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Conjunto Governador Kubitschek
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| Conjunto Governador Kubitschek | |
|---|---|
Blocos B e A do Edifício JK, em 2020 | |
| Informações gerais | |
| Nomes alternativos | Edifício JK Conjunto JK |
| Tipo | Conjunto residencial de uso misto |
| Estilo dominante | Modernista |
| Arquiteto | Oscar Niemeyer |
| Engenheiro | Joaquim Cardozo |
| Estado | Concluído |
| Promotor | Joaquim Rolla |
| Website | @condominiojkoficial |
| Dimensões | |
| Andares | 23 (Bloco A) 36 (Bloco B) |
| Outras dimensões | 1.086 apartamentos |
| Geografia | |
| País | Brasil |
| Cidade | Belo Horizonte |
| Localização | Santo Agostinho |
| Coordenadas | 19° 55′ 27″ S, 43° 56′ 47″ O |
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O Conjunto Governador Kubitschek, comumente conhecido como Edifício JK ou Conjunto JK,[nota 1] é um conjunto residencial histórico de uso misto localizado no bairro Santo Agostinho, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
Projetado por Oscar Niemeyer em 1951, com cálculo estrutural de Joaquim Cardozo, o conjunto foi desenvolvido durante o governo de Juscelino Kubitschek em Minas Gerais, de quem recebeu o nome.[1][2]
Situado perto da Praça Raul Soares, na região Centro-Sul da cidade, o complexo é formado por dois grandes blocos residenciais voltados para a Rua dos Timbiras e para a Rua dos Guajajaras. O Bloco A tem 23 pavimentos, enquanto o Bloco B tem 36 pavimentos e é um dos marcos verticais mais destacados da área central de Belo Horizonte.[2][3] O conjunto possui 1.086 apartamentos em várias tipologias e abriga cerca de 5.000 moradores, o que lhe dá a escala de uma densa vizinhança vertical.[3][2]
O Conjunto JK pertence à produção modernista de Niemeyer em Belo Horizonte posterior ao Conjunto Arquitetônico da Pampulha. Seu programa original era incomumente ambicioso para um empreendimento residencial, pois combinava apartamentos com repartições públicas, lojas, restaurantes, áreas hoteleiras, espaços de lazer, equipamentos culturais e um museu de arte moderna planejado.[4][2] Várias partes desse programa foram reduzidas, adiadas ou deixadas inacabadas, mas o conjunto permaneceu como um exemplo incomum, em Belo Horizonte, de habitação planejada em associação com serviços, comércio e vida urbana compartilhada.[1][2]
O complexo foi tombado de forma definitiva como patrimônio cultural municipal pelo conselho de patrimônio de Belo Horizonte em 2022. O tombamento se baseou na escala arquitetônica do conjunto, em seu lugar na verticalização residencial de Belo Horizonte, em seus vínculos com Niemeyer e Kubitschek e em sua longa vida pública como um dos edifícios modernistas mais reconhecíveis da cidade.[1][2]
História
Ocupação anterior do terreno
O terreno do Conjunto Governador Kubitschek havia sido anteriormente ocupado pela Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais, escola profissionalizante que mais tarde passou a integrar a história institucional do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. A instituição foi criada como Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais e depois teve vários nomes, entre eles Liceu Industrial de Minas Gerais, Escola Industrial de Belo Horizonte, Escola Técnica de Belo Horizonte e Escola Técnica Federal de Minas Gerais, antes de se tornar o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais.[5] A escola permaneceu no local até o fim da década de 1930, e o antigo edifício foi demolido na década de 1940 como parte da reurbanização da Praça Raul Soares.[6]
A escolha do terreno deu ao futuro conjunto uma posição destacada na área central de Belo Horizonte. A Praça Raul Soares havia se tornado um dos espaços urbanos importantes da cidade, e o novo projeto foi planejado em uma escala capaz de modificar o entorno da praça e a silhueta da capital.[7]
Encomenda e lançamento
O conjunto foi concebido durante o governo de Juscelino Kubitschek em Minas Gerais. Kubitschek havia deixado a prefeitura de Belo Horizonte para assumir o governo do estado em 1º de fevereiro de 1951, depois de uma administração municipal fortemente associada às obras da Pampulha e à imagem pública da arquitetura moderna na cidade.[3][7]
