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Vodu haitiano
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O vodu haitiano é uma religião da diáspora africana que se desenvolveu no Haiti entre os séculos XVI e XIX. É resultado de um processo de sincretismo entre diversas religiões tradicionais da África Ocidental e Central e o catolicismo. Não há uma autoridade central que controle a religião e existe grande diversidade entre os praticantes, conhecidos em crioulo haitiano como vodwizan ("voduístas").
O vodu ensina a existência de uma divindade criadora transcendente, Bondye, debaixo de quem estão espíritos conhecidos como loás. Esses loás geralmente derivam seus nomes de divindades tradicionais da África Ocidental e Central, são associados a santos católicos e dividem-se em grupos chamados nanchon ("nações"), sendo os mais notáveis os Radá e os Petro. Essa teologia tem sido descrita tanto como monoteísta quanto como politeísta. Os praticantes do vodu frequentemente são iniciados em um unfò (templo), dirigido por um hungã (sacerdote) ou uma manbô (sacerdotisa), onde são realizadas cerimônias em grupo. Alternativamente, o vodu também é praticado em grupos familiares ou em sociedades secretas, como a Bizango. Os adeptos buscam o auxílio dos loás e dos espíritos dos mortos oferecendo-lhes frutas, bebidas alcoólicas e animais sacrificados. A comunicação com os loás é buscada por meio da adivinhação e de um ritual principal no qual os praticantes tocam tambores, cantam e dançam para incentivar um loás a "montar", ou possuir temporariamente os dançarinos. Rituais de cura e a preparação de remédios à base de ervas e de talismãs também desempenham um papel importante.
O vodu haitiano compartilha elementos com outras religiões e manifestações religiosas, como a santería e o palo em Cuba, o vodu da Louisiana (Estados Unidos) e no Brasil, ao candomblé jeje (Bahia), ao tambor de mina, ao terecô e ao babaçuê (Maranhão e Pará).
História

O vodu haitiano desenvolveu-se entre comunidades africanas escravizadas que foram levadas à força para a ilha de Hispaniola entre os séculos XVI e XIX. Sua estrutura é resultado da fusão das religiões tradicionais dos africanos escravizados da África Ocidental e Central trazidos para a ilha de Hispaniola — entre eles os povos congo, fon e iorubá. Na ilha, a religião absorveu influências da cultura dos colonizadores franceses que controlavam a colônia, que então era chamada de São Domingos, destacando-se o catolicismo romano e a maçonaria.[1]
Muitos adeptos do vodu participaram da Revolução Haitiana (1791–1801), que derrubou o governo colonial francês, aboliu a escravidão e transformou São Domingos na República do Haiti. A ausência da Igreja Católica na ilha durante várias décadas após a revolução permitiu que o vodu se tornasse a religião predominante no Haiti. No século XX, a crescente emigração difundiu o vodu pelo exterior. O final do século XX testemunhou o fortalecimento de vínculos entre o vodu e tradições correlatas na África Ocidental e nas Américas, como a santería cubana e o candomblé brasileiro, ao passo que alguns praticantes, influenciados pelo movimento da negritude, buscaram eliminar as influências católicas.[2]
Uma cerimônia vodu de grande relevância histórica foi a cerimônia de Bois Caïman (Bwa Kayiman em crioulo haitiano) que teria ocorrido na noite de 14 de agosto de 1791. Essa é considerada a primeira grande reunião de africanos escravizados na ilha, durante a qual foi planejada a primeira grande insurreição de escravizados - que resultaria na Revolução Haitiana. Conta-se que nessa cerimônia, um porco preto foi ofertado a Ezili Dantor e todas as pessoas presentes comprometeram-se com a luta pela liberdade. Estudiosos como Léon-François Hoffmann questionam a historicidade desse relato.[3]
O vodu haitiano cresceu fora do Haiti de forma significativa, sobretudo nos Estados Unidos, a partir do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970 com as levas de imigrantes haitianos fugindo dos regimes opressivos de François Duvalier e Jean-Claude Duvalier. Os imigrantes haitianos estabeleceram-se principalmente em Miami, Nova Iorque e Chicago.
