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Batracomiomaquia
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Batracomiomaquia (do grego Βατραχομυομαχία; βάτραχος, sapo/rã, μῦς, rato, e μάχη, batalha), também conhecida historicamente como Batracomaquia ou Miomaquia, é um pequeno poema épico cômico (ou *έπος* alegre) constituído por 303 versos que sobreviveu desde a Grécia Antiga. Trata-se de uma paródia herói-cômica do poema épico Ilíada, comumente atribuído a Homero pelos romanos e durante o período bizantino. No entanto, de acordo com Plutarco,[1] a obra foi escrita por Pigres de Halicarnasso, irmão (ou filho) de Artemísia I de Cária, aliada de Xerxes I.
Alguns literatos e filólogos modernos, por sua vez, contestam fortemente a autoria homérica e atribuem o poema a um autor anônimo do tempo de Alexandre, o Grande, calculando que a data de sua composição original pertença ao intervalo entre os séculos VI e IV a.C., ou possivelmente mais tardia, aproximando-se do século II a.C. devido a potenciais influências estilísticas do poeta Calímaco.[2]
Na cultura popular e na linguagem corrente, a palavra batracomiomaquia passou a denotar metaforicamente uma "briga boba" ou uma disputa acirrada por motivos fúteis.
Estrutura e Argumento
Segundo fontes clássicas, o argumento central da obra baseia-se livremente em uma das Fábulas de Esopo, na qual um rato aceita o convite de uma rã para brincar em um lago e acaba se afogando, desencadeando um subsequente conflito militar entre as espécies.
Enredo
O poema inicia-se com um breve prólogo (versos 1-8) em que o autor evoca formalmente o auxílio das Musas para cantar a magnitude da batalha. Na sequência, estabelece-se a causa do conflito: um rato faminto chamado Rouba-Migalhas (*Psicharpax*), enquanto bebe água à margem de um lago, encontra Infla-Bochechas (*Physignathos*),[3] o rei das rãs. O monarca convida o roedor a subir em suas costas para visitar o palácio real e conhecer a corte pântano afora.
No entanto, no meio da travessia pelo lago, uma assustadora cobra d'água emerge repentinamente. Aterrorizado, o rei Infla-Bochechas mergulha impulsivamente para salvar a si próprio nas profundezas, esquecendo-se do convidado. Incapaz de nadar, o rato debate-se fortemente na superfície, pragueja contra a traição dolosa da rã invocando os olhos vingadores dos deuses, e acaba morrendo afogado.
Outro rato chamado Lamber-Pratos (*Leichopinax*), que testemunhava a cena da margem fresca do lago, solta um grito de horror e corre para anunciar a tragédia aos seus semelhantes. Tomados por uma terrível indignação, os ratos ordenam que seus arautos convoquem uma assembleia geral ao amanhecer no palácio de Roe-Pão (*Trochartes*), pai do falecido Rouba-Migalhas. Diante do conselho, o patriarca discursa lamentando a ruína de sua linhagem (tendo perdido o primeiro filho para uma gata e o segundo para uma armadilha humana de madeira, a ratoeira), e incita a população às armas para vingar o infanticídio.
Os ratos enviam um arauto oficial, Entra-na-Panela (*Embasichytros*) — filho do guerreiro Roe-Queijo (*Tyroglyphos*) —, para apresentar a declaração de guerra formal às rãs. Reunidas, as rãs culpam seu rei pelo incidente, mas Infla-Bochechas nega categoricamente qualquer dolo ou culpa, instigando o exército anfíbio a se paramentar também com armaduras para o combate iminente (versos 99-167).
Intervenção Divina
Diante dos preparativos militares bélicos na Terra, Zeus convoca um conselho no Monte Olimpo e indaga quais deuses tomarão partido na peleja, sugerindo especificamente que Atena lidere a facção dos ratos. Atena recusa prontamente, argumentando que os ratos constantemente destroem suas fiéis vestes sagradas e roem seus tecidos, acrescentando ainda que tampouco apoiará as rãs, cujo barulho incessante lhe causa terríveis crises de insônia. Seguindo a recomendação de Hera, os deuses decidem adotar uma postura de estrita neutralidade, assentando-se nos céus apenas para assistir ao espetáculo bélico sem interferências diretas (versos 168-198).