Oscar Niemeyer projetou o empreendimento em 1951, e os cálculos estruturais foram realizados por Joaquim Cardozo.[8] O empreendimento foi conduzido pelo empresário Joaquim Rolla, enquanto o governo estadual forneceu o terreno próximo à Praça Raul Soares e a iniciativa privada assumiu a construção.[7]
O projeto foi lançado publicamente no fim de novembro de 1951. Jornais locais o apresentaram como uma obra excepcionalmente grande e moderna para Belo Horizonte, cidade que ainda tinha relativamente poucos edifícios altos e pouco mais de 350.000 habitantes.[7] A linguagem promocional em torno do conjunto o associava ao progresso, ao conforto e a uma nova forma de vida urbana. O plano prometia apartamentos para uma classe média em crescimento, serviços públicos para o governo estadual e uma ampla variedade de equipamentos compartilhados para moradores e visitantes.[7]
Programa original

A proposta de Niemeyer dialogava com a ideia de um grande edifício coletivo, com algumas afinidades com os falanstérios imaginados por Charles Fourier.[nota 2] O conjunto foi planejado como uma comunidade urbana densa, reunindo habitação, repartições públicas, espaços comerciais, áreas de lazer e equipamentos culturais em um mesmo complexo.[1][2]
O programa original era muito mais ambicioso do que o edifício que depois entrou em uso. Ele incluía apartamentos, lojas, restaurantes, lavanderias, hotel, cinema, teatro, boate, café, piscina, museu de arte moderna e terminal rodoviário e turístico.[3][7] O projeto também previa uma passarela elevada monumental ligando os dois blocos, com alguns dos espaços culturais planejados em torno dessa conexão.[3]
A trajetória de Joaquim Rolla ajudou a moldar o programa social do conjunto. Antes do projeto do JK, ele estivera associado a hotéis, cassinos e empreendimentos de lazer, incluindo o Palácio Quitandinha, em Petrópolis. Os restaurantes, espaços de entretenimento, áreas hoteleiras e serviços compartilhados previstos davam ao Conjunto JK algo da atmosfera de um resort transferido para o centro de Belo Horizonte.[7]
Alterações no projeto e construção

O projeto mudou durante seu desenvolvimento. Uma versão inicial previa um bloco horizontal longo, com 637 apartamentos distribuídos em 22 pavimentos. Versões posteriores acrescentaram a torre mais alta e ampliaram o número de unidades habitacionais, levando à composição em dois blocos que define o conjunto atualmente.[4]
O complexo final foi organizado em dois edifícios. O Bloco A, voltado para a Rua dos Timbiras, tem 23 pavimentos. O Bloco B, voltado para a Rua dos Guajajaras, tem 36 pavimentos.[2][3] O empreendimento concluído tem mais de 1.000 apartamentos em várias plantas diferentes, com unidades que variam de cerca de 22,7 m² a 152,8 m².[3] Cerca de 5 000 pessoas vivem no conjunto.[2]
A construção levou muito mais tempo do que o previsto. As obras começaram em 1951, foram interrompidas em 1956 e retomadas em 1968. Os apartamentos começaram a ser entregues em 1971, enquanto várias partes do programa original foram reduzidas, adiadas ou deixadas inacabadas.[3][4]
Ocupação e mudanças posteriores
A distância entre o plano original e o uso posterior do edifício marcou grande parte de sua história. O museu de arte moderna, as áreas hoteleiras, a piscina, os espaços de lazer e a passarela elevada prevista não se concretizaram plenamente como Niemeyer e Rolla haviam planejado.[3][4] A passarela elevada, projetada para conectar os dois blocos no quinto andar, nunca foi concluída.[3]
Vários espaços planejados receberam outros usos ao longo do tempo. A área destinada ao museu de arte moderna foi posteriormente ocupada por uma instalação policial e hoje é usada pela 3ª Área Integrada de Segurança Pública. O espaço previsto para o cinema abrigou depois uma boate e, em seguida, passou a ter uso religioso. Áreas destinadas a restaurantes e à vida noturna também mudaram de função à medida que o complexo se adaptou à rotina condominial.[3]
Os níveis inferiores foram planejados para incluir o terminal rodoviário e turístico, além de lojas, bancos, serviços postais, agências de turismo e agências de viagem. O terminal de turismo rodoviário foi inaugurado em 1985, preservando parte do papel de transporte imaginado no programa original.[3]
