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Santuário
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Um santuário (do latim sanctuarium) é um lugar ao qual uma tradição religiosa atribui caráter sagrado. Pode ser uma construção, uma parte reservada de um templo, um túmulo, um altar ou um espaço natural. Sua sacralidade pode nascer da ligação com uma divindade, uma pessoa venerada, uma relíquia, uma imagem, um acontecimento religioso ou uma manifestação do sagrado.[1]
Santuários existem em diferentes religiões e não seguem um único modelo. Alguns recebem peregrinos que viajam para orar, agradecer, cumprir promessas ou participar de celebrações. Em outros, a visita se concentra em um túmulo, uma relíquia, uma imagem, um altar ou no próprio lugar. As peregrinações a espaços sagrados são anteriores ao cristianismo e fazem parte de diferentes tradições religiosas.[2]
Na Bíblia hebraica, a palavra pode indicar o tabernáculo, o Templo de Jerusalém e outros lugares de culto. A Epístola aos Hebreus fala também de um santuário celestial ligado ao sacerdócio de Jesus Cristo. Na Igreja Católica, o título possui uma definição canônica própria e depende do reconhecimento da autoridade eclesiástica. Fora do campo religioso, a palavra também pode ser usada em sentido figurado ou ecológico, para designar um lugar de resguardo e proteção.
Santuários na Bíblia Hebraica

Na Bíblia hebraica, a palavra santuário pode indicar um altar, um lugar de culto, o tabernáculo ou o Templo de Jerusalém. Antes que os sacrifícios fossem concentrados em Jerusalém, os israelitas também cultuavam em santuários locais. Entre eles estavam Silo, Betel, Gilgal e Gibeão, onde as pessoas oravam, levavam oferendas e procuravam os sacerdotes. Alguns desses locais eram chamados de bamot, expressão geralmente traduzida como "lugares altos".[3][4]
O tabernáculo
No Livro do Êxodo, a construção do tabernáculo começa depois da chegada dos israelitas ao Monte Sinai. Deus ordena a Moisés: "E me farão um santuário, para que eu possa habitar no meio deles". A obra deveria seguir o modelo que lhe havia sido mostrado no monte. O mesmo lugar também recebe os nomes de "Tenda do Encontro" e "Tenda da Congregação".[5]
Como os israelitas ainda viajavam pelo deserto, o tabernáculo podia ser desmontado e levado de um acampamento a outro. Os levitas cuidavam das cortinas, das armações e dos utensílios. Quando o povo partia, eles desmontavam a estrutura, transportavam suas peças e tornavam a montá-la no destino seguinte.[6][7]
O santuário era cercado por um pátio. Ali ficavam o altar dos sacrifícios e uma bacia de bronze usada pelos sacerdotes nas lavagens rituais. Dentro do pátio estava a tenda, separada por um véu em dois compartimentos.[7]
O primeiro compartimento era chamado de Lugar Santo. Nele ficavam o candelabro, a mesa dos pães e o altar de incenso, colocado diante do véu. Atrás desse véu estava o Santo dos Santos, onde era guardada a Arca da Aliança. A arca tinha uma tampa de ouro chamada propiciatório, ladeada por dois querubins.[5][8][7]
Depois da entrada dos israelitas em Canaã, a Tenda do Encontro foi armada em Silo. O lugar também é mencionado no início do Primeiro Livro de Samuel, quando a família de Samuel viaja até lá para oferecer sacrifícios. A arca deixou Silo após ser capturada pelos filisteus. Depois de passar por outros lugares, foi levada a Jerusalém pelo rei David.[7]
Culto e sacrifícios
Os sacerdotes mantinham as lâmpadas acesas, queimavam incenso e renovavam os pães colocados sobre a mesa. Eles também recebiam as oferendas trazidas pelos fiéis e realizavam os sacrifícios no altar do pátio. Todos os dias, um cordeiro era oferecido pela manhã e outro ao entardecer.[9]
As oferendas podiam ter finalidades diferentes. Algumas eram levadas em agradecimento, no cumprimento de votos ou durante as festas. Outras faziam parte de cerimônias de reparação e purificação. Em certos sacrifícios, o animal era queimado por inteiro. Em outros, sua carne era repartida entre o altar, os sacerdotes e a pessoa que havia apresentado a oferta.[10]
Os sacerdotes entravam com frequência no Lugar Santo para cumprir essas tarefas. O Santo dos Santos permanecia fechado durante quase todo o ano. Somente o sumo sacerdote podia entrar ali, durante o Dia da Expiação.[11]
Dia da Expiação
O Dia da Expiação era celebrado no décimo dia do sétimo mês. Nesse dia, os israelitas deixavam o trabalho e jejuavam. Antes de entrar no santuário, o sumo sacerdote tomava banho e vestia roupas simples de linho. Ele oferecia um novilho por si mesmo e por sua família, além de dois bodes em nome do povo.[11][12]
