Saúde
Codorna-mineira
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Desenho de 1824-1825 presente na obra Avium species novae, quas in itinere per Brasiliam annis MDCCCXVII-MDCCCXX de Johann Baptist von Spix | |||||||||||||||||
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Vulnerável (IUCN 3.1) [1] | |||||||||||||||||
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| Nome binomial | |||||||||||||||||
| Distribuição geográfica | |||||||||||||||||
Distribuição da codorna-mineira | |||||||||||||||||
| Sinónimos[2] | |||||||||||||||||
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A codorna-mineira[3][4] ou codorna-buraqueira[5] (nome científico: Nothura minor) é uma espécie de ave tinamiforme da família dos tinamídeos (Tinamidae). É endêmica dos ambientes campestres do Cerrado, ocorrendo principalmente em áreas abertas do Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, com uma população isolada conhecida no nordeste do Paraguai. Trata-se da menor espécie do gênero Nothura, caracterizada pela plumagem castanho-avermelhada densamente marcada por manchas e estrias escuras, hábitos terrestres e comportamento extremamente discreto. Habita sobretudo áreas de campo limpo e campo sujo, geralmente associadas a gramíneas altas, vegetação arbustiva esparsa e solos arenosos.
A espécie pertence à subfamília dos noturíneos, grupo de tinamídeos adaptado a ambientes abertos. Estudos filogenéticos recentes indicam que suas relações evolutivas dentro do gênero Nothura permanecem parcialmente incertas. Análises moleculares sugerem afinidade com a codorna-pálida (Nothura darwinii), enquanto hipóteses anteriores a relacionavam à codorna-do-nordeste (Nothura boraquira) ou ao grupo formado pela codorna-amarela (Nothura maculosa) e pela codorna-chaquenha (Nothura chacoensis). A espécie foi descrita por Johann Baptist von Spix em 1825 como Tinamus minor e possui como sinônimo taxonômico Nothura schreineri, proposto por Alípio de Miranda-Ribeiro em 1938.
Considerada uma das aves mais raras e ameaçadas do Cerrado, a codorna-mineira sofreu forte redução de distribuição em decorrência da conversão de campos nativos para agricultura, pecuária e silvicultura. Atualmente, as principais populações conhecidas concentram-se em áreas protegidas como o Parque Nacional da Serra da Canastra, o Parque Nacional das Emas e o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A espécie é classificada como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e como em perigo no Brasil, onde suas populações remanescentes encontram-se fortemente fragmentadas e sujeitas à perda de habitat, incêndios frequentes, caça e aos efeitos previstos das mudanças climáticas.
Etimologia
O nome popular codorna deriva por regressão de codorniz, forma documentada em português desde pelo menos o século XV como codornjzes. Por sua vez, codorniz tem origem no termo latino coturnix, coturnīcis, utilizado para designar aves da família dos tinamídeos e posteriormente aplicado a diferentes espécies conhecidas popularmente como codornas. O vocábulo codorna encontra-se registrado em português desde 1853.[6][7] O ergônimo "-mineira" diz respeito ao fato de se esconder em túneis escavados pelos tatus.[3] O nome genérico Nothura deriva do grego nothos (νόθος), que significa "espúrio", "falso" ou "bastardo", combinado com oura (οὐρά), "cauda", em referência à cauda extremamente curta e pouco evidente característica das espécies do gênero. O nome foi originalmente proposto na forma Nothurus, posteriormente substituída por Nothura para adequação ao gênero gramatical adotado na nomenclatura zoológica. O epíteto específico minor deriva do latim minor, que significa "menor".[8]
Taxonomia
A codorna-mineira é monotípica.[9][10] Pertence à família dos tinamídeos e à subfamília dos noturíneos, que reúne os tinamídeos associados predominantemente a ambientes abertos. Análises filogenéticas baseadas em dados moleculares, osteológicos, miológicos e em evidência combinada corroboraram a divisão da família em dois grandes clados: os tinamíneos, principalmente florestais, e os noturíneos, ligados a áreas abertas. Dentro destes últimos, estudos morfológicos e moleculares recuperaram consistentemente um agrupamento formado por Taoniscus, Nothura, Nothoprocta e Rhynchotus, distinto do clado constituído por Eudromia e Tinamotis.[11] Bertelli et al. (2014) recuperaram Eudromia e Tinamotis como grupo-irmão de todos os demais noturíneos e posicionaram Taoniscus como grupo-irmão de um Nothura parafilético, seguido pelo clado formado por Nothoprocta e Rhynchotus.[12] Já Almeida et al. (2022) encontraram uma estrutura semelhante para a subfamília, mas recuperaram especificamente os clados (Taoniscus + Nothura) e (Nothoprocta + Rhynchotus) como grupos-irmãos, reforçando a estreita afinidade entre esses gêneros.[11]