No século XXI, o Conjunto JK havia se tornado uma vizinhança vertical habitada, moldada por moradores, comércios, equipamentos públicos e longas disputas condominiais. Seus moradores, espaços comerciais, equipamentos públicos e conflitos administrativos recorrentes transformaram o conjunto em um dos exemplos mais reconhecíveis, em Belo Horizonte, do encontro entre a ambição modernista e as pressões comuns da vida urbana.[1][2][7]
Arquitetura

O Conjunto Governador Kubitschek é uma das principais obras residenciais de Oscar Niemeyer em Belo Horizonte. Projetado em 1951, o conjunto aplicou ideias modernistas de habitação em escala incomumente grande, reunindo apartamentos, serviços, comércio, áreas de lazer e usos públicos no mesmo empreendimento.[1][2][4] O projeto estrutural foi de Joaquim Cardozo, colaborador frequente de Niemeyer.[8]
Conceito urbano e programa
O complexo foi concebido como um grande esquema residencial e urbano junto à Praça Raul Soares. A proposta de Niemeyer empregava a ideia de uma comunidade vertical compacta, na qual a moradia estaria ligada a serviços cotidianos e equipamentos públicos. O programa original incluía apartamentos, lojas, restaurantes, lavanderias, áreas de lazer, hotel, repartições públicas, cinema, teatro, boate, café, piscina, museu de arte moderna e terminal rodoviário e turístico.[1][3][9]
O projeto foi organizado em torno de dois blocos residenciais, conhecidos como Bloco A e Bloco B. As torres foram planejadas com funções compartilhadas no térreo e no subsolo, incluindo áreas comerciais e espaços de circulação que conectavam o conjunto à cidade ao redor.[1][9] Algumas partes do programa original foram simplificadas, adiadas ou deixadas inacabadas durante o longo processo de construção.[4][3]
Bloco A

O Bloco A é voltado para a Rua dos Timbiras e tem 23 pavimentos.[2][3] É o mais baixo dos dois blocos residenciais e ocupava papel central no programa original de uso misto. Os quatro primeiros andares foram planejados para uso hoteleiro, enquanto outros equipamentos compartilhados também foram propostos para o conjunto, incluindo o museu de arte moderna e espaços de lazer.[3][9]
As plantas aprovadas em 1954 para o Bloco A mostram duas formas diferentes de organização dos apartamentos. Em um lado do núcleo triangular de elevadores, os apartamentos foram dispostos como unidades de um só nível, usando um ritmo estrutural repetido de paredes portantes. Esse lado do bloco incluía cinco tipos diferentes de apartamento. No outro lado, Niemeyer utilizou a planta semidúplex, com corredores comuns apenas em andares alternados.[10]
Bloco B
O Bloco B é voltado para a Rua dos Guajajaras e tem 36 pavimentos.[2][3] É a torre mais alta e dá ao conjunto grande parte de sua presença na paisagem da Praça Raul Soares. Sua altura e sua massa vertical estreita contrastam com o Bloco A, mais baixo e mais largo, fazendo com que o conjunto seja percebido como um par de edifícios relacionados, e não como uma única torre.[2][3]
A organização semidúplex tornou-se mais ampla no Bloco B. A partir do décimo andar, a torre utilizou essa solução em todos os seus pavimentos residenciais. Isso deu ao bloco mais alto um ritmo interno diferente de uma torre residencial convencional, pois os corredores não precisavam atravessar todos os andares.[10]
Tipos de apartamentos e planta semidúplex

O conjunto possui 1.086 apartamentos distribuídos em 13 tipos, com áreas que variam de cerca de 22,7 m² (244 ft²) a 152,8 m² (1 640 ft²).[3][11] Essa variedade era incomum em um único conjunto residencial e deu ao edifício uma população diversa, com moradores em unidades compactas e famílias ocupando apartamentos maiores.[3]
As unidades semidúplex estavam entre os elementos mais distintivos do projeto. Nesses apartamentos, os níveis dos pisos eram deslocados, criando interiores em meios níveis conectados por escadas privativas. O corredor comum atendia a unidade em um nível, enquanto parte do apartamento se estendia meio nível acima ou abaixo. Essa solução reduzia a área de corredores compartilhados e dava aos apartamentos uma seção interna mais variada do que a de uma planta plana de um só nível.[10]
Os desenhos de Niemeyer também davam importância às varandas dos apartamentos semidúplex. As plantas originais as tratavam como partes substanciais das unidades, com sacadas dispostas ao longo das fachadas e usadas para abrir os apartamentos para a cidade. O material promocional do conjunto explicava a planta semidúplex por meio de desenhos em corte, apresentando a solução como parte de uma nova forma de viver em um edifício residencial moderno.[10]
