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Termas romanas
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As termas romanas (em latim: thermae, do grego antigo θερμός thermos, quente), também conhecidas como balnea (do grego antigo βαλανεῖον, balaneion), eram edifícios públicos que se poderiam definir, recorrendo a uma expressão moderna, como dotados de instalações tanto higiénico-sanitárias como lúdicas. Sendo um dos principais locais de encontro na história de Roma, são consideradas um dos edifícios mais representativos da arquitetura romana.[1]
A palavra thermae refere-se habitualmente aos grandes estabelecimentos imperiais, enquanto as balnea eram estruturas mais pequenas, públicas ou privadas, de resto presentes em grande número na Roma Antiga.[2] O abastecimento hídrico destas estruturas, frequentemente monumentais, era garantido por um rio, um lençol freático, um aqueduto (sobretudo nas grandes cidades) ou inclusivamente acumulando água da chuva.[3] A água quente para o calidarium obtinha-se queimando grandes quantidades de combustível. As termas, sob a forma das mais pequenas balnea, estavam também presentes nas residências das classes abastadas (domus e villas) e até nos castra.[4]
Quase todas as cidades romanas possuíam pelo menos um estabelecimento termal, em alguns casos vários, desempenhando não apenas o serviço de banho público ou piscina pública (com ambientes para banhos frios, quentes ou de vapor), mas funcionando como um verdadeiro centro de socialização, dotado de bibliotecas, museus, locais de restauração, convívio e passagem, intervalados por pátios e jardins, aos quais qualquer pessoa, mesmo os mais pobres, podia aceder, visto que em muitos estabelecimentos a entrada era gratuita ou quase. O ingresso prescindia de distinções de sexo, embora homens e mulheres nelas entrassem em orários ou espaços separados.[5][6]
Surgidas entre os séculos IV e III a.C. e já muitíssimo difundidas no século I a.C., quando Vitrúvio descreveu detalhadamente a sua tecnologia no livro V do seu De architectura, as termas tiveram o seu apogeu entre os séculos I e III com os enormes estabelecimentos encomendados pelos imperadores romanos, permanecendo em uso, em certas províncias do império e na própria cidade de Roma, até aos séculos V e VI.
Etimologia
As palavras latinas thermae, balneae, balineae, balneum e balineum, embora distintas entre si, podem todas ser traduzidas simplesmente como «banho» em português, tal como em inglês, francês ou alemão.
Balneum e balineum derivam do grego antigo βαλανεῖον, balaneion,[nota 1] termo que designava, antes de mais, a banheira. Tratava-se de um elemento de mobiliário de origem grega presente nas casas dos romanos mais abastados,[nota 2] bem como do compartimento destinado às abluções que continha essa mesma banheira,[nota 3] constituindo esta a tradução mais correta da palavra balnearium. O diminutivo balneolum é utilizado por Séneca (4 a.C.–65 d.C.) para designar a sala de banho de Cipião Africano (236–183 a.C.) na sua villa de Literno, com a intenção explícita de salientar a modéstia dos costumes republicanos em contraste com o luxo da época em que o autor viveu.[nota 4] Quando os banhos privados se tornaram mais sumptuosos, passando a incluir várias divisões em vez da pequena sala descrita por Séneca, passou a usar-se o plural balnea ou balinea, embora, na linguagem correta, estes termos se referissem apenas aos banhos privados. Assim, Cícero (106–43 a.C.) designava por balnearia os banhos da villa do seu irmão Quinto.[nota 5]

Balneae e balineae, que segundo o linguista latino Varrão (116–27 a.C.) não possuíam forma no singular,[nota 6] designavam os banhos públicos. Contudo, esta distinção terminológica foi ignorada por muitos escritores posteriores, particularmente pelos poetas, entre os quais balnea é frequentemente utilizado no plural para designar os banhos públicos, uma vez que a palavra balneae não podia ser facilmente inserida num hexâmetro dactílico. Também Plínio, o Jovem (61/62–114 d.C.), na mesma frase, utiliza o plural neutro balnea para um banho público e balneum para um banho privado.[nota 7]
Thermae deriva do grego antigo Θέρμαι, Thermai, literalmente «fontes quentes» ou «banhos quentes», a partir do adjetivo thermos, «quente», e designava originalmente as fontes termais ou os banhos de água quente. Com o passar do tempo, o termo passou a ser aplicado aos magníficos edifícios que floresceram nas grandes cidades do Império Romano em substituição das simples balneae da República Romana, e que incluíam todos os elementos característicos do ginásio grego (em grego clássico: γυμνάσιον; romaniz.: gymnásion), bem como instalações adequadas para os banhos propriamente ditos.[nota 8][7] O termo, contudo, não surgiu antes do século I, isto é, durante a transição do latim arcaico para o latim clássico. Está ausente, por exemplo, das obras de Varrão, dos numerosos escritos de autores como o já referido Cícero ou Tito Lívio (59 a.C.–17 d.C.) e também do De architectura de Vitrúvio (80–15 a.C.), que no Livro V descreveu detalhadamente as técnicas construtivas necessárias para a edificação de um estabelecimento termal, mas que continuou a designar por balneum.[8]
