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Antipapa Gregório VIII
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| Antipapa Gregório VIII | |
|---|---|
Gregório VIII submete-se ao papa Calisto II | |
| Nascimento | século XI |
| Morte | 1137 Cava de' Tirreni |
| Cidadania | França |
| Ocupação | diplomata, padre, padre católico de rito romano, episcopado católico, arcebispo católico, antipapa |
| Cargo(s) | |
| Religião | catolicismo, Igreja Católica |
Maurício Burdino (latim: Mauricius ou Mauricius Burdinus; provavelmente natural da região de Limoges ou do Limousin, século XI - possivelmente Cava de’ Tirreni, após 1121) foi um clérigo francês que exerceu os cargos de bispo de Coimbra (1099-1108), arcebispo de Braga (1109-1118), legado apostólico e, posteriormente, antipapa sob o nome de Gregório VIII (1118-1121), durante a Querela das Investiduras, no contexto da oposição imperial de Henrique V aos papas Gelásio II e Calisto II.[1]
A designação “Burdino”, difundida sobretudo por cronistas posteriores, encontra-se associada à tradição polémica em torno da sua memória histórica, sendo frequentemente interpretada como um epíteto depreciativo[2]. A sua origem, formação inicial, possível ligação ao meio cluniacense e as circunstâncias exatas da sua morte permanecem objeto de debate historiográfico.[1]
Origem e formação
As origens e os primeiros anos de Maurício Burdino permanecem objeto de debate historiográfico. Fontes toledanas dos séculos XII e XIII, como o De Rebus Hispaniae de Rodrigo Jiménez de Rada, indicam que terá chegado à Península Ibérica proveniente da região de Limoges ou do Limousin, tendo vindo provavelmente integrado no círculo do arcebispo Bernardo de Sedirac, figura relevante na reorganização eclesiástica de Toledo após a conquista cristã da cidade. A sua origem francesa enquadra-se no movimento mais amplo de circulação transpirenaica de clérigos reformistas que participaram na reestruturação eclesiástica da Península Ibérica nos séculos XI e XII.[3]
A sua formação inicial permanece parcialmente obscura. Embora a tradição historiográfica o associe frequentemente ao movimento cluniacense, essa ligação carece de comprovação documental definitiva, sendo atualmente encarada com maior prudência pela investigação.[1] Inserido no ambiente reformista franco-romano de Toledo, Maurício integrou o processo de reorganização institucional da Igreja hispânica promovido pela reforma gregoriana, caracterizado pelo reforço da autoridade episcopal, pela consolidação das estruturas eclesiásticas e pela progressiva substituição do rito moçárabe pelo rito romano. Neste contexto, terá exercido funções no cabido da Sé toledana, possivelmente como arcediago, participando no movimento de renovação religiosa, disciplinar e litúrgica impulsionado pela Sé Apostólica.[3]
A experiência adquirida em Toledo e a sua integração em círculos reformistas favoreceram a sua projeção eclesiástica no contexto peninsular, contribuindo para a sua nomeação como bispo de Coimbra em 1099.[1]
Episcopado de Coimbra (1099-1108)
Maurício Burdino foi nomeado bispo de Coimbra em 1099, poucas décadas após a reconquista cristã definitiva da cidade, ocorrida em 1064, num período em que Coimbra assumia crescente relevância estratégica no contexto político e religioso do território portucalense.[2]
A diocese conimbricense, situada numa região de fronteira, encontrava-se em processo de consolidação institucional, marcado pelo reforço da autoridade episcopal, pela disciplina clerical e pela integração progressiva nas reformas litúrgicas e eclesiásticas promovidas por Roma. Durante o seu episcopado, Maurício participou na reorganização administrativa e religiosa da diocese, contribuindo para o fortalecimento das estruturas eclesiásticas locais, para a afirmação do rito romano e para a articulação entre a autoridade episcopal e os poderes condais. A sua atuação em Coimbra favoreceu a sua aproximação aos círculos políticos de Henrique de Borgonha e D. Teresa, reforçando a sua projeção no quadro eclesiástico e político peninsular.[1]