Definições e terminologia
O vodu é uma religião[4], por vezes chamada de "religião nacional" do Haiti.[5] Sua estrutura principal deriva de religiões tradicionais da África Ocidental e Central, trazidas ao Haiti por africanos escravizados entre os séculos XVI e XIX,[6] especialmente pelos povos congo, fon e iorubá.[7] Na ilha, essas religiões africanas misturaram-se a tradições de origem europeia, como o catolicismo e a maçonaria,[1] assumindo a forma do vodu por volta de meados do século XVIII.[8] Nesse sentido, o vodu é sincrético,[9] uma simbiose[10] ou um produto da crioulização.[11]
O vodu haitiano representa "uma nova religião"[12] que diferia em muitos aspectos das religiões tradicionais africanas que a influenciam.[13] Por isso, o estudioso Leslie Desmangles classificou o vodu como uma "tradição de origem africana",[14] Ina J. Fandrich denominou-o "religião neoafricana"[15] e Markel Thylefors chamou-o de "religião afro-latino-americana".[16] Várias outras religiões da diáspora africana nas Américas formaram-se de maneira semelhante e, devido às suas origens comuns nas religiões tradicionais da África Ocidental, o vodu haitiano tem sido caracterizado como uma "religião irmã" da santería cubana e do candomblé brasileiro.[17]
O Vodu não possui autoridade institucional central, líder único ou doutrina sistematizada.[18] Consequentemente, não apresenta ortodoxia, liturgia central ou credo formal.[19] O vodu haitiano passou por diversas mudanças com o passar do tempo, e apresenta variações tanto em nível regional quanto local, incluindo diferenças entre o Haiti e a diáspora haitiana, bem como entre diferentes congregações de uma certa região.[20] É praticado no âmbito doméstico, por famílias em suas próprias terras, mas também por congregações que se reúnem comunitariamente, sendo esta última modalidade denominada "vodu de templo".[21]
Muitos haitianos praticam tanto o vodu quanto o catolicismo romano, sendo que os adeptos do vodu geralmente se consideram católicos romanos.[22] No Haiti, alguns adeptos do vodu também praticaram o protestantismo, o mormonismo e a maçonaria;[23] em Cuba, envolvem-se com a santería[24] e, nos Estados Unidos, com o paganismo moderno.[25] Em Cuba, alguns adeptos adotaram elementos do espiritismo.[26] Influenciados pelo movimento da Negritude, outros adeptos do vodu buscaram eliminar influências católicas romanas e outras influências europeias de sua prática religiosa.[2]
Terminologia
Em crioulo haitiano, os praticantes do vodu são chamados de vodouyizan ("voduístas").[27] Outro termo para os adeptos é sèvitè ("servos"), refletindo a forma como se descrevem: pessoas que sèvi lwa yo ("servem os loás"), os seres sobrenaturais centrais no vodu.[28]
A palavra vodou deriva da língua fon, da África Ocidental, assim como muitas outras palavras usadas no contexto da religião.[29] Essa palavra foi registrada pela primeira vez no catecismo católico Doctrina Christiana de 1658,[30] e era usada no reino daomeano da África Ocidental para designar um espírito ou divindade.[31] Inicialmente, em crioulo haitiano, o termo vodou designava um estilo específico de dança e percussão, e mais tarde, passou a ser usado por pessoas de fora da religião para se referir, de modo genérico, a grande parte das religiões afro-haitianas.[32] Atualmente, a palavra vodou abrange "uma variedade de tradições e práticas religiosas haitianas de origem africana",[33] incorporando "um conjunto de práticas que os próprios praticantes não agrupam sob uma mesma categoria".[34]
Vodou é a grafia comum utilizada por estudiosos, pela ortografia oficial do crioulo haitiano e pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos para se referir à religião.[35] A grafia voodoo é hoje evitada por praticantes e estudiosos ao se referirem à religião haitiana.[36] Isso ocorre tanto para evitar confusão com o voodoo da Louisiana — uma tradição relacionada, porém distinta do vodu haitiano— quanto para diferenciá-la das conotações negativas que o termo voodoo carrega na cultura popular ocidental.[37]
Muitos praticantes descrevem seu sistema de crenças como ginen ("guiné"), termo que denota uma filosofia moral e um código de conduta sobre como viver e servir aos espíritos.[38]
Bondye e os loás
O vodu é monoteísta, ensinando a existência de um único Deus supremo.[39] Essa entidade é chamada de Bondye, nome derivado do termo francês Bon Dieu ("Bom Deus").[40] Esse Deus também é chamado por voduístas de Gran Mèt ("grão-mestre"), termo derivado da maçonaria.[41] Para os adeptos do vodu, Bondye é a fonte suprema de poder, o criador do universo e o mantenedor da ordem cósmica.[42] Os haitianos, voduístas ou não, frequentemente usam a expressão si Bondye vle ("se Bondye quiser"), sugerindo a crença de que todas as coisas ocorrem de acordo com a vontade dessa divindade.[43] Para os voduístas, Bondye é um ser transcendente e distante, que não se envolve nos assuntos humanos; por conta disso, eles veem pouco sentido em dirigir-se diretamente a Ele.[44] Embora os adeptos do vodu frequentemente equiparem Bondye ao Deus cristão, o vodu não incorpora a crença em um antagonista poderoso que se oponha ao ser supremo, tal como a noção cristã de Satanás.[45]