Ao utilizarem indistintamente os dois termos, os escritores latinos posteriores criaram alguma confusão entre thermae e balnea. Assim, as termas construídas por Cláudio Etrusco, liberto do imperador Cláudio (r. 41–54), são designadas por Estácio (40–96) como balnea[nota 9] e por Marcial (38/41–104) como Etrusci thermulae.[nota 10] Num dos seus célebres Epigramas, este último, ao referir-se a um complexo termal, utiliza a expressão «subice balneum thermis» e emprega os dois termos para designar duas salas distintas do mesmo estabelecimento.[nota 11]
De forma geral, parece que a dimensão e a integração do estabelecimento na paisagem urbana constituíam os principais critérios para distinguir os balnea das thermae após o século I. Os primeiros eram estabelecimentos privados mas abertos ao público, de pequenas dimensões e integrados nos espaços limitados da malha urbana. Em contrapartida, as thermae, entendidas como as grandes termas imperiais, eram vastos complexos construídos no interior de amplos parques e jardins rodeados por pórticos, que os separavam claramente dos bairros circundantes.[7][9]
História
Origens

Na Itália pré-romana, tal como noutras partes da história da humanidade, existiam estâncias termais naturais cujas propriedades curativas eram conhecidas e apreciadas desde a Idade do Bronze e talvez até antes, pelo menos na Itália Central.[10] Foram encontradas oferendas votivas junto de poços ou nascentes em localidades como Latronico,[11] Bertinoro[12] e outras localidades. Deve igualmente mencionar-se a prática, provavelmente de origem proto-histórica, senão mesmo pré-histórica, dos banhos termais em piscinas naturais e criptopiscinas escavadas pelo homem na região dos Campos Flégreos, à qual aludem vários autores clássicos.[nota 12][nota 13] Também não faltam referências a supostas fontes sagradas de propriedades curativas na própria Roma.[nota 14]
A forte presença dos gregos antigos no Sul da Itália, fundamentalmente na Magna Grécia (região onde se encontravam precisamente os referidos Campos Flégreos) e na Sicília (veja-se o grande complexo dos banhos gregos de Gela),[13][14] favoreceu a difusão do chamado «banho grego» que, com os seus elements característicos (piscinas, sistemas de aquecimento e de abastecimento de água), foi em todos os aspetos o precursor das thermae romanas.[15][16][17][18][19]
As primeiras thermae republicanas
Os primeiros edifícios termails romanos surgiram entre os séculos IV e III a.C., quando, na época republicana, Roma se afirmou como a potência dominante na Península Itálica e os seus contactos com a civilização grega aumentaram. As Termas Stabianas de Pompeia, por exemplo, datam desse período, ou seja, quando esse importante centro da Planície Campana, outrora disputado entre gregos, etruscos e samnitas, se tornou romano. O complexo termal recém-citado desenvolveu-se, não por acaso, em torno de um sítio grego preexistente composto por um gymnásion dotado de banhos. Tratava-se, além disso, de uma estrutura privada.[20][21][22][23][24]
Entre os séculos III e II a.C., enquanto Roma combatia as guerras púnicas (264-146 a.C.), os contactos com os magno-gregos intensificaram-se: a pólis de Eleia, célebre pelos seus banhos termais e pela sua escola médico-filosófica, tornou-se, por exemplo, um destino de turismo médico e termal por parte dos patrícios romanos.[25] O grande sucesso de que usufruíram desde o início os estabelecimentos termais é bem testemunhado pelo seu frequente restauro e remodelação. As referidas Termas Stabianas, em particular, foram reestruturadas e ampliadas pela primeira vez no século II a.C. e novamente nos anos seguintes.[22]
Na transição entre os séculos II e I a.C., nos atribulados decénios em que ocorreu o colapso da República Romana, os balnea (como antecipado, o termo thermae não estava outrossim em uso na época)[26] assumiram a sua forma madura, quando, segundo o testemunho de Plínio, o Velho,[a 1] um empresário de nome Gaio Sérgio Orata (140-91 a.C.), cujos interesses orbitavam em torno dos Campos Flegreus, explorou a tecnologia grega do hipocausto para dotar os estabelecimentos termais da zona com salas aquecidas que permitissem a prática do banho de vapor.[23][27][28][29] A combinação do hipocausto parietal com as vidraças levou a uma rápida transformação arquitetónica das termas, que se tornaram mais amplas e luminosas.[30][31][32][33] Foi precisamente o modelo dos balnea campano-laziais[34] que começou a difundir-se, antes de mais, nas villae dos romanos ricos[35][36] e, depois, nas colónias que Roma ia fundando em Itália.[37]
No decorrer do século I a.C., os balnea começaram a ser construídos junto ao fórum nas cidades da Itália romana, como já acontecia em Pompeia e Herculano,[38][39] mas também em Cumas, Fabrateria Nova (atual Falvaterra), Minturnae, Nora e Paestum.[40] A difusão dos estabelecimentos é bem testemunhada pelo facto de o arquiteto romano Vitrúvio falar detalhadamente sobre eles no seu célebre De architectura, que remonta a 19 a.C., e de os mesmos aparecerem nas colónias romanas que brotavam fora da Itália e a norte do Pó: acima de tudo, as termas do Fórum de Augusta Praetoria (atual Aosta挥).[41] Em Roma, contavam-se na época pelo menos 200 estabelecimentos.[42] Alguns complexos começaram a ser construídos também junto às estações de paragem ao longo das grandes estradas romanas[43] e, para esse fim, crê-se que possa ser reconduzido o complexo termal de Roma-La Cecchina.[44] Outro dado fundamental: sempre neste período, os balnea, embora sendo propriedade privada, em linha com o evergetismo típico das classes romanas abastadas, abriram ao público os seus serviços de banhos quentes, frios e, por vezes, massagens.