Peregrinação à Terra Santa (c. 1104-1108)
Durante o seu episcopado em Coimbra, Maurício Burdino realizou uma peregrinação à Terra Santa entre cerca de 1104 e 1108, episódio amplamente referido pela tradição historiográfica como parte significativa da sua trajetória eclesiástica. Esta viagem inseriu-se nas dinâmicas de circulação religiosa e política características da Cristandade latina no contexto posterior à Primeira Cruzada.[2]
O percurso terá incluído passagem por importantes centros religiosos e políticos, como Roma, Constantinopla e Jerusalém, integrando Maurício em redes internacionais de peregrinação e contacto eclesiástico. A viagem esteve igualmente associada à circulação de relíquias e objetos sagrados, elemento relevante da espiritualidade e das práticas diplomáticas medievais.[2]
A experiência adquirida durante esta peregrinação ampliou a sua projeção no contexto peninsular, antecedendo a sua promoção à arquidiocese de Braga em 1109. A peregrinação constitui, assim, um episódio relevante para compreender a dimensão internacional da sua carreira eclesiástica.[1]
Episcopado de Braga (1109-1118)

Após a sua peregrinação à Terra Santa e na sequência da morte de São Geraldo, Maurício Burdino foi nomeado arcebispo de Braga em 1109, assumindo a chefia da sé metropolitana bracarense, uma das mais relevantes estruturas eclesiásticas da Península Ibérica, num período de consolidação institucional do Condado Portucalense.[4]
Enquanto arcebispo, Maurício procurou fortalecer a autoridade metropolitana de Braga, reorganizar a disciplina eclesiástica e afirmar a sua jurisdição sobre dioceses sufragâneas e territórios em consolidação cristã. O seu governo desenvolveu-se num contexto de intensas disputas pela primazia eclesiástica da Hispânia, particularmente em confronto com Toledo e Santiago de Compostela, num cenário em que a afirmação institucional de Braga assumia crescente importância política e religiosa.[4]
A proximidade a Henrique de Borgonha e D. Teresa reforçou a sua influência na reorganização eclesiástica e política do território portucalense, tornando Braga um centro estratégico de articulação entre autoridade condal, poder episcopal e redes internacionais da Igreja reformista. Sob o seu governo, a arquidiocese bracarense consolidou-se como importante plataforma de projeção diplomática e eclesiástica, ampliando a sua inserção nas dinâmicas peninsulares e europeias.[1]
A defesa da autonomia e do prestígio de Braga, associada à sua crescente intervenção em conflitos de maior escala entre poderes eclesiásticos e imperiais, favoreceu a sua aproximação ao opositor do papado, Henrique V. O arcebispado de Braga representou, assim, a fase mais influente da sua carreira peninsular e a etapa decisiva da sua transição de prelado regional para figura europeia, antecedendo a sua eleição como antipapa Gregório VIII em 1118.[4]
Relações com Henrique V e a Querela das Investiduras
Durante o seu arcebispado em Braga, Maurício Burdino envolveu-se progressivamente nas disputas pela primazia eclesiástica da Hispânia, entrando em conflito com Bernardo de Sedirac, arcebispo de Toledo, em torno da autoridade metropolitana sobre os territórios peninsulares. Estas tensões culminaram, em 1114, na sua convocação à Cúria Romana por Pascoal II, onde foi repreendido pelas suas reivindicações jurisdicionais e pela contestação à primazia toledana.[1]
Nos anos seguintes, o agravamento da Querela das Investiduras, conflito entre Papado e Império acerca do controlo sobre a nomeação episcopal e a autoridade eclesiástica, criou novas oportunidades políticas para Maurício. Entre 1116 e 1117, no contexto da campanha italiana de Henrique V contra Pascoal II, Maurício aproximou-se do imperador e alinhou-se progressivamente com a política imperial, afastando-se das posições defendidas pela Sé Apostólica.[1]