Análises anteriores fundamentadas em caracteres fenotípicos sugeriram que a codorna-do-nordeste (N. boraquira) e a codorna-mineira constituíam espécies-irmãs.[13] Contudo, estudos posteriores produziram resultados distintos. Na análise osteológica e miológica de Bertelli et al. (2014), a codorna-mineira, a codorna-do-nordeste , codorna-amarela (N. maculosa) e a codorna-pálida (N. darwinii) foram recuperadas como linhagens sucessivas dentro de um Nothura parafilético, sem suporte para uma relação particularmente próxima entre N. minor e N. boraquira.[12] Já nas análises moleculares de Almeida et al. (2022), N. boraquira foi recuperada como a linhagem mais basal entre as espécies amostradas de Nothura, enquanto N. minor formou um clado bem sustentado com a codorna-pálida. Esse agrupamento apareceu como irmão do clado formado por Nothura maculosa maculosa e Nothura maculosa chacoensis nas análises moleculares, embora a análise de evidência total tenha apresentado diferenças na posição relativa desses táxons, evidenciando alguma incerteza quanto às relações internas do gênero.[11]
Uma hipótese mais antiga, baseada na distribuição de piolhos-de-penas (malófagos), sugeriu que a espécie seria mais próxima do grupo formado pela codorna-amarela e pela codorna-chaquenha (Nothura chacoensis) do que das demais espécies do gênero.[14] Em uma análise biogeográfica dos endemismos do Cerrado, a codorna-mineira foi considerada uma das linhagens mais distintas da avifauna característica desse bioma, sendo interpretada como uma possível linhagem antiga isolada de seus parentes por eventos vicariantes ocorridos durante o Terciário Inferior ou Médio.[14] A hipótese de que Nothura seja parafilético não se restringe aos estudos moleculares recentes. Bertelli et al. (2014) já haviam recuperado o gênero como parafilético em uma análise baseada exclusivamente em caracteres osteológicos e miológicos, resultado posteriormente corroborado por Almeida et al. (2022), que encontraram o inhambu-carapé (Taoniscus nanus) inserido dentro de Nothura em análises bayesianas e de máxima verossimilhança.[12] Como a posição de Taoniscus variou entre diferentes métodos analíticos e pode ter sido influenciada pela quantidade limitada de dados moleculares disponíveis para a espécie, os autores consideraram prematura qualquer revisão formal da delimitação dos gêneros.[11] A espécie foi descrita por Johann Baptist von Spix em 1825 como Tinamus minor e possui como sinônimo taxonômico Nothura schreineri, nome proposto por Alípio de Miranda-Ribeiro em 1938.[2]
Descrição
A codorna-mineira é a menor espécie do gênero Nothura, medindo entre 18 e 19,5 centímetros de comprimento. Os machos pesam entre 158 e 174 gramas, enquanto as fêmeas apresentam massa corporal em torno de 158 gramas. Em comparação com outras espécies do gênero, possui postura relativamente ereta quando em repouso. A plumagem é bastante variável. Os indivíduos mais escuros apresentam testa e píleo castanho-avermelhados com manchas negras e pequenas estrias esbranquiçadas laterais. O pescoço é bege, marcado por manchas e estrias pretas, frequentemente mescladas por tonalidades castanho-avermelhadas na região inferior. As partes superiores são predominantemente castanho-avermelhadas, com manchas e vermiculações negras de intensidade variável. As penas apresentam finas estrias esbranquiçadas laterais, enquanto as coberteiras das asas são mais claras e barradas. As rêmiges são castanho-escuras com barras de coloração canela a castanha em ambas as vexilas. Alguns indivíduos apresentam padrão geral mais pálido, mantendo, entretanto, a mesma disposição básica das marcações. A face varia de castanho-avermelhada a amarelo-escura e apresenta ampla região relativamente uniforme ao redor dos olhos, interrompida por uma faixa pós-ocular escura. Em alguns exemplares ocorre ainda uma estreita linha malar escurecida. A garganta e o mento são brancos ou esbranquiçados, enquanto o peito apresenta estrias escuras ao longo das hastes das penas. O restante das partes inferiores varia de esbranquiçado a avermelhado. A íris é amarelo-clara a amarelo-alaranjada; o bico varia de cinza-córneo a castanho-escuro ou rosado-escuro na maxila, tornando-se mais claro na mandíbula, com a ponta geralmente mais escura. As pernas variam de rosa-amareladas a amarelo-alaranjadas. Os sexos são externamente semelhantes e a plumagem juvenil permanece insuficientemente conhecida.[15]
