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Aristodemo de Cidateneu
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Aristodemo de Cidateneu (em grego: Ἀριστόδημος Κυδαθηναιεύς, Aristódēmos Kudathēnaieύs; fl. c. século V a.C.) foi um antigo ateniense discípulo do filósofo Sócrates. Ele é mais lembrado como personagem e fonte narrativa no Banquete de Platão, e também é preservado nas Memórias de Xenofonte e em um fragmento de Aristófanes.
Chamado de "pequeno" em relação à sua estatura e uma pessoa pobre, há diversas interpretações em torno do possível papel que ele tinha ao ser representado por Platão como o memorizador e fonte primária de todo o relato que restou do banquete luxuoso do diálogo: desde como alguém insignificante e mau, até como grandemente bom e essencial à estrutura da narrativa (como em termos de crítica social e de hipotético formato iniciático) e ao desenvolvimento filosófico sobre Eros.
Vida
Aristodemo é descrito como um nanico descalço de nascimento humilde no Banquete de Platão,[1] enquanto Xenofonte se refere a ele como Aristodemo, o anão ("Ἀριστόδημον τὸν μικρόν Aristódēmon tón mikrón").[2] Ele era cidadão do mesmo demo (Cidateneu) que o comediante Aristófanes (com quem aparece no Banquete), o que significa que os dois tinham obrigações sociais e cívicas um para com o outro.[3]
No diálogo platônico, a personagem de Apolodoro afirma que Aristodemo era "o amante mais fervoroso de Sócrates [Σωκράτους ἐραστὴς]" (conforme a tradução de Luc Brisson):[4] no contexto do diálogo, a significação mais própria que erastes possui não é sexual, mas de "admirador" e mesmo "discípulo".[5][6]
Embora pouco se saiba sobre sua vida, sua representação como membro de uma geração anterior de seguidores socráticos situa seu nascimento no início ou meados do século V a.C.,[2] uma teoria apoiada por sua aparente inclusão na comédia Convivas de Aristófanes de 427.[7] Os estudiosos presumem que sua morte ocorreu antes do final do século V, já que ele não estava presente durante os últimos dias de Sócrates em 399, apesar de ser um aluno dedicado.[1][2][8]
Pensamento e representação na literatura
Aristodemo é geralmente considerado um seguidor de Sócrates.[9] Sua própria filosofia é obscura. Ela é melhor preservada através de sua representação em Xenofonte como um admirador de artistas que não reza nem sacrifica devido ao que ele percebe como a falta de necessidade dos deuses.[2][8] Isso levou alguns comentaristas a atribuir a Aristodemo uma possível vertente do protoateísmo socrático[10] e R. D. C. Robbins afirma que Aristodemo tanto desprezava os deuses quanto ridicularizava aqueles que os adoravam.[11]
Porém, Xenofonte diz dele que "ele não oferecia sacrifícios aos deuses, não lhes rezava, não praticava adivinhação e até zombava daqueles que se dedicavam a essas práticas, [acrescentando que] ele não desprezava a divindade, mas (...) acreditava que ela era grande demais para precisar de sua homenagem".[12] Nesse mesmo capítulo IV do Livro I das Memorabilia, Xenofonte narra um diálogo entre Aristodemo e Sócrates. Este pergunta a Aristodemo se há algum homem que ele admire, ao que este responde citando figuras que, a seu ver, se destacam em diferentes artes: Homero, Sófocles, Policleto e Zêuxis. Seguiu-se um longo diálogo entre os dois homens sobre o propósito da criação, conversa que Sócrates concluiu assim:[13]
“Ao servir e prestar contas aos homens, tu reconheces aqueles que estão dispostos a servir e prestar contas a ti também, e ao consultá-los, distingues os prudentes. Faz o mesmo com relação aos deuses; teste-os honrando-os, para ver se eles o aconselharão sobre o que ocultaram dos homens. Então tu reconhecerás que a Divindade é grande e poderosa o suficiente para ver e ouvir tudo ao mesmo tempo, para estar presente em todos os lugares e para atender a tudo simultaneamente.”