Um dos bodes era sacrificado. Sobre o outro, destinado a Azazel, o sumo sacerdote confessava as faltas dos israelitas. O animal era depois conduzido ao deserto. O sangue do novilho e do bode sacrificado era levado para além do véu e aspergido diante do propiciatório.[11]
A cerimônia purificava o Santo dos Santos, a Tenda do Encontro e o altar das impurezas acumuladas durante o ano. Também fazia expiação pelo sumo sacerdote, por sua família e por toda a comunidade.[11][10]
O Templo de Jerusalém
No relato dos livros de Samuel, David levou a Arca da Aliança para Jerusalém e a colocou em uma tenda. Seu filho, Salomão, construiu depois um templo de pedra e madeira. Quando a obra ficou pronta, a arca e os demais utensílios sagrados foram levados para o novo edifício.[7]
O Templo de Salomão manteve a divisão entre um espaço externo e um recinto interior. A arca foi colocada no Santo dos Santos, sob as asas de dois grandes querubins. As festas, os sacrifícios e as peregrinações passaram a ser celebrados no templo.[13]
A abertura do templo não encerrou de imediato o culto nos santuários locais. O Livro dos Reis menciona repetidamente oferendas feitas nos bamot. Algumas eram dirigidas ao Deus de Israel. Outras pertenciam ao culto de outras divindades.[3]
O Deuteronômio determina que os sacrifícios sejam levados ao lugar escolhido por Deus. No fim do século VII a.C., o rei Josias procurou aplicar essa regra. Depois que um livro da lei foi encontrado no templo, ele retirou objetos usados no culto de outras divindades, fechou santuários locais e concentrou os sacrifícios em Jerusalém.[14][15]
Não se sabe até onde essa reforma alcançou fora da capital. Altares e pequenos santuários encontrados em cidades como Arade, Berseba e Laquis mostram que o culto local permaneceu por muito tempo em Judá. Alguns desses locais já haviam sido fechados antes do reinado de Josias. Ainda assim, o relato de sua reforma tornou Jerusalém o centro do culto na narrativa bíblica.[16]
O templo de Salomão foi destruído pelos babilônios em 586 a.C. Durante o domínio persa, um novo templo foi construído em Jerusalém. Séculos mais tarde, ele foi ampliado no reinado de Herodes, o Grande. Esse Segundo Templo foi destruído pelo exército romano no ano 70.[17][18]
Santuário celestial na Epístola aos Hebreus

Na Epístola aos Hebreus, o santuário celestial é o lugar da presença de Deus onde Jesus Cristo exerce seu sacerdócio. No capítulo 8, ele aparece sentado à direita do trono divino e recebe o título de ministro do "verdadeiro tabernáculo", erguido por Deus e não por mãos humanas.[19] Entre Hebreus 8:1 e 10:18, o autor explica esse sacerdócio a partir do tabernáculo israelita, dos sacrifícios e do Dia da Expiação.[20]
O sacerdócio de Jesus não vem da linhagem de Aarão nem da tribo de Levi. Hebreus recorre ao Salmo 110 e o apresenta como sacerdote "segundo a ordem de Melquisedeque". Cristo aparece, ao mesmo tempo, como o rei sentado à direita de Deus e como o sacerdote que intercede pelo povo.[21][22][23]
O tabernáculo terrestre e o celeste
Essa explicação parte das instruções dadas a Moisés para construir o tabernáculo. Hebreus 8:5 lembra que ele recebeu no monte um modelo que deveria seguir. O culto realizado na terra é chamado de "figura e sombra das coisas celestes". A passagem se refere principalmente à tenda móvel usada pelos israelitas no deserto, antes da construção dos templos de Jerusalém.[19][20]
Hebreus 9 apresenta a tenda dividida em dois espaços. No primeiro ficavam o candelabro e a mesa dos pães. Atrás do segundo véu estava o Santo dos Santos, onde o sumo sacerdote entrava uma vez por ano. A cerimônia fazia parte do Dia da Expiação, narrado em Levítico 16. O sacerdote levava ao recinto interior o sangue oferecido em sacrifício e realizava a purificação ritual do santuário e do povo.[24][20]
A carta usa essa cerimônia para explicar a morte, a ressurreição e a exaltação de Jesus. Cristo entra uma única vez no santuário por meio de uma tenda "maior e mais perfeita", que não foi feita por mãos humanas. Ele não oferece o sangue de animais, mas a própria vida. O ritual que antes se repetia todos os anos dá lugar a um sacrifício realizado "uma vez por todas".[24][20]
Em Hebreus 9:24, Cristo entra no próprio céu e comparece diante de Deus em favor da humanidade. Seu sacrifício não precisa ser repetido. Hebreus 10 afirma que, depois de oferecê-lo, Cristo se sentou à direita de Deus.[24][25]