Distribuição e habitat
A codorna-mineira é quase endêmica do Brasil, ocorrendo de forma descontínua no Cerrado do Centro-Oeste e Sudeste do país. Os registros recentes concentram-se principalmente em Goiás e Minas Gerais, embora existam registros relativamente recentes para o Distrito Federal e o interior de São Paulo. Historicamente, a espécie também ocorria em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná, mas não existem registros recentes confirmados nesses estados. Há ainda referências históricas para Santa Catarina, onde a espécie é atualmente considerada possivelmente extinta. Durante muito tempo acreditou-se que a distribuição da espécie estivesse restrita ao Brasil. Entretanto, em 2001 foi descoberta uma população na região da Laguna Blanca, no departamento de São Pedro, no nordeste do Paraguai, constituindo o único registro conhecido fora do território brasileiro. Essa descoberta ampliou significativamente a distribuição conhecida da espécie, embora sua ocorrência continue extremamente localizada e fragmentada. Os registros paraguaios foram obtidos em diferentes propriedades inseridas em um remanescente de Cerrado com cerca de 26 mil hectares, dos quais aproximadamente 18 mil hectares permaneciam relativamente preservados à época da descoberta.[16][15] Na maioria das localidades brasileiras existem apenas registros históricos, sendo atualmente reconhecidas como remanescentes apenas algumas populações isoladas, principalmente no Parque Nacional da Serra da Canastra, Parque Nacional das Emas e Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Em avaliação nacional realizada pelo ICMBio, a área de ocupação da espécie foi estimada em apenas 200 quilômetros quadrados, refletindo a forte fragmentação e a restrição das populações atualmente conhecidas.[2] Sua distribuição atual está associada às sub-bacias do Araguaia, Paranaíba e Alto São Francisco.[17] Em março de 2020, a espécie foi fotografada e filmada no município de Pompéu, em Minas Gerais, constituindo um dos poucos registros documentados recentes fora das localidades tradicionalmente monitoradas para a espécie.[18]
A espécie está associada a ambientes campestres do Cerrado, ocupando principalmente áreas de campo limpo e campo sujo, além de formações de cerrado mais densas. No Brasil, ocorre predominantemente entre 700 e mil metros de altitude, enquanto a população paraguaia foi registrada a cerca de 215 metros de altitude, significativamente abaixo do limite inferior anteriormente atribuído à espécie.[15] Em comparação com a codorna-amarela (Nothura maculosa), tende a ocupar ambientes mais arbustivos, especialmente aqueles com cobertura contínua de gramíneas altas e juncos. Na Laguna Blanca, foi considerada localmente comum em áreas elevadas de campo sujo adjacentes a formações campestres mais abertas, sendo encontrada principalmente em trechos gramíneos próximos a ilhas de vegetação arbustiva, frequentemente associados a solo arenoso exposto e manchas de vegetação lenhosa baixa.[19] Embora possa utilizar áreas anteriormente queimadas após o início da regeneração da vegetação, aparentemente evita áreas submetidas a queimadas recentes, embora existam registros de indivíduos vocalizando em áreas queimadas já em processo de regeneração.[16][15]
Ecologia
A codorna-mineira é uma ave terrestre associada às formações abertas do Cerrado, onde permanece geralmente oculta entre gramíneas altas e vegetação arbustiva baixa. Trata-se presumivelmente de uma espécie sedentária, não existindo evidências de movimentos migratórios regulares ou deslocamentos sazonais de longa distância. Pouco se conhece sobre sua biologia. As informações disponíveis sobre alimentação são escassas, havendo referências de que consuma sementes, frutos caídos e insetos, embora inexistam estudos detalhados sobre dieta, estratégias de forrageamento ou composição alimentar.[18] Da mesma forma, inexistem estudos aprofundados sobre comportamento social, uso do espaço ou estrutura populacional. Há registro de predação da espécie pela coruja-buraqueira (Athene cunicularia), uma das poucas interações ecológicas documentadas para a espécie.[2] Observações realizadas no Paraguai demonstraram que a espécie utiliza tocas de tatus, provavelmente de Cabassous sp. ou do tatu-peba (Euphractus sexcinctus), nas quais os indivíduos podem penetrar dezenas de centímetros abaixo da superfície. Esse comportamento foi registrado após aves acuadas se refugiarem no interior das galerias, mas também há indícios de que as tocas sejam utilizadas como abrigo noturno. Os autores sugeriram ainda que esse hábito possa auxiliar a espécie a sobreviver a incêndios que afetam regularmente os campos do Cerrado.[16]
