Saúde
Hanão
Texto da Wikipédia (pt), licença CC BY-SA. O BETARUBI mostra o verbete inteiro nesta página — a leitura não continua fora do site.
| Rei de Cartago | |
|---|---|
| - | |
Hannibal Mago (en) |
| Nascimento | |
|---|---|
| Período de atividade |
século VI a.C. |
| Nome nativo |
𐤇𐤍𐤀 lingua não reconhecido : xpu |
| Nome no idioma nativo |
𐤇𐤍𐤀 lingua não reconhecido : xpu |
| Cidadania | |
| Atividades |
explorador navegador |
| Família |
Magonids (en) |
| Descendentes |
Himilco (en) |
Hanno's Periplus (d) |
Hanão, dito o Navegador (Hanno ou Hannon, Cartago, c. 500 a.C. —?440 a.C.) foi um almirante cartaginês que empreendeu na primeira metade do século V a.C. uma viagem de colonização e exploração pela costa atlântica da África, atingindo, pelo menos, a zona equatorial africana.[1] Para além da notícia de um vulcão em actividade (provavelmente o Monte Camarões), deve-se a Hanão a primeira descrição nas culturas mediterrânicas, depois adoptada pela greco-latina, do gorila e das selvas tropicais.
Biografia
O nome Hanão foi dado a muitos cartagineses. Textos antigos que mencionam especificamente Hanão, o Navegador, não fornecem muito para identificá-lo positivamente; alguns autores referiram-se a ele como um rei, enquanto outros se referiram a ele com as palavras em latim dux (líder, general) ou imperator (comandante, imperador).[2] A tradução grega do relato do périplo de Hanão chama-o de basileu,[3] um termo que pode ser interpretado como "rei", mas que era comumente usado para outros funcionários cartagineses de alto nível.[4]
O consenso acadêmico situa Hanão como tendo vivido em algum momento no século V a.C.,[nota 1] identificando-o como um membro da família aristocrática dos Magônidas.[6] R.C.C. Law identifica Hanão como o filho de Amílcar I.[7]
O Periplus Hannonis

Em data indeterminada da primeira metade do século VI a. C. (apontam-se datas que vão de 560 a 425 a.C.), quando Cartago estava no seu apogeu, foram organizadas expedições destinadas a conhecer e colonizar as costas atlânticas. Hanão foi encarregue dessas tarefas, que tinham como objetivo explorar as costas africanas para sul do Estreito de Gibraltar, juntamente com Himilco, que deveria explorar as costas europeias para norte daquele estreito. Seriam irmãos, embora tal possa ser em sentido não literal.
De Hímilco sabe-se pouco, mas Hanão deixou relato da sua viagem conhecido, desde a antiguidade clássica, como Périplo de Hanão, gravado numa estela votiva (um ex-voto) no templo de Ba’al Hammon, em Cartago. Ba’al Hammon (ou Baal) era a principal divindade cartaginesa (nas traduções do Periplus aparece referido, por aculturação, como Cronos, deus da mitologia greco-romana).
Quando os romanos arrasaram aquela cidade, no término da terceira Guerra Púnica, a estela foi destruída, mas não sem que antes fosse copiada. São cópias sucessivas dessa estela, em grego, que sobrevivem até aos nossos dias, para além de múltiplas citações e elaborações nos textos dos escritores clássicos greco-latinos.
O texto original do Periplus não sobreviveu. As cópias conhecidas mais antigas, de origem grega e bizantina, são os manuscritos Palatinus Graecus 398 (na Universidade de Heidelberg, Alemanha) e Vatopedinus 655 (parte no Museu Britânico em Londres e parte na Bibliothèque Nationale de Paris). É a partir dessas cópias, e das múltiplas referências dos autores clássicos, que o texto foi reconstituído.
O texto reconstituído do Periplus consta apenas de 18 parágrafos, e reconta, de forma linear e cronológica, a viagem de Hanão desde a sua partida até ao momento em que, por falta de mantimentos, decide regressar.
A viagem inicia-se, por decisão cartaginesa, como uma verdadeira expedição de reconhecimento e colonização. Uma frota de 60 navios, carregando 30 000 homens e mulheres (o número parece claramente exagerado), parte de Cartago em direcção às Colunas de Hércules (Gibraltar), com a missão de fundar cidades nos locais da costa atlântica de África que para isso fossem propícios.
