Saúde
Muslim ibne Aquil
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| Muslim ibne Aquil | |
|---|---|
| Nascimento | século VII |
| Morte | |
| Etnia | Árabe |
| Progenitores | Mãe: Ulaia/Calila/Hília Pai: Aquil |
| Cônjuge | Rucaia |
| Filho(a)(s) | |
| Religião | Islão |
Muslim ibne Aquil Alhaximi (em árabe: مُسْلِم ٱبْن عَقِيل ٱلْهَاشِمِيّ; romaniz.: Muslim ibn ʿAqīl al-Hāshimī; m. Cufa, 10 de setembro de 680) foi um parente do profeta islâmico Maomé. Filho de Aquil ibne Abi Talibe e primo de Huceine ibne Ali, o terceiro imame xiita, Muslim foi enviado por este a Cufa, no Iraque, para averiguar o apoio da população local após a ascensão do califa omíada Iázide I (r. 680–683). Os cufanos acolheram Muslim e, em sua maioria, juraram apoiar Huceine contra o governo omíada, que consideravam ilegítimo e tirânico. Em resposta, Iázide substituiu o moderado governador da cidade por seu homem de confiança, Ubaide Alá ibne Ziade, que logo descobriu o esconderijo de Muslim por meio de um informante. Quando Ubaide Alá prendeu ou matou Hani ibne Urua, que abrigava Muslim secretamente, este iniciou uma revolta aberta e cercou o palácio do governador com seus partidários em setembro de 680. Mediante uma combinação de ameaças e promessas, porém, Ubaide Alá convenceu os chefes tribais de Cufa a abandonar Muslim e retirar seus homens. Isolado, Muslim foi preso após oferecer forte resistência e acabou executado. Antes desses acontecimentos, havia escrito a Huceine incentivando-o a dirigir-se a Cufa. Huceine deixou então Meca acompanhado de sua família e de um pequeno grupo de seguidores, mas sua caravana foi interceptada e massacrada pelas forças omíadas em outubro de 680, na Batalha de Carbala, nas proximidades de Cufa. Muslim é venerado no xiismo por sua coragem e retidão moral, e seu santuário em Cufa constitui um importante destino de peregrinação xiita.
Vida
Primeiros anos e família
Pouco se sabe com segurança sobre a vida de Muslim antes dos acontecimentos que culminaram na Batalha de Carbala. Era filho de Aquil (m. 670 ou 683), primo do profeta islâmico Maomé (m. 632). Sua mãe pode ter sido uma escrava liberta (ume ualade) de origem nabateia, cujo nome aparece nas fontes como Ulaia, Calila ou Hília. Sua data de nascimento também varia consideravelmente entre os relatos, situando-se desde o início da década de 640 até o final da década de 650.[1] Rucaia, filha de Ali ibne Abi Talibe, casou-se com Muslim e deu à luz seu filho Abedalá, morto ao lado de Huceine na Batalha de Carbala, em 680. Outro filho de Muslim também pode ter perecido em Carbala, enquanto outros dois filhos, frequentemente identificados como Maomé e Ibraim, teriam sido mortos cerca de um ano mais tarde, ainda muito jovens. Segundo a tradição, ambos conseguiram fugir do acampamento de Ubaide Alá ibne Ziade, mas acabaram assassinados por um habitante de Cufa, possivelmente Alharite ibne Badre, que pretendia receber a recompensa oferecida pelo governador.[2] Muslim parece ter desfrutado da reputação de guerreiro destemido.[1] Segundo Ibne Atame Alcufi, combateu ao lado de seu tio Ali ibne Abi Talibe, o primeiro imame xiita e quarto califa (r. 656–661), na Batalha de Sifim (657). Outra versão afirma que participou da conquista de Oxirrinco, no Egito, durante o califado de Omar (r. 634–644), tendo sido posteriormente nomeado governador da cidade, cargo que exerceu até a ascensão de Otomão (r. 644–656), quando regressou a Medina. Ainda outra tradição relata que, algum tempo depois de 670, conseguiu enganar Moáuia I, então governador da Síria, vendendo-lhe um terreno em Medina que, na realidade, pertencia a seu primo Huceine ibne Ali.[2]
Emissário a Cufa