O vodu também tem sido caracterizado como politeísta.[44] Ele ensina a existência de seres sobrenaturais chamados loás, comparáveis aos orixás do candomblé e das religiões iorubá. Esses loás também são chamados por voduístas como "mistérios", "anjos", "santos" e "invisíveis", sendo muitas vezes equiparados aos anjos e santos da cosmologia cristã.[46] Voduístas reconhecem a existência de mais de mil loás,[47] embora apenas uma pequena parcela deles seja mais popular, estando presentes na maioria dos santuários.[48] Atuando como intermediários de Bondye, eles se comunicam com os humanos por meio de sonhos ou pela possessão direta. Os voduístas acreditam que os loás são capazes de oferecer ajuda, proteção e conselhos em troca de serviços rituais.[49] Cada loá tem sua própria personalidade e está associado a cores, dias da semana e objetos.[28] Esses espíritos não são considerados exemplos morais a serem imitados pelos praticantes.[50] Os loás podem ofender-se, por exemplo, se lhes forem oferecidos alimentos que não gostam.[51] Acredita-se que, quando irritados, os loás retiram sua proteção dos devotos ou os infligem com infortúnio, doença ou loucura.[52]
Embora existam exceções, a maioria dos loás deriva seus nomes das línguas fon e iorubá e eram originalmente venerados na África Ocidental ou Central.[53] No entanto, novos loás são incorporados ao panteão; tanto talismãs quanto seres humanos são considerados capazes de se tornar loás.[54] Os praticantes de vodou frequentemente referem-se aos loás como habitantes do mar ou dos rios,[55] ou como moradores de Ginen ("Guiné"), um termo que engloba uma noção generalizada da África como a terra ancestral do povo haitiano.[56]
As nanchon
Os loás são categorizados em nanchon, ou "nações".[57] Esse sistema de classificação deriva da maneira como os africanos escravizados eram divididos em "nações" ao chegarem ao Haiti, geralmente com base no porto africano de partida, e não na sua identidade etnocultural.[28] O termo fanmi ("família") é às vezes utilizado como sinônimo de nanchon ou, alternativamente, como uma subdivisão desta última categoria.[58] Afirma-se frequentemente que existem 17 nanchon,[59] sendo a Radá e a Petro as maiores e mais dominantes.[60]
Os loás Radá são vistos como "frios", enquanto os Petro são vistos como "quentes". Essa classificação se dá com base no temperamento de cada loá: os Radá são gentis, ao passo que os Petro podem ser impetuosos ou violentos e estão associados ao fogo.[61] Enquanto os Radá são geralmente benevolentes, suas contrapartes Petro são moralmente mais ambíguas.[62] Os Radá carregam muitas influências de tradição daomeanas e de povos iorubá; seu nome provavelmente deriva de Arada, uma cidade no reino do Daomé, na África Ocidental.[63] Os Petro derivam em grande parte da religião do Congo,[64] embora também apresentem influências do Daomé e elementos híbridos (crioulos).[65] Alguns loás existem na condição de andezo — significando que estão "em duas águas" — e são cultuados tanto em rituais Radá quanto Petro.[66]
Nas cerimônias Radá, o primeiro loá saudado é Papa Legba, também conhecido como Legba.[67] Representado como um velho frágil, vestindo trapos e usando uma muleta, Papa Legba é considerado um protetor de portões e cercas, bem como de estradas, caminhos e encruzilhadas.[68] Nos ritos Petro, o primeiro loá invocado é geralmente Mèt Kalfou (lit. "Mestre das Esquinas").[69] Os próximas loás geralmente saudados são os Marasa, ou gêmeos sagrados.[70] No vodu, cada nanchon possui seus próprios Marasa, refletindo a crença de que gêmeos possuem poderes especiais.[71] Outro loá importante é Agué, também conhecido como Agué-Taroyo, associado à vida aquática e protetor de navios e pescadores.[72] Acredita-se que Agué governe o mar com sua consorte, La Sirène,[73] uma sereia que é por vezes descrita como Èzili das Águas, pois acredita-se que traga boa sorte e riqueza do mar.[74] Também recebem o nome de Èzili: Èzili Freda, a loá do amor e da luxúria que personifica a beleza e a graça femininas[75] e Ezili Dantor, que assume a forma de uma camponesa com uma criança no colo.[76]
Azaka é o loá das colheitas e da agricultura, geralmente chamado de papa ("pai") ou kouzen ("primo").[77] Sua consorte é a loá feminina Kouzinn.[78] Loco é o loá da vegetação e, por ser visto como aquele que confere propriedades curativas a várias espécies de plantas, é considerado o loá da cura.[79] Ogou é um loá guerreiro, associado às armas, com características semelhantes ao Ogun das religiões afro-brasileiras.[80] Sogbo é um loá associado aos relâmpagos,[81] enquanto sua companheira, Bade, está associada ao vento.[82] Dambalá é um loá serpente associado à água, frequentador de rios, nascentes e pântanos, uma das divindades mais populares do panteão.[83] Dambalá e sua consorte Aidá-Uedô são frequentemente representados como um par de serpentes entrelaçadas.[84] Os Simbi são geralmente vistos como os guardiões de fontes e pântanos.[85]
Todas as representações dos loás são bastantes fluídas e podem variar em diferentes regiões e inclusive de templo para templo.
