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Abedalá ibne Sade
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| Abedalá ibne Sade | |
|---|---|
| Morte | 656/8 |
| Nacionalidade | Árabe |
| Progenitores | Pai: Sade ibne Abi Açar |
| Ocupação | Almirante Governador provincial |
| Religião | Islão |
Abedalá ibne Sade ibne Abi Açar (em árabe: عبد الله بن سعد بن أبي السرح; romaniz.: ʿAbd Allāh ibn Saʿd ibn Abī as-Sarḥ; m. 656/8) foi um estadista, administrador e comandante militar árabe, pertencente ao ramo dos amiritas da tribo dos coraixitas. Inicialmente escriba de Maomé, abandonou o islão algum tempo após a Hégira, regressando a Meca. Durante a Conquista de Meca, obteve o perdão do profeta por intercessão de seu irmão de leite, Otomão ibne Afane, vindo posteriormente a tornar-se um dos mais destacados partidários dos omíadas.
Participou da conquista muçulmana do Egito sob o comando de Anre ibne Alás e exerceu o governo do Saíde (Alto Egito) antes de ser nomeado governador de toda a província por Otomão. Durante sua administração promoveu reformas fiscais destinadas a reforçar a arrecadação do califado e destacou-se pela condução de importantes campanhas militares. Organizou, em cooperação com Moáuia I, a primeira grande marinha muçulmana, participou da conquista de Chipre, apoiou as operações que culminaram na Batalha dos Mastros, conquistou parte da África bizantina após a vitória em Sufétula e comandou a campanha contra a Núbia, da qual resultou o tratado chamado Bacte, que regulou durante séculos as relações entre o Egito islâmico e os reinos núbios.
Sua política fiscal e sua estreita associação com o califa Otomão despertaram forte oposição entre parte da elite militar árabe estabelecida no Egito. Durante a crise que culminou no assassinato de Otomão, perdeu o controle da província para os partidários de Maomé ibne Abi Hudaifa e jamais conseguiu reassumir o governo. Morreu pouco depois, provavelmente em Ascalão ou Ramla, embora tradições posteriores, consideradas lendárias pela Encyclopaedia of Islam, afirmem que teria participado da Batalha de Sifim e sobrevivido por cerca de duas décadas após a queda de Otomão.
Vida
Abedalá ibne Sade pertencia ao ramo dos amiritas da tribo dos coraixitas e era irmão de leite de Otomão ibne Afane, vínculo que mais tarde o tornaria um dos principais partidários dos omíadas.[1] Não se sabe com precisão quando se converteu ao islão, mas figurou entre os primeiros escribas da revelação e, após abraçar a nova religião, emigrou para Medina com os demais muçulmanos.[2] As fontes o apresentam como homem de reconhecida capacidade administrativa e financeira, observando que sua atuação destacou-se mais no campo da administração do que na carreira militar. Algum tempo depois da Hégira, Abedalá abandonou o islão e regressou a Meca. Segundo a tradição preservada pelas fontes islâmicas, durante o período em que exerceu a função de escriba teria afirmado alterar, segundo sua própria vontade, a redação de algumas revelações, acusação que posteriormente passou a ser utilizada pelos coraixitas em sua propaganda contra o islão.[1] Após a Conquista de Meca em 630, foi incluído entre as pessoas cujo sangue fora declarado lícito por Maomé. Refugiou-se então sob a proteção de seu irmão de leite, Otomão, manifestou arrependimento e pediu que este intercedesse em seu favor. Depois de breve hesitação, Maomé aceitou sua retratação, concedeu-lhe o perdão e recebeu novamente seu juramento de fidelidade.[2] O episódio tornou-se um dos mais conhecidos de sua biografia na tradição islâmica posterior.[1] Durante o califado de Omar ibne Alcatabe (r. 634–644), participou, ao lado de Anre ibne Alás, da conquista muçulmana do Egito. Posteriormente foi nomeado governador do Saíde (Alto Egito), exercendo a administração da região antes de ser promovido ao governo de toda a província.[2][1]
Governo do Egito e campanhas militares
