Saúde
Convento dos Cardais
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| Convento dos Cardais | |
|---|---|
| Informações gerais | |
| Património de Portugal | |
| DGPC | 73711 |
| SIPA | 4017 |
| Geografia | |
| País | Portugal |
| Localização | Freguesia de Mercês |
| Coordenadas | 38° 42′ 53″ N, 9° 08′ 52″ O |
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O Convento dos Cardais ou da Conceição dos Cardais (também grafado Cardaes) é um convento localizado no bairro das Mercês, em Lisboa. Foi fundado por D. Luísa de Távora (1609-1692) para alojar religiosas da Ordem das Carmelitas Descalças, tendo a aristocrata lá residido e falecido.[1]
Este é um dos raros edifícios históricos de Lisboa que sairam quase incólumes do grande terramoto de 1755 e um dos únicos conventos em Portugal que sempre se manteve activo para a mesma finalidade desde que foi criado no século XVII.[2]
O Convento dos Cardais está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1943.[2]
História
Origens
Existia originalmente um recolhimento feminino de invocação da Nossa Senhora da Conceição situado no Sítio dos Cardais, nas imediações da cerca do Convento de Jesus. Esta estrutura primitiva, sob a alçada da Casa Távora, havia sido criada por Rui Lourenço de Távora, abrigando cerca de 50 mulheres de virtude reconhecida sob a direcção de D. Catarina de Sá, vinda do recolhimento de São Cristóvão e falecida em 1668.[2][3][4][5] A transformação deste espaço num reduto carmelita deveu-se à iniciativa de D. Luísa de Távora, ilustre fidalga nascida em 1609, filha de Álvaro Pires de Távora, 5.º Senhor do Morgado de Torre da Caparica, e de D. Maria de Lima, filha do 7.º Visconde de Vila Nova da Cerveira. A aristocrata herdara o património familiar após o falecimento da sua sobrinha, D. Helena de Távora, casando-se posteriormente em 1631 com Luís Francisco de Oliveira e Miranda, 11.º Senhor dos Morgados de Oliveira e Sobrados, 9.º Senhor do Morgado da Patameira e comendador de Santa Eulália na Ordem de Cristo.[4][5]
Ao ficar viúva em 1647, D. Luísa ingressou no mosteiro de Santos-o-Novo por indicação do monarca D. João IV, assumindo o cargo de comendadeira da Ordem de Santiago a partir de 1671 (ou 1675, consoante as fontes). Esta nomeação suscitou forte oposição por parte das religiosas residentes, as quais manifestaram o seu descontentamento em três ocasiões distintas junto do príncipe D. Pedro, alegando o acesso imediato de D. Luísa ao cargo de comendadeira sem que esta conhecesse previamente a vida conventual.[2][4][5] Perante esta hostilidade e motivada pelo seu profundo fervor a Santa Teresa de Ávila e à reforma carmelita, a fundadora decidiu, logo em 1671, instituir uma renda anual de 600$000 réis para edificar um convento num ambiente mais propício ao isolamento. A este desejo somava-se a necessidade de cumprir uma disposição testamentária do seu tio-bisavô, Garcia Rodrigues de Távora, que exigia a criação de uma casa da Ordem de Cristo, pelo que D. Luísa solicitou um breve pontifício a Roma, conseguindo a autorização para comutar a exigência original para a edificação de um convento da Ordem das Carmelitas Descalças.[2][3][4][5]
O novo convento
Os trabalhos de conversão e ampliação das estruturas pré-existentes arrancaram por volta de 1677, implicando o dispêndio de uma larga porção da fortuna pessoal de D. Luísa, que doou terrenos adjacentes e assegurou o financiamento vitalício da congregação. A autorização régia para a alteração institucional foi precedida por um despacho do Desembargo do Paço datado de 22 de Novembro de 1681, sendo concedida pelo Príncipe Regente através de um alvará a 2 de Dezembro desse mesmo ano, o qual determinava "que não teria effeito esta fundação senão depois de feita a fabrica do convento e posto elle com todas as offecinas em perfeição".[2][3][4][5]