O nascimento das termas imperiais
Com a criação do império por parte de Augusto (r. 27 a.C. - 14 d.C.), registaram-se as primeiras mudanças significativas. Antes de mais, o novo regime e as elites que lhe seguiram o exemplo, privilegiando fortemente o teatro como meio de reestruturação da sociedade, favoreceram o desenvolvimento do fenómeno das "terme-teatrais", como aconteceu em Albintimilium, Catânia, Florentia[45] e Telesia. Facto talvez não previsto na altura, as termas começaram a tornar-se um poderosíssimo centro de socialização para os romanos, de tal modo que, no decorrer do chamado "Alto Império" (27 a.C. - 284 d.C.), se verificou uma deslocação do fulcro principal da vida urbana do fórum para as termas, um fenómeno que teria sido inconcebível antes do impacto das termas imperiais, a começar pelas de Agripa, em Roma.[40]

As supramencionadas Termas de Agripa, inauguradas em 12 a.C. e encomendadas pelo genro de Augusto, Marco Vipsânio Agripa (63-12 a.C.), constituíram-se como o primeiro edifício termal público da Urbe. O complexo, embora ainda ligado ao esquema arquitetónico republicano, ou seja, com salas dispostas sem um esquema preciso em redor de uma grande sala circular, era notável pelas suas dimensões: um paralelepípedo com lados de 100 m e uma natatio (piscina) central com 25 m de diâmetro. Alimentadas pelo recém-inaugurado aqueduto da Aqua Virgo,[a 2] estas termas, deixadas por Agripa em testamento ao povo de Roma,[a 3] e logo, de facto, as primeiras termas públicas propriamente ditas, foram sistematicamente reestruturadas e ainda se encontravam em funcionamento no século V.[46][47]
A pouca distância das Termas de Agripa, menos de um século mais tarde, o imperador Nero (r. 54-68) mandou erguer as suas termas, consideradas as primeiras thermae de "tipo imperial",[N 1] isto é, com salas organizadas simetricamente em torno de um eixo central orientado norte-sul, projetadas com uma cenografia assinalável. Ao centro encontravam-se a natatio e as salas quentes e frias, ladeadas por ambientes laterais, entre os quais dois peristilos que funcionavam talvez como ginásios.[48] O passo foi fundamental, porque marcou o primado do princeps no evergetismo dos serviços públicos (neste caso específico, balneares). Tratou-se de uma prática sistematicamente retomada e ampliada pelos imperadores seguintes.[49][50]
A organização simétrica dos espaços e a monumentalidade dos edifícios foram imediatamente retomadas pela dinastia flaviana (69-96), que afastou os Júlio-claudianos (27 a.C. - 68 d.C.) do poder, com as Termas de Tito, inauguradas em 80. Nessa fase, codificou-se a fusão do gymnásion com as termas propriamente ditas e a disposição das salas ao longo de um único eixo; o frigidarium, de grandes dimensões, tornou-se o centro axial do complexo; todo o conjunto foi delimitado por um recinto.
A escala já pan-europeia do Império Romano, além de pan-mediterrânica, favoreceu a difusão dos estabelecimentos também nas províncias da Europa Continental e nas Ilhas Britânicas: considerem-se, entre várias, primeiro as Termas romanas de Gaujac, na Gália Narbonense, em 20 d.C.;[51][52] depois as Termas romanas de Bath, sobre uma estação termal céltica preexistente, na Britânia,[53][54] e as termas do importante centro galo-romano de Caesarodunum (atual Tours),[55] ambas na década de 60-70 d.C.; ainda na época júlio-claudiana, as termas de Caesaraugusta (atual Saragoça)[56] e de Carthago Nova.[57] A construção das thermae não era exclusiva das cidades, mas também dos acampamentos legionários (lat. castra) estáveis que guarneciam a longa linha de fronteira entre o império e o mundo não romano, o chamado "Limes". É este o caso das termas encontradas junto ao acampamento legionário de Cilurnum ao longo da Muralha de Adriano, de Isca Augusta (atual Caerleon, no Gales)[58] ou de Abusina[59] e Biriciana[60] (atuais Eining e Weißenburg in Bayern, ambas na Baviera).