Os Gede estão associados ao reino dos mortos, e geralmente são considerados uma família em vez de uma nação.[86] O chefe da família é o Barão Samedi ("Barão Sábado"); ele está associado ao falo, ao crânio e à cruz de cemitério, sendo esta última usada para marcar sua presença em um cemitério haitiano.[87] Sua consorte é Gran Brigit, que tem autoridade sobre os cemitérios e é mãe de muitos dos outros Gede.[88] Os Gede frequentemente satirizam as autoridades governamentais e manifestam-se de maneira alegre nos rituais.[86] O símbolo dos Gede é um pênis ereto, enquanto a dança bandá, associada a eles, envolve movimentos pélvicos de caráter sexual, e os voduístas possuídos por esses loás tipicamente fazem insinuações sexuais.[89]
Os loás e os santos católicos
A maioria dos loás tem relação com santos católicos romanos específicos.[90] Essas associações específicas baseiam-se em analogias entre as respectivas funções dessas figuras: Azaka, o loá da agricultura, é, por exemplo, associado a São Isidoro, o Lavrador.[91] Da mesma forma, por ser compreendido como a "chave" para o mundo espiritual, Papa Legba é tipicamente associado a São Pedro, que tradicionalmente segura chaves na iconografia católica romana.[92] A loa do amor e da luxúria, Èzili Freda, é associada à Nossa Senhora das Dores.[93] Dambalá, a serpente, é frequentemente equiparado a São Patrício, tradicionalmente retratado com serpentes, ou a Moisés, cujo cajado se transformou em serpentes segundo o livro do Êxodo.[94] Os Marasa, ou gêmeos sagrados, são tipicamente equiparados aos santos gêmeos Cosme e Damião.[95]
É possível que os praticantes de vodu tenham adotado originalmente os santos católicos para disfarçar o culto aos loás quando este era ilegal durante o período colonial.[96] No entanto, pelo menos a partir do final do século XX, muitos voduístas passaram a expressar devoção genuína aos santos católicos, com o pesquisador Marc A. Christophe afirmando que a maioria dos praticantes modernos vê genuinamente o par santo católico e loá vodu como sendo um único ser, refletindo as "características inclusivas e harmonizadoras" do vodu.[97] Muitos praticantes possuem quadros dos santos, e imagens dessas figuras podem ser encontradas nas paredes dos templos e nas bandeiras drapo usadas nos rituais de vodu.[98] Os praticantes de vodu também frequentemente adotam e reinterpretam histórias bíblicas e teorizam sobre a natureza de Jesus de Nazaré.[99] As identidades católica e voduístas estão tão entrelaçadas que um provérbio haitiano afirma: "Pou sevi lwa yo se pou w bon katolik" ("é preciso ser um bom católico para servir aos loás").[100]
Alma e pós-vida
O vodu sustenta que Bondye criou a humanidade à sua imagem, moldando os seres humanos a partir de água e argila.[101] A religião ensina a existência de uma alma, geralmente chamada de nanm ou espri, a qual se divide em duas partes. Uma delas é o ti bonnanj ("pequeno anjo bom"), entendido como a consciência que permite ao indivíduo realizar autorreflexão e autocrítica. A outra parte é o gwo bonnanj ("grande anjo bom"), que constitui a psique, sendo fonte da memória, da inteligência e da própria identidade pessoal.[102] Acredita-se que ambas as partes residam na cabeça do indivíduo, embora se considere que o gwo bonnanj é capaz de sair da cabeça e viajar pelo mundo enquanto a pessoa dorme.[103]
Os adeptos do vodu acreditam que cada indivíduo está vinculado a um loá específico, que é considerado seu mèt tèt ("mestre de cabeça").[104] Acredita-se que esse loá influencia a personalidade do indivíduo.[105] Voduístas creêm ser possível identificar o loá tutelar de cada pessoa através da adivinhação ou consultando os loás quando estes incorporam em outros seres humanos. Acredita-se também que alguns sacerdotes e sacerdotisas da religião possuam "o dom dos olhos", sendo capazes de enxergar a identidade do loá tutelar de uma pessoa.[106]
O vodu sustenta que Bondye predeterminou o momento da morte de cada pessoa, mas não ensina a existência de um reino de vida após a morte semelhante às concepções cristãs de céu e inferno. Em vez disso, uma crença comum é que, com a morte física, o gwo bonnanj se junta aos ginen, ou espíritos ancestrais, enquanto o ti bonnanj é julgado por Bondye. Essa ideia de julgamento é mais comum em áreas urbanas, tendo sido influenciada pelo catolicismo romano; já nas regiões montanhosas do Haiti, é mais comum que os adeptos do vodu acreditem que o ti bonnanj se dissolve no umbigo da terra nove dias após a morte.[107] A terra dos ginen é frequentemente descrita como situada sob o mar, no subsolo ou acima do céu.[108] Alguns adeptos do vodu acreditam que o gwo bonnanj permanece na terra dos ginen por um ano e um dia para então ser absorvido pela família Gede.[109] No entanto, os adeptos geralmente fazem distinção entre os espíritos dos mortos e os Gede propriamente ditos, pois os Gede são loás, ao passo que os espíritos dos mortos não são.[110] O vodu também ensina que os mortos continuam a participar dos assuntos humanos, sendo comum que esses espíritos se queixem de sofrer de fome, frio e umidade, exigindo sacrifícios por parte dos vivos.[44]
