Saúde
Micetócito
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O micetócito, também amplamente conhecido na literatura científica como bacteriócito, constitui uma linhagem celular especializada e altamente diferenciada, evoluída especificamente para albergar microrganismos simbiontes intracelulares em relações mutualistas obrigatórias. Estas células são encontradas principalmente em diversas linhagens de insetos, como afídeos, cigarras, baratas e alguns escaravelhos, desempenhando um papel metabólico central na sobrevivência do hospedeiro ao converter dietas nutricionalmente pobres em substratos ricos em aminoácidos essenciais e vitaminas. Do ponto de vista morfológico, os micetócitos caracterizam-se por um volume citoplasmático significativamente aumentado, muitas vezes apresentando poliploidia, o que permite acomodar uma densa população de simbiontes sem comprometer a viabilidade celular. Estas células não funcionam de forma isolada, organizando-se frequentemente em órgãos complexos denominados micetomas ou bacteriomas, que possuem uma arquitetura histológica própria e são supridos por sistemas traqueais e nervosos para garantir a homeostase do ecossistema interno.[1][2][3][4][5][6][7]
A génese e a manutenção do micetócito são processos biológicos rigorosamente controlados, envolvendo uma regulação genética sofisticada que impede que o sistema imunitário do inseto ataque os simbiontes e, simultaneamente, evita que as bactérias se proliferem descontroladamente ou infetem outros tecidos. Durante o desenvolvimento embrionário, a diferenciação destas células ocorre de forma programada, sendo que a transmissão dos simbiontes é geralmente vertical, da progenitora para a descendência, garantindo que as novas gerações de micetócitos sejam colonizadas logo nas fases iniciais da vida. Esta simbiose intracelular levou, ao longo de milhões de anos, a uma coevolução profunda, resultando na redução drástica do genoma dos simbiontes, que perderam genes essenciais para a vida livre e tornaram-se inteiramente dependentes do ambiente intracelular do micetócito. Em contrapartida, o hospedeiro tornou-se incapaz de completar o seu ciclo de vida sem o suporte bioquímico fornecido por estas células, tornando o micetócito um exemplo fascinante de integração biológica onde dois organismos distintos se fundem funcionalmente numa única unidade fisiológica.
Referências
- ↑ Malke, H. (janeiro de 1967). «Paul Buchner, Endosymbiosis of Animals with Plant Microorganisms. 909 S., 371 Abb., 5 Tab., 6 Taf. New York 1965: John Wiley & Sons, Inc.: Interscience Publ. $ 35.00». Zeitschrift für allgemeine Mikrobiologie (em inglês). 7 (2): 168–168. ISSN 0044-2208. doi:10.1002/jobm.19670070219
- ↑ DOUGLAS, A. E. (novembro de 1989). «MYCETOCYTE SYMBIOSIS IN INSECTS». Biological Reviews. 64 (4): 409–434. ISSN 1464-7931. doi:10.1111/j.1469-185x.1989.tb00682.x
- ↑ Luan, Jun-Bo (25 de janeiro de 2024). «Insect Bacteriocytes: Adaptation, Development, and Evolution». Annual Review of Entomology. 69 (1): 81–98. ISSN 0066-4170. doi:10.1146/annurev-ento-010323-124159
- ↑ Moran, Nancy A.; McCutcheon, John P.; Nakabachi, Atsushi (1 de dezembro de 2008). «Genomics and Evolution of Heritable Bacterial Symbionts». Annual Review of Genetics. 42 (1): 165–190. ISSN 0066-4197. doi:10.1146/annurev.genet.41.110306.130119
- ↑ Moya, A., et al. (2008). "The bacteriocyte: a model for host-symbiont integration." Frontiers in Bioscience, 13, 5362-5375.
- ↑ Alarcón, Mauricio E.; Polo, Priscila G.; Akyüz, Sevim Nur; Rafiqi, Ab. Matteen (25 de novembro de 2022). «Evolution and ontogeny of bacteriocytes in insects». Frontiers in Physiology. 13. ISSN 1664-042X. doi:10.3389/fphys.2022.1034066
- ↑ Shigenobu, Shuji; Watanabe, Hidemi; Hattori, Masahira; Sakaki, Yoshiyuki; Ishikawa, Hajime (setembro de 2000). «Genome sequence of the endocellular bacterial symbiont of aphids Buchnera sp. APS». Nature. 407 (6800): 81–86. ISSN 0028-0836. doi:10.1038/35024074