Na noite de 7 de Dezembro de 1681, quatro monjas deixaram o Convento de Santo Alberto, na Pampulha, para se instalarem no novo recinto. Este grupo fundador integrava a Madre Micaela do Santíssimo Sacramento e a irmã Umbelina Teresa de Santa Maria, ambas oriundas de Aveiro; a irmã Maria de Cristo, vinda de Santo Alberto; e a madre Maria Teresa de Jesus, originária do convento de Carnide.[2][4][5] Constituindo o quinto convento desta ordem em Portugal, abriu oficialmente no dia 8 de Dezembro. A comunidade atingiria, apenas em 1688, as 21 freiras, número ideal estipulado pela regra de Santa Teresa. No alvorecer do dia seguinte à chegada, dedicado à Imaculada Conceição, procedeu-se à celebração da primeira eucaristia, à entronização do Santíssimo Sacramento e à efectivação da cerimónia de clausura. Embora as instalações já permitissem a habitação, a campanha de obras prolongou-se bastante.[3][4][6][5]

Após o falecimento de D. Luísa de Távora, em 1692 (ou 1693, consoante as fontes), com o edifício ainda inacabado, o patrocínio transitou para o seu herdeiro, o seu neto D. José de Meneses e Távora. Por disposição testamentária da fundadora, cabia-lhe continuar a obra e determinar o lugar do seu túmulo na capela, vontade que terá ficado por cumprir, visto nunca ter sido aí sepultado. Para assegurar o sustento das religiosas, D. Luísa legara rendimentos provenientes de propriedades em Almada, Sesimbra, Setúbal e Lisboa. As empreitadas foram dadas como terminadas por volta de 1703, ano da morte do neto, o que não impediu que o convento continuasse a ser erguido e decorado. Diversos artífices de renome colaboraram nesta fase, destacando-se o arquitecto João Antunes e o entalhador José Rodrigues Ramalho, a quem se atribui a execução do retábulo da igreja em 1688. O desenho dos embutidos a brecha da Arrábida para o embasamento da capela-mor data de 9 de Fevereiro de 1693, tendo sido concebido por Ramalho e Antunes e executado pelos pedreiros Manuel Antunes, João Teixeira e João Esteves.[2][3][4][5] No século XVIII, a igreja foi enriquecida com painéis de azulejos de António Pereira Ravasco e produções pictóricas de Bento Coelho da Silveira (finais do séc. XVII), de André Gonçalves (cerca de 1720, responsável por uma Anunciação, Adoração dos Pastores, Coroação da Virgem e uma Imaculada para a boca da tribuna, bem como uma outra Coroação da Virgem concebida especificamente para o coro-alto) e de Vieira Lusitano (que pintou uma Nossa Senhora da Conceição).[2]

Sismo e reconstrução
O terramoto de 1 de Novembro de 1755 provocou danos no complexo arquitectónico, forçando as freiras a recolherem-se temporariamente em barracas de madeira erguidas provisoriamente no interior da cerca. Os registos das Memórias Paroquiais datados de 26 de Abril de 1758, redigidos pelo pároco Joaquim Ribeiro de Carvalho, atestam a permanência das mulheres nestas barracas e referem a sujeição das mesmas aos religiosos do Convento dos Remédios à Estrela, sob a protecção do então governador da Torre Velha, D. José de Meneses de Távora.[2][4][6]
Apesar dos reveses materiais, a atracção pelo mosteiro manteve-se sólida, registando-se a admissão de 103 religiosas ao longo da sua existência. A adesão foi particularmente notável no século XVIII, verificando-se a entrada de 29 noviças num intervalo de apenas 19 anos, enquanto a média de admissões entre 1701 e 1833 era de uma freira a cada par de anos.[3][5]
Assistência social a cegos