Em março de 1117, quando Henrique V entrou em Roma e procurou afirmar solenemente a sua autoridade imperial, Maurício coroou-o como imperador, ato de profundo significado político e simbólico no contexto da oposição ao papado reformista. Esta ação representou uma rutura pública com Pascoal II, que respondeu excomungando Henrique V e deposto Maurício das dignidades eclesiásticas que detinha, incluindo o arcebispado de Braga.[4]
Após a morte de Pascoal II, em janeiro de 1118, e a eleição de Gelásio II, Henrique V recusou reconhecer o novo pontífice, mantendo a estratégia imperial de oposição à política romana. Foi neste quadro que Maurício se tornou o principal candidato do partido imperial, sendo eleito em março de 1118 sob o nome de Gregório VIII.[5]
Antipapado de Gregório VIII e queda
Em março de 1118, na sequência da eleição de Gelásio II e da recusa de Henrique V em reconhecer o novo pontífice, o partido imperial promoveu a eleição de Maurício Burdino como papa rival, sob o nome de Gregório VIII. A sua proclamação, apoiada por cardeais e prelados favoráveis ao imperador, integrou-se diretamente na estratégia imperial de contestação à autoridade papal no contexto da Querela das Investiduras.[1]
Gelásio II respondeu excomungando Henrique V e Gregório VIII, reafirmando a ilegitimidade da eleição imperial. Após a morte de Gelásio, em 1119, Calisto II prosseguiu a política reformista romana e intensificou a ofensiva contra o antipapa. Progressivamente isolado, Gregório VIII refugiou-se em Sutri, onde foi cercado e capturado em abril de 1121 pelas forças fiéis a Calisto II.[6]
Conduzido prisioneiro para Roma, foi submetido a humilhação pública, sendo exibido pelas ruas montado de forma invertida sobre um camelo, num ritual simbólico de deslegitimação política e religiosa. Permaneceu em reclusão monástica, provavelmente em Cava de’ Tirreni, onde terá morrido em data incerta após 1121, tradicionalmente situada entre as décadas de 1130 e 1140.[1]
Historiografia, memória e legado
A figura de Maurício Burdino suscitou interesse historiográfico significativo desde a Idade Média, embora a sua memória tenha sido fortemente condicionada pela condenação pontifícia decorrente da sua eleição como antipapa Gregório VIII. As fontes narrativas medievais, maioritariamente ligadas a ambientes favoráveis ao Papado reformista, contribuíram para consolidar uma imagem predominantemente negativa da personagem, enfatizando a sua oposição à Sé Apostólica e a sua associação ao imperador Henrique V.
A tradição cronística posterior difundiu amplamente a designação “Burdino”, frequentemente interpretada como epíteto depreciativo, contribuindo para a construção de uma memória polémica que durante séculos sobrepôs a sua condição de antipapa ao percurso anterior como bispo de Coimbra e arcebispo de Braga.
A historiografia contemporânea procurou reavaliar criticamente esta imagem. Estudos pioneiros de Carl Erdmann e Pierre David destacaram a complexidade do seu percurso eclesiástico, político e diplomático, inserindo-o no contexto da reorganização da Igreja hispânica, das redes reformistas transpirenaicas e da Querela das Investiduras.
Estudos mais recentes, particularmente os de Francesco Renzi, ampliaram significativamente o conhecimento sobre Maurício através da análise sistemática de um vasto corpus de fontes europeias. A identificação de 89 fontes narrativas dos séculos XII e XIII[1] que mencionam Maurício demonstra a extraordinária difusão internacional da sua memória histórica e evidencia a relevância do seu percurso nas discussões medievais sobre legitimidade pontifícia, autoridade imperial e normas de eleição papal. Esta documentação revela igualmente como a sua trajetória foi utilizada pela retórica pontifícia como exemplo paradigmático de usurpação da autoridade romana.