A vocalização constitui um dos principais meios de detecção da espécie em campo. O canto consiste em uma sequência de assobios longos, altos e metálicos, frequentemente descritos como uma série de notas prolongadas seguidas por assobios mais curtos e rápidos. Essa vocalização difere claramente do trinado característico da codorna-comum, permitindo a identificação auditiva das duas espécies mesmo em ambientes de vegetação densa. Os indivíduos costumam vocalizar principalmente ao entardecer, quando vários exemplares podem cantar simultaneamente, embora vocalizações esporádicas também tenham sido registradas ao longo de todo o dia, frequentemente provocando respostas de indivíduos próximos. Em Laguna Blanca, coros vespertinos com até cinco aves foram registrados em áreas favoráveis à espécie.[16] O comportamento extremamente discreto da codorna-mineira dificulta sua observação direta. Diversos indivíduos foram detectados apenas ao levantar voo quase sob os pés dos observadores, enquanto um exemplar acompanhado de perto permaneceu imóvel e agachado sobre solo arenoso exposto entre tufos de gramíneas, sendo percebido apenas após realizar um breve movimento da cabeça.[19] Em áreas de ocorrência conhecida, indivíduos vocalizantes geralmente mantêm distâncias mínimas de cerca de 200 metros entre si.[16] As informações sobre reprodução são igualmente escassas. Com base na sazonalidade dos registros disponíveis, acredita-se que a estação reprodutiva ocorra entre outubro e fevereiro. Entretanto, aspectos como tamanho da postura, período de incubação, desenvolvimento dos filhotes e cuidados parentais permanecem desconhecidos.[15] Além disso, avaliações recentes destacam a carência de informações sobre praticamente todos os aspectos da história natural da espécie, incluindo tendências populacionais, requisitos de habitat, padrões de deslocamento e distribuição geográfica detalhada.[17]
Conservação
Em 2018, a codorna-mineira foi classificada como vulnerável (VU) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), sob o critério C2a(i),[a] em razão do reduzido tamanho populacional, da fragmentação de suas populações e do declínio contínuo do número de indivíduos maduros. A espécie vem sendo considerada ameaçada em âmbito global desde 1988, quando foi listada como ameaçada (T), e permaneceu enquadrada como vulnerável em todas as avaliações subsequentes da UICN realizadas entre 1994 e 2018.[1] No Brasil, entretanto, a espécie é considerada mais ameaçada. Foi incluída na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção de 2014 e em sua atualização de 2022 na categoria em perigo (EN), com base no critério B2ab(ii,iii),[b] relacionado à reduzida área de ocupação e ao declínio contínuo da ocupação e da qualidade do habitat.[20][21] A mesma categoria foi adotada no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção de 2018.[22] Em âmbito estadual, a situação é ainda mais preocupante: em São Paulo, na Lista das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de São Paulo, a espécie foi considerada criticamente em perigo (CR) nas avaliações de 2008, 2010 e 2014, após ter sido listada como CP em 1999, sendo posteriormente classificada como Regionalmente Extinta (RE) em 2018.[23] Em Minas Gerais, foi avaliada como Em Perigo (EN) na Lista das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais de 2008 e 2010.[24][25] No Paraguai encontra-se classificada como criticamente em perigo (CR). A avaliação nacional de 2018 estimou a área de ocupação da espécie em apenas 200 quilômetros quadrados e concluiu que as populações remanescentes encontram-se fortemente fragmentadas. A categoria Em Perigo foi mantida mesmo após a consideração da população paraguaia, uma vez que sua inclusão não alterou significativamente o risco de extinção da espécie no contexto nacional.[2] Em avaliação posterior conduzida pelo ICMBio, a espécie foi enquadrada como Em Perigo pelo critério A4cd,[c] com base na estimativa de declínio populacional superior a 50% ao longo de três gerações, decorrente da combinação entre perda de habitat e mortalidade associada à caça. Segundo essa avaliação, a redução populacional projetada resulta da perda continuada de áreas naturais do Cerrado e da retirada direta de indivíduos pela caça, produzindo um declínio total estimado em 52% ao longo de aproximadamente 20 anos.[17]