O decreto que extinguiu as ordens religiosas masculinas em 1834 ditava o fecho do convento assim que se desse a morte da última freira, e tal aconteceu no mês de Abril de 1876, com o falecimento da irmã Gertrudes Maria José. Perante este facto, a 12 de Abril o Ministério dos Negócios Eclesiásticos comunicou a vacatura à tutela da Fazenda para efeitos de expropriação, formalizando a posse estatal.[2][3][4] Na prática, a vida religiosa nunca chegou a ser interrompida e o edifício não passou imediatamente para a Fazenda Pública. Nos alvores de Maio desse ano, o 2.º Marquês de Valada, D. José de Meneses da Silveira e Castro, descendente da instituidora, contestou a apropriação governamental reivindicando os direitos fiduciários sobre o imóvel, pretensão que acabou por ser rejeitada.[4]
Nesse mesmo ano, a Associação de Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos, vocacionada para o auxílio à pobreza oculta e idosa e criada por um grupo de senhoras (onde se incluía D. Maria Miquelina Pereira e Pinto) em 1847 ou 1848, peticionou ao rei D. Luís a cedência do espaço para a instalação de um refúgio destinado a mulheres cegas, concretizando indirectamente um projecto assistencial já idealizado em 1834 pela Viscondessa de Valmor. Desde 1853 que esta Associação era presidida pela 3.ª Condessa de Rio Maior (sogra da Viscondessa de Rio Maior, aia da Rainha D. Maria Pia), cuja filiação na velha nobreza da corte terá pesado na decisão, contando também na direcção com a sua filha Teresa Saldanha, futura fundadora da Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena em Portugal (1868). O Estado anuiu à solicitação, à semelhança do precedente ocorrido com o Convento de Marvila (convertido no Asilo de D. Luís I), através de um ofício de 24 de Outubro de 1876, cedendo à instituição "o extinto Convento dos Cardais de Jesus, com a cerca, igreja e suas pertenças para servir de Asylo aos cegos desvalidos".[2][4][6] A transferência provisória foi oficializada por diploma a 28 de Julho de 1877 (com a concessão régia atribuída, noutras fontes, em 1878), estabelecendo a reversão a favor do erário público se estritamente necessário.
A instituição tomou conta do recinto a 13 de Novembro de 1877, promovendo uma profunda reabilitação que ascendeu a 5.314.410 réis, englobando a introdução de redes de distribuição de água por 71.790 réis e gás iluminante por 47.800 réis. A inauguração oficial do asilo consumou-se a 16 de Julho de 1878, com a celebração prévia de um Te Deum, procedendo-se ao acolhimento inicial de sete mulheres cegas sob a orientação das Irmãs Terceiras Dominicanas.[2][4][6] Esta congregação já colaborava com a Associação e a sua presença mantém-se até à actualidade, assistindo cerca de quarenta internas. É de sublinhar que o prelado que assistia as carmelitas, o padre Manuel António Alves, transitou para a nova administração exercendo idênticas funções pastorais. A posse definitiva das instalações foi ratificada por via legislativa através do Diário do Governo a 22 de Julho de 1893, impulsionada por uma proposta parlamentar do deputado Tomás Ribeiro.[2][4] Através desta diligência, o rei D. Carlos concedeu em definitivo o convento e todo o seu recheio à Associação.
Contemporaneidade
Com a implantação da República em 1910, as freiras chegaram a ser presas, mas por apenas dois dias, uma vez que o choro das internas cegas tornava a situação demasiado incómoda para as autoridades. A importância patrimonial do recinto mereceu reconhecimento oficial a 26 de Setembro de 1940, quando o espaço foi decretado
Imóvel de Interesse Público, classificação que sofreu uma breve suspensão a 1 de Novembro, motivada por questões relacionadas com a propriedade particular, mas que se consolidou com nova legislação em 1943. O edifício sofreu sérias patologias estruturais devido a um abalo sísmico ocorrido em Fevereiro de 1969, desencadeando intensas campanhas de consolidação das coberturas e da capela-mor.[2][6] Antes, em 1968, os novos estatutos da Associação já haviam transformado o asilo numa escola, permitindo a admissão de outras pessoas com deficiências profundas.