Depois de fundar várias cidades, em locais que hoje estão identificados como várias baías, embocaduras de rios e promontórios da costa de Marrocos e do Saara Ocidental, Hanão continua para sul, acompanhando a costa africana.
Depois de explorar vários rios, onde encontra diversos povos, incluindo selvagens vestidos de peles que atiravam pedras (os guanches?) e etíopes, isto é, africanos de raça negra, e elefantes, crocodilos, hipopótamos e outros animais, Hanão chega a um lugar onde, durante a noite, grandes fogos eram visíveis. O dia revelou uma montanha que cuspia fogo, e grandes torrentes de lava que escorriam até ao mar. Deram à grande montanha coroada de fogo o nome de Carro dos Deuses (em grego clássico o Theon Ochema). Há quem afirme que o nome de Camarões dado àquele território deriva dessa denominação (Cameroun, palavra fenícia: camer + ayoun = carro dos deuses).
Uma análise da geologia da costa ocidental africana mostra que o único vulcão em erupção naqueles tempos era o Monte Camarões (hoje com 4 095 m de altitude, voltou a expelir lava múltiplas vezes ao longos dos últimos milénios, incluindo episódios que atingiram o mar já no século XX). Essa identificação, seguramente dada a inexistência de outros vulcões activos na área, permite avaliar a extensão do périplo.
Prosseguindo viagem, descreve as florestas tropicais e grandes rios, incluindo um com uma foz muito alargada e múltiplas ilhas, provavelmente o Rio Geba, na actual Guiné-Bissau.
Finalmente, encontrou hominídios peludos, a que o tradutor chama gorilas, cunhando o termo, dos quais apenas pode capturar três fêmeas, que mordiam e não se deixavam dominar. Foram mortas e as respectivas peles trazidas para Cartago. Plínio, o Velho afirma que as peles ainda se encontravam no templo de Tanit quando Cartago foi arrasada em 149 a.C. (História Natural, 6 200).
Acabados os mantimentos e tendo regressado a Cartago, o Periplus de Hanão nunca mais deixou de inflamar a imaginação dos autores subsequentes. Logo aquando da destruição da cidade, o geógrafo e historiador Políbio, com o apoio de Cipião Emiliano (184 a.C.-129 a.C.), tentou refazer a viagem.
A primeira edição moderna do Periplus de Hanão apareceu em Basileia em 1534, como apêndice à edição da obra de Arriano por Sigismund Gelenius. Essa edição foi seguida por outras, em Estrasburgo (1661), Leyden (1674) e Londres (1797), tornando-se, dado o crescente interesse pela geografia, numa das obras mais comentadas da antiguidade clássica.
Texto do Periplus Hannonis
O texto integral da versão conhecida do Périplo de Hanão, traduzido a partir da versão inglesa, é o seguinte (o nome dos lugares foi deixado na grafia greco-latina ou inglesa):
- Os cartagineses ordenaram a Hanão que empreendesse uma viagem para além dos Pilares de Hércules e fundasse algumas cidades púnicas. De acordo com as ordens, ele navegou com 60 navios de 50 remos cada, transportando 30 000 homens e mulheres, com as provisões e outros equipamentos necessários.
- Depois de, na nossa viagem, atravessarmos os Pilares de Hércules, e navegarmos durante dois dias para lá deles, fundámos a primeira cidade, a que chamámos Thymiaterion. Abaixo dela existe uma extensa planície.
- Navegando de lá na direcção do oeste, chegámos a Soloeis, um promontório africano, que está coberto por árvores.
- Aqui dedicámos um templo a Poseidon. Navegando para leste durante meio dia, chegámos a uma lagoa. Não era longe do mar e estava coberta com abundantes juncos longos, que elefantes e outros animais selvagens estavam comendo.
- Depois de deixarmos a lagoa, navegámos por um dia. À beira-mar fundámos cidades, chamadas Caricon Tico, Gite, Acra, Melita e Arambis.
- Continuando a nossa viagem a partir daí, atingimos o Lixo, um grande rio que corre da África. Os lixitas, uma tribo nómada, estavam a pastorear o seu gado junto a ele. Permanecemos com eles por algum tempo e tornámo-nos amigos.