Áreas compartilhadas e elementos inacabados
As áreas entre os blocos e sob eles foram planejadas como partes importantes do conjunto. O projeto incluía espaços comerciais, serviços e uma área de lazer e circulação entre as torres, destinada a facilitar o deslocamento de moradores e visitantes pelo empreendimento.[9] Também foi planejada uma passarela elevada monumental para ligar os dois blocos, mas ela nunca foi concluída.[3]
O subsolo e os níveis inferiores deveriam receber o terminal rodoviário e turístico, além de lojas, bancos, serviços postais, agências de turismo e agências de viagem.[3] Esses usos compartilhados davam ao projeto uma escala mais próxima de um pequeno centro urbano do que de um edifício residencial comum. O longo processo de construção e as mudanças posteriores no condomínio fizeram com que o conjunto concluído preservasse apenas parte do programa social e urbano original de Niemeyer.[4][1]
Relação com outras obras residenciais de Niemeyer

O Conjunto Governador Kubitschek pertence a um grupo mais amplo de edifícios residenciais e de uso misto projetados por Niemeyer durante a década de 1950, quando o arquiteto aplicava ideias modernistas a terrenos urbanos densos em Belo Horizonte e São Paulo. Essas obras pertencem a um período em que Niemeyer testava como edifícios de apartamentos poderiam incorporar serviços, comércio e vida pública em cidades brasileiras em rápido crescimento.[12]
Em Belo Horizonte, a comparação mais próxima é o Edifício Niemeyer, na Praça da Liberdade, projetado na década de 1950 e concluído em 1960.[13][14] O edifício da Praça da Liberdade é muito menor e mais escultórico, com uma fachada curva envolvida por brise-soleil horizontais. Seus apartamentos se organizam em torno de um terreno triangular, enquanto o Conjunto JK utiliza dois blocos muito maiores e um programa de uso misto mais amplo. A comparação mostra dois lados da obra residencial de Niemeyer na cidade: de um lado, um edifício compacto de apartamentos de luxo junto a uma praça histórica; de outro, um grande conjunto urbano planejado como comunidade vertical junto à Praça Raul Soares.[14][1]
Os projetos paulistanos de Niemeyer situam o Conjunto JK dentro do mesmo experimento mais amplo. No Edifício Copan, projetado no início da década de 1950 e concluído em 1966, Niemeyer utilizou um bloco residencial longo e sinuoso, com térreo comercial. O edifício se tornou um dos exemplos mais conhecidos da habitação modernista brasileira, com mais de 1.100 apartamentos e grande número de lojas e serviços ao nível da rua.[15][12] Assim como o Conjunto JK, o Copan tratava a habitação como parte de um sistema urbano maior. Os dois projetos diferem na forma: o Copan é lido pela longa curva de um grande bloco único, enquanto o Conjunto JK se organiza pelo contraste entre o Bloco A e o Bloco B, mais alto.[12]
A comparação com o Edifício Montreal e o Edifício Eiffel, também em São Paulo, ajuda a situar o Conjunto JK nas experiências de Niemeyer com plantas de apartamentos e lotes urbanos. O Montreal utilizou unidades compactas em um terreno de esquina irregular e uma fachada marcada por brise-soleil horizontais.[12] O Eiffel utilizou apartamentos dúplex voltados para a Praça da República, com acesso pelo nível superior e quartos no nível inferior, uma organização que invertia a disposição usual do dúplex.[12] O Conjunto JK usou outra variação de planejamento em seção por meio de seus apartamentos semidúplex, nos quais os corredores atendiam unidades em andares alternados e os apartamentos se estendiam por níveis deslocados.[10]
A comparação mostra a escala do Conjunto JK e a amplitude de seu programa original. O Edifício Niemeyer explorou a fachada residencial curva em um edifício compacto. O Copan deu a São Paulo uma grande curva habitada, com lojas e serviços no térreo. O Montreal e o Eiffel testaram outras formas de organizar edifícios de apartamentos em terrenos urbanos difíceis. O Conjunto JK reuniu muitas dessas preocupações em um conjunto de dois blocos, com mais de mil apartamentos e uma mistura planejada de habitação, comércio, lazer, serviços e usos públicos.[1][2][3][12]
