a apresentar publicamente os desenhos. Antes de conquistar espaço permanente nos periódicos, Nair expôs caricaturas em vitrines de estabelecimentos comerciais da região central do Rio de Janeiro, entre os quais a Casa David e a Chapelaria Watson, na Rua do Ouvidor. As exibições permitiam que os trabalhos fossem observados por um público mais amplo numa época em que galerias e salões profissionais permaneciam pouco acessíveis às mulheres.[2][6]
A primeira caricatura conhecida publicada por Rian foi um retrato da atriz francesa Réjane, divulgado na edição de 31 de julho de 1909 da revista Fon-Fon. A publicação é considerada um marco na história da imprensa ilustrada brasileira por representar a entrada regular de uma mulher em uma atividade até então exercida quase exclusivamente por homens.[5][3]
Para João do Rio, Rian é um pequeno demônio que ri:[10]
é a encantadora menina impertinente dos salões e dos teatros, tão querida e tão estimada. Há, porém, ao lado dessa criança de olhos azuis e o ar de uma petite fille de Lawrence, de uma pequena primavera à maneira dos pintores inglêses do comêço do século passado, um pequeno demônio que ri, um pequeno demônio leve como Ariel, que entre rosas fixa uma sociedade até então incólume, êsse demônio não é a encantadora criança de olhos azuis, é o terrível Rian.
— João do Rio
Imprensa ilustrada
Depois da estreia, Rian colaborou com revistas e jornais como O Binóculo, Careta, O Malho, Ken, Fon-Fon, Revista da Semana, Gazeta de Notícias e Gazeta de Petrópolis. Seus trabalhos também circularam na França, em publicações como Le Rire, Excelsior, Fémina e Fantasio, fato incomum para uma artista brasileira no início do século XX.[2]
Em agosto de 1910, a Fon-Fon apresentou a seção “Galeria das Elegâncias”, dedicada a caricaturas de mulheres da sociedade carioca produzidas por Rian. As imagens eram acompanhadas por legendas elaboradas pelos editores, frequentemente elogiosas, que procuravam atenuar o componente crítico e a deformação próprios do gênero. A solução editorial revelava o desconforto que a caricatura podia causar entre mulheres acostumadas às convenções idealizadas do retrato social.[4]
Seu repertório não se limitava a figuras femininas. Rian retratou escritores, atores, músicos, diplomatas e políticos. A simplificação das formas, o destaque dado a elementos físicos característicos e o uso do lápis de cor ou do pastel permitiam reconhecer rapidamente a personalidade representada. Embora muitas obras tivessem caráter social, outras aproximavam-se da caricatura política e transformavam o desenho em forma de intervenção nos debates públicos.[11][12]
A presença de uma mulher caricaturando integrantes das elites produzia uma inversão das relações tradicionais entre observador e observado. Em vez de aparecer apenas como objeto de representação, Rian assumia o papel de autora e intérprete visual da sociedade. Estudos posteriores situaram esse aspecto de sua obra entre as primeiras formas de inserção feminina no humor gráfico e na charge política do Brasil.[4][11]
Teatro, música e atividades beneficentes
Além do desenho, Nair estudou piano, cantava e tocava violão. Em 1912, interpretou a personagem principal de Miss Love, peça escrita especialmente para ela por Coelho Neto. O êxito das apresentações levou o ator e empresário Leopoldo Fróes a convidá-la para participar de sua companhia, na qual fez uma aparição em Longe dos Olhos.[2][1]
Nair organizou ainda a Troupe Rian, companhia amadora integrada por mulheres e homens da sociedade de Petrópolis. O grupo representava textos de autores brasileiros e destinava a renda dos espetáculos a obras sociais, particularmente às atividades da Catedral de São Pedro de Alcântara. A experiência teatral unia suas relações sociais à filantropia e permitia que mulheres ocupassem o palco em iniciativas públicas legitimadas pelo caráter beneficente.[2][3]
Antes do casamento, participou de festas em benefício de famílias atingidas pelo naufrágio do navio Guarany. Já como primeira-dama, esteve associada a reuniões da Assistência de Proteção à Infância e a outras iniciativas de caráter assistencial. Sua atuação filantrópica seguia práticas esperadas das mulheres das elites, mas era combinada com atividades artísticas e aparições públicas menos convencionais para o período.[3]
Casamento com Hermes da Fonseca