- Para além do território deles, povos negros hostis ocupam uma terra plena de animais selvagens. Está rodeada pelas grandes montanhas de onde corre o Lixo. De acordo com os lixitas, povos estranhos habitam entre essas montanhas: homens das cavernas que correm mais rápido que cavalos.
- Quando conseguimos que intérpretes lixitas nos acompanhassem, navegámos para sul, ao longo da costa desértica, durante dois dias. Depois de navegarmos para leste por um dia, encontrámos, no recesso de uma baía, uma pequena ilha, cuja circunferência era de cinco estádios. Deixámos aí colonos e chamámo-lhe Cerne. Pela duração da viagem, calculámos que esta ilha fique na posição oposta de Cartago, pois o tempo de navegação de Cartago até aos Pilares de Hércules, e de lá até Cerne, era o mesmo.[8]
- Navegando daí, atravessámos um rio chamado Cretes e atingimos uma baía que continha três ilhas maiores do que a de Cerne. Depois de um dia de navegação a partir dali, chegámos ao fim da baía, que era dominada por grandes montanhas, cheias de selvagens vestidos com peles de animais (Os Guanches). Atirando pedras, eles impediram que desembarcássemos, e fizeram-nos afastar.
- Partindo dali, chegámos a outro grande rio, muito largo, cheio de crocodilos e hipopótamos. Regressando daí, voltámos para Cerne.
- A partir dali, navegámos para sul durante 12 dias. Mantivemo-nos próximo da costa, inteiramente habitada por negros, que fugiam de nós quando nos aproximávamos. A sua língua era incompreensível, mesmo para os nossos lixitas.
- No último dia ancorámos junto a umas altas montanhas. Elas estavam cobertas por árvores cuja madeira era aromática e colorida.
- Navegando em torno das montanhas durante dois dias, chegámos a uma imensa baía, para além da qual, do lado de terra, estava uma planície. Durante a noite observámos grandes e pequenos fogos, dispersos por toda a parte, flamejando de tempo em tempo.
- Tomando aí aguada, continuámos viagem durante cinco dias ao longo da costa, até que chegámos a uma grande baía, que de acordo com os nossos intérpretes era o Corno do Ocidente. Nela havia uma grande ilha, na qual existia uma lagoa, salgada como o mar, e nela outra ilha. Aqui desembarcámos. De dia não conseguimos ver nada a não ser floresta, mas durante a noite vimos muitos fogos acenderem-se, e ouvimos o som de flautas, o bater de címbalos e tambores e os gritos de uma multidão. Tivemos medo e os nossos adivinhos aconselharam que deixássemos a ilha.
- Navegámos rapidamente para fora dali, passando ao longo de uma costa ardente cheia de incenso. Grandes torrentes de fogo vazavam no mar, e a terra era inacessível devido ao calor.
- Rapidamente e com temor, navegámos para longe daquele lugar. Navegando durante quatro dias, vimos, à noite, a costa cheia de fogo. No meio havia uma grande chama, mais alta do que as outras, parecendo subir até às estrelas. De dia, verificámos que era uma grande montanha, a qual era chamada Carro dos Deuses.
- Navegando dali ao longo das torrentes de fogo, ao fim de três dias chegámos a uma baía chamada Corno do Sul.
- Neste golfo havia uma ilha, parecida com a primeira, com uma lagoa, no interior da qual havia outra ilha, cheia de selvagens. A maioria eram mulheres com o corpo coberto de pelos, a que os nossos intérpretes chamavam gorilas. Apesar de os termos perseguido, não pudemos apanhar nenhum macho: todos escaparam por serem grandes trepadores que se defendiam atirando pedras. Contudo, capturámos três mulheres, que se recusaram a seguir os que as tinham apanhado, mordendo-os e arranhando-os com as garras. Por isso, matámo-las e tirámo-lhes as peles, que trouxemos para Cartago. Não navegámos mais, pois as nossas provisões começavam a escassear.