Intercessão e acesso a Deus
O santuário celestial também é apresentado como o lugar onde Cristo intercede pela humanidade. Hebreus 7:25 afirma que ele vive para interceder por aqueles que se aproximam de Deus. Em Hebreus 4:14-16, os fiéis são convidados a chegar com confiança ao trono da graça, pois seu sumo sacerdote conhece as fraquezas humanas.[26][27]
A entrada de Cristo no santuário abre um caminho para os próprios fiéis. Hebreus 10:19-22 fala de um "novo e vivo caminho" e convida a comunidade a se aproximar de Deus com fé e coração sincero. A passagem não fala de uma viagem física ao céu. Ela se refere ao acesso a Deus concedido por meio de Cristo e vivido na oração, no culto e na vida comunitária.[25][28]
O convite para que os leitores se aproximem de Deus reaparece em diferentes trechos da carta. Hebreus se dirige a uma comunidade cansada e sujeita ao desânimo, procurando encorajá-la a permanecer firme. A imagem do santuário celestial envolve também os fiéis, acolhidos diante de Deus por meio do sacerdócio de Cristo.[29]
Interpretação
Hebreus não oferece uma descrição detalhada do santuário celestial como faz ao falar da tenda terrestre. O texto usa expressões como "verdadeiro tabernáculo", "coisas celestes", "céu" e "presença de Deus".
Uma leitura entende o santuário como uma realidade celestial onde Cristo exerce seu sacerdócio. Outra entende a linguagem do tabernáculo como uma comparação usada para explicar sua entrada na presença de Deus. Também há diferentes interpretações sobre a relação entre a morte na cruz, a oferta sacerdotal e a entrada de Cristo no céu.[30][31]
Leituras confessionais
Na doutrina da Igreja Católica, Hebreus 9:24 é relacionado à ascensão de Cristo e à sua intercessão no céu. O Catecismo da Igreja Católica ensina que Cristo entrou no céu em favor da humanidade, permanece como sacerdote da Nova Aliança e abre aos seres humanos o caminho para a comunhão com Deus.[32]
Na Igreja Adventista do Sétimo Dia, o santuário celestial recebeu uma interpretação própria. A crença fundamental nº 24 ensina que Cristo iniciou seu ministério de intercessão após a ascensão. A mesma doutrina afirma que, em 1844, ele entrou em uma segunda etapa desse ministério, comparada à entrada do sumo sacerdote no Santo dos Santos durante o Dia da Expiação. Essa etapa é chamada de juízo investigativo e é interpretada a partir de Hebreus, Levítico 16 e Daniel 8.[33]
Santuário na Igreja Católica

Definição canônica
Na Igreja Católica, santuário é uma igreja ou outro lugar sagrado que recebe peregrinos movidos pela fé e pela devoção. Para receber esse título, o local precisa ser reconhecido pela autoridade eclesiástica responsável pela região.[34] Uma igreja não se torna santuário apenas por ser antiga, grande ou frequentada por peregrinos. O reconhecimento também não depende do título de basílica menor.[34]
Um santuário pode ser diocesano, nacional ou internacional. O reconhecimento diocesano cabe ao ordinário local, geralmente o bispo da diocese. Um santuário nacional precisa da aprovação da conferência episcopal, enquanto um santuário internacional depende da Santa Sé. Cada um possui estatutos que definem sua finalidade, as responsabilidades do reitor e as regras para a administração de seus bens. A autoridade responsável também pode conceder privilégios próprios, levando em conta a presença dos peregrinos e suas necessidades pastorais.[34]
Peregrinação e culto
A peregrinação é o que distingue um santuário de outras igrejas e lugares sagrados. No Brasil, essa jornada costuma ser chamada de romaria, e quem a realiza recebe o nome de romeiro. A viagem pode estar ligada ao cumprimento de uma promessa, a um pedido, ao agradecimento por uma graça ou à participação na festa de um santo ou título mariano.[35]
Desde os primeiros séculos do cristianismo, peregrinos viajam a lugares relacionados à vida de Jesus Cristo e aos túmulos dos apóstolos. Com o passar dos séculos, também surgiram destinos dedicados a Maria, aos santos e aos beatos.[36] Para os peregrinos, a jornada pode ser um tempo de oração, recolhimento e renovação da fé. Ao chegar ao santuário, eles encontram um lugar onde podem rezar e participar das celebrações junto de outros fiéis.[37]
Os santuários devem oferecer celebrações litúrgicas, pregação, Eucaristia, confissão e formas de piedade popular aprovadas pela Igreja.[34] Também podem manter atividades de catequese e receber pessoas que precisam de atenção especial, como doentes, pessoas com deficiência, migrantes, refugiados e famílias em situação de pobreza.[36]