Huceine ibne Ali recusou-se a reconhecer a ascensão, em 680, do califa omíada Iázide I, que sucedera seu pai, Moáuia I, em violação ao tratado de paz firmado em 661 com o irmão de Huceine, Haçane ibne Ali (m. 670). Quando pressionado a prestar juramento de fidelidade, Huceine deixou sua cidade natal, Medina, e dirigiu-se a Meca com sua família. Ali recebeu numerosas cartas e emissários da cidade predominantemente xiita de Cufa, no Iraque, convidando-o a liderar uma revolta contra o domínio omíada, considerado ilegítimo e tirânico. Huceine respondeu que assumiria essa liderança caso encontrasse apoio unânime e encarregou Muslim de avaliar a situação em Cufa. Também enviou uma carta aos habitantes de Baçorá, conclamando-os a restaurar a suna de Maomé, que, segundo escreveu, havia sido corrompida pelas inovações.[3][4][5] Muslim deixou Meca em 19 de junho de 680 (15 de Ramadã de 60 AH), contratou dois guias em Medina e seguiu rumo a Cufa.[2] Segundo Atabari (m. 923),[6] os guias perderam o caminho e morreram de sede durante a viagem. Muslim escreveu então a Huceine pedindo para ser dispensado da missão, mas este insistiu para que prosseguisse.[7] Muslim entrou em Cufa em 9 de julho de 680 (5 de Xaual de 60 AH) e inicialmente hospedou-se na casa de Almoquetar Atacafi ou de Muslim ibne Auçaja, onde recebeu entre doze mil e trinta mil juramentos de fidelidade.[2][8] Já nos primeiros dias, segundo algumas fontes, mais de doze mil pessoas haviam prestado juramento a Huceine por intermédio de Muslim, número que posteriormente teria alcançado dezoito mil.[9] Segundo o islamólogo Mahmoud M. Ayoub (m. 2021), entretanto, esses juramentos eram dirigidos, na prática, não a Huceine, mas aos chefes tribais que então o apoiavam, representando lealdade a homens, e não propriamente a uma causa.[8]
Logo nos primeiros dias, Muslim participou de uma reunião secreta dos líderes xiitas de Cufa, que declararam seu apoio à missão. Entre os presentes estavam Abis ibne Abi Xabibe Axaquiri, Habibe ibne Muzair e Saíde ibne Abedalá Alhanafi, todos mortos posteriormente ao lado de Huceine em Carbala.[10][4] À medida que seu prestígio aumentava, Muslim passou inclusive a presidir reuniões públicas nas mesquitas. Foi então que escreveu a Huceine recomendando-lhe que partisse imediatamente para Cufa.[11] O governador de Cufa naquele momento, Anumane ibne Baxir, provavelmente tinha conhecimento da chegada de Muslim e de seus propósitos, mas optou por não agir contra ele.[2] Como companheiro de Maomé, Anumane talvez tenha evitado qualquer medida por Muslim ser parente do profeta,[7] ou simplesmente por não desejar agir com base apenas em suspeitas.[12] Omar ibne Sade e outros notáveis escreveram então a Iázide,[13] que destituiu Anumane e nomeou Ubaide Alá ibne Ziade, ordenando-lhe que prendesse ou executasse Muslim.[2] Descrito como enérgico, astuto e implacável,[13][14][15] Ubaide Alá já exercia o governo de Baçorá.[16] Dirigiu-se rapidamente a Cufa pela rota mais curta, usando, segundo a tradição, um turbante negro e o rosto coberto por um véu. Alguns habitantes da cidade chegaram a confundi-lo com Huceine e o receberam com entusiasmo.[17][16] Ao chegar, porém, pronunciou um discurso no qual ameaçou punir qualquer indício de rebelião com decapitação e crucificação.[8][16]
Revolta fracassada e execução