Com o título de Périplo, ou circumnavegação de Hannon, trasladada do grego e annotada, foi publicado no Jornal de Coimbra, volume V (1819), a página 65 e seguintes, um artigo de Tomé Barbosa de Figueiredo Almeida Cardoso, onde se traduz para português e se comenta o Periplus Hannonis.[6] e um dos poucos relatos existentes de exploração antiga escrito pelo próprio explorador.[9][10] provavelmente deriva de um texto original cartaginês.[6]
Exploração para além de Cerné
Hanão, tendo regressado a Cerné sem ter encontrado nada de conclusivo, reabastece o seu navio e decide partir mais além. A imprecisão do texto, exceto no que diz respeito ao número de dias de navegação, não permite identificar com certeza os locais indicados.
Segundo o Périplo, a expedição atingiu vários pontos geográficos que os investigadores tentaram identificar. O «Carro dos Deuses» poderá ser o Monte Kakoulima ou o Monte Camarões, o «Corno do Sul» poderá ser a Ilha de Bonthe ou o Golfe da Guiné.[11] A esquadra dobra um promontório arborizado (o Cabo Verde?), segue depois ao longo do litoral e chega ao Corno do Ocidente (Baía do Benim?). Avista ao longe o Carro dos Deuses (Monte Camarões?), atingindo depois o Corno do Sul (baía de Biafra?). Parece, no entanto, mais provável que o «Corno do Sul», atingido após doze dias de navegação, estivesse situado na atual Libéria ou Guiné.
Hanão levou intérpretes entre os nómadas de Lixus, o que supõe que este entreposto existia há tempo suficiente para que alguns dos nativos se tivessem tornado bilingues. No entanto, os habitantes dos territórios subsarianos visitados pela expedição falavam línguas desconhecidas para estes guias, o que indicaria a ausência de tráfico transariano nessa época.
Problema das Ilhas Canárias
Parece impossível que, tendo entrepostos situados praticamente em frente às Ilhas Canárias, por vezes visíveis a olho nu a partir da costa, Fenícios ou Cartagineses nunca lá tenham ido, mesmo que não possuamos nenhum vestígio direto da sua eventual passagem.
As duas descrições de "ilhas contendo um lago que contém uma ilha" poderiam, aliás, ser uma perífrase — com o sentido exato alterado desde as transcrições do texto original — referindo-se, de fato, aos dois arquipélagos próximos da rota da expedição: as Canárias e as ilhas de Cabo Verde.
Crítica textual
Tanto autores antigos quanto modernos criticaram a obra. A maioria das tentativas de localizar os lugares descritos no périplo com base nas distâncias de navegação e direções relatadas falhou.[10] Para tornar o texto mais preciso, estudiosos tentaram a crítica textual. Em última análise, os cartagineses provavelmente editaram o relato real para proteger seu comércio: outros países não seriam capazes de identificar os lugares descritos, enquanto os cartagineses ainda poderiam se gabar de suas conquistas.[10] Oikonomides teoriza que o hipotético manuscrito púnico que foi traduzido para o grego estava, ele próprio, incompleto: omitia as partes posteriores do périplo original. O final da narrativa é abrupto, e também teria sido logicamente impossível que a expedição terminasse da forma descrita. Portanto, ele argumenta que as duas linhas finais devem ter sido inseridas para compensar um manuscrito incompleto.[8]
Expedição
Cartago enviou Hanão, à frente de uma frota de 60 navios, para explorar e colonizar a costa noroeste da África.[12] Ele navegou para o oeste de Cartago em direção à Península Ibérica, passando pelo Estreito de Gibraltar e fundando ou repovoando sete colônias ao longo da costa do (que é hoje o) Marrocos. Ele então continuou pelo menos alguma distância mais ao sul ao longo da costa atlântica do continente, supostamente encontrando vários povos indígenas ao longo de seu caminho, que receberam a frota com uma variedade de "boas-vindas".