Após a morte do califa Omar, Otomão (r. 644–656) procurou centralizar a administração do califado e reduzir a autonomia de Anre ibne Alás, que concentrava em suas mãos o comando político, militar e financeiro do Egito. Embora posteriormente tenha adquirido fama sobretudo por suas campanhas militares, as fontes observam que Abedalá distinguia-se principalmente como administrador financeiro, característica que teria motivado sua escolha para o governo da província.[1] Segundo Thierry Bianquis, Otomão propôs inicialmente manter Anre à frente da administração política e militar, confiando a Abedalá apenas a gestão das finanças; diante da recusa de Anre em aceitar essa divisão de atribuições, o califa nomeou Abedalá governador único do Egito em 23 A.H. (644).[3] Hugh Kennedy, por sua vez, situa a destituição de Anre e a nomeação de Abedalá em 25 A.H. (645).[4] Taha Hussein observa que as tradições divergem quanto aos motivos da substituição de Anre: algumas a atribuem a queixas dos egípcios contra o governador, enquanto outras a apresentam como resultado de intrigas políticas.[5] Como representante direto do califa, Abedalá promoveu uma reforma do sistema fiscal herdado da administração bizantina, aumentando significativamente a arrecadação do Estado egípcio e remetendo a Medina parcela maior das receitas da província, medida que satisfez Otomão.[1][6] As reformas, contudo, tornaram-no impopular entre setores da população e entre muitos dos árabes que haviam participado da conquista, os quais consideravam os recursos do Egito um direito adquirido. A chegada de novos colonos árabes aumentou ainda mais a pressão sobre os recursos locais e acentuou o ressentimento contra sua administração.[6]
Em 25 A.H. (646), Abedalá repeliu com sucesso uma contraofensiva bizantina contra Alexandria. Também desempenhou papel central na formação da primeira marinha muçulmana, ao lado do futuro califa Moáuia I (r. 661–680). Na expedição contra Chipre, realizada entre 647 e 649, forneceu a frota egípcia, que se uniu à esquadra síria sob o comando supremo de Moáuia.[7][2] A campanha resultou na submissão da ilha e na imposição de um tributo anual aos cipriotas. Posteriormente, as forças navais dos dois comandantes conquistaram Rodes e Cós[8] e obtiveram uma vitória decisiva sobre a marinha bizantina na Batalha dos Mastros, travada ao largo da costa da Lícia. Considerada pela Encyclopaedia of Islam comparável, em importância estratégica, à Batalha de Jarmuque, a vitória destruiu praticamente toda a frota bizantina, embora as fontes divirjam quanto à sua data, situada em 652 ou 655.[1][2] Em 27 A.H. (647), depois de ser incumbido por Otomão da conquista da Ifríquia, Abedalá lançou uma grande expedição contra a África bizantina. Segundo Taha Hussein, a campanha foi organizada diretamente pelo califa, que enviou reforços compostos por companheiros de Maomé, jovens coraixitas e numerosos ançares, determinando ainda que, uma vez concluída a conquista da África, parte do exército prosseguisse para uma expedição contra a Península Ibérica.[5] O exarca Gregório (Jurguir), que havia tornado a província praticamente independente do Império Bizantino, reuniu forças bizantinas, mercenárias e berberes para enfrentar os invasores. Os exércitos encontraram-se nas proximidades de Sufétula, onde os muçulmanos obtiveram uma vitória decisiva. Gregório foi morto, membros de sua família foram capturados e Sufétula ocupada. Prosseguindo o avanço, as tropas de Abedalá alcançaram a região onde mais tarde seria fundada Cairuão, capturando abundante espólio. A campanha tornou-se conhecida nas fontes islâmicas como a Guerra dos Abedalás (Harb al-Abâdila), em razão da participação destacada de Abedalá ibne Sade, Abedalá ibne Azobair, Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe e Abedalá ibne Anre ibne Alas.[2] Muitos habitantes refugiaram-se em Cartago, Susa e outros portos.[9] Após a vitória, Abedalá regressou ao Egito, enquanto destacamentos árabes continuaram a pilhar diferentes regiões. As populações locais acabaram negociando o pagamento de uma soma elevada em troca da retirada dos invasores.[4][9]
