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Fazenda de Sant'Ana
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Fazenda de Sant'Ana, também conhecida como Fazenda do Tietê ou Fazenda de Santana, foi uma propriedade rural do Colégio de São Paulo da Companhia de Jesus, formada a partir de 1673 na margem direita do rio Tietê, em terras que atualmente integram a Zona Norte da cidade de São Paulo. Em meados do século XVIII, era a mais importante fazenda administrada pelo colégio jesuítico paulista e contribuía para o abastecimento da cidade. Após a expulsão dos jesuítas dos domínios portugueses, em 1759, seus bens foram incorporados à Coroa.[1]
A sede da propriedade situava-se na atual rua Alfredo Pujol, no local posteriormente ocupado pelo Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo (CPOR/SP). A antiga fazenda esteve relacionada à formação do núcleo histórico de Santana, embora não deva ser confundida com o Núcleo Colonial de Santana, assentamento de imigrantes instituído pelo governo imperial apenas em 1877 sobre parte das antigas terras públicas da região.[2]
História
A ocupação colonial da região situada além do Tietê antecedeu a constituição da fazenda jesuítica. No século XVI, havia propriedades nas proximidades da Ponte Grande, assim como terras ocupadas no Guarepe e no Mandaqui. A historiografia também registra uma referência do padre José de Anchieta ao Guaré, antigo nome da área da Luz, em carta dirigida ao padre Manuel de Paiva. Essa menção dizia respeito ao Guaré e não à Fazenda de Santana, cuja formação documental remonta ao século XVII.[3]
Em 1673, os herdeiros de Inês Monteiro, conhecida como a Matrona, doaram terras ao Colégio da Companhia de Jesus. A propriedade passou a ser conhecida como Fazenda do Tietê e, posteriormente, Fazenda de Santana. Em 1675, o reitor do colégio, padre Lourenço Craveiro, requereu terras alagadiças junto ao Tietê e procurou justificar a posse do sítio Mandaqui, localizado no caminho de Tremembé e contíguo à fazenda. O sítio havia pertencido a Mateus Pacheco de Lima, que o recebera de Francisco Rendon de Quevedo em 1670.[1]
O domínio foi ampliado por aquisições e permutas. Em 1721, uma troca de sítios autorizada por Maria Gaga e uma nova aquisição realizada pelo reitor do colégio incorporaram outras áreas à propriedade. A sucessiva reunião dessas terras permitiu aos jesuítas organizar uma unidade rural de grandes proporções, que se tornou, em meados do século XVIII, a principal fazenda do Colégio de São Paulo.[1]
Em meados do século XVIII, a Fazenda de Santana possuía aproximadamente trezentas cabeças de gado bovino e dez cavalos. Produzia leite, mandioca, legumes e frutas destinados, ao menos parcialmente, ao abastecimento da cidade de São Paulo. Maria Celestina Torres, baseando-se na obra do jesuíta Serafim Leite, registra a presença de 140 “servos”, sem identificá-los como escravizados, instalados em casas separadas. Uma relação dos bens confiscados aos jesuítas informa que, em 1771, existiam 47 casas e 176 moradores na propriedade.[1]
A fazenda dispunha de uma igreja e de uma residência destinada aos religiosos. Em 1727, diante do estado de ruína da Igreja de Santa Ana, o reitor José Viveiros determinou sua restauração e a construção de uma casa anexa. O conjunto foi concluído em 1735 e passou a servir como residência permanente de dois padres. A casa possuía oito aposentos, dois corredores, varanda, pavimento superior, cozinha, refeitório e ferraria. Inventários posteriores mencionam ainda carpintaria, casa de farinha de mandioca, instalações para o beneficiamento de algodão, depósitos, arados, carros, roda-d'água, pilões, fornos, ferramentas e utensílios diversos.[1]
Uma descrição de 1766 indica que as terras da fazenda se estendiam, de um lado, até a estrada de Jundiaí e, de outro, até a várzea do Tietê, abrangendo áreas no Mandaqui, Tremembé, Aguaraí e na Serra da Cantareira. A propriedade articulava-se aos caminhos que partiam de Santana em direção a Juqueri, Atibaia, Bragança Paulista e ao sul de Minas Gerais, mas essas rotas ultrapassavam seus limites e não podem ser consideradas como divisas da fazenda.[1][2]
A lei portuguesa de 3 de setembro de 1759 determinou a expulsão dos jesuítas e o sequestro de seus bens temporais. Como consequência, a Fazenda de Santana deixou de pertencer à Companhia de Jesus e passou à Coroa.[4][1] Sob administração pública, suas terras e instalações receberam diferentes usos e foram progressivamente desmembradas.