O comércio de ouro foi um alicerce vital do império cartaginês desde o século V a.C., e o desejo de garantir a rota do ouro para a África Ocidental pode ter sido a motivação original para a exploração da África subsaariana.[13][10]
Vários estudiosos comentaram sobre a viagem de Hanão, afirmando que, em muitos casos, as análises serviram para refinar a informação e a interpretação do relato original. William Smith aponta que o complemento de pessoal totalizava 30 000 homens, e que a missão central incluía a intenção de fundar cidades cartaginesas (ou, na terminologia antiga, "líbio-fenícias").[14] Outras fontes questionaram este elevado número de homens, sugerindo que 5 000 seria um número mais preciso.[4] R.C.C. Law observa que "é uma medida da obscuridade do problema o fato de que, enquanto alguns comentaristas argumentaram que Hanão alcançou a área do Gabão, outros o levaram não mais longe do que o sul de Marrocos".[15]
Harden relata um consenso de que a expedição chegou pelo menos até ao Senegal.[16] Devido à vagueza do Périplo, as estimativas para a distância da viagem variam de menos de 700 milhas (1 100 km) a pelo menos 3 000 milhas (4 800 km).[17] Alguns concordam que ele poderia ter alcançado a Gâmbia. No entanto, Harden menciona discordância quanto ao limite máximo das explorações de Hanão: Serra Leoa, Camarões ou Gabão. Ele observa que a descrição do Monte Camarões, um vulcão de 4 040-metro (13 250 ft), corresponde mais de perto à descrição de Hanão do que o Monte Kakoulima da Guiné, de 890-metro (2 920 ft). Warmington prefere o Monte Kakoulima, considerando o Monte Camarões demasiado "distante".[18]
O historiador francês Raymond Mauny, no seu artigo de 1955 "La navigation sur les côtes du Sahara pendant l'antiquité", argumentou que os navegadores antigos (Hanão, Eutímenes, Cílax, etc.) não poderiam ter navegado para o sul ao longo da costa atlântica muito além do Cabo Bojador, no território do Saara Ocidental. Cartago, segundo relatos, conhecia e realizava algum comércio com os povos das Ilhas Canárias; os geógrafos antigos também estavam cientes do arquipélago, embora não de nada mais ao sul. Navios com velas quadradas, sem leme de popa, poderiam navegar para o sul, mas os ventos e correntes ao longo do ano complicariam ou impediriam a viagem de retorno do Senegal para Marrocos. Navios a remos poderiam conseguir o retorno para o norte, mas apenas com grandes dificuldades e uma tripulação numerosa. Mauny assumiu que Hanão não foi além da foz do rio Dráa, atribuindo artefatos encontrados na Ilha de Mogador à expedição descrita no Périplo de Pseudo-Cílax (datado de meados do século IV a.C.) e observando que nenhuma evidência de comércio mediterrâneo mais ao sul tinha sido encontrada até então. O autor termina sugerindo investigações arqueológicas nas ilhas ao longo da costa, como Cabo Verde, ou na île de Herné ("Ilha do Dragão", perto de Dakhla, Saara Ocidental), onde antigos aventureiros podem ter ficado retidos e se estabelecido.[19]
Gorillai
O final do périplo descreve uma ilha povoada por pessoas peludas e selvagens. As tentativas de capturar os homens falharam. Três das mulheres foram capturadas, mas eram tão ferozes que foram mortas e as suas peles levadas para Cartago.[20] As peles foram guardadas no Templo de Juno (Tanit ou Astarte) no retorno de Hanão e, de acordo com Plínio, o Velho, sobreviveram até à destruição romana de Cartago em 146 a.C., cerca de 350 anos após a expedição de Hanão.[21][22]
Os intérpretes de Hanão de uma tribo africana (lixitas ou nasamônios) chamavam as pessoas de Gorillai (em grego antigo, Γóριλλαι).[20] Em 1847, o gorila, uma espécie de primata, foi cientificamente descrito e nomeado em homenagem aos Gorillai. Os autores não identificaram afirmativamente os Gorillai de Hanão como o gorila.[23]
Relatos de autores antigos
O texto era conhecido pelo romano Plínio, o Velho (c. 23–79) e pelo grego Arriano de Nicomédia (c. 86–160).
Plínio, o Velho
Enquanto o poder de Cartago estava no seu auge, Hanão publicou um relato de uma viagem que realizou de Gades [a moderna Cádis] até a extremidade da Arábia; Himilcão também foi enviado, por volta da mesma época, para explorar as partes remotas da Europa.
Plínio pode ter registrado a época de forma vaga por ignorar a data real.[13] Sua afirmação de que Hanão circum-navegou completamente a África, chegando à Arábia, é considerada irrealista pela pesquisa contemporânea.