Ao longo das décadas subsequentes, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e outras entidades promoveram sucessivas intervenções de salvaguarda. Registaram-se remodelações na instalação eléctrica em 1943, reparações no telhado no ano de 1944 e trabalhos gerais no pavimento, na abóbada da capela-mor e nas molduras das telas em 1961.[2] Após o sismo, além da consolidação de coberturas, efectuou-se a reconstrução da estrutura do telhado e a reparação do altar-mor, seguindo-se trabalhos de conservação em 1975 e a beneficiação com instalação de um posto de transformação entre 1984 e 1985. Procedeu-se à remodelação do terceiro piso em 1986, à recuperação do tecto da igreja em 1987, ao restauro de painéis de azulejo no ano de 1990 (ano em que diversos espaços do convento abriram ao público, com visitas guiadas por voluntárias, passando a acolher exposições temporárias, concertos e vendas de Natal, cujas receitas revertem para o restauro) e à substituição de rebocos e pavimentos em 1991.[2]
Entre 1993 e 1994, renovaram-se as caixilharias, o reboco do alçado Nascente e lavou-se a cantaria dos portais. O mecenato assumido pelo Banco de Portugal entre 1996 e 1998 propiciou a recuperação profunda dos claustros grande e pequeno, do escadório monumental, da sala da Paixão, do comungatório, da capela de São José, das sacristias e da sala do tesouro, adaptando o edifício a novas funções.[2] Entre 1999 e 2001, beneficiou-se a portaria com lajes antigas, melhorou-se a drenagem pluvial no horto, restaurou-se a sala Mariana e consolidaram-se as ruínas na extremidade Poente da cerca através de escavações e sondagens. Por fim, em 2004, executou-se a desinfestação das madeiras e a beneficiação da cobertura da igreja.[2]
Na actualidade, parte do complexo continua a desempenhar o papel assistencial a utentes portadoras de deficiência enquanto a restante área foi convertida num roteiro museológico que preserva o seu valioso arquivo documental e bibliográfico. Em 2011, o monumento foi abrangido pela delimitação oficial de uma Zona Especial de Protecção.[2][3][4] Em 2025, a Associação de Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos foi agraciada com o grau de Membro Honorário da Ordem do Mérito.
Descrição
Exterior
A implantação do imóvel define um perímetro delimitado pelas vias da Rua Eduardo Coelho a Norte, da Travessa da Conceição a Sul, da Rua do Século a Nascente (para a qual dá
a fachada lateral ou eixo longitudinal da igreja) e da Travessa da Horta a Poente. O espaço ocupado pelo convento, igreja e cerca forma uma área limitada. O volume edificado apresenta-se externamente como uma caixa desprovida de profusão ornamental, inserindo-se no estilo chão português, pautado por um classicismo austero.[2][4]
O alçado de maiores dimensões, correspondente ao eixo longitudinal da igreja, desenvolve-se ao longo da Rua do Século, sendo pontuado por janelões rectangulares e por um óculo posicionado para iluminar a zona do presbitério. Neste mesmo alçado rasgam-se dois pórticos de traça barroca rematados por pináculos, elementos voluteados e nichos que albergam estatuária sagrada.[2][4][6] A entrada secundária, sob a invocação de São José e encimada por um frontão interrompido com uma cruz, permite o acesso à portaria conventual, ao passo que o portal de Nossa Senhora da Conceição, coroado por um frontão triangular, leva à nave religiosa.[2][4]
Interior
Igreja
A configuração da igreja obedece a uma planta longitudinal composta por uma nave única rectangular e uma capela-mor de formato idêntico, articulados através de um arco triunfal. A aparente simplicidade estrutural contrasta com a riqueza e variedade decorativa interior, erigindo o edifício como um dos arquétipos do "estilo nacional", à semelhança da Madre de Deus e de Marvila. Presumivelmente, a obra de pedraria da igreja e do claustro maior é da autoria do arquitecto João Antunes. O interior é rico, caracterizado por um fortíssimo impacto cénico e profusamente decorado numa associação tipicamente portuguesa com trabalhos de talha dourada, azulejo, pinturas, imaginária e embutidos de mármore ao gosto florentino, estes aplicados nas paredes absidais e nos embasamentos.[2][4][6]