Com a chegada de Ubaide Alá ibne Ziade, Muslim mudou-se para a casa de Hani ibne Urua,[2] um ancião do ramo muradita dos madijitas.[11] Ali, segundo a tradição, perdeu a oportunidade de matar Ubaide Alá quando este foi visitar Hani, que se encontrava doente — ou fingia estar enfermo —, ou então visitar o baçorano Xarique ibne Alauar Alhariti, apresentado como hóspede de Hani, mas que, na realidade, estava ali para apoiar Muslim.[1] As fontes apresentam explicações diversas para a desistência do atentado: Muslim teria perdido a coragem no último instante; Hani — ou sua esposa — teria se oposto ao plano; ou ele teria recordado uma tradição profética que proibia a traição, especialmente contra um hóspede que recebera garantia de segurança. Pouco depois, Ubaide Alá descobriu o esconderijo de Muslim por intermédio de um informante, possivelmente chamado Maquil, que se infiltrou em seu círculo de confiança fingindo ser um partidário e oferecendo contribuições para sua causa.[16] O governador convocou então Hani, obrigou-o a admitir que escondia Muslim e, diante de sua recusa em entregar o hóspede, espancou-o brutalmente. A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade sob o rumor de que Hani havia sido morto, levando membros de sua tribo a cercarem o palácio do governador. A multidão, porém, dispersou-se depois que o cádi Xurai apareceu publicamente e afirmou que Hani permanecia vivo, embora detido para averiguações.[18] Hani morreu no local, segundo algumas versões, ou foi preso, segundo outras.[2][19]
Provavelmente ao tomar conhecimento da prisão de Hani, Muslim iniciou uma revolta aberta. Reuniu cerca de quatro mil homens e cercou o palácio do governador, em data indicada pelas fontes como 3, 8, 9 ou 10 de setembro de 680 (2, 7, 8 ou 9 de Dulrija de 60 A.H.).[2] Ubaide Alá, contudo, conseguiu convencer os chefes tribais a abandonar Muslim e retirar seus homens por meio de ameaças e subornos.[1] Segundo outra tradição, Ubaide Alá também determinou que os chefes tribais percorressem os bairros conclamando os habitantes a abandonar a rebelião e persuadissem as mulheres a convencer seus parentes a regressar para casa, advertindo-os da chegada iminente do exército sírio.[20] Ao cair da noite, abandonado por quase todos os seus seguidores, Muslim vagou sozinho pelas ruas de Cufa até ser acolhido por uma viúva da tribo dos quindaítas, chamada Taua. Na manhã seguinte, porém, seu filho Bilal revelou o esconderijo de Muslim a um chefe quindaíta, aparentemente descendente de Alaxate ibne Caice (m. 661).[21] Esse chefe comunicou imediatamente a informação ao governador, ato que lhe valeu, segundo o polímata árabe Maomé ibne Habibe (m. 853), o epíteto de "o mais pérfido dos árabes".[2]
Cerca de sessenta ou setenta soldados cercaram então a casa e, após sofrerem algumas baixas, conseguiram dominar Muslim, já ferido e exausto.[22] Algumas fontes afirmam que lhe foi concedida uma garantia de segurança (aman), posteriormente desrespeitada. Conduzido à presença de Ubaide Alá, Muslim discutiu asperamente com o governador, que ordenou sua execução. Segundo a maioria dos relatos, confiou seu testamento a Omar ibne Sade, pedindo-lhe que informasse Huceine sobre a traição dos cufanos, quitasse suas dívidas e providenciasse seu sepultamento.[23] Em seguida, foi decapitado publicamente sobre o terraço da cidadela, sendo sua cabeça e seu corpo lançados do alto. O executor é identificado como Becre ibne Hunrane Alamari, a quem Muslim teria ferido anteriormente durante o ataque ao esconderijo.[22] Hani também foi executado; seus corpos foram arrastados pelas ruas e, possivelmente, crucificados após a morte.[2] Suas cabeças foram enviadas a Iázide, que felicitou Ubaide Alá e ordenou-lhe prender Huceine e seus partidários, combatendo todos os que se levantassem ao seu lado.[3]
Consequências