Arriano
Arriano menciona a viagem de Hanão ao final de sua Anábase de Alexandre VIII (Indica):
{{Harvnb|Arrian|2013|p=265}}.</ref>"}},"i":0}}]}' id="mwAXA"/>Hanão, o Líbio, partiu de Cartago com a Líbia à sua esquerda e navegou para além das Colunas de Hércules em direção ao Mar Exterior, continuando a sua viagem então numa direção leste por um total de trinta e cinco dias: mas quando ele finalmente virou para o sul, encontrou uma série de obstáculos paralisantes — falta de água, calor ardente, fluxos de lava jorrando no mar.
Heródoto
O historiador grego Heródoto, escrevendo por volta de 430 a.C., descreveu o comércio cartaginês na costa marroquina (Histórias 4.196[26]), embora seja duvidoso que ele estivesse ciente da própria viagem de Hanão.[13]
Análises modernas da viagem
Vários pesquisadores modernos comentaram a viagem de Hanão. Em muitos casos, a análise consistiu em refinar a informação e a interpretação do relato original. Em 1882, Henri Tauxier indicou que o périplo é uma provável construção helenística baseada em diversos périplos mitológicos.[11]
William Smith e Robin Law
William Smith destaca que o efetivo de pessoal chegava a 30 000 pessoas e que a missão básica incluía a intenção de fundar cidades cartaginesas (ou, nas línguas antigas, "libo-fenícias").[27] Alguns pesquisadores questionaram se tantas pessoas acompanharam Hanão em sua expedição, e sugerem que 5 000 é um número mais preciso.[28]
Robin Law observa que alguns comentaristas sustentaram que as expedições de Hanão não o levaram além do sul de Marrocos.[29]
Ponto de vista de Raymond Mauny
Em seu livro La Navigation sur les côtes du Sahara pendant l'Antiquité, o historiador Raymond Mauny (1912-1994) estima que, contrariamente às ideias geralmente aceitas, os navegadores da Antiguidade (Hanão, Eutímenes, Cílax de Carianda, etc.) navegando no oceano Atlântico nunca ultrapassaram o Cabo Bojador.
Havia, de fato, uma impossibilidade absoluta para os navios de velas quadradas e sem leme de cadaste de navegar contra os ventos e as correntes, [carece de fontes].
No que diz respeito aos navios a remos, havia, se não uma impossibilidade absoluta, pelo menos dificuldades muito grandes, que devem ter desencorajado os navegadores que haviam ultrapassado o Drá, dado que não havia nenhum lucro evidente a ser obtido de um prolongamento da viagem.
Nada nos textos permite afirmar que os Antigos alcançaram pelo mar a África Subsaariana ocidental e nenhum assentamento antigo foi encontrado ao sul de Mogador (Essaouira), embora seja certo que os Antigos conheciam as Canárias.
O autor termina desejando que sejam conduzidas escavações por arqueólogos espanhóis na Ilha de Cerné (Herné), no golfo do Río de Oro, local onde os Antigos, se percorreram essa costa, não devem ter deixado de se instalar.[30]
Legado
A cratera lunar Hanno foi nomeada em sua memória.[31]
O cantor e compositor Al Stewart tem uma música sobre Hanão em seu álbum Sparks of Ancient Light.[32]
Historiografia
No século XVI, a viagem de Hanão registrou um aumento no interesse acadêmico por parte dos europeus, em uma época em que a exploração e a navegação europeias estavam florescendo. Já naquela época, a extensão da viagem de Hanão era alvo de debates.[33]
Notas
Referências
- ↑ «Hanão» (em catalão). GEC. Consultado em 10 de maio de 2020
- ↑ Schmitz 1867.
- ↑ Hanno 1977.
- 1 2 Lendering 2020.
- ↑ Law 1978.
- 1 2 3 4 Warmington 1960.
- ↑ Law 1978.
- 1 2 Oikonomides 1977.
- ↑ Cary & Warmington 1929.
- 1 2 3 4 Warmington 1960.
- 1 2 Mauny, Raymond. "Trans-Saharan contacts and the Iron Age in West Africa", The Cambridge History of Africa: Volume 2: From c.500 BC to AD 1050, vol. 2, Cambridge University Press, 1979, pp. 272–341.