Nave e capela-mor
A cobertura da nave é garantida por uma abóbada de berço perfeito com penetrações laterais, reconstruída no decurso do século XVIII e ornamentada com estuques que emolduram um medalhão central alusivo à Imaculada Conceição, contrastando com a abóbada de arestas que encima o altar principal.[2][4][6]
O retábulo principal, magnífica obra de talha dourada de estilo nacional esculpida no período imediato a 1681, organiza-se através de um arco estruturado em três secções concêntricas, ladeado por três colunas salomónicas colocadas na diagonal. O ritmo das espiras corre contínuo em volta da tribuna, apenas interrompido pelo entablamento. Os fustes espiralados, cheios de força e brilho teatral, apresentam parras, cachos de uvas e águias, convergindo para mísulas sustentadas por folhas de acanto, grandes volutas, fénices e querubins, ajudando a chamar a atenção para a riqueza do sacrário. Este é preenchido por combinações caprichosas de arabescos feitos de volutas entrelaçadas e ladeado por anjos tocheiros.[2][4][6] Sobre esta base repousa uma escultura policromada de Nossa Senhora da Conceição, esculpida em madeira estofada na transição para o século XVIII, inserida num camarim ou tribuna escalonada, numa construção piramidal em degraus de muita ostentação, forrada a talha dourada de volutas pouco profundas e provida de duas janelas redondas. Este vão central pode ser ocultado por uma vasta tela amovível, atribuída a André Gonçalves e baseada num desenho de Vieira Lusitano, ilustrando a padroeira rodeada por São João da Cruz e outros santos carmelitas.[2][4][6] Adicionalmente, o presbitério compreende uma base integral de mármore com embutidos polícromos em branco, preto e vermelho (que se repetem na parede da capela-mor) e três aberturas em arco redondo com frisos e molduras em mármore vermelho, estando o arco central, de maior amplitude, reservado para a arca tumular de D. José de Meneses e Távora. No solo do templo identificam-se ainda três sepulturas rasas com tampos de pedra: uma do lado do Evangelho pertencente a D. Brites Francisca de Mendonça, uma do lado da Epístola no começo da nave, e a terceira na própria capela-mor.[4][6]
As superfícies parietais da nave encontram-se forradas até metade da altura por silhares de manufactura neerlandesa de alta qualidade artística, encomendados expressamente para esta igreja e produzidos provavelmente em 1688. Estes 27 azulejos são assinados por Jan van Oort, mestre sediado em Amesterdão, lendo-se num canto "J. van Oort/Amst. fecit.". O programa decorativo, que inclui remendos executados após o sismo de 1755, organiza-se em dois registos sobrepostos em monocromia azul sobre fundo branco, divididos por barras divisórias de duas peças de altura, desenhadas a azul sobre fundo amarelo com composições vegetalistas, carrancas grotescas ao centro e rostos femininos nos cantos.[2][4][6] A secção inferior ilustra num friso contínuo putti a brincar com um cão, cestas de fruta e símbolos da Paixão de Cristo. Por seu turno, a secção superior narra episódios da trajectória e visões de Santa Teresa de Ávila através de sete painéis independentes e três medalhões sobre as portas, reproduzindo as 25 gravuras concebidas por Adraen Collaert e Cornelis Galle para o álbum Vita B. Virginis Teresiae a Iesu, impresso em Antuérpia no ano de 1613, provavelmente indicadas como fonte iconográfica por D. Luísa de Távora, com base na autobiografia da santa.[2][4]