Caráter modernista
A linguagem arquitetônica do Conjunto Governador Kubitschek pertence à obra de Niemeyer dos anos 1950, com concreto armado, grandes volumes, pilotis, funções mistas e forte interesse pela seção do edifício. O projeto seguia a crença modernista de que a arquitetura poderia reformular a vida cotidiana por meio de novas formas de moradia, serviços compartilhados e espaço coletivo.[1][4][10]
Em Belo Horizonte, o conjunto marcou uma nova escala de verticalização residencial. Seus dois blocos, o grande número de unidades e a mistura de apartamentos privados com funções públicas e comerciais fizeram dele uma das tentativas mais claras da cidade de transformar a teoria modernista da habitação em um ambiente urbano cotidiano.[1][2]
Tombamento

O processo de patrimonialização municipal do Conjunto Governador Kubitschek começou em 2007, quando o conselho de patrimônio de Belo Horizonte abriu os primeiros procedimentos para examinar seu valor cultural.[2] O entorno do conjunto já havia entrado no registro patrimonial da cidade. Em 2009, o conjunto da Praça Raul Soares e da Avenida Olegário Maciel foi colocado sob proteção municipal, trazendo reconhecimento formal a uma das principais áreas moldadas pelo crescimento de Belo Horizonte no século XX.[6]
Em 27 de abril de 2022, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte aprovou o tombamento definitivo do complexo como patrimônio cultural municipal. A decisão abrangia os dois edifícios que formam o conjunto, situados na Rua dos Timbiras, 2500, e na Rua dos Guajajaras, 1268.[1] O tombamento deu proteção formal a um dos marcos residenciais modernistas mais visíveis da cidade, uma obra de grande escala de Oscar Niemeyer ligada ao período em que Belo Horizonte experimentava novas formas de habitação vertical.[1][2]
O tombamento também reconheceu a variedade incomum de usos planejados para o conjunto. Concebido como uma comunidade compacta, o projeto reunia apartamentos, serviços, lojas, espaços de lazer e usos públicos no mesmo empreendimento, tornando-se um dos exemplos mais claros, em Belo Horizonte, de habitação modernista planejada em torno da vida urbana cotidiana.[1][2]
Vida pública e história posterior
Durante décadas, uma das características mais conhecidas do conjunto foi o relógio luminoso do Itaú instalado no topo do Bloco B. O relógio permaneceu no local por cerca de 40 anos e tornou-se um marco noturno para quem circulava pelo centro de Belo Horizonte. Em 2019, o Itaú decidiu remover a estrutura após mudanças nas regras de publicidade e uma disputa com a administração do condomínio. A retirada ocorreu depois de um acordo mediado pela Justiça, no qual o banco concordou em pagar valores em aberto relativos ao uso do terraço da torre.[16][17]
O conjunto também abrigou espaços culturais e de vida noturna. O Matriz, bar e casa de shows situado dentro do Edifício JK, tornou-se um dos principais palcos da música independente em Belo Horizonte. Seus proprietários anunciaram o fechamento do espaço em 2021, depois de 21 anos de atividade, citando a dificuldade de manter o local aberto após a suspensão dos eventos culturais presenciais durante a pandemia de COVID-19.[18] Em 2022, os fundadores do Matriz abriram a Casa Matriz em parceria com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, dando continuidade a um projeto iniciado dentro do complexo JK.[19]
Em 2012, o edifício apareceu na cobertura do projeto cinematográfico Operação Sonia Silk. O projeto cooperativo usou um apartamento no Edifício JK como um de seus espaços de produção e planejava três longas-metragens independentes, incluindo O uivo da gaita, Éden e o documentário Metamancia.[20]

Em 2020, durante a pandemia de COVID-19 no Brasil, o coletivo Viva JK ganhou atenção pública por meio de projeções em grande escala na fachada do Bloco B. O grupo, formado em 2019 por moradores e amigos do conjunto, usou a parede cega da torre para mensagens de saúde pública, acolhimento e protesto durante os primeiros meses de isolamento social.[21][22] As projeções incluíram manchetes de jornal sobre a pandemia, mensagens pedindo que as pessoas ficassem em casa, homenagens a profissionais de saúde e trechos literários de João Guimarães Rosa.[23][24] Uma projeção também se tornou uma história de interesse humano internacional depois que um morador usou a fachada para pedir a namorada em casamento durante o confinamento.[25]