Em 31 A.H. (652), Abedalá comandou uma expedição contra a Núbia, alcançando Dongola, capital do Reino de Macúria. A resistência oferecida pelos arqueiros núbios e as dificuldades impostas pelas condições locais levaram os árabes a abandonar a ideia de uma conquista permanente e negociar um acordo conhecido como Bacte, que passou a regular as relações entre muçulmanos e núbios.[1] Pelo tratado, os núbios comprometiam-se a entregar anualmente 360 escravos — homens e mulheres considerados de valor médio, fisicamente aptos e sem crianças nem idosos — ao governador de Assuã, recebendo em contrapartida trigo, lentilhas, outros víveres e determinados artigos de vestuário fornecidos pelos muçulmanos.[2][10] Segundo Bianquis, o Bacte foi posteriormente interpretado pelos juristas islâmicos como um tratado comercial, e não político, permanecendo em vigor, com sucessivas renovações, até o final do período fatímida.[11] Na prática, o acordo fixou em Assuã a fronteira meridional do Egito islâmico.[12] Renault e Daget observam que, ao longo dos séculos, o tributo foi acrescido de entregas suplementares destinadas a autoridades egípcias envolvidas em sua administração, ao mesmo tempo que os muçulmanos passaram a fornecer, em troca, trigo, tecidos, cavalos e, ocasionalmente, vinho. Os autores destacam ainda que o tráfico de escravos não se limitou às obrigações estipuladas pelo tratado, estendendo-se muito além delas e contribuindo para integrar a Núbia às rotas escravistas do mundo islâmico.[13] As campanhas conduzidas por Ibne Alás e Ibne Sade foram consideradas por Hussain Monès como etapas preparatórias da conquista islâmica do Magrebe. Embora a guerra civil que se seguiu ao final do califado de Otomão tenha interrompido a expansão por cerca de doze anos, essas expedições proporcionaram aos árabes conhecimento da região e experiência militar que seria aproveitada na retomada das conquistas durante o governo de Moáuia I.[14]
Queda do governo
A política de Abedalá de remeter ao califa parcela crescente das receitas arrecadadas no Egito intensificou a oposição dos primeiros conquistadores árabes, que julgavam possuir direito preferencial às riquezas da província. Apesar dos sucessos militares obtidos na Ifríquia e no Mediterrâneo, sua administração permaneceu impopular entre muitos egípcios, que também lhe censuravam a antiga apostasia e a construção do suntuoso palácio conhecido como Darulhania. Segundo a tradição preservada pela TDV, um dos descontentes morreu depois de ser espancado por ordem de Abedalá, episódio que levou até Aixa a solicitar a Otomão sua destituição.[15] O descontentamento transformou-se em rebelião em Rajabe de 35 A.H. (janeiro de 656), quando Abedalá se encontrava fora do país, em viagem a Medina. O movimento foi liderado por Maomé ibne Abi Hudaifa e recebeu o apoio principalmente de grupos que haviam participado da conquista inicial, mas consideravam ameaçado seu antigo monopólio sobre a riqueza e o poder no Egito. Cerca de quatrocentos opositores partiram para Medina a fim de apresentar suas reivindicações a Otomão. Após aceitarem inicialmente as garantias do califa, interceptaram durante o regresso um mensageiro que transportava instruções para que Abedalá, então em Aila, tomasse medidas contra eles. Considerando-se vítimas de uma traição, retornaram a Medina e desempenharam papel importante no cerco e assassinato de Otomão, em 656.[6]
Quando Otomão passou a ser cercado em Medina, Abedalá enviou inicialmente tropas em auxílio do califa e, em seguida, partiu pessoalmente do Egito para socorrê-lo, deixando Saíbe ibne Hixame como governador interino.[16] Durante a viagem recebeu a notícia do assassinato de Otomão. Aproveitando sua ausência, Maomé ibne Abi Hudaifa expulsou Saíbe ibne Hixame e assumiu o controle do Egito. Abedalá ainda tentou regressar à província, mas foi impedido de reassumir o governo.[17][16] Segundo a tradição mais difundida, desistiu então de seguir para junto de Moáuia e retirou-se para Ascalão ou Ramla, onde morreu pouco tempo depois. A Encyclopaedia of Islam situa sua morte em 36 ou 37 A.H. (656–658) e observa que os relatos segundo os quais teria participado da Batalha de Sifim e sobrevivido até 57 A.H. (676–677) pertencem às numerosas tradições lendárias posteriormente associadas a esse conflito.[18] As fontes registram ainda que Abedalá transmitiu apenas um hádice de Maomé.[16]
Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 8 Becker 1986, p. 51.