Nair conheceu Hermes da Fonseca nos círculos políticos e sociais frequentados por sua família. Em 1912, o presidente compareceu a uma exposição de caricaturas organizada nos salões do Jornal do Commercio, ocasião posteriormente lembrada por Nair como importante para a aproximação entre os dois. Hermes era viúvo de Orsina da Fonseca, falecida naquele mesmo ano, e tinha mais de trinta anos de diferença de idade em relação a Nair.[3]
O noivado transformou-se em assunto constante na imprensa, que discutia tanto a diferença de idade quanto as consequências políticas do casamento de um presidente em exercício. A oposição inicial do barão de Teffé foi superada pela insistência da filha e pelas negociações entre as famílias. O enlace civil e religioso ocorreu em 8 de dezembro de 1913, no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, que foi adaptado para receber a cerimônia e os convidados oficiais.[7][13][14]
Com o casamento, adotou também o nome Nair de Teffé Hermes da Fonseca. Sua vida artística não foi formalmente encerrada, mas a posição de esposa do presidente submeteu suas atividades a uma exposição política muito maior. Fotografias, festas, roupas e manifestações culturais passaram a ser interpretadas por apoiadores e opositores como extensões da imagem do governo.[4][3]
Primeira-dama do Brasil
Vida no Palácio do Catete
Nair foi primeira-dama entre 8 de dezembro de 1913 e 15 de novembro de 1914. Durante esse período, residiu por alguns meses no Palácio do Catete, então sede da Presidência. A exemplo do que já fazia antes do casamento, promoveu recitais, saraus e encontros que reuniam diplomatas, políticos, escritores e músicos.[7]
No início de 1914, organizou uma apresentação de modinhas interpretadas por Catulo da Paixão Cearense. Entre os convidados estiveram representantes do governo e do corpo diplomático, enquanto a pianista Guiomar Novaes também participou das atividades musicais promovidas naquele ambiente. A presença de repertórios brasileiros e do violão nos salões oficiais contrariava a preferência dominante por óperas, valsas e composições europeias.[3]
Embora o violão estivesse associado à cultura urbana popular e fosse visto com desconfiança por parte das elites, Nair procurava apresentá-lo como instrumento capaz de integrar recitais formais. Essa prática inseria-se em um processo mais amplo de valorização de gêneros musicais nacionais, mas também revelava as disputas sociais em torno do que poderia ser reconhecido como cultura legítima.[15][8]
A apresentação de Corta-Jaca
Em 26 de outubro de 1914, nas semanas finais do governo Hermes da Fonseca, o Palácio do Catete recebeu uma reunião de despedida oferecida ao corpo diplomático e a integrantes da sociedade carioca. O programa era composto sobretudo por música de concerto europeia, mas incluía Gaúcho, tango brasileiro composto por Chiquinha Gonzaga e popularmente conhecido como Corta-Jaca.[7][8]
Nair executou a composição ao violão, acompanhando a apresentação de Catulo da Paixão Cearense. A inclusão da peça em uma cerimônia presidencial foi interpretada por seus defensores como valorização da música brasileira e, por seus críticos, como violação do protocolo e dos padrões culturais esperados de uma recepção oficial.[3][15]
A polêmica ganhou maior dimensão quando Rui Barbosa, adversário político de Hermes da Fonseca, criticou o episódio no Senado em 7 de novembro de 1914. Em seu discurso, classificou o Corta-Jaca por meio de expressões depreciativas e afirmou que uma dança popular não deveria receber as mesmas honras reservadas à música de concerto. A manifestação refletia não apenas o conflito político entre Rui e Hermes, mas também preconceitos de classe e raça que cercavam o maxixe, o samba, o violão e outras expressões urbanas populares.[7][15]
O episódio tornou-se um dos momentos mais lembrados da história cultural do Palácio do Catete. Em interpretações posteriores, a apresentação foi tratada como uma etapa simbólica da entrada da música popular em espaços oficiais e como exemplo da utilização, por Nair, da posição de primeira-dama para questionar convenções sociais e culturais.[8][7]
Depois da Presidência
Viagens e retorno ao Brasil
Com o fim do governo, em novembro de 1914, Nair e Hermes deixaram o Palácio do Catete. Em 1915, ela sofreu um acidente com uma charrete que agravou problemas físicos e exigiu tratamento prolongado. No ano seguinte, o casal viajou para a Europa, permanecendo no exterior durante parte da Primeira Guerra Mundial.[6][2]