A vívida descrição da Roma do século I transmite-se pelas poesias de Marcial confirma, por outro lado, a persistência de luxuosas balneae nas casas dos romanos ricos. Ao descrever o balnea de um certo Tucca, o poeta fala de mármores importados da Grécia, da África e da Frígia.[a 4]
O zénite: as «grandes termas imperiais»

Com as Termas de Trajano, inauguradas em 109 no Esquilino pelo optimus princeps (r. 98–117), o maior edifício termal da época, tiveram início os estabelecimentos balneares do chamado «grande tipo imperial»,[61] não por acaso no contexto em que surgiu a verdadeira arte imperial romana.[62] O complexo das thermae traianeias era composto por duas partes distinctas: um recinto de 330 × 315 m e um corpo central de 190 × 212 m. O recinto, provavelmente uma invenção do arquiteto Apolodoro de Damasco (50/60–130),[63] delimitava a plataforma sobre a qual o complexo estava construído. De planta retangular, encerrava no seu interior uma ampla área verde descoberta, identificada como uma grande palaestra dotada de jardim ladeado por passeios (lat. xystus); era porticado em três lados, com espaços destinados a atividades sociais e culturais, e no quarto lado (sudoeste) possuía uma imponente exedra escalonada à maneira de um teatro, talvez destinada à assistência das competições gímnicas realizadas na palaestra.[64] O edifício principal, situado no centro do recinto, era um bloco retangular fechado, com uma entrada monumental no lado norte. A partir da entrada, as salas termais dispunham-se em sequência ao longo do eixo central: a natatio, o frigidarium, o tepidarium e, por fim, o calidarium. Em torno desse eixo distribuíam-se simetricamente todos os restantes compartimentos, como os vestiários e as palestras.[65] O complexo era decorado por um rico conjunto estatuário cuja preciosidade o transformava num verdadeiro museu.[66]
Entretanto, dezenas de estabelecimentos termais continuavam a surgir não apenas em Roma (onde se contariam mais de 800 no século III),[67] mas também nas diversas provinciae do Império Romano, frequentemente através de sucessivas remodelações, ampliações e acrescentos. Em Óstia, um primeiro estabelecimento termal foi construído no tempo de Cláudio, sendo posteriormente substituído pelas thermae de Domiciano (r. 81–96) e, por fim, pelas de Adriano (r. 117–138).[68] Mais afastadas do centro do poder imperial, as termas só se difundiram a partir do século II. Entre elas destacam-se, em Paris, então Lutécia, as termas construídas entre os séculos II e III (ver Termas de Cluny),[69] as aproximadamente contemporâneas Termas Romanas de Varna (Bulgária) e as de Bosra (Síria), capital da Província da Arábia,[70] ou ainda as Termas de Antonino de Cartago (Tunísia), as maiores das províncias africanas,[71] inauguradas pelo imperador Antonino Pio (r. 138–161) em 162. Os imperadores também não deixaram de mandar construir luxuosíssimos balnea, que na realidade eram verdadeiras thermae, nas suas residências privadas. Já Domiciano havia dotado a sua villa nos Montes Albanos de instalações termais.[72] De patrocínio imperial certo (talvez já júlio-claudiano) foram as Termas Submersas de Punta Epitaffio, perto de Baiae. Trajano, por sua vez, dotou muito provavelmente de termas a sua villa nas encostas do Monte Altuino,[73] sendo certo que Adriano o fez na sua célebre Villa Adriana em Tívoli.[74]

Imperador recordado pela sua atenção à arquitetura, o já referido Adriano não associou o seu nome à construção de um novo complexo, mas antes à restauração de edifícios preexistentes: em Roma, restaurou extensamente as Termas de Tito.[nota 15] O primado monumental das termas traianeias só foi superado pelas Termas de Caracala, inauguradas no Pequeno Aventino em 216, cujo recinto, incluindo as exedras, media 337 × 406 m e cujo corpo central media 114 × 220 m,[75] estendendo-se por uma superfície total de 20 hectares e podendo acolher 1 600 pessoas.[76][77] O estabelecimento, com o seu acesso próprio através da Via Nova, provavelmente arborizada,[78] tornou-se rapidamente célebre pelo seu esplendor e pela riqueza do seu conjunto estatuário.[79][80] O colossal complexo do Aventino constituiu a joia de uma série de fundações, refundações e remodelações termais que caracterizaram o evergetismo da dinastia severa (193–235). Já o pai de Caracala, Septímio Severo (r. 193–211), tinha, por exemplo, restaurado thermae em Leptis Magna e em Bizâncio (os célebres Banhos de Zeuxipo).[81]