A sequência biográfica patente na nave compreende (alguns painéis reunindo dois episódios sem relação entre si): na parede do fundo, a fuga de Santa Teresa com o seu irmão, ambos crianças, sendo encontrados pelo tio, e a carmelita, já freira no convento de Medina del Campo, recebendo a hóstia do padre João da Cruz. Na parede do lado do Evangelho, a imposição de um colar e um manto concedidos pela Virgem e por São José (episódio envolto em nuvens e anjos músicos); um segundo painel num enquadramento de nuvens onde Santa Teresa, ajoelhada perante o padre João da Cruz sentado numa cadeira, recebe com ele o Espírito Santo de Cristo e Deus Pai; e a viagem a Salamanca para solicitar ao rei apoio na reforma da Ordem, retratando a santa num burro, ladeada a pé pela irmã, Ana de São Bartolomeu, vestida com o hábito das carmelitas descalças e o terço na mão, seguidos por um nobre e um religioso, avistando-se ao fundo o convento de São José a ser construído. Na parede da Epístola figuram dois painéis: uma refeição mística partilhada com Cristo e o falecimento da santa em Alba de Tormes, rodeada por religiosos franciscanos e freiras carmelitas, recebendo uma coroa de flores da Virgem e a bênção de São José.[2][4] Os três medalhões sobrepujantes às portas representam Santa Teresa enquanto escritora inspirada pelo Espírito Santo (porta do fundo), a contemplação das chagas no braço direito do Ecce Homo perante uma cruz (parede da Epístola) e o seu casamento místico. O estrato superior ao cerâmico é preenchido por telas a óleo delineadas por pesadas molduras de talha dourada com óvulos e folhas de acanto.[2][4][6]
Coro baixo
Ao coro baixo, antigo comungatório das monjas, acede-se através do flanco do Evangelho da capela-mor. Originalmente, era fechado por uma dupla grade, hoje desaparecida. As suas paredes apresentam até meia altura um silhar alternando motivos de albarradas enquadradas por volutas com anjos e figuras infantis formando painéis separados por balaústres, envolvidos por cercaduras barrocas de caracóis de folhagem. A fiada inferior organiza-se em dois registos: uma barra de três azulejos em azul esponjado, sobreposta por barra de dois azulejos de motivos ornamentais. Na parte superior do enxalço da porta para o claustro, existe uma cartela barroca com volutas e dois festões simulando grinaldas suspensas. O espaço guarda um altar-relicário em talha dourada onde repousa o corpo de São Peregrino. Estes azulejos, tardo-barrocos, poderão ser datados de 1730, ano da chegada das relíquias.[2][4][6] Ao centro do pavimento encontra-se a sepultura rasa em mármore da fundadora, D. Luísa de Távora, sobrepujada pela representação heráldica de armas plenas de Távora. Lê-se, no epitáfio:
Aqui jaz a Ex.ma Sr.ª D. Luiza de Tauora que foi cazada com o Morgado de Oliveira. O Ex.mo Sr. Luís Francisco de Oliveira e por sua morte profesou a Ordem Militar de Santiago no Real Conuento de Santos desta Corte e com breue de Clemente X no anno de 1681 ueio para este conuento que mandou fabricar a custa de sua fazenda com o titulo de fundadora dotadoura padroeira. Faleceo em 18 de Outubro de 1692 tendo de idade 83 annos e do habito do Carmo II que uiueo neste Convento.[4]
No cimo, existe um pequeno quadro atribuído a Bento Coelho da Silveira.
Coro alto
O coro alto situa-se sobre a entrada principal, frente ao altar-mor, fechado por uma grade de ferro cujas intersecções assumem bicos aguçados entre os nós das barras. O revestimento é garantido até meia altura por grandes painéis azulejares setecentistas portugueses de composição figurativa em monocromia azul e branca, que ilustram doze passos da vida de Santa Teresa de Ávila, sem qualquer ordem temática ou cronológica. Partindo da grade no sentido dos ponteiros do relógio, representam:
- Encontro de Santa Teresa e São João da Cruz, assistidos pela Santíssima Trindade;
- Refeição de Cristo e Santa Teresa;
- Aparição de Cristo a Santa Teresa;
- Viagem de Santa Teresa a Salamanca;
- Comunhão no convento de Medina del Campo;
- Nossa Senhora do Carmo e o Menino entregam o escapulário a São Simão Stock;
- Santa Teresa é coroada por Jesus;
- Santa Teresa e o irmão são encontrados pelo tio quando fogem de casa;
- Santa Teresa com o coração trespassado por uma lança em chama (transverberação);
- Santa Teresa recebe um colar de flores e um manto, das mãos da Virgem e de São José;
- Morte de Santa Teresa.[2][4][6]
Registam-se ainda quadros representando o Calvário e a Assunção de Nossa Senhora, atribuídos a André Gonçalves, bem como um altar em talha joanina, apresentando no centro uma pintura seiscentista vinda de outro lugar. Destacam-se ainda lindas portas a fechar a grade conventual decoradas a chinoiserie dourada.