A administração do conjunto tornou-se tema recorrente na imprensa local. Maria Lima das Graças, conhecida no edifício como "Doutora Graça", administrou o condomínio por décadas como sua síndica,[nota 3] e foi perfilada por O Tempo em 2016, quando já ocupava o cargo havia 32 anos.[26] Em 2025, o Ministério Público de Minas Gerais ajuizou ação relacionada à conservação do bem tombado, e uma audiência judicial foi marcada para tratar de supostas falhas na preservação do conjunto.[27] Maria Lima das Graças morreu em março de 2026, aos 78 anos.[28]
Em 2026, o jornalista e podcaster Chico Felitti lançou o podcast investigativo A Síndica, centrado em Maria Lima das Graças e em sua longa permanência à frente do conjunto. A série, com cinco episódios, examinou sua administração e as disputas internas em torno da gestão de um dos maiores edifícios residenciais de Belo Horizonte.[29][30] Em fevereiro de 2026, a Justiça de Minas Gerais condenou Manoel Gonçalves de Freitas Neto, então síndico, em um processo relacionado aos deveres de preservação do imóvel protegido. A decisão também impôs multa ao condomínio. O caso envolvendo Maria Lima das Graças foi separado do processo e colocado sob sigilo.[31]
Galeria
- O conjunto visto em 2025.
- Vista dos edifícios a partir da Praça Raul Soares.
- Vista noturna de Belo Horizonte a partir do Conjunto JK.
- Vista do conjunto de dois blocos em 2025.
- Centro de Belo Horizonte, com a Praça Raul Soares próxima ao centro da imagem e o Conjunto JK visível no canto superior esquerdo.
Ver também
- Lista de obras de Oscar Niemeyer — panorama de edifícios e projetos desenhados por Niemeyer
- Conjunto Arquitetônico da Pampulha — projeto anterior de Niemeyer em Belo Horizonte, associado a Juscelino Kubitschek
- Arquitetura moderna — movimento arquitetônico ao qual o conjunto pertence
- Edifício Acaiaca — outro arranha-céu marcante no centro de Belo Horizonte
- Edifício Niemeyer — outro importante edifício residencial de Niemeyer em Belo Horizonte
Notas
- ↑ As iniciais "JK" se referem a Juscelino Kubitschek, governador de Minas Gerais quando o projeto foi lançado e, mais tarde, presidente do Brasil.
- ↑ O falanstério era o edifício coletivo proposto por Fourier para uma comunidade autossuficiente, combinando moradia, trabalho e serviços compartilhados.
- ↑ No uso condominial brasileiro, o síndico ou a síndica é a pessoa eleita ou designada para cuidar da administração do condomínio. O cargo se aproxima mais de um administrador condominial ou presidente de conselho do que de um zelador.
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 «Conjunto JK é tombado como patrimônio cultural de Belo Horizonte». Prefeitura de Belo Horizonte. 27 de abril de 2022. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 12 de março de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 «Conjunto JK, projetado por Niemeyer, é tombado como patrimônio cultural de Belo Horizonte». Universidade Federal de Minas Gerais. 19 de maio de 2022. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 22 de fevereiro de 2025
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 «Sobre». Conjunto JK. Consultado em 23 de maio de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 «As obras de Oscar Niemeyer em Belo Horizonte». MDC Revista de Arquitetura e Urbanismo. 28 de fevereiro de 2006. Consultado em 23 de maio de 2026
- ↑ «História do CEFET-MG». Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 10 de junho de 2024
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Leitura adicional
- Figueiro, Juliana da Silveira (2007). Conjunto Governador Kubitschek (Dissertação de mestrado). Universidade Politécnica da Catalunha
- Junqueira, Thaís Lanna; Bahia Lopes, Myriam (dezembro de 2019). «Edifício JK. A monumentalidade da arquitetura moderna». Vitruvius. Cópia arquivada em 12 de junho de 2025
- Pérez-Duarte Fernández, Alejandro; Souza, Talita Silvia (setembro de 2016). «Niemeyer e o modelo do semi-duplex». Vitruvius. Cópia arquivada em 17 de maio de 2026
- Queiroz, Rodrigo (dezembro de 2012). «Forma moderna e cidade: a arquitetura de Oscar Niemeyer no centro de São Paulo». Vitruvius. Cópia arquivada em 11 de abril de 2026