Nair e Hermes retornaram ao Brasil em 1920. A chegada foi acompanhada por manifestações de militares, antigos aliados e moradores de áreas ligadas às iniciativas do governo Hermes. Em dezembro daquele ano, visitaram a Vila Proletária Marechal Hermes, onde uma escola levava o nome de Nair e onde foram recebidos por professores, estudantes e moradores.[3]
A afirmação, repetida em algumas biografias, de que Nair teria participado diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922 não é acompanhada por documentação conclusiva nas pesquisas acadêmicas mais recentes. Sua trajetória, contudo, aproximava-se de valores posteriormente associados à modernidade cultural, como a defesa da arte nacional, a experimentação estética e a contestação de determinados padrões de comportamento feminino.[12][3]
Atuação política e crise de 1922
De volta ao país, Hermes passou a ocupar novamente posição relevante entre setores militares e foi eleito presidente do Clube Militar. Na campanha presidencial de 1921–1922, aproximou-se da Reação Republicana, movimento que apoiava Nilo Peçanha contra o candidato governista Artur Bernardes. Nair acompanhou as articulações políticas e utilizou a caricatura para comentar a disputa.[3]
Uma de suas obras mais conhecidas daquele período representava Artur Bernardes e Nilo Peçanha e fazia um paralelo entre a Guerra das Rosas, na Inglaterra, e a “guerra dos dois cravos” no Brasil, aludindo à imagem pública dos dois candidatos. A caricatura demonstra que a produção de Rian podia ultrapassar o retrato social e assumir posição nos conflitos políticos da Primeira República.[3][6]
Durante a crise provocada pelas chamadas cartas falsas atribuídas a Artur Bernardes, Nair concedeu declarações à imprensa em defesa do marido e acompanhou de perto o agravamento das relações entre o governo e o Clube Militar. Após o levante de 5 de julho de 1922, Hermes foi preso por determinação do governo de Epitácio Pessoa.[3]
Nair mobilizou suas relações familiares para obter autorização para visitar o marido regularmente na prisão. Hermes foi libertado meses depois, mas sua saúde encontrava-se debilitada. Morreu em Petrópolis em 9 de setembro de 1923. Nair, que tinha 37 anos, não voltou a se casar.[2][3]
Atividades culturais e posições públicas
Teatro e instituições literárias
Depois da morte de Hermes, Nair retomou atividades artísticas e beneficentes. A Troupe Rian realizou apresentações de textos de Coelho Neto, Cláudio de Sousa, Afrânio Peixoto, Reinaldo Chaves e outros dramaturgos, destinando parte da renda a instituições religiosas ou assistenciais de Petrópolis.[2][3]
Em 1928, assumiu a presidência da Associação de Ciências e Letras de Petrópolis. Durante sua gestão, a instituição foi reorganizada e passou a adotar a denominação de Academia Petropolitana de Letras. Nair permaneceu à frente da entidade até 1932 e incentivou conferências, reuniões literárias e atividades destinadas a ampliar a participação cultural feminina.[1][6]
Em 1929, ingressou na Academia Fluminense de Letras, em cerimônia realizada em Niterói. Sua participação nessas instituições representava uma continuidade da rede de sociabilidade intelectual que construíra antes do casamento, mas agora com maior autonomia como artista e viúva de um ex-presidente.[6][16]
Participação das mulheres na política
Em dezembro de 1924, Nair respondeu a um questionário da Revista da Semana sobre a entrada das mulheres na política. Posicionou-se claramente a favor da participação feminina e criticou a situação dos países sul-americanos que negavam às mulheres o direito de voto.[1]
A manifestação ocorreu antes da conquista nacional do sufrágio feminino em 1932 e mostra que sua presença pública não se restringia à condição de ex-primeira-dama. Embora não tenha exercido cargo eletivo ou atuado permanentemente em organizações sufragistas, Nair defendia que mulheres instruídas participassem da vida política e tivessem influência nas decisões nacionais.[1][3]
Cinema Rian
Após a morte do pai, em 1931, Nair recebeu uma herança e adquiriu um terreno voltado para o mar na Avenida Atlântica, em Copacabana. Seu objetivo era construir uma sala de cinema moderna que levasse o nome artístico Rian. O empreendimento enfrentou dificuldades financeiras, contratuais e técnicas, prolongando-se por vários anos.[1]