É considerada geralmente rara em toda a sua distribuição, embora possa ocorrer localmente em densidades um pouco mais elevadas. Mesmo em áreas adequadas, costuma ser registrada em números reduzidos e está ausente de extensas áreas aparentemente favoráveis. A população total é estimada entre 2 500 e 9 999 indivíduos maduros, correspondendo a aproximadamente 3 500–15 mil indivíduos no total, distribuídos em subpopulações pequenas e isoladas, nenhuma das quais ultrapassa mil indivíduos maduros. A tendência populacional é considerada decrescente, sendo estimado um declínio de 10–19% tanto no passado quanto nas próximas décadas, em decorrência da contínua redução da área de ocupação, da extensão de ocorrência e da qualidade do habitat. Desde a década de 1980, os registros confirmados concentram-se principalmente em áreas protegidas, incluindo o Parque Nacional de Brasília, a Reserva Ecológica do IBGE, o Parque Nacional das Emas, o Parque Nacional da Serra da Canastra, a Estação Experimental de Itapetininga e a Estação Ecológica de Itirapina. A espécie também foi registrada no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. No Paraguai, levantamentos realizados na região da Laguna Blanca registraram pelo menos 14 indivíduos vocalizando em três localidades distintas.[15] Embora a espécie seja considerada globalmente rara, foi descrita como localmente comum em algumas áreas favoráveis desse remanescente de Cerrado.[19] Os registros paraguaios foram obtidos em diferentes propriedades inseridas em um amplo remanescente de Cerrado, indicando que a população local ocupava uma área relativamente extensa dentro da região de Laguna Blanca.[16] Mesmo nessas áreas, a espécie ocorre em baixas densidades; no Parque Nacional de Brasília, por exemplo, apenas três indivíduos vocalizando foram registrados em aproximadamente 20 hectares. A ausência de registros recentes em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e em diversas localidades historicamente ocupadas sugere uma contração significativa da distribuição geográfica da espécie. Embora a extensão de ocorrência permaneça relativamente ampla, as populações remanescentes encontram-se dispersas e fragmentadas em poucas localidades conhecidas.[1] Segundo a avaliação nacional mais recente, a espécie encontra-se atualmente praticamente restrita a três populações remanescentes conhecidas, localizadas no Parque Nacional da Serra da Canastra, Parque Nacional das Emas e Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, sem conexão aparente entre si.[2]
A principal ameaça à espécie é a destruição dos campos nativos do Cerrado. A expansão da agricultura mecanizada, da pecuária intensiva, do cultivo de cana-de-açúcar e soja e dos plantios florestais de espécies exóticas, como eucaliptos e pinheiros, provocou a perda de extensas áreas de habitat adequado. Outros fatores de pressão incluem a invasão por gramíneas exóticas, o uso intensivo de pesticidas, a mineração, as queimadas frequentes e a caça para alimentação humana.[15][17] Estima-se que, já no início da década de 1990, cerca de dois terços da cobertura original do Cerrado haviam sido moderada ou severamente alterados, sendo a maior parte dessa transformação ocorrida após 1950. A espécie parece particularmente vulnerável a essas mudanças por depender de formações campestres com cobertura contínua de gramíneas altas e ciperáceas, habitats que vêm sofrendo forte redução em toda sua área de ocorrência. No Paraguai, a situação é considerada especialmente preocupante. Na região da Laguna Blanca, a conversão dos campos naturais em pastagens com gramíneas exóticas e plantações de eucalipto reduziu significativamente o habitat disponível. Além disso, grande parte da paisagem circundante foi convertida em extensas plantações de soja e áreas destinadas à pecuária, aumentando o isolamento dos remanescentes de Cerrado da região.[16] Como consequência, a população local passou a restringir-se a poucos indivíduos remanescentes em propriedades privadas vizinhas, algumas já convertidas para silvicultura comercial. Mesmo em unidades de conservação, a espécie continua sujeita aos impactos de incêndios descontrolados, considerados uma das principais causas atuais de redução da área de ocupação e perda de qualidade do habitat.[2] Na Laguna Blanca, os incêndios afetam os ambientes de Cerrado de forma quase anual, constituindo um fator adicional de pressão sobre as populações locais. Além dos incêndios naturais característicos do bioma, a queima não manejada da vegetação para conversão dos campos em pastagens foi apontada como uma das principais ameaças locais à espécie, podendo causar impactos severos sobre populações que tendem a evitar áreas recentemente queimadas.[19][16] Além das ameaças atuais, modelos climáticos indicam que as mudanças climáticas poderão provocar uma contração superior a 50% da área potencialmente adequada para a espécie até o final do século XXI.[1]
