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Gemeinschaft e Gesellschaft
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Gemeinschaft e Gesellschaft, geralmente traduzidos como "comunidade" e "sociedade", são categorias que foram usadas pelo sociólogo alemão Ferdinand Tönnies a fim de categorizar as relações sociais em duas espécies.[1] A Gesellschaft é associado à sociedade moderna e o interesse próprio racional, o que enfraquece os laços tradicionais de família e da comunidade local que caracterizam a Gemeinschaft. Max Weber, figura fundadora da sociologia, também escreveu extensivamente sobre a relação entre Gemeinschaft e Gesellschaft. Weber escreveu em resposta direta a Tönnies.[2]
Dicotomia Gemeinschaft-Gesellschaft
De acordo com a dicotomia, as relações sociais podem ser categorizadas, por um lado, como pertencentes às interações sociais pessoais, e os papéis, valores e crenças baseados em tais interações (Gemeinschaft, do alemão, geralmente traduzido como "comunidade"), ou por outro lado pertencente a interações indiretas, papéis impessoais, valores formais, e crenças baseadas nessas interações (Gesellschaft, do alemão, comumente traduzido como sociedade, no sentido de associação, corporação, incluindo empresa, estado moderno e academia).[3]
A dicotomia Gemeinschaft–Gesellschaft foi formulada por Tönnies como uma ferramenta puramente conceitual e não como tipo ideal como na forma que foi usada por Max Weber para acentuar os elementos centrais de uma mudança histórico-social.
Tönnies foi um estudioso de Thomas Hobbes— ele editou as edições modernas padrão de Os Elementos da Lei Natural e Política[4] e Leviatã.[5] Foi o estudo de Hobbes que o inspirou a dedicar-se inteiramente à filosofia da história e à filosofia do direito. E tem-se discutido que ele derivou dele ambas categorias dos conceitos de "concordância" e "união".[6]
A segunda edição, publicada em 1912, da análise na qual Tönnies elaborou mais profundamente sobre os conceitos se tornou um sucesso inesperado mas duradouro[7] depois da primeira edição publicada em 1887 com o subtítulo "Tratado do Comunismo e do Socialismo como Formas Culturais Empíricas".[8] Mais sete edições alemãs foram publicadas, a última em 1935,[9] e passou a fazer parte do acervo geral de ideias com o qual os intelectuais alemães anteriores a 1933 estavam bastante familiarizados. O livro desencadeou o ressurgimento do pensamento corporativista, incluindo a ascensão do neomedievalismo, o aumento do apoio ao socialismo de guildas, e causou grandes mudanças no campo da sociologia[10] A distinção entre Gemeinschaft e Gesellschaft abrangeu grande parte das discussões e debates sobre o que caracteriza comunidade, entre teóricos sociais de grande influência no final do século XIX e início do século XX, como Georg Simmel, Émile Durkheim e Max Weber.[11]
Os conceitos Gemeinschaft e Gesellschaft também foram usados por Max Weber em Economia e Sociedade, o qual foi publicado pela primeira vez em 1921. Weber escreveu em resposta direta a Tönnies,[12] e argumentou que Gemeinschaft se origina em um “sentimento subjetivo” que pode ser "afetivo ou tradicional". Relações baseadas na Gesellschaft, de acordo com Weber, provêm de "um acordo racional por consentimento mútuo", cujo melhor exemplo é um contrato comercial." Para enfatizar a fluidez e a natureza amorfa da relação entre Gemeinschaft e Gesellschaft, Weber alterou os termos em alemão para Vergemeinschaftung, e Vergesellschaftung, que são as formas de gerúndio das palavras em alemão.[13] A distinção de Weber entre Gemeinschaft e Gesellschaft é destacada no ensaio "Classe, Estamento, Partido",[14] que é a base de sua teoria dos três componentes da estratificação.