Em entrevista publicada em maio de 1942, Nair apareceu ao lado de uma maquete do edifício que estava sendo construído. A sala foi arrendada à empresa de Luiz Severiano Ribeiro, responsável por sua operação comercial. Depois de adiamentos anunciados pela imprensa, o Cine Rian foi inaugurado em 28 de novembro de 1942, às 16 horas, com a exibição de Aconteceu em Havana, produção da Fox com Carmen Miranda.[1]
O cinema situava-se em área valorizada de Copacabana e tornou-se uma das salas mais conhecidas do bairro. Nair, entretanto, perdeu progressivamente o controle do empreendimento e acabou vendendo o imóvel a Severiano Ribeiro. O nome Rian foi preservado na fachada, embora a fundadora não participasse mais da administração cotidiana.[1][6]
O prédio sofreu um incêndio em março de 1975, foi restaurado e continuou em funcionamento por alguns anos. O cinema seria demolido em 1983, dois anos depois da morte de Nair. A história do empreendimento ocupou lugar central em seus depoimentos tardios, nos quais expressou orgulho por ter idealizado a sala e ressentimento pelas disputas relacionadas à propriedade e à administração.[1]
Retomada da caricatura

A partir da década de 1940, Nair passou a viver de maneira mais discreta e estabeleceu-se posteriormente em Niterói, onde residiu com filhos adotivos.[nota 2] As dificuldades financeiras e a perda do controle sobre o Cine Rian contribuíram para seu afastamento dos círculos sociais que frequentara nas décadas anteriores.[6]
Na década de 1950, o pesquisador Herman Lima, que preparava sua obra sobre a história da caricatura no Brasil, procurou Nair e constatou que vários originais estavam danificados. A pedido dele, a artista refez parte de suas antigas caricaturas e retomou a produção depois de um longo período de menor atividade.[6][12]
Nessa nova fase, retratou personalidades como Juscelino Kubitschek, Café Filho, Carlos Lacerda, Humberto de Alencar Castelo Branco, Rui Barbosa e Fidel Castro. Parte dos desenhos foi executada de memória ou a partir de fotografias, preservando o uso de linhas sintéticas e cores suaves associado à produção anterior.[6][11]
Em 1960, participou da abertura de um salão de humoristas no Museu Nacional de Belas Artes, ocasião em que falou sobre a caricatura brasileira. Em 1964, doou ao Museu Histórico Nacional um conjunto representativo de sua produção, contribuindo para a preservação e posterior estudo de sua obra.[6]
Em 1967, participou de um programa da TV Tupi, no qual produziu uma caricatura ao vivo. Dois anos depois, concedeu um extenso depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, relatando sua formação artística, o casamento, a política da Primeira República, o episódio do Corta-Jaca e as dificuldades enfrentadas na construção do Cine Rian.[6][1]
Memórias, homenagens e morte
Em 1970, foi homenageada no antigo Palácio do Catete, já transformado em Museu da República. A cerimônia reforçou o processo de recuperação pública de sua trajetória, que passava a ser interpretada não apenas em função do casamento com Hermes da Fonseca, mas também por sua contribuição à caricatura e à cultura brasileira.[6]
Em 1974, aos 88 anos, publicou A verdade sobre a Revolução de 22, livro de memórias dedicado principalmente à defesa da atuação política de Hermes da Fonseca e à narrativa dos acontecimentos que culminaram em sua prisão. A obra também contém lembranças da infância, da formação artística, do casamento e das redes sociais e políticas às quais Nair pertencera.[3][17]
O livro é simultaneamente uma fonte biográfica e uma construção memorialística. Pesquisadores observam que a narrativa procura reabilitar a imagem de Hermes e seleciona episódios conforme a perspectiva da autora, razão pela qual seu conteúdo deve ser comparado com jornais, documentos oficiais e outras memórias do período.[3]
Em 1979, sua trajetória foi lembrada por exposições, reportagens, um documentário e homenagens culturais. Naquele ano, recebeu também reconhecimento durante o carnaval e obteve uma pensão associada à condição de viúva de ex-presidente, depois de décadas de dificuldades econômicas.[6]
Nair morreu em 10 de junho de 1981, no dia em que completou 95 anos, no Hospital Procordis, no bairro de Santa Rosa, em Niterói. Foi sepultada junto a Hermes da Fonseca.[1][6]
Obra e características artísticas
A produção de Rian concentrou-se no retrato caricatural. Em vez de construir cenas complexas, destacava o rosto, a postura, as roupas ou algum traço corporal capaz de sintetizar a personalidade representada. A artista utilizava lápis, lápis de cor, pastel e outros materiais que permitiam desenhos rápidos e, ao mesmo tempo, visualmente delicados.[4][11]