Apesar desse cenário, a maior parte da população atualmente conhecida ocorre em unidades de conservação ou em áreas protegidas. A espécie possui proteção legal tanto no Brasil quanto no Paraguai.[15] No Brasil, a espécie está contemplada no Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves do Cerrado e Pantanal, que estabelece ações voltadas à redução da perda de habitat, recuperação de áreas degradadas e ampliação do conhecimento científico sobre as espécies ameaçadas desses biomas.[2][17] A ficha nacional de avaliação também destaca a escassez de informações sobre praticamente todos os aspectos da biologia da espécie, apontando como prioridades de pesquisa a obtenção de dados sobre tendências populacionais, exigências de habitat, padrões de deslocamento e distribuição geográfica.[17] Entre as medidas recomendadas para sua conservação estão a realização de levantamentos direcionados em áreas potencialmente adequadas do norte e oeste de Minas Gerais, de Goiás, da Serra do Cipó e do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, além da busca por novas populações no nordeste do Paraguai. Também são consideradas prioritárias a ampliação do conhecimento sobre a ecologia da espécie, a proteção de remanescentes campestres fora de unidades de conservação e o controle da expansão agropecuária e florestal sobre áreas de ocorrência conhecidas, especialmente na região da Laguna Blanca. Diversos autores também destacaram a necessidade de criação e ampliação de áreas protegidas nos remanescentes de Cerrado do Paraguai, particularmente na Laguna Blanca, considerada uma das áreas mais importantes do país para a conservação da avifauna típica desse bioma.[16][1]
Notas
- [a] ^ critério C2a(i) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) é aplicado a espécies que possuem uma população reduzida e em declínio contínuo, associada à fragmentação de seus indivíduos em subpopulações pequenas. Para enquadrar-se nesse critério na categoria Vulnerável, a espécie deve possuir menos de 10 mil indivíduos maduros, apresentar declínio contínuo observado, inferido ou projetado e não possuir nenhuma subpopulação com mais de mil indivíduos maduros. Esse critério busca identificar espécies que, embora possam ocupar áreas relativamente extensas, apresentam populações pequenas e fragmentadas, tornando-se mais suscetíveis a extinções locais, perda de variabilidade genética e efeitos de eventos estocásticos.[26]
- [a] ^ O critério B2ab(ii,iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) refere-se a espécies com área de ocupação muito reduzida e sujeitas a declínio contínuo de parâmetros relacionados à distribuição e ao habitat. O componente B2 exige que a área de ocupação permaneça abaixo dos limites estabelecidos pela UICN para a categoria correspondente, enquanto a letra a indica que a espécie encontra-se severamente fragmentada ou restrita a poucas localidades. Já os subcritérios b(ii) e b(iii) indicam, respectivamente, declínio contínuo da área de ocupação e da extensão, qualidade ou integridade do habitat. Esse critério enfatiza a vulnerabilidade decorrente da restrição espacial das populações e da deterioração dos ambientes ocupados.[26]
- [c] ^ O critério A4cd da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) é um dos critérios utilizados para avaliar o risco de extinção com base em reduções populacionais. A letra A corresponde a declínios no tamanho da população, enquanto o número 4 indica que a redução é avaliada ao longo de um período que engloba tanto o passado quanto o futuro, abrangendo até três gerações ou dez anos, o que for maior. Diferentemente dos critérios A1 e A2, o A4 é empregado quando as causas do declínio não cessaram, não são plenamente compreendidas ou não são reversíveis. As letras subsequentes especificam as evidências utilizadas para inferir ou estimar a redução populacional. A letra c refere-se ao declínio da área de ocupação, da extensão de ocorrência e/ou da qualidade do habitat, enquanto a letra d corresponde aos níveis reais ou potenciais de exploração da espécie. Assim, o critério A4cd é aplicado quando a redução populacional é inferida a partir da deterioração do habitat e da exploração direta dos indivíduos. Para o enquadramento na categoria Em Perigo (EN), a redução estimada, observada, inferida ou suspeita deve atingir pelo menos 50%; para Vulnerável (VU), pelo menos 30%; e para Criticamente em Perigo (CR), pelo menos 80%.[26]
Referências
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