- ↑ Warmington 1960.
- 1 2 3 Warmington 1960.
- ↑ Schmitz 1867.
- ↑ Law 1978.
- ↑ Harden 1963, p. 168.
- ↑ Murray 1844, p. 12.
- ↑ Warmington 1960, p. 79.
- ↑ Mauny 1955.
- 1 2 Hanno 1977.
- ↑ Lendering 2020.
- ↑ Hoyos 2010.
- ↑ Savage & Wyman 1847.
- ↑ Pliny the Elder 1855, Livro 2, Capítulo 67
- ↑ Arrian 2013, p. 265.
- ↑ Herodotus 1920, 4.196.
- ↑ Smith, William (2005) [1870]. Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. 2 (em inglês). [S.l.]: The Ancient Library. 346 páginas
- ↑ «Hanno the Navigator (2)». Livius (em inglês). 26 de julho de 2014
- ↑ Fage, J. D.; Oliver, Roland Anthony (1975). The Cambridge History of Africa (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. 135 páginas. ISBN 978-0-521-21592-3. Consultado em 22 de janeiro de 2018
- ↑ Mauny, Raymond (1955). «La navigation sur les côtes du Sahara pendant l'antiquité». Revue des Études Anciennes (em francês). 57 (1): 92–101. doi:10.3406/rea.1955.3523. Consultado em 22 de janeiro de 2018
- ↑ «Planetary Names: Crater, craters: Hanno on Moon». Gazetteer of Planetary Nomenclature. União Astronómica Internacional, United States Geological Survey, e National Aeronautics and Space Administration. Consultado em 31 de outubro de 2020. Cópia arquivada em 17 de maio de 2026
- ↑ Hanão (em inglês) no AllMusic
- ↑ Kroupa 2019.
Bibliografia
- Baurian, Claude (2015). «Punic». In: Selden, Daniel L.; Vasunia, Phiroze. The Oxford Handbook of the Literatures of the Roman Empire. Oxford University Press. ISBN 978-0-19-969944-5. doi:10.1093/oxfordhb/9780199699445.013.26 – via Oxford Handbooks Online
- Bunbury, Edward Herbert (1883) [1879]. A History of Ancient Geography Among the Greeks and Romans. 1 2ª ed. Londres: John Murray. OCLC 819670798
- Carpenter, Rhys (1966). Nef, Evelyn Stefansson, ed. Beyond the Pillars of Heracles: The Classical World Seen through the Eyes of its Discoverers. Col: The Great Explorers. Nova Iorque: Delacorte Press. OCLC 497693
- Cary, Max; Warmington, Eric Herbert (1929). The Ancient Explorers. Londres: Methuen & Co.
- Dugan, Holly (2020). «Renaissance Gorillas». Wayne State University Press. Criticism. 62 (3): 387–410. doi:10.13110/criticism.62.3.0387
- Harden, Donald Benjamin (1963) [1962]. Daniel, Glyn, ed. The Phoenicians. Col: Ancient Peoples and Places 2ª ed. Nova Iorque: Frederick A. Praeger
- Hoyos, Dexter (2010). The Carthaginians. [S.l.]: Routledge. ISBN 978-0-415-43645-8. Cópia arquivada em 26 de março de 2023
- Huss, Werner (1985). Geschichte der Karthager [História dos Cartagineses]. Col: Handbuch der Altertumswissenschaft (em alemão). Munique: C. H. Beck. ISBN 978-3-406-30654-9
- Kroupa, Sebestian (2019). «Humanists and Travellers, Gorgons and Gorillas: Hanno the Navigator's 'Periplus' and Early Modern Geography (1530–1630)» (PDF). Routledge. International History Review. 41 (4): 793–820. doi:10.1080/07075332.2018.1464044. ProQuest 2248796890. Cópia arquivada (PDF) em 8 de outubro de 2022
- Law, R. C. C. (1978). «North Africa in the period of Phoenician and Greek colonization, c. 800 to 325 BC». In: Fage, John Donnelly; Oliver, Roland Anthony. The Cambridge History of Africa. 2. [S.l.]: Cambridge University Press. pp. 87–147. ISBN 978-0-521-21592-3
- Lendering, Jona (2020) [1998]. «Hanno the Navigator». Livius. Consultado em 30 de agosto de 2021. Cópia arquivada em 26 de abril de 2026