É comum que peregrinos deixem ex-votos e outros objetos em agradecimento por graças pedidas ou recebidas. Esses objetos podem ser fotografias, pequenas esculturas, pinturas, cartas ou peças que lembram uma doença, um acidente ou outra experiência vivida pelo devoto. O direito canônico determina que os ex-votos de valor artístico e os demais testemunhos de fé sejam guardados com segurança e possam ser vistos pelos fiéis.[34]
No Brasil
O Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Aparecida, recebe peregrinos de todas as regiões do Brasil. A devoção começou em 1717, quando os pescadores João Alves, Filipe Pedroso e Domingos Garcia encontraram no rio Paraíba do Sul o corpo de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Pouco depois, encontraram também sua cabeça. A narrativa religiosa conta que, após o encontro da imagem, os pescadores conseguiram uma pesca abundante.[38]
Durante algum tempo, a imagem ficou na casa de Filipe Pedroso, onde vizinhos se reuniam para rezar. Ela foi levada depois para um pequeno oratório e, mais tarde, para uma capela aberta aos devotos.[38] O aumento das peregrinações levou à construção de igrejas maiores para receber os fiéis.
As obras da atual basílica começaram em 1955. O papa João Paulo II consagrou o templo em 1980, durante sua primeira visita ao Brasil. As celebrações passaram definitivamente para o novo edifício em 1982.[39][40] Em 2025, o Santuário Nacional recebeu cerca de 10,5 milhões de peregrinos.[41]
Santuário ecológico
No vocabulário da ecologia, o termo santuário pode designar uma área protegida destinada à conservação de uma ou mais espécies e dos ambientes de que elas dependem. A palavra costuma trazer a ideia de abrigo contra a caça, a captura e a destruição do habitat, mas não corresponde a um único modelo de proteção.[42][43]
O grau de intervenção humana depende das necessidades de cada área. Alguns locais são mantidos com pouca interferência direta. Outros exigem a recuperação da vegetação, o controle de espécies invasoras ou a proteção de áreas de alimentação e reprodução. Em certos sistemas de classificação, a expressão inglesa wildlife sanctuary é aplicada a áreas nas quais espécies, comunidades biológicas ou elementos naturais precisam de manejo específico para permanecer no ambiente. Nessa classificação, a caça, a morte e a captura de animais são proibidas.[44]
No Brasil, santuário ecológico não é uma das categorias previstas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. O sistema reúne cinco categorias de proteção integral e sete de uso sustentável. A estação ecológica é voltada à preservação da natureza e à pesquisa científica. A reserva biológica protege integralmente a biota, admitindo ações de recuperação e manejo quando necessárias. O refúgio de vida silvestre protege ambientes que asseguram a existência ou a reprodução da flora e da fauna residente ou migratória. Áreas de proteção ambiental e reservas particulares do patrimônio natural também podem resguardar habitats, embora tenham regras próprias de ocupação, visitação e uso dos recursos.[45]
A expressão pode fazer parte do nome de uma área sem definir seu enquadramento jurídico. A RPPN Santuário Ecológico Olhos D'Água, no Cerrado de Goiás, é uma reserva particular do patrimônio natural criada em 2015.[46] O Santuário Ecológico da Pedra Branca, em Caldas, Minas Gerais, tem a categoria legal de área de proteção ambiental.[47]
A simples adoção do nome santuário não cria regras próprias sobre caça ou captura. A legislação brasileira proíbe a utilização, a perseguição, a destruição, a caça e a apanha da fauna silvestre, ressalvadas as permissões e licenças previstas em lei. Nas unidades de conservação, também se aplicam as restrições da categoria, do ato de criação e do plano de manejo.[48][45]
A expressão não deve ser confundida com santuário de animais. Esse nome também é usado para instalações que recebem animais resgatados e lhes oferecem abrigo permanente em cativeiro. Nesse caso, o trabalho concentra-se no cuidado dos animais acolhidos, e não na proteção jurídica de uma área natural.[49]
Ver também
Referências
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Ligações externas
- Falcão, Manuel Franco. «Enciclopédia Católica Popular». Portugal: Paulinas Editora. Consultado em 9 de novembro de 2007. Cópia arquivada em 23 de março de 2019