- 1 2 3 4 5 6 7 Fayda 1988, p. 130.
- ↑ Bianquis 2010, p. 201.
- 1 2 Kennedy 1998, p. 67.
- 1 2 Hussein 1968, p. 78.
- 1 2 3 Kennedy 1998, pp. 67–68.
- ↑ Des Gagniers 1985, p. 121.
- ↑ Britannica Editors 1998.
- 1 2 Monès 2010, p. 276.
- ↑ Renault & Daget 1985, p. 19.
- ↑ Bianquis 2010, pp. 201,203.
- ↑ Kennedy 1998, p. 68.
- ↑ Renault & Daget 1985, pp. 19–20.
- ↑ Monès 2010, p. 277.
- ↑ Fayda 1988, pp. 130–131.
- 1 2 3 Fayda 1988, p. 131.
- ↑ Becker 1986, pp. 51–52.
- ↑ Becker 1986, p. 52.
Bibliografia
- Becker, C. H. (1986). «ʿAbd Allāh ibn Saʿd». The Encyclopaedia of Islam. I: A–B 2 ed. Leida: E. J. Brill. p. 51-52
- Bianquis, Thierry (2010). «O Egito desde a conquista árabe até o final do Império Fatímida (1171)». In: Mohammed El Fasi. História geral da África, III: África do século VII ao XI (PDF). Brasília: UNESCO. ISBN 978-85-7652-125-9. Consultado em 5 de agosto de 2026
- Britannica Editors (1998). «ʿAbd Allāh ibn Saʿd ibn Abī Sarḥ». Encyclopædia Britannica Online. Encyclopædia Britannica. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 5 de agosto de 2026
- Des Gagniers, Jean (1985). «Introduction historique». Soloi: Dix campagnes de fouilles (1964–1974). Volume premier. Sainte-Foy: Les Presses de l'Université Laval. ISBN 2-7637-7051-7
- Fayda, Mustafa (1988). «Abdullah b. Sa'd b. Ebû Serh». Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 1. Istambul: TDV Yayınları. pp. 130–131. Consultado em 5 de agosto de 2026. Cópia arquivada em 7 de fevereiro de 2026
- Hussein, Taha (1968). La Grande Épreuve: 'Uthmân. Col: Études musulmanes. XVII. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin
- Kennedy, Hugh (1998). «Egypt as a Province in the Islamic Caliphate, 641–868». In: Petry, Carl F. The Cambridge History of Egypt. Volume I: Islamic Egypt, 640–1517. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 978-0-521-47137-4
- Monès, Hussain (2010). «A conquista da África do Norte e a resistência berbere». In: Mohammed El Fasi. História geral da África, III: África do século VII ao XI (PDF). Brasília: UNESCO. ISBN 978-85-7652-125-9. Consultado em 5 de agosto de 2026
- Renault, François; Daget, Serge (1985). Les traites négrières en Afrique. Paris: Karthala. ISBN 2-86537-128-X
