Saúde
1703 no Brasil
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1703 foi um ano comum do século XVIII no Calendário Gregoriano. No Brasil colonial, o ano foi marcado pela continuidade da expansão das atividades mineradoras em Minas Gerais, pelo crescimento dos arraiais auríferos e pelo alargamento da presença eclesiástica nas regiões do interior. Em Portugal, foi assinado o Tratado de Methuen com a Inglaterra — o chamado "Tratado de Panos e Vinhos" — e o Tratado de Lisboa (1703), que confirmou a participação portuguesa na Guerra de Sucessão Espanhola ao lado da coalizão liderada pela Inglaterra e pela Áustria. Os tratados reforçaram a dependência econômica de Portugal em relação à Inglaterra e influenciaram indiretamente o destino do ouro extraído no Brasil, grande parte do qual acabou financiando importações britânicas.
Eventos
O Tratado de Methuen e o ouro brasileiro
- Em 27 de dezembro de 1703, Portugal e a Grã-Bretanha assinaram o chamado Tratado de Methuen — em referência ao diplomata britânico John Methuen —, que estabelecia a abertura do mercado português aos tecidos manufaturados ingleses em troca do acesso preferencial dos vinhos portugueses ao mercado britânico. O acordo consolidou uma relação de forte dependência manufatureira de Portugal em relação à Inglaterra. Historiadores como Celso Furtado observaram que o ouro extraído no Brasil financiou, de modo quase direto, os déficits comerciais portugueses com a Inglaterra, desviando para Londres grande parte da riqueza mineral colonial.[1]
Expansão dos arraiais e papel dos religiosos
- Em 1703, as regiões mineradoras de Minas Gerais contavam com uma população estimada em várias dezenas de milhares de pessoas — uma das concentrações demográficas mais densas da colônia —, distribuídas por arraiais improvisados sem estrutura eclesiástica sistemática. A Diocese de Olinda, responsável canônica pelo território, era geograficamente incapaz de exercer jurisdição regular sobre as distantes minas. Diante desse vácuo, sacerdotes diocesanos e freis franciscanos oriundos da Bahia e de São Paulo foram os primeiros a estabelecer capelas e ministrar os sacramentos nos arraiais.[2]
- O padre André João Antonil (pseudônimo do jesuíta Giovanni Antonio Andreoni), concluiu nesse período a redação de sua obra Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, texto que descrevia com riqueza de detalhes a produção de açúcar, tabaco, couro e, especialmente, a extração de ouro nas minas. A obra, publicada em Lisboa em 1711, tornou-se uma das mais importantes fontes primárias sobre a vida econômica e social do Brasil no início do século XVIII. Antonil descreveu a carestia nos arraiais, o uso do trabalho escravo nas minas e a ausência de estruturas mínimas de saúde e assistência.[3]
Missões jesuíticas e proteção aos indígenas
- Nos Sete Povos das Missões, no atual Rio Grande do Sul, os jesuítas mantinham um complexo de reduções que continuava a crescer no início do século XVIII. As reduções eram cidades planejadas que incluíam igrejas, hospitais, escolas, asilos para idosos e viúvas, oficinas e instalações agrícolas comunitárias. Segundo estimativas históricas, as reduções guaraníticas do sul do Brasil, Paraguai e Argentina abrigavam cerca de 140 mil habitantes na primeira década do século XVIII.[4]
- A Junta das Missões, órgão colonial criado para supervisionar e arbitrar conflitos envolvendo as populações missionárias, recebeu em 1702–1703 uma carta dos jesuítas do Maranhão descrevendo detalhadamente a situação das aldeias tapuias do sertão nordestino. O documento, conservado no Arquivo Nacional, ilustra o papel documentário desempenhado pelos missionários jesuítas como únicos registradores sistemáticos da vida dos povos indígenas do interior da colônia naquele período.[5]
Quadro político
| Cargo | Titular |
|---|---|
| Rei de Portugal | Dom Pedro II (reinado: 1683–1706) |
| Governador-Geral do Estado do Brasil | Rodrigo da Costa (1702–1705) |
| Governador da Capitania do Rio de Janeiro, SP e MG | Álvaro da Silveira e Albuquerque (1702–1705) |
Ver também
Referências
- ↑ FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 34. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, cap. IX.
- ↑ BOSCHI, Caio César. Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Ática, 1986, p. 22–25.
- ↑ ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711. Ed. moderna: São Paulo: Edusp, 2007.
- ↑ KERN, Arno Alvarez. Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982, p. 145.
- ↑ Companhia de Jesus no Brasil. In: ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Catálogo: História Colonial Luso-Brasileira. Rio de Janeiro, 2022.