Muslim foi executado um dia após o fracasso de sua revolta[2] e cerca de dois meses depois de sua chegada a Cufa.[24] Incentivado pela carta enviada por seu primo e ainda ignorando sua morte, Huceine deixou Meca rumo a Cufa aproximadamente na mesma época, possivelmente em 10 ou 12 de setembro de 680 (8 ou 10 de Dulrija de 60 AH), acompanhado de sua família e de um pequeno grupo de seguidores.[4]Segundo diferentes tradições, Huceine recebeu a notícia da execução de Muslim nas proximidades de Cadésia ou, segundo outro relato, em Talabia.[3][20] Algumas tradições sunitas afirmam que Huceine cogitou desistir da expedição, mas foi convencido a prosseguir pelos filhos de Muslim.[25] Wilferd Madelung considera esse relato pouco confiável. Segundo a maioria das fontes xiitas, Huceine continuou deliberadamente sua marcha para Cufa mesmo após tomar conhecimento da morte de Muslim,[2][3] pois já havia contado a pessoas próximas sobre uma visão de seu avô, Maomé, que lhe teria revelado que Deus desejava vê-lo morto e sua família conduzida acorrentada.[26]
A caravana de Huceine foi finalmente interceptada pelas forças omíadas nas proximidades de Cufa e massacrada em 10 de outubro de 680 (10 de Moarrão de 61 AH), durante a Batalha de Carbala. Antes do confronto final, os omíadas mantiveram o grupo cercado durante vários dias e impediram seu acesso às águas do Eufrates.[3] A família de Muslim permaneceu ao lado de Huceine durante toda a campanha e, provavelmente, dois de seus filhos morreram lutando em Carbala.[2][27] Segundo outras tradições, três irmãos, um filho e um sobrinho de Muslim também pereceram ao lado de Huceine em Carbala.[20] As mulheres e crianças sobreviventes foram feitas prisioneiras e conduzidas primeiro a Cufa e depois à capital, Damasco.[4] Ali desfilaram pelas ruas da cidade[28] e permaneceram encarceradas por um período desconhecido.[29] Posteriormente, Iázide ordenou sua libertação, permitindo-lhes regressar a Medina.[29][30]
Homenagens
Muslim é venerado no xiismo por sua coragem e retidão moral, e sua trajetória recebeu grande atenção dos autores xiitas.[1] Os xiitas recordam os acontecimentos de Carbala ao longo dos meses de Moarrão e Sáfar,[31] especialmente durante os dez primeiros dias de Moarrão, culminando no décimo dia (Axura) com procissões realizadas nas principais cidades xiitas.[32][33] O principal elemento dessas cerimônias rituais (majalis, singular majlis) consiste na narração dos acontecimentos de Carbala,[34][32] destinada a despertar compaixão e levar os ouvintes às lágrimas.[35] É nesse contexto que Muslim é lembrado como o "primeiro mártir de Carbala",[1] juntamente com seus filhos.[2] Embora tenha morrido antes da batalha propriamente dita, a tradição xiita passou a considerá-lo o primeiro mártir de Carbala, razão pela qual seu nome passou a figurar nas elegias (marthiyas) compostas em homenagem aos mártires do episódio.[20] Um dos relatos comemorativos mais difundidos descreve a cena comovente em que Huceine comunica a morte de Muslim à sua jovem filha, cuja família fazia parte do grupo que o acompanhava rumo a Carbala.[36] A peregrinação ao santuário de Muslim, em Cufa, é recomendada no xiismo e é tradicionalmente acompanhada da recitação de diversas orações preservadas pela tradição.[2] Sua trajetória também motivou a composição de obras dedicadas exclusivamente à sua vida, entre as quais Risâle fî fâciʿati Müslim b. ʿAḳīl, de Bursalı Şeyh Süleyman Efendi, e Evvelü'ş-şühedâʾ Müslim b. ʿAḳīl, de Kâmil Selmân el-Cübûrî.[20]
Referências
- 1 2 3 4 5 6 Ayoub 1978, p. 102.
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Kohlberg 2012.
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- ↑ Ayoub 1978, p. 271 n. 26.
- 1 2 Ayoub 1978, p. 99.
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- ↑ Ayoub 1978, p. 112.
- ↑ Esposito 2022.
- 1 2 Qutbuddin 2005, p. 9938.
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