A degeneração sociopolítica da anarquia militar (235–284) não fez diminuir a paixão romana pelos banhos públicos, tanto que o imperador Décio (r. 249–251) mandou construir no Aventino novas e sumptuosas termas, embora destinadas a uma clientela reduzida e elitista. Posteriormente, as Termas de Diocleciano, inauguradas em 306, retomaram o esquema das termas traianeias e severianas e, com dimensões ligeiramente superiores às das Termas de Caracala (370 × 380 m), conquistaram o primado de maior edifício termal então existente.[82] As posteriores Termas de Constantino, inauguradas no Quirinal menos de uma década depois (315), apresentavam dimensões bastante mais reduzidas e, por conseguinte, destinavam-se provavelmente, tal como já sucedera com as termas decianas, a uma utilização elitista. Estavam praticamente limitadas ao edifício balnear propriamente dito, com poucos anexos, e eram desprovidas dos pórticos que haviam caracterizado os grandes modelos anteriores.[83]

A complexa situação política do Império Romano nesses anos, marcada pela criação da Tetrarquia e pelo consequente surgimento de várias capitais dentro das fronteiras imperiais, favoreceu o desenvolvimento de grandes complexos termais de patrocínio imperial fora de Roma. É o caso das Termas Hercúleas de Mediolanum (atual Milão), erguidas por Maximiano (r. 286–305),[84][85] das Termas Imperiais de Tréveris, cujo corpo central de 145 × 250 m ultrapassava em dimensões as Termas de Caracala e que foram mandadas construir por Constâncio Cloro (r. 293–305),[86] e das Termas de Arles, promovidas pelo seu filho Constantino I (r. 306–337),[87] que também patrocinou a restauração dos Banhos de Zeuxipo em Bizâncio, entretanto transformada na «Nova Roma» (330) e rebatizada Constantinopla, passando estes a integrar o complexo do Grande Palácio.[81]
Os imperadores continuaram igualmente a mandar construir termas nos seus palácios, destacando-se o exemplo do complexo termal integrado no enorme Palácio de Diocleciano, in Espalato (Croácia). Esta tendência foi depois seguida, de forma mais geral, pelas elites do império. Assim, na Villa Romana del Casale, atribuída ao burocrata constantiniano Lúcio Arádio Valério Próculo († depois de 352), situada nos arredores de Piazza Armerina (Sicília), e que era na realidade mais um palatium em miniatura do que uma villa rustica, existiam instalações termais;[88] uma importante estrutura termal, aproximadamente contemporânea, foi também descoberta em Capo d'Orlando (Sicília), as chamadas «Termas de Bagnoli»;[89] por fim, estruturas termais surgem também nas villas tardo-antigas de Leptis Magna voltadas para o mar.[90]
Arquitetura
Como antecipado, uma das mais evidentes provas da massiva difusão das termas no mundo romano é decerto a descrição explícita e rigorosa da respetiva técnica edilícia no De architectura de Vitrúvio. Analisando o grande número de thermae and balnea que sobreviveu até aos nossos dias, os estudiosos são levados a supor que existia uma categoria de arquitetos especializados na sua conceção e execução, capazes de operar em qualquer lado, no Império, onde houvesse uma encomenda,[91] independentemente das indubitáveis problemáticas de gestão da relação entre o estabelecimento e as estruturas preexistentes, como se aprofundará em breve.[92] Do mesmo modo, a semelhança técnica entre certas termas que faziam parte de grandes projetos urbanos (confronte-se, por exemplo, Florentia[45] e Forum Sempronii)[94] poderia indicar uma qualquer ligação entre os construtores e os fornecedores de materiais de construção.[91] Destes arquitetos, salvo algumas raríssimas exceções como o já citado Apolodoro de Damasco, ao serviço de Trajano, não se conhecem, infelizmente, os nomes.