Já Aristófanes retrata-o pejorativamente, afirmando que o "traseiro" (proktos) de Aristodemo podia ser confundido com o homem inteiro.[14]
Interpretações vinculadas ao Banquete

A representação de Aristodemo no Banquete de Platão gerou debate. Há estudiosos que interpretaram seu caráter de maneira negativa, como eticamente "pequeno" por supostamente se engrandecer com uma humildade performática ao estar descalço;[17] como pessoa de caráter questionável por "vazar" os ocorridos naquele banquete;[17] como arrogante[18] ou patético.[19]
Apesar do julgamento negativo de Leo Strauss, ele admite que, no Banquete, Aristodemo representa a própria imagem de Eros, como alguém totalmente invisível e em penúria, em sua jornada de necessidade. Há outros que assim também o identificam, como Paul O'Mahoney, apontando que Eros que foi ignorado pelos convivas.[20]
Assim, há intérpretes que fornecem representações positivas. Catherine Osborne afirma que Aristodemo era um estudante exemplar, que atingiu o objetivo como discípulo de Sócrates e verdadeiro amante: como tal, obteve maestria na filosofia.[17] Ele também pôde ser visto como representante da modéstia, da humildade socrática e, como ouvinte em silêncio nos bastidores, símbolo de contemplação e recepção da verdade.[21]
É Sócrates quem convida Aristodemo para se juntar ao Banquete, embora este não fosse convidado, e o filósofo tenta animá-lo citando um provérbio alterado: "bons homens vão sem convite ao festim do Bom [Agatão]". Aristodemo apresenta-se como modesto e impressionado com a fama ou talento de Agatão, enquanto Sócrates não: a sabedoria de Agatão é rebaixada posteriormente.[22] No diálogo, há quatro pares de homens, com diferentes relações previamente estabelecidas, que celebram a vitória poética de Agatão: Aristodemo constitui um par com Aristófanes, pois se vinculam como membros do mesmo demo, porém o comediógrafo o ignora.[3]
Danielle A. Layne pondera que a descrição platônica de um Aristodemo sem sandálias e sem tomar banho não se deu simplesmente por imitação a Sócrates (que também hábito de estar descalço), mas porque ele era realmente pobre, embora fosse cidadão ateniense. As referências à passividade e promiscuidade, feita por Aristófanes, podem indicar que ele lutava para sobreviver e já se especulou que ele teria sido um prostituto escravizado, tal como outro discípulo próximo de Sócrates, Fédon. Devido à baixa estatura, ele pode ter sido segregado à classe de trabalhadores das ruas: Sócrates o encontra no diálogo próximo a uma casa de banho, que era um local associado a trabalho sexual.[14]
A quantidade de detalhes para a descrição também é evidência de seu baixo status social, diferente das outras figuras bastante conhecidas; outra evidência é a de que sua oportunidade de falar é posteriormente ignorada.[6] Embora a festa de bebida retratada no Simpósio envolvesse cada convidado discursando sobre a natureza do deus Eros, o próprio discurso de Aristodemo foi omitido, não relatado ou nunca proferido, talvez devido à sua insignificância percebida.[2][23]
Devido a Sócrates ter ficado para trás a caminho do banquete, em seu hábito de introspecção, Aristodemo foi forçado a chegar primeiro.[22] Pode ter sido frustrante para Agatão encontrar Aristodemo sozinho à porta de sua casa sem Sócrates: era alguém considerado baixo que nunca seria convidado a um banquete dessa estatura social.[14]
Stanley Rosen sugere que Aristodemo também seria enxergado como "feio" devido ao seu epíteto de "pequeno". Por não ser alguém importante, é possível que Agatão estivesse sendo somente educado em lhe dar atenção e ao ter afirmado que tentou procurá-lo anteriormente para o convidar ao banquete.[20]
Mas há leituras que defendem um caráter crítico e subversivo do diálogo platônico em exaltar a figura de Aristodemo. Levanta-se como uma das possibilidades de leitura a questão de Aristodemo talvez ser alguém não convidado que na verdade é superior a Agatão, devido à sua vida filosófica, em contraste com o poeta.[22]
Para além de interpretações comuns de que Aristodemo, junto de Apolodoro, seriam narradores não confiáveis, Layne considera o enquadre como focado mais na relevância da classe social baixa, em que se adequa e seria bastante plausível o "mexerico" para se transmitir e aumentar uma informação. Afinal, Aristodemo reconta a história a mais de uma pessoa e o banquete de figurões seria um assunto entusiasmadamente comentado por aqueles que não podiam normalmente frequentá-lo. Alcibíades, no diálogo, repreendia aqueles que ele considerava de "classe baixa" por relatarem fofocas sobre o insulto cometido por Sócrates a ele: Platão ilustra justamente essa cena do insulto.[14]
