Saúde
Micoparasitismo
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O micoparasitismo é um fenómeno biológico complexo e fundamental nos ecossistemas fúngicos, caracterizando-se pela relação simbiótica em que um fungo (o micoparasita) ataca e consome outro fungo (o hospedeiro) para obter nutrientes essenciais ao seu desenvolvimento. Este processo não deve ser confundido com a simples competição por recursos, pois envolve mecanismos sofisticados de reconhecimento celular, secreção enzimática e, em muitos casos, a penetração física das hifas do hospedeiro. No contexto evolutivo, o micoparasitismo é uma especialização trófica que permite aos fungos explorar uma fonte rica em azoto e carbono — a biomassa fúngica — sendo particularmente comum em ambientes onde a competição por substratos orgânicos é intensa, como no solo ou em madeira em decomposição. A diversidade de estratégias adotadas pelos micoparasitas é vasta, abrangendo desde o biotrofismo, onde o parasita mantém o hospedeiro vivo para garantir um fornecimento contínuo de nutrientes, até ao necrotrofismo, onde o parasita mata rapidamente as células do hospedeiro através da libertação de toxinas e enzimas degradativas antes de absorver o seu conteúdo citoplasmático.[1][2][3][4][5][6][7][8][9][10]
A mecânica do micoparasitismo envolve uma sucessão de etapas biológicas altamente coordenadas que começam com o quimiotactismo, onde o micoparasita deteta sinais químicos específicos, como lectinas ou polissacarídeos, emitidos pelo hospedeiro potencial. Uma vez estabelecido o contacto, ocorre o enrolamento das hifas do parasita em torno das do hospedeiro, seguido pela formação de estruturas especializadas denominadas apressórios ou ganchos de penetração. Para romper a robusta parede celular fúngica, composta principalmente por quitina e glucanos, o micoparasita segrega um coquetel de enzimas hidrolíticas, incluindo quitinases, glucanases e proteases, que digerem os componentes estruturais do hospedeiro. Este ataque enzimático não só facilita a entrada do parasita, mas também liberta oligómeros que podem atuar como sinais adicionais para intensificar a agressividade do ataque. Em resposta, muitos hospedeiros desenvolveram mecanismos de defesa, como a melanização das suas paredes celulares para resistir à degradação enzimática ou a produção de metabolitos secundários antifúngicos, estabelecendo uma autêntica «corrida armamentista» molecular a nível microscópico.
Do ponto de vista taxonómico e ecológico, o género Trichoderma destaca-se como um dos micoparasitas mais estudados e eficazes, possuindo uma capacidade extraordinária de suprimir fitopatógenos que causam doenças graves em culturas agrícolas. Além do Trichoderma, outros grupos como os fungos micófagos do filo Chytridiomycota ou certas espécies de Ascomycota e Basidiomycota exibem comportamentos micoparasitários especializados, visando frequentemente cogumelos de grandes dimensões ou bolores comuns. A importância prática deste fenómeno é imensa, especialmente no desenvolvimento do controlo biológico de pragas, onde micoparasitas são utilizados como alternativa sustentável aos fungicidas químicos sintéticos. Ao reduzir a carga de inóculo de fungos patogénicos no solo, estes organismos não só protegem as plantas, mas também promovem a saúde do microbioma do solo, demonstrando que o micoparasitismo é um regulador natural indispensável para a manutenção do equilíbrio de biodiversidade nos habitats terrestres.
Referências
- ↑ «Weindling, R. (1932). "Trichoderma lignorum as a parasite of other soil fungi". Phytopathology.»
- ↑ Marsh, P. B. (dezembro de 1989). «Innovative Approaches to Plant Disease Control. 1987. Edited by Ilan Chet. John Wiley and Sons, New York, New York. 372 pp.». American Journal of Alternative Agriculture (em inglês). 4 (3-4): 184–185. ISSN 1478-5498. doi:10.1017/S0889189300003088
- ↑ Barnett, H. L., & Binder, F. L. (1973). "The ecology of mycoparasitism". Annual Review of Phytopathology.
- ↑ «Meyer, M. C., Mazaro, S. M., & Silva, J. C. (Orgs.) (2019). Trichoderma: Uso na Agricultura. Embrapa.» (PDF)
- ↑ Harman, Gary E. (2014). Trichoderma and Gliocladium. Volume 1: Basic Biology, Taxonomy and Genetics. C. P. Kubicek. London Bristol, PA: Taylor & Francis. ISBN 978-1-4822-9532-0
- ↑ Harman, Gary E.; Howell, Charles R.; Viterbo, Ada; Chet, Ilan; Lorito, Matteo (janeiro de 2004). «Trichoderma species — opportunistic, avirulent plant symbionts». Nature Reviews Microbiology (em inglês). 2 (1): 43–56. ISSN 1740-1534. doi:10.1038/nrmicro797
- ↑ «Bettiol, W., & Morandi, M. A. B. (Orgs.) (2009). Biocontrole de Doenças de Plantas: Uso de Microrganismos. Embrapa Meio Ambiente.» (PDF)
- ↑ Druzhinina, Irina S.; Seidl-Seiboth, Verena; Herrera-Estrella, Alfredo; Horwitz, Benjamin A.; Kenerley, Charles M.; Monte, Enrique; Mukherjee, Prasun K.; Zeilinger, Susanne; Grigoriev, Igor V.; Kubicek, Christian P. (16 de setembro de 2011). «Trichoderma: the genomics of opportunistic success». Nature Reviews. Microbiology. 9 (10): 749–759. ISSN 1740-1534. PMID 21921934. doi:10.1038/nrmicro2637
- ↑ Zeilinger, S., et al. (2016). "Mycoparasitism". Em: The Mycota. Springer.
- ↑ Druzhinina, Irina S., ed. (2016). «Environmental and Microbial Relationships». doi:10.1007/978-3-319-29532-9 Parâmetro desconhecido
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