Moralidade, ética e papéis de gênero
Os padrões éticos do vodu correspondem à sua visão cosmológica, que ressalta a interdependência das coisas.[111] Servir aos loás é um elemento central no vodu, e seus códigos morais refletem a relação de reciprocidade que os praticantes mantêm com esses espíritos; para os adeptos, garante-se a virtude pessoal ao se manter uma relação responsável com os loás.[50]
O vodu promove a crença no destino, salientando que todos os acontecimentos são da vontade de Bondye, ao mesmo tempo que considera que os indivíduos possuem liberdade de escolha.[112] Essa crença do destino tem sido interpretada como algo que fomenta uma perspectiva fatalista, argumento utilizado por críticos da religião para afirmar que o vodu desestimula seus adeptos a melhorar a sociedade em que vivem.[113] Tal argumento foi estendido para alegar que o Vodu é responsável pela pobreza do Haiti,[114] visão essa que é acusada de se basear em preconceitos coloniais europeus contra os africanos.[115]
Embora o vodu permeie todos os aspectos da vida de seus adeptos, ele não oferece um código de ética prescritivo.[116] Em vez de se basear em regras rígidas, a moralidade no vodu é considerada contextual, sem uma divisão binária clara entre o bem e o mal.[117] O vodu reflete as preocupações cotidianas das pessoas, concentrando-se em técnicas para mitigar doenças e infortúnios; fazer o que é necessário para sobreviver é considerado uma atitude de ética elevada. Entre os adeptos, uma pessoa virtuosa é aquela que vive em harmonia com seu próprio caráter e com o de seu loá tutelar.[118] De modo geral, atos que reforçam o poder de Bondye são considerados bons, enquanto aqueles que o enfraquecem são vistos como maus.[42] A prática de maji, termo que designa o uso de poderes sobrenaturais para fins egoístas e malévolos, é geralmente considerada algo negativo.[119] O termo é bastante flexível, podendo ser usado tanto para denegrir outros voduístas, como para se autodescrever em referência aos ritos Petro.[120]
Gerar filhos e ter uma família extensa é muito valorizado no vodu e na sociedade haitiana em geral, sendo que o vodu costuma enfatizar a importância dos laços familiares e do respeito pelos idosos.[121] Embora existam relatos de sacerdotes homens que maltratam suas seguidoras,[122] as mulheres também podem reivindicar autoridade moral como líderes sociais e espirituais.[123] O vodu também é considerado acolhedor em relação a pessoas homossexuais,[124] com muitos indivíduos homo e bissexuais ocupando a posição de sacerdotes e sacerdotisas,[125] e alguns grupos possuindo congregações majoritariamente homossexuais.[126] Alguns voduístas afirmam que os loás são os responsáveis por determinar a orientação sexual de uma pessoa.[127] A loá Èzili Dantò é por vezes considerada lésbica, e certas manifestações de Èzili são vistas como matronas dos masisi (homens gays).[128]
Práticas
O antropólogo Alfred Métraux descreveu o vodu haitino como "uma religião prática e utilitária".[55] A maior parte de suas práticas giram em torno de interações com os loás e incorporam cantos, batidas de tambor, dança, orações, possessão espiritual e sacrifício de animais.[129] Os praticantes reúnem-se para cerimônias (sèvis, em crioulo haitiano), nas quais entram em comunhão com os loás.[130] As cerimônias para um determinado loá frequentemente coincidem com o dia festivo do santo católico romano ao qual esse loá está associado.[131] O domínio das formas rituais é considerado essencial para os voduístas.[132] O objetivo do ritual é echofe ("aquecer"), provocando mudanças na ordem das coisas, seja pela remoção de barreiras ou pela facilitação de um processo de cura. As atividades rituais são frequentemente chamadas de travay ("trabalho").[133]
O vodu possui uma forte tradição oral, e seus ensinamentos são transmitidos principalmente de forma oral,[134] embora muitos praticantes tenham passado a utilizar textos a partir de meados do século XX.[135] A terminologia empregada nos rituais é conhecida como langaj ("linguagem").[136] Ao contrário da santería e do candomblé, que utilizam o iorubá como língua litúrgica, geralmente não compreendida pela maioria dos praticantes, o vodu realiza suas liturgias predominantemente em crioulo haitiano, a língua falada no cotidiano pela maior parte de seus adeptos.[137]
O sigilo é um aspecto importante do vodu.[138] Novos adeptos passam por um processo de iniciação gradativa.[62] Quando uma pessoa concorda em servir a um loá, esse compromisso é considerado permanente.[139]
Cosmogonia
Como nas demais religiões, o vodu haitiano possui uma cosmogonia na qual o praticante busca a compreensão e o sentido da existência terrena. Baseado na religião tradicional dos jejes e dos fons do Benim e do Togo, o vodu haitiano conta ainda com influências de outros povos africanos, indígenas e do catolicismo.