Nos primeiros anos, predominavam caricaturas sociais de atrizes, escritores e mulheres das elites. O humor podia ser atenuado pelas legendas publicadas nas revistas, mas a deformação dos rostos e dos corpos rompia com os padrões convencionais do retrato feminino. Ao longo do tempo, Rian ampliou o repertório e produziu trabalhos de caráter político, especialmente quando acontecimentos públicos afetavam sua família ou seus aliados.[4]
A assinatura Rian funcionava como parte de sua identidade artística. O pseudônimo permitia que uma mulher de família titulada atuasse na imprensa humorística sem abandonar completamente sua posição social. Ao mesmo tempo, tornou-se suficientemente conhecido para nomear sua companhia teatral e, décadas depois, o cinema de Copacabana.[1][12]
A avaliação de Rian como “primeira caricaturista mulher do mundo”, divulgada por textos jornalísticos e biografias populares, não encontra sustentação segura na historiografia internacional. A formulação adotada por pesquisadores e instituições culturais é a de que foi a primeira mulher a publicar caricaturas profissionalmente ou de forma regular na imprensa brasileira.[3][7][6]
Recepção e legado
Durante boa parte do século XX, Nair foi lembrada principalmente como esposa de Hermes da Fonseca e protagonista do episódio do Corta-Jaca. A retomada de sua obra por Herman Lima e a incorporação de desenhos a acervos públicos ajudaram a deslocar o interesse para sua atividade como caricaturista.[6][12]
Pesquisas sobre história das mulheres e da imprensa ressaltaram a dificuldade enfrentada por Rian ao ingressar em um ambiente profissional masculino. Sua condição social privilegiada facilitava o acesso a editores, salões e personalidades, mas não eliminava as restrições impostas às mulheres que se expunham publicamente ou faziam humor com figuras de prestígio.[4][11]
Sua atuação como primeira-dama também passou por reavaliação. Em vez de ser vista apenas como responsável por uma quebra de etiqueta no Palácio do Catete, Nair é estudada como agente das redes de sociabilidade, da política e da cultura da Primeira República. Os saraus, a beneficência, as declarações públicas e a defesa do voto feminino demonstram formas de participação que ultrapassavam as atribuições domésticas tradicionalmente associadas às esposas dos presidentes.[3]
O episódio do Corta-Jaca permanece como símbolo das disputas em torno da identidade cultural brasileira. A presença do violão e de uma composição popular no programa oficial evidenciou as fronteiras de classe e raça que determinavam quais gêneros poderiam ocupar os salões presidenciais. A reação de Rui Barbosa tornou-se, posteriormente, um dos exemplos mais citados da resistência das elites à legitimação da música popular urbana.[8][15]
O principal conjunto institucional de caricaturas de Rian encontra-se no Museu Histórico Nacional. Outros registros de sua trajetória estão preservados no Museu da República, no Museu da Imagem e do Som, no Arquivo Nacional e na Hemeroteca Digital Brasileira da Fundação Biblioteca Nacional.[6][7]
Trabalhos selecionados
Caricaturas e ilustrações
- A artista Réjane — caricatura publicada em Fon-Fon, em 31 de julho de 1909.[5]
- “Galeria das Elegâncias” — série de caricaturas publicada em Fon-Fon a partir de agosto de 1910.[4]
- Ilustrações para The Beautiful Rio de Janeiro, de Alured Gray Bell, publicado em 1916.[1]
- Ilustrações para Petrópolis, a encantadora, de Otto Prazeres, publicado em 1922.[1]
- Guerra dos dois cravos — caricatura de Nilo Peçanha e Artur Bernardes relacionada à eleição presidencial de 1922.[3]
Livro
- Fonseca, Nair de Teffé Hermes da (1974). A verdade sobre a Revolução de 22. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti
Notas e referências
Notas
- ↑ Há divergência entre as fontes quanto à cidade de nascimento. O verbete biográfico do CPDOC/FGV registra Petrópolis, enquanto o Museu da República, a Enciclopédia Itaú Cultural e o estudo de Bethânia Werner indicam a cidade do Rio de Janeiro. Todas as fontes concordam com a data de 10 de junho de 1886.
- ↑ As fontes divergem quanto ao número de filhos adotivos. A exposição do Museu Histórico Nacional e parte das biografias mencionam três, enquanto outros estudos indicam quatro. Por esse motivo, o número não é apresentado no corpo do artigo.