Considerações arquitetónico-arqueológicas

À diferença da maioria dos edifícios públicos romanos, tais como os templos, os teatros ou os anfiteatros, as thermae, embora consideradas entre os mesmos porventura as mais icónicas,[1] são estruturas complexas de estudar in razão da sua disposição arquitetónica variável. O grosso dos estabelecimentos teve depois uma vida excecionalmente complexa além de, frequentemente, longa, que se traduziu numa sucessão de reconstruções, ampliações, reduções, modificações planimétricas, reparações tecnológicas e remodelações da decoração: é assim com as termas de Cuma ou de Vada Volterrana. Para complicar o quadro, não faltaram casos de thermae primeiro abandonadas e depois reutilizadas. De um ponto de vista arqueológico, isto traduz-se na dificuldade de identificar rapidamente uma estrutura termal, ao passo que tal é bastante fácil no caso de um templo ou de um teatro. Como no cenário das sobreditas Termas Ercúleas, as regras de simetria raramente ajudam, não obstante a encomenda imperial. As provas fragmentárias meticulosamente reunidas a partir de uma variedade de documentos díspares deixaram muitas interrogações em aberto, embora tenham fortuitamente fornecido inúmeras confirmações da planta essencialmente simétrica.[97] Para reconstruir a planta inteira e ainda mais para compreender o funcionamento completo de qualquer complexo termal, a arqueologia necessita ainda hoje do edifício completo a partir do qual começar.[99]
As planimetrias de algumas thermae, como as termas de Privernum[101] ou as termas meridionais de Eleia-Velia,[25] foram claramente condicionadas por estruturas preexistentes ou traçados viários, de um modo que quase nunca teria acontecido com a maioria dos outros edifícios públicos (incluindo as grandes termas imperiais apresentadas há pouco), para cuja realização o espaço da futura construção teria sido oportunamente "saneado". Contudo, detendo-nos nos casos específicos acabados de citar, enquanto em Privernum o estabelecimento se articulou sobre uma estrutura fragmentária, em Eleia-Velia conseguiu-se seguir um projeto coerente.[92] A análise da interação entre o estabelecimento balnear e o tecido urbano circundante revela depois frequentemente adaptações singulares. Nas Termas de Netuno de Óstia, por exemplo, os pisos superiores dos lados sul e oeste do complexo deviam alojar apartamentos de aluguer, servidos por escadas independentes abertas para as ruas e colocadas entre os diversos ambientes;[104] intrigante é sob este aspeto a disposição das termas de Paestum, encaixadas numa estreita rede viária sobre a qual davam diversas tabernae.[105]
Como antecipado, o que acima se afirmou não vale para as grandes termas imperiais em Roma, para cuja realização a comissão autocrática não hesitou em iniciar faraónicos trabalhos de escavação das Sete Colinas de Roma e de desestruturação tanto da rede urbana preexistente como do tecido viário. Exemplificativo foi o trabalho de demolição coordenado por Apolodoro de Damasco para construir as Termas de Trajano em detrimento da já semidestruída Domus Aurea neroniana e dos edifícios/espaços circundantes.[107] A encomenda imperial não era porém, por si mesma, garante de adesão à rigorosa disposição espacial. As termas de Caracala nos Castra Albana (Albano Laziale), erguidas sobre edifícios preexistentes, não respeitam de facto o eixo planimétrico das grandes termas encomendadas pelo mesmo príncipe no Aventino.[108]
Estilo arquitetónico


As thermae em geral e as grandes termas imperiais em particular são um bom exemplo da manipulação espacial típica da arquitetura imperial romana.[109] A vontade dos arquitetos, nascida na época neroniana,[111] era transmitir, no interior do edifício, a impressão de uma vasta quantidade de espaço aberto[112] e conseguiam-no através de diversos efeitos. As paredes exteriores eram recobertas de estuque para dar a impressão de uma alvenaria de pedra, estratagema utilizado também em estruturas diferentes das termas, como a Basílica maior de Mediolanum e partes do Sessorium.[113] No interior, as paredes eram coroadas por tetos em abóbada e grandes arcos que criavam efeitos curvilíneos, com amplo uso de formas inclinadas para cobrir o extradorso curvo (a superfície externa do arco) das salas abobadadas. Os eixos visuais eram atentamente estudados e potenciados pela sucessão de diafragmas de colunas, espaços cheios e vazios em contraste de luz e sombra; dominava, sobre tudo, a riqueza dos revestimentos marmóreos policromos, dos estuques e dos mosaicos.[82]
As termas trajaneas são extremamente importantes na história da conceção de ambientes monumentais pelo modo como o arquiteto, Apolodoro de Damasco,[63] soube explorar os eixos visuais através de uma longa sucessão de espaços correlacionados e interdependentes.[5] Em geral, a gestão de volumes tão grandes quanto os das termas de Trajano, Caracala e Diocleciano impeliu os construtores à procura de novas soluções de descarga racional dos pesos: pense-se de facto nos contrafortes no exterior do frigidarium diocleciano em Roma. Não por acaso, os primeiros protótipos de cúpula hemisférica, uma das invenções da arquitetura romana, encontram-se nos complexos termais litorâneos campanos do complexo de Baia[114] e a influência das thermae é percetível na maior basílica romana alguma vez chegada até nós, a Basílica de Maxêncio.[116]
As inovações e as experimentações foram particularmente florescentes no período do Alto Império. Em Leptis Magna, Adriano restaurou as thermae urbanas circundando o frigidarium com um corredor perimetral (lat. ambulatio tecta ou crypta).[118] No século II, sempre em Leptis Magna, foram escavadas no arenito as célebres e particularíssimas Termas dos Caçadores.[118] Nas Termas de Caracala, o vasto calidarium circular projetava-se da fachada sudoeste do complexo para aproveitar ao máximo o calor do sol, com uma cobertura em cúpula de betão mais alta que a do Panteão e de diâmetro pouco inferior.[76] A cúpula, desta vez em caixotões, tal como a do Panteão, figurava também nas termas dioclecianas, embora como cobertura do esferistério externo à estrutura, hoje igreja de San Bernardo alle Terme. Muito interessante era também o caso das termas construídas nas proximidades do mar, como aliás em Leptis Magna, Sabratha ou Cartago, junto das quais se supõe que fosse também praticada, precisamente, a balneação marinha através de estruturas auxiliares específicas, como as quatro escadarias monumentais que, nas Termas de Antonino, ligavam o estabelecimento à praia.[120]
Técnica, materiais e tecnologia edilícia

A construção dos monumentais interiores das thermae foi possível antes de mais pelo uso do betão nas altas e amplas abóbadas[5] e os estabelecimentos constituem, por isso, um dos exemplos mais massivos de opera cementizia (opus caementitium) da arquitetura romana. O paramento, sobretudo dos interiores, sempre presente na construção cimentícia romana, variava consoante a encomenda e a destinação de uso das estruturas. Nas grandes termas imperiais, os interiores, como antecipado acima, concorriam para a ilusão ótica pretendida pelos arquitetos: justapunham-se colunas com função decorativa aos grandes arcos estruturais em obra cimentícia[123] dotados já de uma primeira camada de cobertura em Opus latericium. Nas thermae provinciais, a cobertura das paredes podia ser realizada tanto em Opus reticulatum como em opus latericium.
A técnica construtiva utilizada dependia claramente da disponibilidade de material. Nas províncias mais remotas, onde era mais complicado implantar uma manufatura adequada de tijolos, a pedra — e, portanto, o opus quadratum ou opus isodomum — permaneceu como o material de construção mais difundido: assim, ao longo da Muralha de Adriano, as supracitadas termas do castrum de Cilurnum foram realizadas em arenito.[121] Não eram contudo raros, mesmo em Itália, sobretudo na época trajana e adriana, os edifícios, incluindo as termas, realizados em opus mixtum, ou seja, em reticulatum amarrado nas ombreiras e nos cantos em latericium.