Em primeiro lugar, o praticante do vodu acredita em um Deus único e supremo, o qual é o criador de Tudo: Bondye, em crioulo haitiano (do francês "Bon Dieu", "Bom Deus"). Dependendo da orientação do praticante, esse Deus supremo pode ser distinguido do Deus dos brancos (como no discurso dramático proferido pelo oungan Dutty Boukman em Bois Caïman, que iniciou a Revolução Haitiana), mas pode também ser considerado como o mesmo Deus da Igreja Católica com outro nome.
No entanto, Bondye é distante de sua criação: por isso, não possui culto específico, embora todas as preces no vodu sejam proferidas inicialmente a ele. São os loas (loá), espíritos (lespri), mistérios (mistè), santos ou anjos (sen, lanj) e os antepassados que o voduísta invoca para ajudá-lo: os intermediários entre o mundo físicos dos humanos e Deus. O culto dos antepassados é, de fato, uma das bases da religião vodu haitiana: muitos loas, como Agassu (um antigo arroçu do Daomé), por exemplo, são ancestrais que foram elevados à categoria de divindade.
Em suma, o voduísta adora Deus e serve aos loas e espíritos, que são tratados com honra e respeito como se fossem membros mais velhos de uma casa.
Tradições
No Haiti existem três tradições do vodu: a Rada (que cultua os loas/voduns vindos diretamente da África), a Petwo (loas originários não da África, mas do próprio Haiti) e a Kongo (de origem nas culturas do Congo-Angola, tradição minoritária). Os loas rada são considerados mais benevolentes e paternais, enquanto que os petwo são vistos e temidos por serem mais agressivos. No entanto, não se pode afirmar que um é "bom" ou "mal" em relação ao outro. Os loas, de acordo com sua natureza, podem ser "quentes" ou "frios": frios são os loas rada e quentes, os petwo. Os loas petwo são mais rigorosos e requerem mais atenção aos detalhes rituais do que os loas rada, mas ambos podem ser perigosos se irritados ou contrariados.
Os loas
Os loas (em crioulo haitiano: loá, proveniente do francês "les lois": "as leis") são as mais importantes divindades do vodu: são os próprios voduns do Daomé, as forças da natureza que controlam a existência, a natureza, o homem e a vida em sociedade, forças essas imanentes de Deus. Existem 21 "nações" (nanchon) de loas, que correspondem a "famílias" de loas. Desse modo, Ezili é uma família, e Ezili Dantor e Ezili Freda são dois loas individuais nessa família.
Cada família de loas está relacionada a um aspecto social, moral ou e um elemento da natureza. Igualmente cada família de loas e cada loa individual possui seu toque de tambor, cores, comidas, oferendas e obrigações de fazer e não fazer. Alguns dos principais loas são:
- Lebá: loa que abre e fecha os caminhos de comunicação entre os mundos físico e espiritual, representado pelas encruzilhadas;
- Ezili: loa do amor e da fertilidade;
- Loco: loa das ervas e das curas. Representa saúde física e espiritual;
- Aizã: loa da pureza moral e espiritual, um dos primeiros loas a serem chamados durante os rituais;
- Dambalá: loa masculino que representa a força positiva que move a terra. Casado com Ayida, é representado por uma serpente (terra) e pelo arco-íris (céu);
- Ayida: loa feminino que representa a força positiva que move a esfera celeste. Casada com Danbala, é representado por uma serpente (terra) e pelo arco-íris (céu).
- Agué: loa que governa as florestas e a caça ;
- Ogum: loa da guerra e dos guerreiros. Representa a ação em oposição à passividade;
- Guedê: loa que governa os espíritos dos mortos. Representa a morte física e, ao mesmo tempo, a vida no plano espiritual.