Antecoro
O trajecto para as galerias inclui o antecoro, onde foi integrado um painel figurativo de Nossa Senhora da Conceição (14×16 azulejos em monocromia azul sobre fundo branco), proveniente de local desconhecido no convento e aqui colocado no pós-terramoto. É orlado por uma cercadura de motivos ornamentais pombalinos em manganês, foi executado por volta de 1730 e está estilisticamente associado a Teotónio dos Santos, segundo o historiador de arte José Meco.[2] Em baixo, azulejos tipo “tapete” de camélia em azul e branco.
Sacristia
Atrás do altar-mor e sob o corpo formado pelo camarim, implanta-se a sacristia, integralmente preenchida em dois registos sobrepostos por faiança azul e branca da primeira metade do século XVIII.[2][4][6] O estrato basal recupera ornamentações de padrão de camélias (4×4 azulejos) originárias de finais do século XVII. A ligação é feita por uma barra de enrolamentos de folhagem com carrancas femininas nos cantos, servindo de friso. A secção mais elevada, de 11 azulejos de altura, exibe uma composição seriada de albarradas com vasos ladeados por finos festões e uma sequência de sanefas com borlas. Em simulados nichos sobre peanhas destacam-se cinco representações figurativas de grande impacto cenográfico datadas de cerca de 1730: na parede em frente ao lavabo, São José com o Menino; na parede norte, Santa Teresa com pena e livro, e São João da Cruz segurando a cruz; a ladear a porta da capela-mor, Santa Ana e São Joaquim.[2][4]
Existe ainda um arcaz em vinhático e urna destinada a guardar as hóstias consagradas na Quinta-feira Santa.
Convento
Portaria
O ingresso nos antigos aposentos habitacionais faz-se através da porta exterior de São José para uma portaria de pavimento lajeado, guarnecida por silhares de padrão de tapete dos finais do século XVII de padronagem azul e branca (fase final do estilo joanino a transitar para o rococó). Cantoneiras emolduram as janelas gradeadas. O quadro da entrada é atribuído a José da Costa Negreiros. Nesta sala coexistem cerâmicas sevilhanas de ponta de diamante na Casa da Roda, cujo vão é encimado por azulejos recortados com as insígnias carmelitas, sustentadas por dois anjos de corpo inteiro e rematadas por uma coroa sob a qual espreitam cabeças de querubins.[2][4]
A partir da portaria, desenham-se três acessos: a porta da direita comunica com a igreja; a porta frontal liga a um vestíbulo, decorado com silhar de albarradas de ca. 1740 em azul e branco sobre um rodapé esponjado a amarelo e manganês; e a porta da esquerda dá acesso ao antigo locutório, parcialmente forrado a azulejaria de figura avulso com ornatos independentes, flores e perfis caricaturais. As restantes dependências de serviço reflectem campanhas aplicadas em diferentes fases, notando-se peças de padrão amarelas e azuis (2×2 azulejos) da primeira metade do século XVII nos corredores contíguos à cozinha e a revestir totalmente as paredes do lavabo, que provêm provavelmente do antigo recolhimento.[2][4] O trânsito entre a copa e o refeitório é ladeado por composições policromáticas de tipo camélia (2×2 azulejos, integrando azul, amarelo, verde e manganês da fase final da policromia seiscentista) com cercaduras de motivos vegetalistas verdes e amarelos com contornos a manganês.
No corredor, um oratório fechado ainda seiscentista tem uma pintura da Virgem com o Menino rodeada dos sete arcanjos. Uma pequena capela tem altar com quadro de São José com o Menino e nas paredes há belos relicários das carmelitas.