- Mauny, Raymond (1955). «La navigation sur les côtes du sahara pendant l'antiquité» [A Navegação nas Costas do Saara durante a Antiguidade]. Bordeaux Montaigne University. Revue des Études Anciennes (em francês). 57 (1): 92–101. doi:10.3406/rea.1955.3523
- Murray, Hugh (1844). An Encyclopædia of Geography 2ª ed. Londres: Longman, Brown, Green, and Longmans. Cópia arquivada em 14 de agosto de 2023
- Oikonomides, Al. N. (1977) [1974]. «Introduction». In: Oikonomides, Al. N. Periplus, or Circumnavigation (of Africa) 2ª ed. Chicago: Ares Publishers. pp. 9–21. ISBN 978-0-89005-217-4. OCLC 880515097
- Savage, Thomas Staughton; Wyman, Jeffries (dezembro de 1847). «Notice of the External Characters and Habits of Troglodytes gorilla, a New Species of Orang from the Gaboon River». Boston Society of Natural History. Boston Journal of Natural History. 5 (4): 417–442. BHL page 32267712. Cópia arquivada em 11 de janeiro de 2026
- Schmitz, Leonhard (1867). «Hanno». In: Smith, William. Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology. 2. Boston: Little, Brown, and Company. pp. 346–347. Cópia arquivada em 15 de novembro de 2025
- Soren, David; ben Khader, Aicha ben Abed; Slim, Hedi (1991). Carthage. Col: Touchstone Books. [S.l.]: Simon & Schuster. ISBN 978-0-671-73289-9
- Thomson, James Oliver (2013) [1948]. History of Ancient Geography. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-1-107-68992-3. Cópia arquivada em 3 de dezembro de 2024
- Warmington, Brian Herbert (1960). Carthage. Nova Iorque: Frederick A. Praeger
- Jehan Desanges (1978). Recherches sur l'activité des méditerranéens aux confins de l'Afrique : VIe siècle av. J.-C. - IVe siècle apr. J.-C. Col: Collection de l'École française de Rome, 38 (em francês). Roma: [s.n.] pp. 392–403. Cópia arquivada em 25 de abril de 2026
- François Decret (1977). Carthage ou l'empire de la mer (em francês). Paris: Éditions du Seuil
- Stéphane Gsell (1913–1920). Histoire ancienne de l'Afrique du Nord (em francês). 4 tomos. Paris: [s.n.]
- Maurice Sartre (2021). Le Bateau de Palmyre. Quand les mondes anciens se rencontraient (em francês). [S.l.]: Tallandier. ISBN 979-10-210-4683-2
Fontes antigas
- Arrian (2013). Alexander the Great: The Anabasis and the Indica. Traduzido por Hammond, Martin. [S.l.]: Oxford World's Classics. ISBN 978-0-19-958724-7
- Hanno (1977) [1974]. «Periplus». In: Oikonomides, Al. N. Periplus, or Circumnavigation (of Africa). Traduzido por Oikonomides, Al. N. 2ª ed. Chicago: Ares Publishers. pp. 24–29. ISBN 978-0-89005-217-4. OCLC 880515097
- Herodotus (1920). The Histories. Traduzido por Godley, Alfred Denis. Cambridge, Mass.: Harvard University Press. Cópia arquivada em 20 de julho de 2026 – via Perseus Digital Library
- Pliny the Elder (1855). The Natural History. Traduzido por Bostock, John; Riley, Henry Thomas. Londres: Taylor and Francis. Cópia arquivada em 22 de março de 2026 – via Perseus Digital Library
Ligações externas
- «Conquista do Planeta Azul, por J. A. Dias ((em português));»
- «O Périplo de Hanão (informação vária, em inglês);»
- «Moderna interpretação geográfica do Périplo de Hanão ((em inglês));»
- «A circumnavegação da África ((em inglês));»
- «The voyage of Hanno" analisada por Livio Catullo Stecchini ((em inglês));» (Internet Archive)
- «O texto do Periplus em inglês;»
- «Hanno, a Carthaginian navigator por Charles Smith, Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology (1867) ((em inglês)).»