O sistema de aquecimento usado pelos antigos romanos para os espaços internos dos seus edifícios era o hipocausto (lat. hypocaustum ou hypocastum ), originário da Antiga Grecia.[18][19] Originava-se ar quente por intermédio de um grande forno, o praefurnium, localizado na cozinha da casa e nos espaços de serviço nas thermae. Esta fornalha era realizada em tijolo, com um fundo em pedra (ex. basalto) porque o fogo ali era aceso e alimentado em contacto direto com o pavimento, e coberta por uma abóbada de berço.[125] O ar quente produzido era feito escoar através de dois pequenos muros para um espaço vazio predisposto sob a pavimentação interna (realizada habitualmente com tegulae desprovidas de abas, mais raramente com tijolos sesquipedales ou em cocciopesto), a suspensura, que assentava sobre pilares realizados com tijolos bipedales fixados a pequenos pilares de outros tijolos, as chamadas "pilae" e, nas termas mas não nas casas, também no interior das paredes, por quase toda a sua extensão, dentro de tubos de tijolo, os tubuli, de secção geralmente retangular, por vezes quadrada. En geral, a altura do espaço vazio sob o pavimento era de cerca de 50-60 cm.[a 5] Julga-se que a temperatura obtida nas salas aquecidas pelo hipocausto não devesse, de resto, superar os 30 °C. Por vezes, tornava-se necessário proteger as estruturas do calor e as paredes do hipocausto eram forradas por tegulae desprovidas de abas dispostas verticalmente ou por uma contra-parede de tijolo.[127]
- Escavações das termas de Chassenon (França) com detalhe de uma conduta do hipocausto
- Escavações das termas de Iuliomagus (Suíça) com os vestígios do hipocausto

Como antecipado, o desenvolvimento da tecnologia do hipocausto, reconduzível a Orata, foi fundamental para o desenvolvimento das termas, que de outro modo teriam permanecido edifícios lúgubres e pouco atrativos.[49] A invenção dos tubuli de tijolo, que melhoravam as prestações das anteriormente utilizadas tegulae mammatae, foi o passo decisivo nessa evolução.[31] Simultaneamente ao desenvolvimento do sistema de aquecimento de ar intra-parietal, difundiu-se o recurso a vidraças para as janelas: grandes painéis de vidro translúcido não transparente, articulados em metal, como os encontrados nas termas suburbanas de Herculano, que concorriam para a economia térmica do estabelecimento balnear.[32]
Os utentes das termas acabaram assim por se constituir como motor impulsionador para determinados fornecimentos. A título de exemplo, já durante o período augustano-tiberiano, as fôrmas do Vingone tinham uma larga produção de opus doliare, interpretado pelos estudiosos como material de construção para a cidade de Florentia.[45] Esta fábrica produzia principalmente telhas e canudos, mas também vários dos elementos que compõem os hipocaustos: sesquipedales, bessales e tijolos circulares, bipedales e ainda materiais para pavimentações do tipo opus spicatum e para coberturas, como tijolos de nervura do tipo descrito por Vitrúvio para realizar abóbadas em ambientes termais.[128] O passo seguinte foi o desenvolvimento, na época severiana (certamente sob Caracala), de grandes manufaturas de tijolo sob o direto controlo estatal, cujos selos oleráceos ajudam os arqueólogos na datação dos monumentos.[129]
Variantes e subcategorias
Ásia Menor: as Termas-Ginásio
Nas províncias orientais, em particular na Ásia Menor, as thermae desenvolveram-se numa tipologia edilícia complexa conhecida como termas-ginásio, fruto da adaptação das práticas termais romanas a estruturas gregas preexistentes. Alguns destes complexos foram criados simplesmente adicionando as thermae aos gymnásion já dotados de estruturas do tipo "banho grego". Outros gymnásion, desde a idade republicana romana (fund. século II a.C.), incluíram uma ampla secção termal além da palestra. Chamados nas fontes gymnásion ou thermae, tratava-se na realidade de edifícios híbridos, as termas-ginásio.[131] [133] Enquadram-se nesta categoria, cujo protótipo poderia ser identificado no ginásio de Sardes,[134] as termas feitas construir por Cláudio Védio Antonino em Éfeso ao tempo de Antonino Pio (r. 138-161) e conhecidas precisamente como "Ginásio de Védio".[135]
Interessante é também o caso do célebre santuário de Olímpia, sede da administração e da realização dos jogos "olímpicos" mas também lugar de culto de grande importância na Antiguidade, junto do qual os antigos banhos gregos e o ginásio local foram flanqueados, na época romana, por dois complexos termais, um junto ao Cladeo ("termas do Cladeo" ou "termas setentrionais") e o outro junto ao célebre Leonidaion ("termas do Leonidaion'' ou "termas meridionais"), o maior edifício do complexo.
África e Itália: a persistência do "Modelo imperial intermédio"
Entre os séculos II e III tiveram larga difusão nas províncias africanas mas também no interior italiano complexos termais construídos segundo o esquema das Termas de Tito, centrados isto é no frigidarium com espaços quentes, adossados, que iam constituir um segundo eixo perpendicular ao primeiro. Citamos a título de exemplo as Termas meridionais de Timgad ou as Grandes termas de Madaurus (atual Madaura) tanto quanto as Termas do Fórum de Óstia.[136]
Thermae tardo-antigas e bizantinas
Na Época tardo-antiga e depois bizantina, os estabelecimentos termais realizados ex novo assumiram uma planimetria compacta, com grande predileção por espaços de planta central/circular, frequentemente dotados de ábsides e nichos (característica que tinha sido, na idade romana, típica apenas dos espaços destinados à sudorese), enquanto simultaneamente desaparecia a palaestra.[138][139]
Gestão das águas: projeto, conservação e escoamento
Uma gestão eficiente das águas era claramente imprescindível para a correta manutenção de qualquer complexo termal, tanto das monumentais termas imperiais quanto dos mais pequenos balnea. O consumo hídrico não se devia apenas ao abastecimento de tanques e piscinas (só as Termas de Caracala comportavam 2 000 m³ de água para esse fim)[141], mas também devia incluir a lavagem das mesmas, o abastecimento das estruturas de serviço (eventuais lavandarias e/ou locais de restauração) e dos edifícios secundários (como um eventual ninfeu) e a irrigação do jardim/parque (onde presente).[143] O debate sobre como os romanos geriam a água em tanques e piscinas (fluxo contínuo, fluxo periódico ou troca diária) ainda é muito aceso.[144]
O abastecimento de água podia ser feito através de aqueduto (imprescindível para os estabelecimentos dotados de numerosos tanques e natationes, como as grandes termas imperiais),[N 2] uma nascente, um rio, um lençol subterrâneo ou recolhendo água da chuva (irregular e, de qualquer forma, necessitando de grandes cisternas para conservação, especialmente durante os meses mais secos do ano).[3] A entrada de água nas piscinas parece ter sido, em vários casos, enfatizada de forma cenográfica, tanto com o uso de soluções estruturais, como nichos e pedestais, quanto com o uso de bicas de água decorativas, frequentemente zoomórficas, ou através de uma busca por simetria.[147]
O escoamento das águas, outro tema de grande impacto, era por vezes dividido em dois sistemas: um para a água quente e outro para a fria. A solução mais frequentemente adotada parece ter sido um sistema de canalização e esgotos dispostos de forma hierárquica sob as termas: tubagens conduziam a água das piscinas diretamente para canais subterrâneos, ou para o pavimento das salas, de onde, através de uma grelha, escoavam para um canal. Estes canais uniam-se para desaguar numa conduta de esgoto que se ligava à rede de esgotos urbana ou descarregava diretamente num rio, nos campos ou no mar, como nas Termas de Acconia[149] ou nas Termas de Cartago.[150] O sistema de escoamento incluía claramente também as latrinas, habitualmente localizadas perto das entradas dos estabelecimentos, algumas das quais acessíveis tanto pelo interior como pelo exterior do edifício.[151].