Durante o período da Independência do Brasil, integrantes da família Andrada residiram na antiga sede, que ficaria conhecida como Solar dos Andradas. Segundo um relatório de 1864 do conselheiro Manuel Joaquim do Amaral Gurgel, José Bonifácio de Andrada e Silva teria redigido no local, em dezembro de 1821, a representação do governo paulista que contribuiu para a decisão do príncipe-regente D. Pedro de permanecer no Brasil, anunciada durante o Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822. Torres registra o episódio em formulação condicional, fundamentando-se nesse depoimento posterior.[1]
Em 1825, a antiga sede foi transformada pelo presidente da província, Lucas Antônio Monteiro de Barros, no Seminário de Educandos de Santana, instituição destinada à instrução e à assistência de meninos pobres. Relatórios provinciais das décadas seguintes registraram a precariedade das instalações e as sucessivas tentativas de introdução do ensino profissional no estabelecimento. Ao longo do século XIX, o conjunto também funcionou como hospital e cemitério para vítimas de varíola e, posteriormente, como hospedaria de imigrantes.[5]
Entre 1877 e 1878, parte das antigas terras foi destinada ao Núcleo Colonial de Santana. O antigo casarão serviu como hospedaria para os colonos recém-chegados, enquanto a área circundante foi dividida em lotes rurais. O núcleo foi emancipado em 1878, deixando de depender diretamente do auxílio oferecido pelo governo provincial.[2][6]
No final do século XIX, depois do loteamento de parcelas da antiga propriedade, a sede passou a servir como quartel. Desde 1893, recebeu contingentes de diferentes armas do Exército Brasileiro. O casarão de taipa, que já havia sido descrito como arruinado em décadas anteriores, permaneceu em pé até 1916, quando a sede, as tulhas, a senzala e a capela foram demolidas para a construção de um novo quartel na rua Alfredo Pujol. O local seria posteriormente ocupado pelo Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo CPOR/SP.[5]
A Fazenda de Santana constituiu um dos principais polos rurais do norte paulistano durante o período colonial. Sua produção, sua capela, os caminhos que a conectavam à cidade e a posterior utilização pública da sede contribuíram para a consolidação do povoamento de Santana .O parcelamento das antigas terras e a implantação do núcleo colonial no século XIX integraram a transição de uma paisagem predominantemente rural para a formação dos bairros que, no século XX, seriam incorporados à expansão urbana de São Paulo.[2]
Ver também
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Torres, Maria Celestina Teixeira Mendes (1970). O bairro de Santana. Col: História dos bairros de São Paulo. VI. São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo. pp. 17–21
- 1 2 3 4 Marcondes, Raissa Campos (2021). A urbanização da Zona Norte de São Paulo: agentes, paisagens e tensões em torno do Tramway da Cantareira (1893–1924) (Tese de Mestrado em História). Guarulhos: Universidade Federal de São Paulo. pp. 48–64. Consultado em 27 de julho de 2026
- ↑ Torres, Maria Celestina Teixeira Mendes (1970). O bairro de Santana. Col: História dos bairros de São Paulo. VI. São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo. pp. 12–17
- ↑ «Parecer sobre aforamento — bens sequestrados aos jesuítas». MemóriaSPU. Consultado em 27 de julho de 2026
- 1 2 Torres, Maria Celestina Teixeira Mendes (1970). O bairro de Santana. Col: História dos bairros de São Paulo. VI. São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo. pp. 68–73
- ↑ Udaeta, Rosa Guadalupe Soares (2011). «Hospedarias de Núcleos Coloniais: os casos de Santana, São Caetano e São Bernardo (1877–1879)» (PDF). São Paulo: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História. Consultado em 27 de julho de 2026
Referências
Bibliografia
- Ponciano, Levino (2001). Bairros paulistanos de A a Z. São Paulo: SENAC. pp. 107–108. ISBN 8573592230
- Associação Comercial de São Paulo Distrital Santana (2002). Revista 220 Anos Santana. 2 – Ano 2. São Paulo: [s.n.]