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Gimenez, Fernando Antonio Prado (2025). «Nair de Teffé (Rian): a cartunista e o desejo de criar o Cine Rian». Revista Livre de Cinema. 12 (1): 1–12. doi:10.5281/zenodo.14976449. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada em 1 de junho de 2025
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 «Tefé, Nair de» (PDF). Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil — Fundação Getulio Vargas. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 12 de setembro de 2024
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 Werner, Bethânia Luisa Lessa (2022). “Eu serei uma senhora importante. Vou ser muito importante”: a trajetória política de Nair de Teffé na Primeira República (1910–1922) (PDF) (Tese de Trabalho de conclusão de curso em História). Pelotas: Universidade Federal de Pelotas. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 9 de julho de 2024
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Galetti, Camila Hildebrand; Simili, Ivana Guilherme (2013). «Mulheres, casamento e política: a artista e primeira-dama Nair de Teffé». Cadernos de Pesquisa do CDHIS. 26 (1): 129–151. doi:10.14393/cdhis.v26i1.19595. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada em 3 de fevereiro de 2023
- 1 2 3 «A artista Réjane». Hemeroteca Digital Brasileira — Fundação Biblioteca Nacional. Fon-Fon (31): 40. 31 de julho de 1909. Consultado em 30 de junho de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 «Rian». Museu Histórico Nacional — Google Arts & Culture. Consultado em 30 de junho de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 «Nair de Teffé, 140 anos: a primeira-dama que escandalizou o Palácio do Catete». Museu da República. 5 de junho de 2026. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada em 30 de junho de 2026
- 1 2 3 4 5 «O "Corta-Jaca" no Palácio do Catete». Brasiliana Fotográfica — Fundação Biblioteca Nacional. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada em 14 de agosto de 2025
- ↑ TEFFÉ, Tetrá de (1977). Barão de Teffé, militar e cientista, biografia do almirante Antônio Luiz von Hoonholtz. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha. pp. 35, 62, 69 e 70
- ↑ ALVES, Caroline Farias (2019). ARTE, GÊNERO E SOCIABILIDADE: NAIR DE TEFFÉ, A BRASILEIRA RETRATADA POR GEORGINA DE ALBUQUERQUE (Dissertação de Mestrado). Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora. pp. 187 e 188
- 1 2 3 4 5 Werneck, Giovanna Carrozzino (2018). «Mulheres e charges políticas: a subversão pelo humor nos espaços públicos». Revista Espacialidades. 13 (1): 64–82. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada em 1 de setembro de 2024
- 1 2 3 4 5 Natania A. Silva Nogueira (julho de 2011). «Rian: caricatura e pioneirismo feminino no Brasil» (PDF). XXVI Simpósio Nacional de História — Associação Nacional de História. Consultado em 30 de junho de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 15 de dezembro de 2024
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- ↑ «O enlace presidencial». Hemeroteca Digital Brasileira — Fundação Biblioteca Nacional. O Malho (587): 7. 13 de dezembro de 1913. Consultado em 30 de junho de 2026
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- ↑ «Rian». Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. Consultado em 30 de junho de 2026
- ↑ Fonseca, Nair de Teffé Hermes da (1974). A verdade sobre a Revolução de 22. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti
Bibliografia
- Campos, Maria de Fátima Hanaque (2016). Nair de Teffé: artista do lápis e do riso. Curitiba: Appris. ISBN 978-85-47-30030-2
- Lima, Herman (1963). História da caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio
- Rodrigues, Antonio Edmilson Martins (2002). Nair de Teffé: vidas cruzadas. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas. ISBN 978-85-22-50389-6
- Santos, Paulo César dos (1999). Nair de Teffé: símbolo de uma época 2 ed. Petrópolis: Sermograf
- Werner, Bethânia Luisa Lessa (2022). “Eu serei uma senhora importante. Vou ser muito importante”: a trajetória política de Nair de Teffé na Primeira República (1910–1922) (PDF) (Tese de Trabalho de conclusão de curso em História). Pelotas: Universidade Federal de Pelotas. Cópia arquivada (PDF) em 9 de julho de 2024
Ver também
Ligações externas
- Exposição virtual “Rian”, do Museu Histórico Nacional
- Nair de Teffé, 140 anos, no Museu da República
- Verbete biográfico de Nair de Teffé, no CPDOC/FGV
- Primeira caricatura de Rian publicada em Fon-Fon, na Hemeroteca Digital Brasileira
- Verbete de Rian, na Enciclopédia Itaú Cultural
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