O posicionamento dos reservatórios de água e das respetivas condutas de abastecimento e escoamento, a localização dos praefurnia, latrinas e salas de serviço, tudo isto terá certamente tido um impacto condicionante na planta dos complexos termais.[152] Numa perspetiva macroscópico-urbanística, por outro lado, por exemplo no momento de fundação de uma colónia, as necessidades de abastecimento do complexo termal tornavam-no, por isso, um dos elementos imprescindíveis no planeamento da rede de abastecimento de água da cidade.[41]
Por fim, fundamental e objeto de estudos para a logística das thermae era o abastecimento do combustível necessário para obter a água quente, embora sejam escassas as análises dos restos de combustível encontrados nos praefurnia. Obtêm-se, contudo, dados interessantes que, por um lado, apoiam a ideia de uma abordagem certamente prática, visando o consumo dos recursos mais facilmente disponíveis no local, como o uso de madeira de carvalho nas termas romanas de Albenga, mas, por outro, demonstram o recurso a fontes distantes, como o faia consumido em Pompeia, proveniente de pelo menos 15-25 km de distância. Nem sempre o combustível utilizado nas termas provinha dos arredores da cidade e, portanto, algumas cidades certamente competiam com outras para garanti-lo.[152][153][154]
Ambientes
Normalmente, as termas romanas eram constituídas por diversos cómodos ou salas:
- Apoditério - vestiário.
- Tepidário - banhos tépidos, banhos mornos.
- Prefúrnio - local das fornalhas que aqueciam a água e o ar.
- Caldário - banhos de água quente.
- Frigidário - banhos de água fria.
- Sudatório - espécie de sauna.
Algumas termas romanas
Em outras regiões do Império Romano
- Termas romanas de Bath em Bath (Somerset), Inglaterra, Reino Unido
- Balneário Pré-Romano de Bracara na cidade de Braga, Portugal
- Termas romanas de Maximinos na cidade de Braga, Portugal
- Termas de Pompeia
Hidroterapia
O desenvolvimento da tecnologia de construção de aquedutos conduziu a construção de diversas termas em vários pontos do território antigamente ocupado pelo Império Romano. Homens e mulheres tomavam banhos diariamente (à tarde depois do trabalho) esse costume tanto está relacionado a assimilação do culto à Hígia (equivalente romana: Salo) e Panaceia, as filhas de Esculápio deusas da saúde e limpeza, como à recomendações da medicina hipocrática também continuada pelos romanos. Posteriormente com o desenvolvimento do cristianismo no império e a associação dessa prática de banhos públicos ao paganismo, resultou na sua proibição. A hidroterapia, entretanto, sobreviveu ressurgindo no renascimento ou associada á diversas práticas de sauna da população européia sobretudo nas regiões nórdicas e de fronteira com a Ásia.
- Terma de Caracalla - pintura de Lawrence Alma-Tadema (1836-1912)
- Matrona romana em frigidarium - idem
- Matrona romana em natatio - idem
- Matrona romana em tepidarium - idem
- Matrona romana - idem
Notas
- Explicativas
- ↑ Na realidade, a maciça reestruturação das Termas de Nero executada por Alexandre Severo (r. 222-235), monarca nascido após a codificação das "grandes termas imperiais", de tal modo que o estabelecimento passou a ser conhecido como "Termas alexandrinas", torna difícil avaliar plenamente a originalidade do complexo neroniano inicial - Gensheimer 2018, pp. 12-13.
- ↑ As Termas de Trajano eram alimentadas pela Aqua Iulia, armazenando água num grande complexo de armazenamento conhecido como Cisterna das Sete Salas. As Termas de Caracala eram alimentadas por uma ramificação da Aqua Marcia, a chamada Aqua Antoniniana, que cruzava a via Ápia apoiando-se no pré-existente Arco de Druso. Também as Termas de Diocleciano eram alimentadas pela Aqua Marcia - ver [145] para a construção dos aquedutos e, entre outros, os estudos Christer Bruun (1991). The water supply of ancient Rome: A study of Roman imperial administration (em inglês). Helsinki: Societas Scientiarum Fennica Harry B. Evans (1997). Water Distribution in Ancient Rome: The Evidence of Frontinus (em inglês). [S.l.]: University of Michigan Press. ISBN 0-472-08446-1
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Ligações externas
- Verdasca, Ana Cristina Lopes. As termas de Troia: documentação escrita e materiais do Museu Nacional de Arqueologia. Tese de mestrado, Arqueologia, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, 2010.