A investigação atual tende, assim, a enquadrar Maurício Burdino não apenas como antipapa, mas como figura relevante das dinâmicas eclesiásticas e políticas europeias do século XII, destacando o seu papel na consolidação das estruturas eclesiásticas portucalenses, nas relações entre Península Ibérica e Roma, e na circulação internacional de clérigos reformistas. Desta forma, a sua trajetória passou a ser interpretada como reflexo das transformações institucionais, religiosas e políticas que marcaram a Europa medieval central.
Bibliografia
- Amaral, Luís Carlos (2007). ''Formação e desenvolvimento do domínio da diocese de Braga no período da Reconquista (século IX–1137)''. Tese de doutoramento. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
- David, Pierre (1947). «Études historiques sur la Galice et le Portugal du VIe au XIIe siècle». ''Speculum'', vol. 24, n.º 1.
- Erdmann, Carl (1940). ''Papsttum und Portugal im ersten Jahrhundert der portugiesischen Geschichte''. Berlim: Weidmannsche Buchhandlung.
- Renzi, Francesco (2018). «Imperator Burdinum Hispanum Romanæ sedi violentur imposuit. A Research Proposal on the Archbishop of Braga and Antipope Gregory VIII, Maurice “Burdin”». ''Imago Temporis: Medium Aevum'', vol. 12.
- Renzi, Francesco (2021). ''Mauricius Bracarensis archiepiscopus, quae est civitas Hispaniae. Le fonti narrative europee sull’arcivescovo di Braga e antipapa Gregorio VIII Maurizio «Burdino» (secoli XII–XIII)''. Tese de doutoramento. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
- Stroll, Mary (2004). ''Calixtus II (1119–1124): A Pope Born to Rule''. Leiden: Brill.
- Veloso, Maria Teresa Nobre (2003). «D. Maurício, monge de Cluny, bispo de Coimbra, peregrino na Terra Santa». Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Ligações externas
- «D. Maurício, monge de Cluny, bispo de Coimbra, peregrino na Terra Santa», Maria Teresa Nobre Veloso, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra, 7 de Outubro de 2003
- «Gregorio VIII, antipapa», Enciclopedia dei Papi, Treccani
- Gregório VIII (antipapa) - Infopédia, Infopédia, Porto Editora
- Maurice Bourdin (Gregory VIII), Catholic-Hierarchy
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Renzi, Francesco (2021). Mauricius Bracarensis Archiepiscopus, Quae Est Civitas Hispaniae: Le fonti narrative europee sull’arcivescovo di Braga e antipapa Gregorio VIII Maurizio «Burdino» (secoli XII-XIII). Porto: CITCEM, 373 p. ISBN 978-989-8970-32-. [S.l.: s.n.]
- 1 2 3 4 Veloso, Maria Teresa Nobre (2003). «D. Maurício, monge de Cluny, bispo de Coimbra, peregrino na Terra Santa». Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. (PDF). [S.l.: s.n.] Cópia arquivada (PDF) em 23 de julho de 2024
- 1 2 «Erdmann, Carl (1940). Papsttum und Portugal im ersten Jahrhundert der portugiesischen Geschichte. Berlim: Weidmannsche Buchhandlung.»
- 1 2 3 4 Amaral, Luís Carlos (2007). Formação e desenvolvimento do domínio da diocese de Braga no período da Reconquista (século IX–1137). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto. [S.l.: s.n.]
- ↑ Renzi, Francesco (2018). «Imperator Burdinum Hispanum Romanæ sedi violentur imposuit. A Research Proposal on the Archbishop of Braga and Antipope Gregory VIII, Maurice “Burdin”». Imago Temporis: Medium Aevum, vol. 12. [S.l.: s.n.]
- ↑ Stroll, Mary (2004). Calixtus II (1119–1124): A Pope Born to Rule. Leiden: Brill. [S.l.: s.n.]
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