À apresentação de sua concepção sobre a dicotomia, Tönnies se viu envolvido em uma polêmica acirrada com Émile Durkheim. Em uma resenha do livro de Tönnies em 1889, Durkheim interpretou Gemeinschaft como caracterizada pela solidariedade mecânica e Gesellschaft como caracterizada como solidariedade orgânica, criticando o autor por considerar o segundo tipo de organização social artificial e não elaborar sobre a transição de um tipo para o outro. Durkheim afirmou que a abordagem dele para compreender Gesellschaft era "completamente ideológica" mas que "não se pode não reconhecer nesse livro um pensamento verdadeiramente vigoroso e um poder de organização incomum".[15] Tönnies não concordou com a interpretação de Durkheim sobre sua visão, e em troca, ao resenhar Da Divisão do Trabalho na Sociedade (1893), escreveu que Durkheim falhou em abordar de forma suficientemente crítica a divisão do trabalho e que toda a sua sociologia era uma modificação da de Spencer (que possuía sua própria dicotomia entre o que chamava de “sociedade militante” e a “sociedade industrial”).[15]
Nas propagandas da Primeira Guerra Mundial mulheres abnegadas (virtuosas) eram retratadas como o cerne do Gemeinschaft servindo de modelo para a cuidadora do lar dedicada que apoiava os esforços da guerra mandando seus homens (maridos e filhos) para servir na guerra, e cuidar da casa em suas ausências. (Nas propagandas de guerra a "mulher virtuosa" era um ideal contrastado a arquétipos apresentados como imorais ou antiéticos em mulheres).[16]
Globalização
Eric Hobsbawm argumentou que, como a globalização tranforma o planeta inteiro em um tipo de Gesellschaft cada vez mais distante, então as identidades políticas coletivas também buscam uma reformulação fictícia das qualidades do Gemeinschaft reconstruindo os vínculos e identidades grupais.[17]
Fredric Jameson destaca a inveja ambivalente sentida por aqueles construídos pela Gesellschaft em relação aos enclaves restantes da Gemeinschaft, mesmo que estes corroam inevitavelmente a sua existência.[18]
Edição mais recente
Gemeinschaft und Gesellschaft. 1880-1935., hrsg. v. Bettina Clausen und Dieter Haselbach, De Gruyter, Berlin/Boston 2019 (Ferdinand Tönnies Gesamtausgabe, Band 2).
Referências
- ↑ HOBBSBAWM, Eric.Globalization, Democracy and Terrorism (2007), p. 93.
- ↑ WEBER, 1968, p. 4, e 40-43.
- ↑ Tönnies, Ferdinand (1887). Gemeinschaft und Gesellschaft, Leipzig: Fues's Verlag. Uma tradução para o inglês da 8ª edição de 1935, feita por Charles P. Loomis, foi publicada em 1940 com o título Fundamental Concepts of Sociology (Gemeinschaft und Gesellschaft), Nova York: American Book Co.; em 1955 como Community and Association (Gemeinschaft und gesellschaft[sic]), Londres: Routledge & Kegan Paul; e, em 1957, como *Community and Society*, East Lansing: Michigan State U.P. Loomis inclui como introdução, representando o “pensamento mais recente” de Tönnies, seu artigo de 1931 “Gemeinschaft und Gesellschaft”, publicado no *Handwörterbuch der Soziologie* (Stuttgart, Enke V.).
- ↑ HOBBES, Thomas (1889). Tönnies, Ferdinand (ed.). The Elements of Law Natural and Politic. London: Simpkin, Marshall & Co
- ↑ HOBBES, Thomas (1889). Tönnies, Ferdinand (ed.). Behemoth or the Long Parliament. London: Simpkin, Marshall & Co
- ↑ HONT, Istvan (2015). Kapossy, Béla; Sonenscher, Michael (eds.). Politics in Commercial Society: Jean-Jacques Rousseau and Adam Smith. Cambridge, MA: Harvard UP. p. 6.
- ↑ Publicado com um subtítulo mais abstrato: Basic Terms of Pure Sociology (em alemão: "Grundbegriffe der reinen Soziologie")
- ↑ Em alemão: Abhandlung des Communismus und des Socialismus als empirischer Culturformen
- ↑ A edição de 1935 foi reimpressa em 2005 pela Wissenschaftliche Buchgesellschaft, Darmstadt.
- ↑ KLARÉN, Peter F.; BOSSERT, Thomas J. Promise of development: theories of change in Latin America. Boulder, Colorado, EUA: Westview Press, 1986. p. 221.
- ↑ CAVES, R.W. (2004). Encyclopedia of the City. Routledge. p. 288.
- ↑ WEBER, 1968, p. 4, e 40-43.
- ↑ Para mais discussão, veja Waters and Waters 2015:3-6, in Weber's Rationalism and Modern Society. New York: Palsgrave MacMillan
- ↑ WEBER, Max, 2015:37-58 in Weber's Rationalism and Modern Society, Tony Waters and Dagmar Waters eds. New York: Palsgrave MacMillan
- 1 2 ALDOUS, Joan; DURKHEIM, Émile; TONNIES, Ferdinand (Maio,1972). "An Exchange Between Durkheim and Tönnies on the Nature of Social Relations, with an Introduction by Joan Aldous". American Journal of Sociology. 77 (6): 1191. doi:10.1086/225264. S2CID 145630674
- ↑ KINGSBURY, Celia Malone (2010). For Home and Country: World War I Propaganda on the Home Front. University of Nebraska Press. pp. 68–71.
- ↑ HOBBSBAWM, Eric.Globalization, Democracy and Terrorism (2007), p. 93.
- ↑ M. Hardt/K. Weeks (eds.), The Jameson Reader (2000), p. 145.