Refeitório
O espaço de refeições ostenta um silhar de composição ornamental seriada com uma densa malha de cestos de flores e de frutos em azul e branco, com cercaduras joaninas elaboradas na década de 1720-1730. Possui ainda várias mesas em madeira de vinhático e pinturas seiscentistas, anteriores à construção do convento.[2]
Claustros
O mosteiro estrutura-se em redor de dois claustros. O menor, a um nível superior, apresenta arcos simples de alvenaria e abre-se para um pequeno jardim com alegres canteiros elevados (alegretes) circundados por muros altos. O claustro de maiores proporções concebe uma planta quadrada de piso único, sendo uma obra de muita simplicidade mas traçada com grande rigor e sentido de proporções, sem que qualquer elemento decorativo perturbe a fruição da estrutura-base. É estruturado por cinco tramos de abóbadas de arestas em cada lanço, interligados à quadra central por três arcos de volta perfeita em cantaria assentes sobre pilares de secção quadrangular idêntica.[2][4] O perímetro pauta-se pelo rigor métrico, revestido nos quatro lanços por um silhar de padrão contínuo de azulejos (4×4 azulejos) em monocromia azul e branca de matriz floral, criando uma malha cerrada. O pátio central inclui canteiros com formato de cruz de Malta e um pequeno tanque de pedra, redondo, dotado de repuxo. Integrados nos muretes, em losangos, figuram quatro azulejos do século XIX com a inscrição “aqui de baxo vai o cano da pia”. Num vão de um oratório que já não existe, subsiste uma cruz azulejar do início do século XVIII sobre uma peanha com três cabeças de anjos e uma cartela identificando a "5TA VIA SACRA". O pavimento regista 32 sepulturas rasas numeradas em pedra.[2][4]
Escadaria
Uma escadaria de pedra de três lanços parte deste claustro para o andar superior, formando nos patamares dois oratórios de madeira entalhada joanina com vidraças, colunas salomónicas e palmetas. Concebidos em 1754, contêm excelentes imagens do séc. XVII de madeira estofada e policromada de Nossa Senhora do Loreto e Menino Jesus, assentes em falsos frontais de altar em azulejo setecentista azul e branco (um tardo-barroco e outro já rococó). As paredes são em pintura de escaiola.[2][4]
Em finais do século XX, adaptaram-se certas alas monásticas para funções expositivas, utilizando-se complementarmente a capela para concertos.[6]
Oratório
O oratório alberga uma pintura retratando a Assunção de Nossa Senhora, da autoria de Bento Coelho da Silveira. Destaca-se ainda uma pintura em grotesco na parte interna das portas, muito usada no período barroco.
Sala do capítulo
A sala do capítulo foi a última a ser remodelada após o terramoto. Os azulejos já são pombalinos, e por baixo das janelas, que foram abertas nessa altura, destaca-se algum trompe l'oeil. O altar, em rococó tardio, está contido num armário, decorado na parte interna das portas com pinturas representando a Fé, Esperança, Caridade e Perseverança. Pode ainda ver-se uma imagem de Nossa Senhora da Boa-Morte dentro de uma maquineta, bem como dois nichos estucados em estilo pombalino albergando duas santas em terracota.
Sala Mariana
Nesta sala, que era uma antiga sacristia de apoio, insere-se uma grande tela grande que antes tapava a boca do altar, da autoria de uma parceria de Vieira Lusitano e André Gonçalves. Os outros quadros são seiscentistas e de autores desconhecidos. Destacam-se ainda maquinetas acharoadas com um presépio, a Sagrada Família e dois Meninos Jesus, bem como vitrine com várias imagens da Virgem.
Sala da Paixão
Em magnífica exposição, várias pinturas em madeira cujo motivo é a Paixão de Cristo. Crucifixos e outras peças, tudo de grande valor artístico.
Referências
- ↑ Localização no OpenStreetMap
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Bibliografia
- Cumbre, José Pavia in "Dicionário da História de Lisboa".
- Araújo, Norberto de in "Peregrinações".
- "O Convento dos Cardaes - Veios da Memória" - Coordenação Irmã Ana Maria Vieira e Teresa Raposo, Ed Quetzal, 2003