Cada pessoa é considerada como tendo um relacionamento especial com um espírito particular, que é dito "possuir sua cabeça", porém uma pessoa pode ter um loá, que possui sua cabeça, ou met tet, que pode ou não ser o espírito mais ativo na vida de alguém de acordo com os haitianos. Ao servir os espíritos, o voduísta busca conseguir a harmonia com sua própria natureza individual e o mundo em torno dele. Parte desta harmonia é preservar o relacionamento social dentro do contexto da família e da comunidade. Uma casa ou uma sociedade de vodu é organizada pela metáfora de uma família extensa, e os noviços são os "filhos" de seus iniciadores, com o sentido da hierarquia e da obrigação mútua que implica.
A maioria de voduístas não iniciada é vista como "bosal"; não é uma exigência ser um iniciado a fim de servir aos espíritos. Há um clero no vodu haitiano cuja responsabilidade é preservar os rituais e as canções e manter o relacionamento entre os espíritos e a comunidade como um todo (embora isto seja responsabilidade de toda a comunidade também). Encarregados de conduzir o culto a todos os espíritos de sua linhagem, os sacerdotes são conhecidos como "ougan", e as sacerdotisas como "Manbos". Abaixo dos oungan e das manbos, estão os "ounsi", que são os noviços que atuam como assistentes durante cerimônias e que são dedicados a seus próprios mistérios pessoais. Ninguém serve a qualquer loá: somente ao que se "tem" de acordo com o próprio destino ou natureza.
Os espíritos que uma pessoa "tem" podem ser revelados em uma cerimônia, em uma leitura, ou nos sonhos. Entretanto, todo voduísta serve também aos espíritos de seus próprios antepassados de sangue, e este aspecto importante da prática do vodu haitiano é, frequentemente, subestimado pelos seus comentadores, que não compreendem seu significado.
Liturgia e prática

Após um dia ou dois de preparação de altares, preparação ritual e cozimento de galinha e de outros alimentos etc., um ritual de vodu haitiano começa com uma série de preces e de cantigas católicas em francês, e então uma litania em crioulo haitiano e no langaj africano que abrange todos os santos e loás europeus e africanos honrados pela casa. Depois, há uma série de invocações para todos os espíritos principais da casa. Isto é chamado de "Priyè Gine" (prece africana).
Após mais canções introdutórias, como a saudação ao espírito dos tambores, Hounto, as cantigas para todos os espíritos individuais são entoadas, começando com a família de Lebá com todos os espíritos de Rada. A seguir, há uma ruptura e a parte dedicada aos espíritos Petwo começa, terminando com as cantigas para a família de Gede. Ao serem entoadas as cantigas, os espíritos virão visitar os presentes através da possessão dos indivíduos, falando e agindo através deles. Cada espírito é saudado e cumprimentado pelos noviços presentes e dará consultas, conselhos e curas àqueles que solicitarem sua ajuda. Muitas horas mais tarde, nas primeiras horas da manhã, a última canção é entoada, despedem-se os convidados e todos os ounsi, oungan e manbo esgotados podem ir dormir.
Individualmente, um voduísta ou sevite pode ter um ou mais altares preparados para seus antepassados e espíritos a quem serve, com retratos, estátuas, perfumes, alimentos e outras coisas preferidas por eles. O altar mais básico é apenas uma vela branca, um copo de água e, talvez, alguma flor. No dia de um espírito particular, acende-se uma vela e, então, saúda-se e fala-se ao espírito particular como se falasse a um membro mais velho da família. Os antepassados são chamados diretamente, sem mediação de Papa Lebá, já que são "do sangue".
Valores e ética
Os valores culturais que o vodu haitiano engloba centram-se em torno das ideias de honra e respeito - a Deus, aos espíritos, à família, à sociedade e a si mesmo. Há uma preocupação quanto ao que é apropriado ou não para cada pessoa: por exemplo, o que é apropriado a alguém com Dambalá como sua "cabeça" pode ser diferente do que é apropriado a alguém com Ogou Feray como sua cabeça.
O amor e a sustentação dentro da família da sociedade de vodu parecem ser a consideração mais importante. A generosidade em dar à comunidade e aos pobres é também um valor importante. As dádivas vêm através da comunidade e há a ideia de que deve-se estar disposto a retribuir. Uma vez que o vodu haitiano tem tal orientação para a comunidade, não há a prática solitária na religião, exceto a de pessoas separadas geograficamente de seus antepassados e casa. Uma pessoa sem um relacionamento de algum tipo com pessoas idosas não estará praticando vodu como se compreende no Haiti e entre Haitianos.