A Batalha e o Desfecho
A guerra inicia-se em tom ritualístico e solene: mosquitos tocam as marchas militares de combate e Zeus emite o sinal do início das hostilidades através de um grande trovão. O confronto se desenrola com violência e baixas sangrentas em ambos os flancos (versos 199-269), evidenciando com teor cômico a adoção dos maneirismos heróicos da Ilíada. Gradualmente, a facção dos ratos estabelece uma nítida superioridade tática e física sobre as rãs, ameaçando exterminá-las por completo.
Preocupado com a destruição total da raça dos anfíbios, Zeus convoca uma segunda assembleia celestial e decide intervir. Inicialmente, o deus lança seus raios e relâmpagos contra o campo de batalha, mas o artifício assusta os combatentes sem interromper o avanço implacável dos roedores. Como último recurso, Zeus envia para a arena um exército de reforço composto por criaturas blindadas: os caranguejos (historicamente descritos no texto original por epítetos satíricos como seres de costas de bigorna, andar oblíquo, bocas de tesoura, corpo tortuoso e olhos no peito). Com suas pinças potentes, os crustáceos mutilam as caudas, patas e mãos dos ratos, entortando suas lanças e espalhando o terror. Impotentes contra a infantaria blindada, os ratos batem em retirada em debandada geral. A guerra de um único dia encerra-se formalmente com o pôr-do-sol (versos 294-303).
Legado e influência cultural
O poema gozou de expressiva popularidade na Antiguidade clássica, mantendo seu prestígio acadêmico e literário ao longo do Império Bizantino e, posteriormente, convertendo-se em modelo de sátira estética recorrente durante o Renascimento. A obra é reconhecida por inaugurar ou consolidar a tradição da paródia herói-cômica, demonstrando habilidade descritiva ao entrelaçar o vocabulário trágico e solene com a pequenez dos animais retratados.
A estrutura narrativa e o uso da intervenção de panteões míticos para mediar disputas de proporções trágicas ou paródicas continuam servindo como forte baliza literária em releituras contemporâneas.
Na série de histórias em quadrinhos brasileira Maramunhã (iniciada em 2022), a fábula grega é adaptada para o contexto folclórico e ecológico amazônico, promovendo uma substituição faunística onde a disputa original entre ratos e sapos cede lugar a um conflito armado regionalizado entre quatipurus e jabutis. Na trama da HQ, a mediação final e o encerramento das hostilidades espelham o papel dos deuses olímpicos por meio da intervenção das deusas da etnia Manaus: Manara, a deusa do dia, e Sarana, a deusa da noite, que são formalmente imploradas pelo personagem Japiim para arbitrar a paz.[4]
Traduções
Há quatro traduções completas do poema diretamente para a língua portuguesa:
- "Batalha de ratos e batráquios" em *Poemetos e fragmentos* (Tradução, introdução e notas do Padre Manuel Alves Correia).[5] Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1947, pp. 1-44.
- *Batracomiomaquia. A batalha dos ratos e rãs* (Estudo, introdução e tradução de Fabricio Possebon). São Paulo: Humanitas - FFLCH/USP, 2003.
- [*Batracomiomaquia. Edição da tradução portuguesa de António Maria do Couto*](https://bibliotronicaportuguesa.pt/livro/batracomiomaquia-antonio-maria-do-couto-trad/).[6] Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2007.
- *Batracomiomaquia. A guerra das rãs e dos ratos* (Introdução e tradução direta do grego por Rodolfo Pais Nunes Lopes). Coimbra: Fluir Perene/IEC, 2008.
Referências
- ↑ Plutarch, De Herodoti Malignitate, 43.
- ↑ A. Ludwich (1896).
- ↑ Traduzido livremente na literatura grega moderna por Ioánnis Vilarás como Bochechas-de-Assopro (Φουσκομάγουλος).
- ↑ «Maramunhã, nova HQ de Evaldo Vasconcelos e Ray Cardoso, chega ao Catarse». Omelete (em inglês). 22 de julho de 2021. Consultado em 26 de maio de 2023. Cópia arquivada em 10 de outubro de 2025
- ↑ Considerada pela crítica especializada a menos fiel à métrica e literalidade das quatro traduções existentes.
- ↑ Publicada inicialmente no ano de 1835, em Lisboa, pela histórica Tipografia de R. D. Costa.