Há contraste entre Aristodemo e Alcibíades: Alcibíades pede que aqueles presentes que ele considerava baixos e profanos tapassem seus ouvidos para não escutar o que ele contaria sobre Sócrates; porém, Aristodemo (que recairia nessas categorias de julgamento negativo do abastado e orgulhoso militar) foi quem ouviu e contou a história como fonte primária. Além do mais, ele aparece como rejeitado e não visto por Agatão (por exemplo na passagem 174e, por fingimento ou por de fato este falhar de avistá-lo sentado à mesa). Retratar naquele ambiente alguém considerado de classe baixa e associado à prostituição pode ter conferido um sentido de vingança e vitória ao narrador Apolodoro: o poeta Agatão, no diálogo, demonstra que tinha padrões altos e que só aceitava pessoas "decentes".[14]
Aristodemo era um personagem invisível: é intrigante como a própria fala de Aristodemo no banquete em louvor a Eros, que devia ter sido relatada por ele próprio (já que também era simposiasta), foi esquecida e omissa sem aparente justificativa. Ele estava compondo a mesa e deveria ter sido chamado pelo menos por Aristófanes. O contexto sugere que os simposiastas passaram por Aristodemo deliberadamente ignorando-o. Seu nome pode remeter a um jogo de palavras (Aristo-deme, "Bom Povo"), que foi desprezado a favor de Aristófanes ("Boa Aparência"). A imagem que Sócrates traz no início de sua exposição sobre o Eros descalço e pobre pode ser uma possível repreensão à atitude dos convivas para com Aristodemo: Sócrates estava calçado e tinha tomado banho, enquanto Aristodemo era o único descalço.[14]
"Primeiro, [Eros] é sempre pobre, longe de ser mole ou belo como muitos acreditam; mas, ao invés disso, é duro e rude, descalço e sem teto; sempre está no chão descoberto, dormindo em público pelas portas e estradas. Possuindo a natureza de sua mãe, ele reside em necessidade. De acordo com seu pai ele se aproveita de tudo aquilo que é belo e bom—bravo, corajoso e intenso, um caçador astuto, sempre tramando algum artifício, desejoso de sabedoria prática, engenhoso, um filósofo por toda sua vida; um mago sagaz, farmacista e sofista" —O Banquete 203c-d[14]
Pode estar sendo sugerido, assim, que Aristodemo seja um paralelo de Eros, sempre presente. Por ser humilde, não exige nada de Sócrates e não tem nada a doar, justificando sua posição no início do diálogo como erastes (amante), que busca a perfeição, diferente de todos os outros (como Agatão e Alcibíades):[14] estes gostariam de ser os amados (eromenos) de Sócrates.[6]
De caráter honesto e leal no diálogo, por necessidade ele parecia se entregar totalmente à filosofia, o que se afigura em seu acompanhamento incondicional a Sócrates. O próprio Sócrates pode ter implicitamente chamado Aristodemo como sendo um nome de Eros por excelência em O Banquete 212b-c, o que também passa despercebido.[14]
Sean Steel interpreta que a narrativa imita a passagem da Odisseia em que ocorre a catábase ao encontro com as sombras: o relato de Aristodemo, contado após muitos anos, seria paralelo ao relato que Odisseu fez ao rei Menelau e Arete muito tempo após sua jornada. Em Banquete 174d, a citação que Sócrates faz de Homero coloca Aristodemo na posição de Odisseu.[24] Segundo Crystal Addley, a estrutura se assemelha também a uma iniciação, em que Sócrates é um mistagogo que, de início, faz uma pausa para que Aristodemo complete a jornada.[25] O diálogo termina de manhã, com Sócrates desperto e Aristodemo acordando: Sócrates foi depois se banhar no santuário de Apolo Liceu e Aristodemo segue-o como uma "sombra", até que o filósofo retorna à casa no fim de tarde para descansar.[26][27]

Referências
- 1 2 Platão, O Banquete 173b
- 1 2 3 4 5 Debra Nails, The People of Plato, Indianapolis: Hackett Publishing, 2002, pp. 52–53
- 1 2 Nails, Debra (2006). «Tragedy Off-Stage» (PDF). In: Lesher, James H.; Nails, Debra; Sheffield, Frisbee. Plato's Symposium. Issues in Interpretation and Reception. Cambridge: Harvard University Press
- ↑ O Banquete, 173b, trad. Luc Brisson. In: Platão. Œuvres complètes (2011). Brisson, Luc (org.). Paris: Flammarion, p. 106.
- ↑ Platão (25 de agosto de 1993). Allen, Reginald, ed. The Dialogues of Plato: The Symposium (em inglês). [S.l.]: Yale University Press. p. 112, nota 165. ISBN 978-0-300-05699-0
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