A religião do vodu haitiano é antes uma tradição extática do que baseada na fertilidade e não discrimina homens gays e mulheres lésbicas, ou outras pessoas de maneira alguma. De fato, há ounfò, ou templos, no Haiti cujo clero é inteiramente de gays e lésbicas. No vodu haitiano, a orientação sexual do praticante não é de nenhuma importância em um ambiente ritual. Vê-se-a apenas como uma maneira através da qual o deus fez uma pessoa. Os espíritos ajudam a cada pessoa simplesmente ser a pessoa que é.
Ortodoxia e diversidade
Existe uma diversidade de práticas em vodu através do Haiti e da diáspora haitiana. Por exemplo: no norte de Haiti, o sèvis tèt ("lavagem de cabeça") ou o kanzwe pode ser a única iniciação, como na República Dominicana e em Cuba, enquanto que, em Porto Príncipe e no sul, se praticam os ritos kanzo com três classes da iniciação – kanzo senltimo é a modalidade mais familiar da prática fora de Haiti. Algumas linhagens combinam ambos, como relata a manbo Katherine Dunham acerca de sua experiência pessoal em seu livro Island Possessed.
Ainda que a tendência geral do vodu seja relacionada a suas raízes africanas, não há nenhuma forma fixa, ocorrendo variações em cada casa ou linhagem particular. Os pequenos detalhes do serviço e dos espíritos servidos variam a depender da casa, e a informação nos livros ou na Internet pode, consequentemente, parecer contraditória.[140]
Não há nenhuma autoridade central no vodu haitiano, já que "cada manbo e oungan é a cabeça de sua própria casa", como diz um provérbio popular no Haiti. Existem muitas seitas além do Sevis Gine no Haiti, tal como o Makaya, Rara e outras sociedades secretas, cada uma com seu próprio panteão distinto de espíritos.
Sobrevivências no sul dos Estados Unidos
No sul dos Estados Unidos, o vodu haitiano veio a influenciar o sistema de mágica popular e religião popular conhecido como hoodoo, que deriva principalmente no entanto de práticas do Congo e de Angola, na África central.
Mitos e Falsas concepções
O vodu veio a ser associado na mente popular com fenômenos como os "zombies" e as "bonecas do vodu". Embora haja uma evidência etnobotânica quanto ao zombi, é um fenômeno menor dentro da cultura rural do Haiti e não uma parte da religião do vodu em si. Tal prática cai sob os auspícios do "bòkò" ou do feiticeiro antes que do sacerdote do Loá Giné. Já a prática de furar bonecas com agulhas foi usada como um método de amaldiçoar pessoas por seguidores do que veio a ser chamado "Voodoo de Nova Orleans", o qual é uma variante estadunidense do vodu.
Esta prática não é original ao vodu de Nova Orleans, entretanto, e tem tanta base em dispositivos mágicos europeus, tais como a poppet, quanto no inquice ou bocio da África ocidental e central. As bonecas de vodu não são uma característica da religião haitiana, embora as bonecas feitas para turistas possam ser encontradas no Mercado de Ferro de Porto Príncipe, capital do Haiti. A prática tornou-se associada ao vodu na mente popular através dos filmes de horror.
Pequeno Dicionário do Vodu Haitiano
- Ason: chocalho que simboliza o poder do sacerdote sobre o mundo dos espíritos;
- Bòkò: sacerdote que trabalha "com as duas mãos", ou seja, para o bem ou para o mal;
- Boule zè: cerimônia especial em ritos de iniciação, consagração e falecimento;
- Dosou: criança que nasce após o nascimento de gêmeos;
- Feiticeiro: sacerdote do vodu que trabalha para o mal;
- Gonbo: nome dado às cerimônias do vodu em algumas regiões do Haiti;
- Govi: cântaro onde ficam os espíritos;
- Gwo bonnanj: um dos princípios espirituais do indivíduo, que dirige sua vida afetiva e intelectual;
- Kay mistè: casa especial reservada aos espíritos;
- Loá: as forças da natureza cultuadas no vodu haitiano: os próprios voduns, frequentemente sincretizados com santos e anjos;
- Loá racim: o loá hereditário, guardião da família;
- Manjê loá: cerimônia em honra aos loas;
- Mambô: sacerdotisa do vodu, que trabalha para o bem;
- Marasa: os loás gêmeos;
- Pòtòmitan: coluna localizada no centro do templo que é o caminho dos loá e dos espíritos;
- Ti bonnanj: um dos princípios espirituais do indivíduo;
- Ougan: sacerdote do vodu, que trabalha para o bem;
- Ounfò: templo do vodu;
- Ounsi: pessoa já iniciada no vodu;
- Veve: desenhos simbólicos que representam os loas;
- Zonbi ou Zumbi: pessoa que teve sua alma escravizada por um feiticeiro.[141]
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Ligações externas
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